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domingo, 28 de janeiro de 2018

NÃO É INEVITÁVEL NEM ACEITÁVEL QUE O MINISTÉRIO PÚBLICO DEIXE MORRER AS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


Esta semana soube-se que uma senhora vítima de violência doméstica morreu, às mãos do seu agressor, 37 dias após ter apresentado queixa. Durante cinco semanas, a magistrada do Ministério Público “deixou andar” burocraticamente o processo até que o azar lhe bateu à porta. Já a vítima teve muito mais do que um azar.
Uma queixa de violência doméstica não é uma queixa qualquer e por isso não pode ser olhada como uma qualquer contraordenação, que qualquer dia se há de resolver. Um magistrado do Ministério Público pode falhar como qualquer outro magistrado, mas não pode falhar por desleixo, por não tomar medidas preventivas, que estão ao seu alcance.

Deixando de lado o facto de nos terem escondido este caso durante dois anos e três meses (noutros processos, ainda em segredo de justiça até telefonam a jornalistas amigos para lhes fornecerem material noticioso que devia permanecer em Segredo de Justiça), não pode passar em claro a tentativa de desculpabilização que o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público fez desta enorme nódoa na atuação do Ministério Público: “É inevitável o Ministério Público falhar nos casos de violência doméstica”, porque, segundo o Dr. António Ventinhas, “falta formação dos magistrados e dos funcionários nesta área” e falta também pessoal. Deu como exemplo, o caso de uma magistrada que tem de tramitar personalizadamente 700 processos de violência doméstica.

Convém lembrar ao Dr. Ventinhas que se fosse realmente inevitável o MP falhar nos casos de violência doméstica já teríamos muitas mais mortes a lamentar, o que felizmente não acontece. E o mesmo se diga no que diz respeito à falta de formação. Se os magistrados e os funcionários judiciais fossem assim tão inaptos no que diz respeito às leis que regem o crime de violência doméstica, a lei não estaria a ter a eficácia que atualmente tem e então não teríamos a avalanche de denúncias que atualmente se verificam. Se há muitas denúncias é porque as vítimas sentem que o sistema as protege.
É verdade que há falta de magistrados e funcionários, que a formação foi diminuta, mas tal não impede nenhum magistrado de tomar as medidas preventivas que estão ao seu alcance. A desculpa do sindicato dos magistrados é fraca e apenas visa desculpar aquilo que é indesculpável –  o Ministério Público falhou porque foi negligente. Agora só lhe resta assumir as culpas e retirar do caso as devidas consequências. A melhor maneira de credibilizar a Lei é ser capaz de a aplicar até a quem tem o poder de julgar.

GAVB

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