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terça-feira, 3 de novembro de 2015

A FAMÍLIA BÉLIER


Pode parecer um pouco anacrónico falar de um filme de 2014, no final de 2015, mas a verdade é que só agora o vi e ainda foi em cinema. Apesar de ter estreado, em Portugal, no final de Agosto, lá vai resistindo, o que atesta a sua qualidade.
Catalogado como comédia, o melhor filme francês do ano passado, é muito mais um drama que uma comédia. O que acho é que é um drama pessoal e familiar, com muito bom humor.

A história é simples, mas comove qualquer espetador! A família Bélier era uma família especial: vivia no campo, era genuinamente muito unida e todos os elementos eram surdos, com exceção da filha adolescente, Paula (interpretada por Louane Emera), que servia simultaneamente de porta-voz e intérprete da família. Sem nunca se envergonhar da sua família nem se furtar ao trabalho do campo, Paula vai descobrir um surpreendente talento para a música quando se inscreve no coro da escola apenas para seguir uma paixão de adolescente.

Quando o professor de música descobre o enorme talento de Paula, propõe-lhe que trabalhe arduamente para entrar num concurso em Paris, desafio aceite por Paula. Ao mesmo tempo que a paixão por Gabriel cresce por entre arrufos, o talento da protagonista afirma-se e urge tomar a decisão de comunicar aos pais o seu desejo de ir a Paris em busca do seu sonho.
Perante a difícil decisão de se manter perto da família, que dela precisa, ou partir em busca do seu sonho, Paula sofre, vacila e desiste de si até que o seu pai intui que o coração da filha queria voar. O final é um happy end que todos desejam, comovedor sem nunca ser lamechas. E esta é uma vitória do realizador Eric Lartigau.

Como o consegue? Tratando com simplicidade e frontalidade as diversas temáticas que o filme aflora. A deficiência da família Bélier é vista sem piedade, paternalismo ou falso moralismo, mas com surpreendente humor. O ambiente rural, em que a família vive, é tratado com naturalismo, sem a clássica catalogação de “atrasado” ou “monótono”. O realismo também está presente nos diálogos dos jovens, na escola, onde a gíria dos estudantes e as falas curtas dão um dimensão correta e atual do meio.
Claro que toda esta segurança na direção se apoia no talento de dois pesos pesados do cinema francês e belga, respetivamente Karin Viard e François Demiens, que interpretam os pais surdos de Paula. O estilo exagerado de Viard articula-se bem com o estilo mais contido de Demiens, assegurando os dois uma representação equilibrada, humorada e que jamais desrespeita os surdos.
O calcanhar de Aquiles deste filme está no argumento, que se apoia em três vetores: a descoberta de Paula do seu talento para a música, a descoberta amorosa da protagonista, a audaz ideia do seu pai em se tornar presente da câmara local. Talvez a ideia fosse mostrar que todos os sonhos se podem concretizar, por mais idealistas que possam parecer. No entanto, o caso amoroso de Paula e as pretensões políticas do pai desta são abandonados pelo realizador que decide concentrar o filme no sonho de Paula em ser cantora. O argumentista não soube guiar com igual fulgor e classe cada uma das histórias que foram feitas para se fundir.
Apesar desta fraqueza, este é um filme muito bem feito, que traz prazer ao espectador e nos lembra a necessidade de deixar voar os nossos filhos quando as suas asas se abrem!
Gabriel Vilas Boas


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