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segunda-feira, 11 de abril de 2016

IMPOTÊNCIA FACE AO GENOCÍDIO NO RUANDA - 1994

          
 «Onze de abril, o quinto dia da carnificina. Era óbvio que o Conselho de Segurança e o gabinete do Secretário-Geral não sabiam o que fazer. Eu continuava a receber pedidos para lhes prestar mais informações… Que mais poderia eu dizer-lhes que não tivesse já descrito com pormenores terríficos? O odor da morte ao sol escaldante; as moscas, vermes, ratazanas e cães aos magotes que se banqueteavam com os mortos. […]

Dois mil ruandeses haviam perdido a vida nesse dia como consequência direta da retirada dos belgas. Tinham-se refugiado depois de 7 de abril no acampamento belga montado na escola Dom Bosco, acompanhados por alguns expatriados. Nessa manhã, tropas francesas tinham vindo à escola para evacuar os estrangeiros, e depois de partirem, o comandante da companhia, o capitão Lemaire, chamou o tenente-coronel Dewez, o seu braço-direito, para pedir autorização para que a sua companhia se reunisse no aeroporto. Não se referiu aos dois mil ruandeses que as suas tropas protegiam na escola. Quando Dewez aprovou a mudança e as tropas saíram, os interhamwe entraram e mataram quase todos os ruandeses.

Assinalo doze de abril como o dia em que o mundo transitou do desinteresse pelo Ruanda para o abandono dos ruandeses ao seu destino. A evacuação rápida dos estrangeiros foi o sinal para os genocidas de que podiam avançar para ao apocalipse. Nessa noite não preguei olho devido ao sentimento de culpa.» Roméo Dallaire, General de Divisão, Shake Hands With The Devil, 2003

Dellaire comandou as forças de paz das Nações Unidas para o Ruanda entre 1993 e 1994, mas foi impotente para evitar o genocídio levado a cabo pelos extremistas hútus contra a maioria tutsi. No princípio do verão de 1994, forças apoiadas pelo governo chacinaram 800 mil pessoas. Estes massacres serviram de pretexto para que, em 6 de abril, o avião do presidente hútu do Ruanda fosse abatido a tiro. A Frente Patriótica Ruandesa, liderada pelos tutsis revoltosos, acabou por derrubar o regime, pondo fim ao genocídio – mas semeando represálias e dando origem a que uma onde de refugiados atravessasse as fronteiras do Ruanda.

Entretanto passaram dez anos e o problema não se resolveu de todo. O mundo vai acumulando verdadeiros poços negros de desumanidade e crueldade. Ruanda, Líbia, Síria, Egito… nada parece atingir os corações de pedra que entoam canções de solidariedade ao mesmo tempo que fecham fronteiras aos refugiados e deixam milhões de pessoas desamparadas à mercê de criminosos. As mortes em África e na Ásia não têm, para os media ocidentais, o mesmo valor daquelas que ocorrem na europa ou na américa. Olhamos para aquela gente com uma subespécie humana. Os africanos abandonados sentem-no perfeitamente! Encurralados no desespero são presas fáceis para qualquer Daesh.

Gabriel Vilas Boas 

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