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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

PINTURA - REMBRANDT

Da Arte, da Pintura, da Criatividade, do Gosto

Um café foi o mote para desvendar o projeto. De Arte, diziam-me. Um simples café, perfumado e quente, foi testemunha de um diálogo brando e prazeiroso, pois falavam-me de algo muito, muito delicado. Caso de um grande negócio se tratasse, a mesa seria farta e demorada, à boa maneira portuguesa. Mas não. O projeto era simples, com um nome apetitoso. Sete Pecados (I)mortais. E, à medida que mo desfiavam, eu e o meu café, observámos em silêncio curioso uns olhos bonitos que cintilavam de luz, num rosto iluminado pelo entusiasmo do pormenor que se desnudava, em pausa cadenciada, como se desabrochasse ali mesmo, naquele instante, un tout vrai premier amour….(não é assim que olhamos sempre para os nossos pequenos grandes projetos?).
“Falas do que quiseres, como quiseres. Só tens de escolher o tema.” Seria pecado mortal recusar? Talvez. Pelo sim, pelo não, dei por mim a aceitar a amabilidade do convite. Foi necessário refletir, embora a escolha não tenha sido difícil, porque a Arte e a Pintura sempre me atraíram desde cedo. E será sobre Pintura que vos falarei, num agradável (espero eu) exercício de partilha com quem me quiser ler. Pois não é assim? Um blogue precisa de leitores e, neste caso concreto, de leitores que nutram um enamoramento permanente e incondicional pela Arte.

                                                      Rembrandt, Artista no Seu Estúdio, óleo sobre tela,1629
Boston’s Museum of Fine Art
Estranham a escolha desta obra para um primeiro post? Pintada em 1629, Artista no Seu Estúdio é, para mim, um hino à obra de arte. Nesta época, a pintura de plein air ainda não era moda e a Escola de Barbizon ainda estava longe. Esta masterpiece de Rembrandt (pelo menos, para mim) enfatiza a Obra em detrimento do Artista. Este, deleitado, observa-a, numa penumbra discreta, quase não acreditando na luz que dela irradia. A Obra-Prima é fruto da sua misteriosa capacidade de inventar, e por isso é sempre única. Nasce da especial aptidão do Artista, mas sobretudo da sua criatividade, da sua imaginação que não conhece fronteiras. Espelha personalidade, destila subjetividade e é, manifestamente, reflexo do seu gosto próprio e peculiar. Kandinsky afirmou, na sua obra ”Do Espiritual na Arte”, que toda a obra de Arte é filha do seu Tempo. Sim, a Pintura também não fica imune à máxima de Wassily. Ela desvenda o Tempo e a História e é uma fonte de conhecimento inigualável do passado.
Mas também é verdade que nenhum homem é uma ilha e que, por isso, se deixa influenciar pelo mundo ao seu redor. De destacar a forte marca de Caravaggio, com o seu chiaroescuro e de Rubens, pintor da cor, a quem Rembrandt foi buscar igualmente o amor pelas cenas bíblicas; mas o mundo conhecido como o Sentimento também marca qualquer artista. Afetos, sensações, amor… tudo isto está na origem de qualquer obra de arte. Sem ele, o Sentimento, que arte teríamos?
Esta pintura seduz pelo mistério que a envolve. De um lado, o Artista. Do outro, a Obra-Prima. O que desenhou o autor na tela que se agiganta perante ele? Que raridade estará ali representada? Que jogos de luz e de cor a inundam? E que movimentos de alma? Angústia, medo, amor, volúpia? Posso imaginar a Natureza ali retratada em toda a sua força e esplendor, posso pensar que foi mais forte que ele o amor pela paisagem verdejante de um bosque e que, por isso, a retratou ali, imponente. O bosque foi a inspiração, mas o Artista, apaixonado, imprime-lhe caráter, personalidade…ao bosque, ao arbusto, à flor, à árvore… e a imaginação corre veloz a dar forma única à composição, à cor caprichosa, como uma carícia. Será, porventura, Saskia, o amor de sua vida, cujos traços usou para dar vida às mulheres dos seus quadros? Ou Hendrickje, o novo amor a ocupar o seu coração? E que não se cansou de representar? Assim, se o Artista pretende ou prefere inspirar-se na Natureza, numa figura humana ou num arbusto, tem de dar atenção a uma cor fria ou caprichosa? A um traço-suave ou determinado? A uma técnica-óleo ou têmpera? Tem de escolher a luz, diáfana, viva ou orgulhosa, e por vezes, aliás, muitas vezes, tenebrosa. E eis que a Arte se define também como um gosto, pessoal, único e intransmissível. Como uma escolha.
Aprecio Rembrandt. Porque se integra no movimento barroco? Sim.
Porque é na paisagem, tão cara aos Holandeses, que Rembrandt se transforma? Sim.
Porque a escola de Rembrandt desenvolve o gosto pela fé, pela sensualidade, pela aventura? Também.
Até à próxima!

Rosa Maria Alves da Fonseca

6 comentários:

  1. Gosto destas abordagens à arte transbordantes de emoção. Aliás, a arte é indissossiável da emoção!
    Post plenamente conseguido, Minha Amiga! Parabéns pela tua estreia, aqui nos Sete Pecados!

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  2. Gosto desta Obra-Prima de Rembrandt repleta de emoção. Esta pintura seduz pelo seu mistério... desenvolve o gosto pela fé, pela sensualidade, pela aventura e Amor!!! Parabéns.

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    1. Muito obrigado pelas palavras simpáticas e pelo contributo. Se quiser assinar o comentário, mas não conseguir, aconselho a colocar o nome no URL ou no final do comentário. :)

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  3. Obrigada, Anabela, Minha Amiga do coração.

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  4. Que calinada! Ainda bem que voltei aqui. Indissociável, claro!

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