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quinta-feira, 9 de abril de 2015

DA ARTE, DA PINTURA, DE GIOTTO E DA CAPELA DOS SCROVEGNI


                                                     Capela dos Scrovegni, Pádua

De Giotto, gostaria de sublinhar a têmpera audaz e emotiva com que inunda as suas obras. Nascido em Vespignano, Florença (1276?),foi discípulo de Giovanni Cimabué, grande pintor italiano do século XIII. Em Pádua, Giotto di Bondonne brilhou pelos esquemas compositivos, pelos temas que escolheu pintar e pela emotividade com que dotou as cenas que concebeu.
Há algum tempo, enquanto esperava a hora da visita guiada à Capela dos Scrovegni, dedicada a Santa Maria della Carità, dei por mim a imaginar Giotto em calmo passeio pelos jardins perfumados daquela Arena, em passo altivo e inspirado, a fervilhar de ideias para a nova composição das 38 cenas evangélicas que o haviam convidado a pintar na Capela Scrovegni. Não consegui desenhar-lhe as feições, mas pensei-o elegante e afável, determinado e empenhado, humanista e criativo.
De todas as obras de Giotto, esta é , sem dúvida, uma obra-prima , ainda passível de ser apreciada devido ao seu bom estado de conservação.
Partindo da maneira grec, mas afastando-se dela depois, como florentino, herdou o sentido da escala monumental de Cimabue, o que vai fazer dele, sobretudo, um pintor de frescos, mais que de painéis.
A Capela da Arena, ou dos Scrovegni, foi pintada a fresco (cores de água aplicadas sobre a parede rebocada de fresco) nos anos de 1305 e 1306, onde Giotto sujeita o esquema compositivo a uma simplificação racional. O efeito é poderoso e avassalador, de tal forma nos faz sentir tão próximos dos acontecimentos retratados.
Isto é engenhosamente conseguido porque Giotto coloca a cena inteira em primeiro plano, de modo que nos coloca ao mesmo nível das figuras. A audácia de Giotto também se verifica aqui, pelo pioneirismo da escolha, que vai marcar a época e afirmá-lo como precursor do Renascimento. Ele consegue conquistar e absorver a realidade, em espaços absolutamente cenográficos que antecipam a perfeição matemática da perspetiva renascentista. As personagens que representa, dotadas já de uma inteira realidade tridimensional, lembram esculturas de vulto redondo. É assim, desta forma, que Giotto é louvado pelos seus contemporâneos como igual ou superior aos maiores pintores Antigos. É ele o introdutor do espaço tridimensional na pintura europeia, é ele que proclama a pintura como superior à escultura.
O meu primeiro olhar, assim que entrei na Capela, foi inundado de um azul adorável, infinito, profundo. Observei a perfeita mestria de Giotto no desenho, evidenciada naqueles frescos, ainda atordoada pelo azul profundo e celeste a irradiar de praticamente todas as cenas e que nos atrai, de forma incomensurável. A guia, excelente, explicava cada uma das cenas num italiano divino, mas que ecoava apenas aos meus ouvidos. Dei por mim, de quando em vez, a ignorá-la e a privilegiar apenas o sentido da visão, em absoluto êxtase.
         Não poderia, hoje, falar de todos os 38 frescos que ali se podem observar. Escolhi apenas dois.

GIOTTO, A Adoração dos Magos, 1305-06, Fresco, Capela da Arena ou dos Scrovegni, Pádua

Neste fresco, ”A adoração dos Magos”, marcado pela suavidade dos rostos e dos gestos, numa adoração ao Menino, ao Salvador, momento de júbilo e absoluta felicidade e esperança para o homem. Percebe-se a rejeição do fundo dourado bizantino e em sua substituição, o azul profundo. O jogo de cores, as figuras recortadas umas sobre as outras, dão a ilusão da profundidade.
Outra característica bem visível e espantosa à época é a identificação da aparência da figura dos santos como seres humanos de aparência comum, transpondo para a arte o humanismo que São Francisco de Assis imprimiu à religião no início do séc. XIII.
A alegria deste momento é espelhada não só nos rostos, mas também nas vestes e suas cores celestiais, escolhidas propositadamente para esta cena.

GIOTTO, A Lamentação, 1305-06,Fresco, Capela da Arena ou dos Scrovegni, Pádua

Já aqui, em “A Lamentação”, há uma intensificação da expressividade proporcional à dor do momento retratado. Uma explosão de sensibilidades brota de cada uma das figuras retratadas, prostradas sobre Cristo morto.
O grupo central, formado por Maria e o Filho morto, num abraço angustiante de despedida é acompanhado por Madalena, aos pés de Jesus, em silêncio gritante, magoado e sofrido.
A Natureza, ela própria, está moribunda. Uma árvore, acima da ladeira pobre e consternada, apresenta-se despida, nua e isolada. A paisagem envolvente é pobre, triste, de luto já.
A tensão e o drama agigantam-se com o grupo de anjos em pranto, representados no cimo da cena, em movimento histérico e aflitivo, impotentes perante a tragédia, em contraste com a imobilidade do grupo que olha Jesus.
O ambiente carregado e sombrio desperta, sem dúvida, a nossa compaixão. E estes dois frescos que escolhi lembram-nos que assim é a Vida: Nascimento, Morte, Alegria, Dor.
E assim vos deixo hoje. Sugiro que visitem Pádua e a sua Capela Scrovegni. Quando quiserem. Mas a época da Páscoa é com toda a certeza a ideal. É Primavera e o ar inebria de perfumes extraordinários. Pela cidade, reina a calma e a elegância. E a arte espreita, em varandas, em janelas, em beirais, em pequenas igrejas deliciosas, em grandes igrejas majestosas, em cafés ricos de História... sei lá eu. Só sei que vou voltar. Um dia.
Rosa Maria Fonseca

2 comentários:

  1. Eu fico com vontade de ir lá. Li,em miúda, a história de Giotto, que sempre me fascinou.
    Obrigada pela partilha.

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    1. Então, não perca tempo. Vá, e deixe-se fascinar pela cidade de Padova.

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