Etiquetas

domingo, 16 de abril de 2017

A TRADIÇÃO É UM INVÓLUCRO TÃO BONITO


O número das pessoas que gosta da Páscoa cresce a cada ano que passa. Há sol, uma folga no emprego, uma família para matar saudades, chocolate na boca e umas mini-férias na praia ou no campo para gozar. A hotelaria agradece imenso, embora não deixe nenhuma esmola na igreja.
Alguém se encarrega de cumprir a tradição que sustenta tudo isto. A casa fica aquele brinquinho de que a avó tanto se ufana; a mãe trata de preencher a mesa vistosa e gulosa com pão de ló, vinho do porto, folar e amêndoas e o padre passará com o seu cortejo a compasso.



A tradição é o melhor negócio da era moderna. Além de fashion e moldável, não precisa de ganhar mercado, porque ele está ganho por natureza. Alguns apontamentos de modernidade misturados com fotos vintage, para selar a autenticidade do produto, dão dimensão e grandeza à tradição pascal.
A Páscoa que vivemos é cristã? Sim, já nos tinham falado “disso”.
O que é que significa? Pois… não sabemos bem… mas a nossa avó sabe de certeza e a mãe ainda deve ter umas luzes sobre o assunto. Já quanto ao pai, é melhor não arriscar a pergunta.


A tradição pascal é muito bonita e gostamos muito dela desde que fiquemos pelo invólucro. Queremos lá saber do conteúdo ou da nossa responsabilidade em alimentá-lo. Isso dá imenso trabalho e não é certo que gostássemos assim tanto.
No entanto, é bom lembrar que qualquer tradição, por muito resistente e resiliente que seja, precisa sempre de um pouco de água para se manter viva. Não é sensato deixarmos a avozinha fazer de última bolacha do pacote, porque a sua fé não é comerciável nem dura para sempre. E o tempo acabará por desfazê-la em migalhas.
E sem bolachas não há beleza que salve esse pacote-tradição de se tornar num produto contrafeito made in China.
GAVB


sábado, 15 de abril de 2017

LEGALIZAR AS CLAQUES? NÃO! ILEGALIZÁ-LAS E JÁ.


Quando é que uma claque de futebol é notícia? Quando faz porcaria!
Quase ninguém se lembra de uma coreografia ou de um cântico dos Super Dragões, dos No Name Boys ou da Juve Leo que não contenham um insulto ao adversário ou ao árbitro. Todas as mensagens que passam tresandam a desprezo, ódio, estupidez no seu estado mais puro.
Alguns condescendem e dizem que criam ambiente, outros referem que estão legalizadas.


Legalizar as claques? Não! Ilegalizá-las e rapidamente. Elas são ilegais, imorais e anormais, por natureza. Uma claque legalizada é uma nódoa feia na lei.
Quando legalizamos uma claque de futebol não fazemos mais do que colocar o rótulo de “gente” a um bando de marginais que rouba e vandaliza estações de serviço; que insulta, amedronta e agride adeptos rivais; que vão de cidade em cidade descarregar o seu mau perder nas montras, cafés e restaurantes; que rouba descaradamente e impunemente; que só circula nos estádios dos clubes rivais enjaulados numa caixa de segurança formada pela polícia de intervenção; que usa, abusa e conspurca o nome de cubes centenários com práticas desprezíveis.


Foi isso que alguém legalizou há uns anos e que muitos defendem como solução para os dias de hoje. Eu não quero ver os No Name Boys legalizados! Eu quero alguns deles bem longe do estádio da Luz. O seu benfiquismo é doentio, porque jamais foi desportivismo.
Por que tenho de tolerar que trafiquem droga e não sejam presos? Por que tenho de pagar polícias que os escoltem para não andar à pancada com gangues rivais? Por que tenho de aceitar ou justificar que desejem a morte a jogadores ou adeptos rivais em cânticos ignóbeis?


Tenho, porque há gente que lhes passa a mão no pêlo, que lhes acha graça, que lhes paga as viagens e as portagens, que lhes compra bilhetes que obtiveram de graça, que os defende nas redes sociais e nos jornais, que acha que a sua animalidade congénita é só uma sátira de mau gosto. Não é. È um abuso da nossa liberdade, uma degradação da nossa cidadania.

As claques não fazem falta ao futebol nem ao desporto em geral. Não procurem legalizar os No Name Boys, mas antes ilegalizar as outras claques. Eles não nos permitem ser adeptos saudáveis, antes nos tornam, a cada dia que passa, pessoas profundamente irracionais.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A ESCRAVATURA É UMA CHAGA AINDA POR FECHAR



A 14 de Abril de 1865, Abraham Lincoln acabou assassinado, poucos dias depois de ter conseguido completar a mais bela obra da sua presidência e uma das mais importantes da história da humanidade: o fim da guerra civil americana e a consequente derrota do esclavagismo.
A vitória de Lincoln foi o princípio do fim da escravatura entre os povos civilizados, porque um povo tão poderoso e tão jovem cerrava as grilhetas de uma mentalidade ignóbil.
Lentamente a escravatura foi acabando, mas a História sempre a tratou com pinças. Nunca houve uma clara condenação dos povos que construíram os seus impérios, as suas supremacias, as suas glórias, com base no trabalho escravo. 

Há poucos dias, observei no Museu Nacional de Arte, a exposição Lisboa Cidade Global, onde duas telas gigantes retratam a vida, em Lisboa, em pleno século XVI, época alta dos Descobrimentos. É evidente nos quadros a presença de um homem negro acorrentado, não restando dúvidas que se trata de um escravo. Os guias descreveram o quadro, falaram elogiosamente do período áureo da História de Portugal, mas passaram com absoluta indiferença sobre o facto de esse tempo ter sido construído sob alicerces esclavagistas.

Ora, nem Portugal nem nenhuma das potências europeias da época reconhece isso. Dir-me-ão que é fruto da mentalidade da época. Não acho. Não devemos esquecer que estávamos em pleno Renascimento, onde todas as verdades dogmáticas foram postas em causa. A escravatura não foi, é verdade, mas o problema não foi a limitação psicológica do ser humano…
Talvez por isso esta chaga civilizacional tenha demorado muito tempo a desaparecer da Lei e continue a ser precariamente condenada pela História.
A escravatura precisa de ser discutida, dissecada, apresentada com a crueza com que existiu, às gerações mais novas, porque corremos o sério risco de ela regressar sob o disfarce da xenofobia que cresce em muitos corações. E essa chaga abre um pouco mais a cada dia que passa.

GAVB

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O BEIJO DA MORTE

 

Curiosamente (o talvez não) o Dia Internacional do Beijo coincide, este ano, com a Quinta-Feira Santa, ou seja, o dia em que Judas traiu Jesus Cristo através de um… beijo. Desgraçadamente, o presidente dos EUA escolheu este dia para lançar a sua mais potente bomba não-nuclear sobre o Afeganistão, numa clara e desesperada resposta aos recentes ataques do DAESH na Suécia e na Alemanha. Talvez Trump tenha acabado de dar o beijo da morte à paz mundial.
É difícil prever a amplitude das consequências deste insensato ato americano, mas é fácil perceber que as haverá e que serão más.

Já todos percebemos que o mundo é hoje dominado por loucos perigosos e começo a pensar que já não está nas nossas mãos pará-los. São homens que cresceram no mundo irreal dos videogames, onde o objetivo era aniquilar os inimigos. Hoje somos nós as personagens desse jogo e eles continuam a brincar.

Não há bons e maus, só maus. É certo que uns são mais horríveis que outros, mas só isso, o que acaba por ser apenas um pormenor insignificante.
Como escrevi há dias (“Aprender a viver em Israel”), as bombas, o terror, o medo, a morte, os atentados vieram para ficar. Uma espécie de vírus que contraímos e que nos levará à morte.
Por omissão e por ação nós fomos o Judas da paz de todos. Não há volta a dar: Trump foi eleito, Putin foi eleito, o Conselho de Segurança da ONU não consegue aprovar uma resolução contra a Síria, após um ataque químico, e uma claque de uma equipa futebol deseja a morte aos jogadores do clube rival.
A bomba que caiu hoje no Afeganistão foi apenas um último e fatal beijo de uma morte anunciada. Até agora estivemos de braços cruzados, daqui para a frente eles continuarão… atados.
É certo que daqui a um mês passam cem anos sobre as aparições de Fátima, mas, na verdade, quem ainda acredita em milagres?

GAVB  

quarta-feira, 12 de abril de 2017

POR QUE SÓ DECIDIMOS VIVER QUANDO NOS DIZEM QUE VAMOS MORRER?


Ontem aludi às palavras da extraordinária ex-ministra espanhola da Defesa, Carme Chacón, que empurrava todas as mulheres, que assim o desejam, para a maternidade sem receio de perder uma possível carreira de sucesso. São palavras corajosas, determinadas e sábias, com as quais concordo em absoluto, mas não deixei de me questionar por que as disse Carme apenas no final da sua vida, quando contava os dias para o fim? O mesmo já aconteceu com outras figuras públicas e mediáticas, que também já não estão no mundo dos vivos, como por exemplo o ator António Feio.

Será preciso que nos leiam o nosso epitáfio para reconhecermos o óbvio? O exemplo dos outros não nos chega? Não é ele tão elucidativo? Prognósticos no fim do jogo toda a gente sabe fazer e por isso não deixa de me revoltar que só ponhamos em prática o óbvio, quando o nosso tempo já é absolutamente limitado.
Não que não valha a pena esse assomo final de coragem, consciência e apego à vida, mas pouco mais é do que inútil.
Vale a pena optar por viver em vez de sobreviver, por fazer também a nossa vontade em vez de sempre a dos outros, por dizer e fazer aquilo que achamos certo em vez daquilo que consideramos conveniente, quando ainda somos imortais. 
E esse tempo dura tanto que soará sempre a desculpa cobarde adiarmos a "coisa" para o tempo das doenças invencíveis.

«Aí se eu soubesse!» é uma perfeita mentira. Sabemos desde sempre e temos todos os meios de escrever a «nossa» história, à nossa maneira, que é a única maneira que interessa. O resto são desculpas medrosas de quem não sabe fazer contas ou nunca vislumbrou o imenso prazer que Viver por si. E podemos fazer isso continuando a fazer as mesmas coisas que fazemos, cumprindo compromissos, ganhando o mesmo salário, habitando a mesma minúscula parcela do planeta. A única diferença é que pontapeamos o medo sem precisar de nenhuma doença incurável.
Viveremos no mesmo local, com as mesmas pessoas e as mesmas condições, mas as nossas decisões serão pormenorizadamente diferentes.
A sabedoria não tem de ser um exclusivo dos velhos!

GAVB 

terça-feira, 11 de abril de 2017

"NÃO SACRIFIQUEM A VOSSA MATERNIDADE PELO TRABALHO"


“Se quiserem ser mães, não sacrifiquem a vossa maternidade pelo trabalho. Ninguém vos vai agradecer por isso. O mesmo para os homens. Desfrutem. Podem fazer-se, sem dúvida, ambas as coisas.” Carme Chacón



Carme Chacón morreu há dias, em consequência de uma doença ignóbil que nos tira cada vez mais gente que amamos sem aviso prévio nem negociação. Carme foi muito mais do que a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa de Espanha; ela foi uma mulher ímpar, determinada, corajosa  e com a clara noção do que era essencial, importante ou apenas supérfluo.

Os seus derradeiros pensamentos (que fazem o seu caminho pelas redes socais) servirão de farol a muitas mentes confusas ou indecisas. Chamou-me a atenção este pequeno parágrafo sobre a maternidade, porque a maternidade é para muitas mulheres pedra angular das suas vidas.

Muitas mulheres vivem angustiadas com a decisão/timing de serem mães, pois percebem que serão prejudicadas profissionalmente, caso optem por seguir o seu tempo em vez do tempo da empresa, do patrão ou do marido. Na verdade, quando a questão é assim colocada já estão a ser prejudicadas, quanto mais não seja pelo constrangimento à sua liberdade de escolha.


Como ninguém precisa de ser rico quando já é velho, também a maioria das mulheres não precisa de ser mãe quando os outros lho concedem.
O emprego, a carreira é só o emprego e a carreira. Hoje ganhas bem, tens estatuto e estás na mó de cima; amanhã acontece exatamente o oposto sem que tenhas feito nada para merecer a desdita. Nessa altura, repara-se que aquele esforço foi inglório, mas o facto é que o foi desde a coagida tomada de decisão.

Se o patrão ou o marido não percebem que o melhor momento para alguém ser mãe é quando a mulher sente inequivocamente essa vontade e que essa vontade deve ser respeitada, então o melhor é escolher outro emprego, outra vida. Há altura certa para se viver a maternidade. Deixar passar esse momento é uma amputação terrível que fazemos à nossa vida.
Claro que a vida está difícil, claro que é complicado encontrar um emprego compatível com o nível de vida a que estávamos habituados, claro que o mundo dos negócios não se compadece com “maternidades”, mas… claramente isto tudo é muito pequenino face à importância de um filho no momento certo.
Se a maternidade completa uma mulher, então ela não pode ficar adiada, porque a vida é muito mais do que um cargo, um bom salário ou um agradecimento cretino.

GAVB

segunda-feira, 10 de abril de 2017

MORRER RICO É DE UMA INCOMPETÊNCIA EXTREMA


Há uns anos atrás, um amigo tentava confortar-me da venda de Simão Sabrosa pelo Benfica ao Atlético de Madrid, lembrando os vinte milhões de euros que ele rendera. Respondi-lhe que se pusessem uns bidões de notas no campo ninguém lhes bateria palmas, pelo simples facto de em nada contribuírem para a nossa felicidade.
Acumular riqueza é um sinal de pouca inteligência a partir de um certo montante e sobretudo a partir de um certo momento. Ou bem que o dinheiro nos é útil ou então não passa de um monte de papel que não teve outra utilidade que não fosse dar-nos a inútil presunção de riqueza. Ora a presunção não precisa de ser rica nem a riqueza tem necessidade de ser presunçosa.
É um ato de grande inteligência e riqueza pessoal saber distribuir aquilo que vamos ganhando e acumulando pelos expectáveis anos da nossa vida. Aquele que morre com o seu montinho avarento não é mais do que um homem extremamente pobre de espírito que nem conseguiu ter imaginação para gastar o seu pecúlio.

A riqueza, em strictu sensu, só o é quando transformada em algo que nos dá prazer e felicidade. Se a felicidade é a informação bancária, então devia ser permitido que os bancários fizessem todas as semanas uns milionários do faz de conta.
Mais do que ter a noção do dinheiro que precisamos para realizar as “coisas” almejadas ao longo dos anos, era bom ter realmente a ideia precisa daquilo que nos faz feliz e quanto isso custa. Alguns iam chegar à conclusão que andam a fazer figura de parvo há  anos. O que vale é que há sempre uns banqueiros que implodem os seus próprios bancos, para criar motivação no pessoal que gosta de acumular riqueza com se fosse viver forever.

 GAVB