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quinta-feira, 8 de maio de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE AURÉLIA DE SOUZA

Vista da Quinta da China e do rio Douro
A formosa Quinta da China, rica propriedade que no séc. XVIII foi a moradia nobre dos Padres Gracianos de Santo Agostinho de Belmonte, foi o local onde viveu durante praticamente toda a sua vida Aurélia de Souza, a quarta filha de António Martins de Souza e Olinda Perez, emigrantes no Brasil e no Chile, onde fizeram fortuna.
Aos pés daquela quinta opulenta, prostravam-se jardins perfumados de segredos, de onde emergia, altaneira, a Casa, e de onde se avistava o serpentear do Douro, a desenhar a sua curva carregada de sensualidade ali para os lados do Freixo, ora brando, ora revolto, mas sempre carregado de vontades por vezes indizíveis. Estes serão temas constantes na obra da pintora exímia de que hoje vos falo.

Janela do quarto de Aurélia de Souza

Da janela do seu quarto, o rio e o Areínho preguiçoso iluminavam-se pelo Sol que teimava em pintá-la de luz e de cor. Apenas a trepidação dos comboios, que passavam um pouco acima da quinta, lembravam a civilização e vinham interromper belas sinfonias de melros apaixonados ou quebrar silêncios cúmplices. Sem dúvida, que este oásis fidalgo de calma e beleza a influenciou e marcou com certeza, porque era o local onde se refugiava e isolava, e para onde voltava sempre.
Na sociedade de então, tão bem desenhada por Eça ou Camilo, este vulto das artes do final do séc. XIX, vestiu uma modernidade sem par, que cedo conquistou o público em geral, não devido ao seu encanto pessoal, mas sim à qualidade do trabalho que desenvolveu, como cedo reconheceu o seu mestre particular, Caetano Moreira da Costa Lima, quando afirmou que nada mais tinha a ensinar-lhe. Assim, tornou-se aluna da Academia Portuense de Belas-Artes, entre 1893 e 1898,onde cursou Desenho Histórico, que terminou com dezasseis valores, tal como Acácio Lino, seu colega e ilustre amarantino. Seguiu-se Pintura Histórica, lecionado por Marques de Oliveira, embora não o tenha concluído, pois em 1898 decidiu rumar até Paris, como de resto era usual então. Já na cidade-luz, frequentou os cursos ministrados por Jean Paul Laurens e Benjamin Constant, onde se afirma no auto-retrato e se destaca mais tarde no Porto, conjuntamente com António Carneiro, este já um “retratista de almas”. Da sua obra, contam-se também paisagens arrebatadoras e misteriosas, quase impressionistas, dóceis flores, tão apreciadas pela burguesia portuense e quotidianos, sempre muito emocionais e carregados de significação, a chamar a atenção até para causas sociais. De paleta cromática sóbria, mas vigorosa, Aurélia seduz numa pincelada por vezes aclarada por rosas a raiar o dourado, por negrumes que invadem interiores, numa quase musicalidade A sua obra, imbuída de um naturalismo muito particular, assume contornos realistas e até impressionistas, fruto dos contactos com o exterior e das suas viagens.
Como de costume, deixo-vos com uma seleção de algumas das obras que mais me encantam, pelo mistério que as envolve, pela sua beleza pictórica, pela paleta cromática de uma suavidade sem par, pelo prazer que se me oferece quando as olho.

Aurélia de Souza, Paisagem (Rio Douro),óleo s/tela, não datado, Coleção Fundação casa de Bragança
Nesta paisagem do Rio Douro, vista a partir da Quinta da China, adquirida pelo nosso querido rei D. Carlos, também ele um artista, Aurélia de Souza lembra Monet numa impressão de luz difusa a convidar à reflexão. Aqui, ultrapassa-se o naturalismo de forma autónoma e decidida, esquece-se Fontainebleau e a Escola de Barbizon e temos vanguarda.

De todos os retratos e auto - retratos, aprecio sobretudo este óleo sobre tela, pertencente à Coleção Maria Helena Caiado de Souza. Gosto dos tons e do contraste bem conseguido pelo negro ostensivo do laço todo-poderoso que envolve o rosto suave de Aurélia. Gosto do ar inacabado da obra, como a dizer “tudo ainda é possível…”; gosto da fragilidade do olhar, onde quem sabe, podemos adivinhar “… nos olhos esse véu muito doce da falta de amor.”, como afirmou Marguerite Duras um dia, na sua obra” A Vida Material”.

Auto-retrato. c.1897. Óleo s/ tela 

Admiro muito Aurélia de Souza e a forma como ela pintou o Porto e o seu rio, de alma e coração. Quando visito a Casa, o que faço amiúde, a primeira coisa que se me dá é perder-me na paisagem avassaladora do rio que me deslumbra, sentir o seu cheiro e o perfume dos jardins centenários, adivinhar que planta, que árvore terá sido tocada por ela. E naquela natureza divina, porque sem dúvida abençoada por Deus, imaginar uma nova tela, cenográfica, em fusão de flores, paisagem, retrato…como a pintaria hoje?

Rosa Maria Alves da Fonseca 

3 comentários:

  1. BELÍSSIMO TEXTO, SOBRE AURÉLIA DE SOUSA!!! UMA PINTORA PORTUENSE. PINTOU UM ESTILO, NATURALISTA, MUITO PESSOAL.GOSTEI MUITO, DAS OBRAS PELO MISTÉRIO QUE AS ENVOLVE E PELA SUA BELEZA! PARABÉNS.

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  2. Pouco depois do começo, corri até ao fim do blogue...e acertei...Era da Rosa Maria Alves Fonseca! Escusado será dizer que o devorei com entusiasmo!
    Até ao próximo... com ansiedade.

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  3. Muito obrigada à Ana e ao Alberto pela simpatia e pela companhia que nos vão fazendo por aqui. Abraço amigo.

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