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segunda-feira, 16 de março de 2015

AO SOM DE... "CLANDESTINO", de Manu Chao



De quando em vez, os noticiários trazem o drama de mais um grupo de emigrantes do sul que desembarcam clandestinamente em Itália ou em Espanha, arriscando a vida num bote qualquer, em busca do sonho duma vida melhor. Nesses momentos o meu coração escuta a voz do francês Manu Chao e da sua música mais emblemática, “Clandestino”. 
Aqueles sedutores acordes afro-americanos consomem-me os sentidos e a alma, numa letra que quase sei de cor e me traz à memória toda a injustiça do mundo, vivida há séculos por milhões de pessoas. 
A grande força desta canção está na sua letra. Fortíssima, mordaz e irónica, ela convida-nos a refletir sobre a inversão de valores em que assentamos a sociedade em que vivemos.


Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Para burlar la ley
Perdido en el corazón
De la grande babylon
Me dicen el clandestino
Por no llevar papel

É arrepiante pensar que um papel pode definir a condição dum ser humano. É assustador pensar que essa situação se prolonga indefinidamente no tempo como uma condenação.
Quando Manu Chao declara, num momento de grande inspiração poética,


“Mi vida la dejé
Entre ceuta y gibraltar
Soy una raya en el mar
Fantasma en la ciudad
Mi vida va prohibida
Dice la autoridade”


cada um de nós percebe um pouco a angústia pessoal que vive um emigrante clandestino. A sensação de não pertencer a lado nenhum, o sentimento de rejeição, de desprezo, de peça com defeito, que é olhada de lado e com frieza. 
Mi vida va proibida” é mais que um veredito legalista e desumano, é o sentimento duma humanidade de segunda, onde não cabe a noção de dignidade.
A crítica ao sistema hipócrita e iníquo em que vivemos acentua-se num final cheia de ácida ironia. 

“Mano negra clandestina
Peruano clandestino
Africano clandestino
Marihuana ilegal”

As pessoas são clandestinas e por isso devem ser despejadas, a droga é apenas ilegal, por isso pode permanecer, desde que pague uma coima qualquer. 
O francês, que correu o mundo e olhou a profundidade triste de muitos olhos desencantados, escreveu esta canção há mais de dezassete anos. Legou-no-la com o doce sabor da música afro-americana, onde o ritmo descontraído e relaxante ameniza a mágoa, mas não a esconde. 
Gostava de ouvir novamente “clandestino” sem ter vontade de chorar, sem ter rostos tristes na memória, mas esse é tão-somente um desejo clandestino.

Gabriel Vilas Boas

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