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domingo, 12 de abril de 2020

QUE FAREMOS DA NOSSA VIDA QUANDO A VOLTARMOS A TER NA MÃO?

Sem visita Pascal, sem missa da ressurreição, sem almoço de família, sem reencontros,a Páscoa parece mais pobre, contudo é possível que a nudez de rituais nos permita pensar apenas na sua essência e no que o momento significa para cada um de nós. 

Os cristãos assinalam a ressurreição de Jesus Cristo, que é como quem diz a sua afirmação enquanto Deus. Verdadeiramente o cristianismo "começa" neste momento, apesar do Natal ser, afetivamente, o momento fundador da religião mais seguida pelos portugueses. 

É à boleia desse acontecimento tão marcante na civilização ocidental que toda a tradição assenta. E, num momento em que nos confinámos com medo da morte, é bom perceber quanto gostamos de viver. Como lutamos com todos a nossa inteligência, com todo o nosso dinheiro, com toda a nossa tecnologia por esse milagre que é a vida humana. 
A Páscoa é a celebração da vida! A Igreja Católica está certa quando alerta para a necessidade de defender a dignidade da vida em vez de nos contentarmos com a dignidade da morte. 

Hoje, em todo o mundo, milhares de médicos e enfermeiros lutam como desalmados para resgatar imensas vidas às garras da morte e comovemo-nos com esse gesto grandioso. 

Percebemos, finalmente, que a vida daqueles que amamos é sempre mais bela que qualquer morte gloriosa, mesmo que eles sejam velhos, doentes ou os tenhamos esquecidos durante anos. Eles são parte da nossa identidade e não queremos que partam porque com eles parte um pedaço de nós.

Sentimo-nos impotentes porque não podemos fazer mais do que estar quietos e esperar, mas houve tempo em que pudemos fazer algo e não fizemos, como haverá altura em que voltaremos a ter oportunidade de atuar. 

Que planos temos para essa altura? Daqui por um ano, provavelmente, haverá vacina para o vírus que nos confina, mas a fome continuará em muitos países continuará a desafiar a nossa consciência coletiva e os nosso pais e avós voltarão a interrogar-nos mudamente sobre a nossa ausência. Que vacina teremos contra essa desumanidade, que mata mais que qualquer pandemia?

A questão que nos devemos pôr é Que faremos com a nossa vida quando voltarmos a ter nova oportunidade de a amarmos sem restrições?  

Gabriel Vilas Boas.

domingo, 16 de abril de 2017

A TRADIÇÃO É UM INVÓLUCRO TÃO BONITO


O número das pessoas que gosta da Páscoa cresce a cada ano que passa. Há sol, uma folga no emprego, uma família para matar saudades, chocolate na boca e umas mini-férias na praia ou no campo para gozar. A hotelaria agradece imenso, embora não deixe nenhuma esmola na igreja.
Alguém se encarrega de cumprir a tradição que sustenta tudo isto. A casa fica aquele brinquinho de que a avó tanto se ufana; a mãe trata de preencher a mesa vistosa e gulosa com pão de ló, vinho do porto, folar e amêndoas e o padre passará com o seu cortejo a compasso.



A tradição é o melhor negócio da era moderna. Além de fashion e moldável, não precisa de ganhar mercado, porque ele está ganho por natureza. Alguns apontamentos de modernidade misturados com fotos vintage, para selar a autenticidade do produto, dão dimensão e grandeza à tradição pascal.
A Páscoa que vivemos é cristã? Sim, já nos tinham falado “disso”.
O que é que significa? Pois… não sabemos bem… mas a nossa avó sabe de certeza e a mãe ainda deve ter umas luzes sobre o assunto. Já quanto ao pai, é melhor não arriscar a pergunta.


A tradição pascal é muito bonita e gostamos muito dela desde que fiquemos pelo invólucro. Queremos lá saber do conteúdo ou da nossa responsabilidade em alimentá-lo. Isso dá imenso trabalho e não é certo que gostássemos assim tanto.
No entanto, é bom lembrar que qualquer tradição, por muito resistente e resiliente que seja, precisa sempre de um pouco de água para se manter viva. Não é sensato deixarmos a avozinha fazer de última bolacha do pacote, porque a sua fé não é comerciável nem dura para sempre. E o tempo acabará por desfazê-la em migalhas.
E sem bolachas não há beleza que salve esse pacote-tradição de se tornar num produto contrafeito made in China.
GAVB


domingo, 5 de abril de 2015

(RE)DESCOBRIR A PÁSCOA



No dia 5 de abril de 1722, o explorador neerlandês Jacob Roggevven descobre a ilha da Páscoa, perto do Chile. Ficou com esse nome porque foi descoberta num dia de Páscoa como o de hoje.
Numa era em que o conhecimento está à distância dum click mas longe do coração, ocorre-me, enquanto cristão, que precisamos de (re)descobrir o sentido da Páscoa.
A Páscoa é o coração do Cristianismo. Afirmar a Páscoa é afirmar o cristianismo de cada um. Com o passar dos anos, a tradição vai resistindo à erosão dos tempos, mas a negligência dos cristãos tem secado a sua essência.
A Páscoa devia ser um grande momento de afirmação dos cristãos, de júbilo entre todos aqueles que acreditam que Jesus é Deus e fazem da religião cristã um elemento fundamental das suas vidas. Se cada cristão refletir, honestamente, sobre os momentos mais significativos do “seu” ano, verá que a Páscoa não ocupa nenhum desses lugares.

A religião tradicional e ritualista dos nossos pais trouxe-nos até aqui. Talvez nos tenham trazido com um venda nos olhos, negando-se a analisar as razões duma fé construída na tradição dos antepassados, mas guiaram-nos com o coração duma crença íntegra.
Nós tirámos a venda e descobrimos as imperfeições da Perfeição, mas não nos afastamos, porque Deus é a nossa casa, onde regressamos sempre que nos sentimos sós ou a vida no corre mal. Só que não cuidamos da casa e temos relutância em afirmar que a ela pertencemos.
Envergonhados pelo exemplo que não damos, deixamos de explicar aos nossos filhos o que significa a Páscoa. Alguns perguntarão aos avós quem são aqueles senhores que entraram lá em casa a proclamar que “Cristo Ressuscitou! Aleluia! Aleluia”, mas a explicação será apenas mais uma que o cérebro deglutirá e não haverá tempo para aprender nada com o coração.

Agora que o Papa Francisco conseguiu travar aquele sentimento de vergonha que muitos cristãos tinham em se afirmar como tal, há ainda muito trabalho por fazer. Fazer regressar muitos daqueles que partiram para não voltar e, sobretudo, viver segundo as coordenadas essenciais do cristianismo é uma missão difícil, mas possível!

Não podemos é esperar que seja um senhor de 78 anos a fazer tudo sozinho. Começar por explicar e viver a Páscoa, com simplicidade cristã é um bom começo e um bom exemplo.
Gabriel Vilas Boas