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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

VINICIUS DE MORAIS - SE AINDA DURA É PORQUE DEVE SER ETERNO



Vinicius de Moraes foi aquele poeta que qualquer cantor queria ter por perto. O poetinha, que também foi diplomata, jornalista e dramaturgo, transpirava poesia. Era impossível não ficar rendido aos seus sonetos, à sua eterna arte de seduzir e conquistar através da palavra.


A vida boémia e de excessos que levou durante cinco décadas não permitiu tê-lo entre o reino dos vivos mais de sessenta e seis anos, mas a genialidade dos seus textos deram-lhe um visto gold para a eternidade, através das belíssimas canções que nasceram da sua caneta.
Sem surpresa, Vinicius cantou o Amor. De uma maneira intensa e persuasiva, bela e provocante, a que ninguém ficava indiferente. Foi ele o criador da imortal “Garota Ipanema” que desarma qualquer um no primeiro verso “Olha que coisa mais linda” e termina de modo sublime “Ah, se ela soubesse/ Que quando ela passa/ O mundo inteirinho se enche de graça/ E fica mais belo/ Por causa do amor”.

Vinicius eram um excelente parceiro. Além da eterna parceria com o uísque, formou nove parcerias conjugais dando razão a uma das suas mais célebres frases – “O Amor é eterno enquanto dura” -, mas aquelas que ficaram mais célebres foram as que assinou com Toquinho, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra.
Há várias canções escritas por Vinicius que revisito, de quando em vez, no entanto há duas que aprecio pela sua qualidade poética, simplicidade e pelo impacto que tiveram na carreira do poetinha e de outros nomes grandes da cultura brasileira: “Chega de Saudade” e “Eu sei que vou te amar”. São dois saborosos frutos da parceria com o amigo Tom Jobim, nos maravilhosos anos cinquenta, da música popular brasileira.
No poema “Chega de saudade”, Vinicius declara a saudade como uma coisa triste e causador de sofrimento. Ele que sempre foi um prático, achou que as saudades eram coisa para morrer entre “abraços apertados, beijos e carinhos”. Curiosamente há outro texto do poetinha em que ele reconhece todas as agruras e sofrimentos do Amor. Em “Tempo de
Amor”, Vinícius declara:

”Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar

Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar”


Como diria o grande Camões, Vinicius é um fogo que arde e que se vê. Nas suas poesias, há sempre paixão, erudição e muito amor. Reservei para o final, o poema de Vinicius de Moraes que mais gosto – Eu sei que vou te amar -, cujos méritos são sobejamente conhecidos, de tal forma  que grandes vultos da música brasileira como Caetano Veloso, Tom Jobim, Ivete Sangalo, Elis Regina e Ana Carolina não resistiram a cantá-lo. Vale sempre a pena ouvi-lo, em qualquer interpretação.
Gabriel Vilas Boas

domingo, 18 de outubro de 2015

SOLIDÃO


SOLIDÃO
Apenas soube que existes
No dia em que me atingiste!
É quase sempre assim…
Agora que sei o teu nome,
Conheço o teu ADN e a tua fome
De te juntares a mim,
Reconheço que sempre
Estiveste por perto.
Dizem-te parceira dos velhos,
Dos Deserdados e desamados
E tu sorris, sorris como um esperto
Que adora convenientes enganos!

Visitas-nos desde tenra idade.
Vejo-te nos putos presos na rua,
Esfomeados do carinho dos pais;
Revejo-te nos alunos alheados e tristes
Sentados à porta das salas de aula
Sem saber o que fazer com os intervalos.
Mas deles tens comiseração…
Ou então é apenas esperteza. Já nem sei…
Um like a tlintar no smartphone,
Os headphones nos ouvidos,
Um beijo furtivo e quente…
E adias a tua apresentação!




Abomino é o que fazes aos velhos!
Massacra-los com memórias 
que não voltam,
Não lhes dá nem a visita piedosa dum neto,
Entropeces-lhes a vontade.
Detesto-te, porque não havia necessidade!
Eles já perderam o suficiente,
Tu já ganhaste mais do que merecias.



Agora nós!
Fomos apresentados num dia qualquer,
Em que olhei ao espelho além da roupa
E te vi a troçar de satisfação.
Acho que foi num daqueles dias
Em que a lucidez triunfou sobre a vaidade,
Em que o telefone não tocou e as SMS não chegaram.
Ou então os silêncios se prolongaram
E os abraços não traziam calor.


Nesse dia marcaste tantos golos
Que te fartaste!
Noutras alturas, ganhaste, claramente, o jogo…
Mas o nosso campeonato 
nem a meio vai!
Dar-te-ei sempre luta!
Não viverás mais
À custa do meu egoísmo!

Outro dia senti saudades…
E senti-te também por perto.
Não sei se me dizias adeus 
ou olá…

Por mim, dizia-te adeus
 e olá à outra pessoa.
Quanto ao nosso campeonato,
Apenas tenho uma certeza:
VAIS PERDER.
No jogo da Vida, quem vence sou Eu!

Gabriel Vilas Boas

sábado, 17 de outubro de 2015

A POBREZA DEIXOU DE SER UM PROBLEMA - TORNOU-SE UM ÍCONE DE CALENDÁRIO


Em meados do mês de outubro, as escolas procuram sensibilizar os alunos para dois problemas verdadeiramente importantes para a sociedade e para a sua formação: a alimentação e a pobreza. Os temas até se podem relacionar, mas, ano após ano, a maneira como as escolas portugueses os têm vindo abordar têm sido de uma frouxidão e desistência alarmantes. A desmotivação da classe docente não explica tudo! Creio que em cada dia que passa cada um de nós desfoca um bocadinho o nosso coração do essencial.
Hoje é o dia internacional da erradicação da pobreza. É só mais um dia p’ró calendário das comemorações!!! Sim, não é provocação do autor, pois é assim que muitas vezes é apresentado aos alunos, como se a pobreza fosse alguma coisa que suscitasse comemorações ou a sua erradicação estivesse ali ao virar da esquina.

Sempre detestei a palavra “erradicação”. A maioria das crianças, adolescentes ou jovens nem sabe o que significa. Além disso, é tão utópica quanto estúpida, pois não vamos erradicar pobreza nenhuma nas próximas dezenas de anos.
Desde que o homem passou a assinalar este dia de luta contra a pobreza para calar a sua hipócrita consciência, a pobreza tem aumentado assustadoramente por todo o mundo. Já não é só um fenómeno da África pobre e inculta ou da Ásia que não sabe usar métodos contracetivos. É um problema também dos países superdesenvolvidos. Na América de Obama há milhões de pobres, na Europa da zona Euro há milhões de pobres, no país das Maravilhas de Passos Coelhos há milhões de pobres. Isto não é discurso barato, é estatística pura.


Recentemente, a propaganda daqueles que nem um minuto de silêncio pelas vítimas da fome respeitam, dizem que o problema radica na pobreza de espírito de muitos indigentes. Tão conveniente, mas tão mentiroso e tão hipócrita.
É verdade que grande parte dos pobres tem pouca ou nenhuma instrução, mas o problema não é esse, no essencial. O problema está na “porcaria” de seres humanos em que nos tornámos, incapazes de distribuir os excedentes agrícolas a quem realmente precisa, incapazes de matar a fome à imensa legião que habita perto de nós. Obviamente não trazem um letreiro na testa, mas um pouquinho de interesse da nossa parte descobria muito por onde ajudar.
Não preciso de dias de luta contra a pobreza no calendário, preciso de parceiros que lutem todos os dias para que a pobreza diminua. Que amanhã haja menos um esfomeado que hoje e que isso se faça sem nenhuma publicidade, que ofende a dignidade de quem recebe.
Ontem, uns miúdos da minha escola faziam um minuto de silêncio em memória das vítimas da fome e pobreza em todo o mundo. Tinham o semblante fechado e erguiam cartazes simples e elucidativos. Estavam na escadaria da entrada principal da escola. Quase ninguém lhes ligou. Entretanto, perante a estupefacção das duas colegas que tinham organizado aquele simples momento de homenagem, uma professora apressada para fumar o seu cigarro, na rua, queria furar pelo meio deles interrompendo-lhes a sentida e singela homenagem que faziam. Foi preciso dizer à senhora que esperasse vinte segundos ou então que contornasse o grupo lateralmente e saísse de fininho por detrás deles. Ela preferiu não esperar. Aquelas duas dezenas de alunos devem ter anotado o exemplo. Há momentos em que quem serve a escola é muito pobre de espírito.

Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

SOMOS AQUILO QUE COMEMOS?



DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO
A alimentação é um elemento estruturante da nossa vida, mas está longe, na minha opinião, de ser o mais decisivo.
            É verdade que a alimentação se tornou num dos sete pecados capitais dos tempos de modernos e, por conseguinte, numa fonte de preocupação para milhões de pessoas, quando as opções erradas de todos os dias puseram a saúde em perigo.
            Gordos, muitos gordos, diabéticos ou anoréticos perceberam claramente quanto a alimentação determina o seu estado físico, psíquico, emocional e a sua autoestima. Pensarão, várias vezes, com algum pesar, que se tornaram naquilo que comeram ou ainda comem, como se a comida fosse uma espécie de prisão que os torna infelizes. Quando recuperam o seu bem-estar e equilíbrio físico e menta, graças a alterações estruturais na sua forma de se relacionar com a alimentação, continuam convictos que “são aquilo que comem”, só que agora com um sorriso na face.

          
  No entanto, esta ideia está longe de ser partilhada por uma larga maioria de pessoas para quem a comida evoca sentimentos bem diferentes.
Antes de mais, comer é uma fonte de prazer que muitos conseguem desfrutar sem danificar a saúde; para outros, uma oportunidade de conviver ou fazer negócios; há também aqueles que tornam a comida campo fértil para vivenciar experiências únicas e exóticas. Há quem viaje através dos sabores do mundo.

Talvez estes também possam dizer: “Somos aquilo que comemos”, mas seguramente estão a atribuir à frase um sentido bem diferente daqueles que queimam penosamente calorias no ginásio.
Acho muito interessante termos a noção de quanto uma boa ou má alimentação pode marcar profundamente a nossa vida por longos anos, mas está unicamente nas nossas mãos determinar o papel que lhe cabe.

Não gostaria nada de ser conhecido por aquilo que como. Sou muito mais do que isso!
Apraz-me a ideia que tudo aquilo que saboreio é tão-somente um parceiro misterioso que me ajuda a descobrir os recantos maravilhosos da vida e não um déspota que a comanda.
Como em tudo na vida, os erros repetidos e acumulados deixam-nos cada vez menos opções válidas.
A comida exerce sobre nós um fascínio irresistível, mas não admite erros!

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A HISTÓRIA DE CUPIDO E PSIQUE, de Jacopo del Sellaio


Jacopo De Sellaio, um artista que trabalhara segundo o estilo de Botticelli, pintou dois painéis representando a história de amor de Psique e de Cupido. O painel aqui reproduzido, datado de 1473, conta a primeira parte da lenda.
Na villa à esquerda, vemos a conceção e o nascimento da filha de Apolo, Psique, que aparece vestido de branco no resto do painel. A sua beleza provocou o ciúme de Vénus, que mandou o seu filho Cupido fazer com que Psique se enamorasse de alguém feio.

Quando Psique aparece diante de um grupo de pretendentes, Cupido voa por cima, mas rapidamente se enamora dela e é incapaz de cumprir a sua missão. Então, um oráculo diz a Psique para subir a uma alta montanha e, no cima, ela é levada pelo vento e adormece. À direita, ela é levada para um sumptuoso palácio que Cupido põe à sua disposição, e onde é visitada pelas suas invejosas irmãs. Embora Cupido tenha proibido Psique de olhar para ele, as suas irmãs persuadem-na a espreitá-lo e ela apaixona-se.
Infelizmente, uma gota de óleo quente é derramada da sua lâmpada e quando Cupido acorda, fica zangado e desaparece. Psique segura-o pelo tornozelo, na tentativa de impedi-lo de partir.
Os outros painéis do artista completam as histórias das provas de Psique e do seu eventual casamento. Em conjunto, os dois quadros teriam formado a decoração ideal de um cassone, um baú de enxoval.

Como é bom de perceber o elemento chave deste quadro é Psique. Na segunda parte da história de Psique, a atormentada jovem vagueou pela terra à procura de Cupido, até que chegou à morada de Vénus. Aí tornou-se escrava da deusa do amor e a sua ama deu-lhe um conjunto de tarefas impossíveis de cumprir. No entanto, Psique teve sorte: algumas formigas ajudaram-na a separar um monte de cereais misturados; um junco das águas contou-lhe como obter lã  de ouro de ovelhas perigosas; a água de Júpiter veio em seu auxílio quando ela foi buscar água de um ribeiro guardado por dragões; e uma torre conduziu-a com segurança até ao mundo subterrâneo para obter alguma da beleza de Prosérpina. Por fim, Cupido implorou a Júpiter que tivesse piedade de Psique.
Foi então que os deuses se reuniram em conselho e decidiram dar-lhe uma taça de néctar para a tornar imortal. Providenciou-se uma festa para o casal em núpcias e mais tarde, Psique deu à luz uma filha de Cupido chamada Prazer.

 A história deste belo par era uma lenda romântica muito popular. Os seus numerosos episódios e a cena final do casamento eram, por vezes, usados pelos pintores para cobrir grandes áreas ou para preencher inúmeras abóbadas de um teto.  

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

SÓ NÓS DOIS, de Tiago Bettencourt


No início dos anos 60, Tony de Matos celebrizou esta canção, tornando-a num ícone do romantismo de meados do século XX. Praticamente meio século mais tarde Tiago Bettencourt pega na extraordinária letra de “Só Nós Dois é Que Sabemos” e veste-a com a sua voz rouca, pausada, sensível e serenamente apaixonada. Canta com a naturalidade de quem conversa e expõe toda a beleza deste “poema”/canção, provando que ela se aplica a muitos de nós.´
Aquele começo sem palavras é tão lindo e poético que nos conquista ao fim de trinta segundos. 
É um segredo revelado transformado em declaração de amor, que o ouvinte pode adoptar como seu. E nessa apropriação sem nenhum laivo de usurpação, a canção triunfa sobre o tempo, como o amor vence as mais duras provas.

A voz calma de Bettencourt recoloca o amor, que perfuma toda a canção, no lugar onde ele deve ficar: no secreto entendimento entre duas pessoas.
O segredo que não interessa revelar é cumplicidade, a força e a profundidade de que é feito. Não porque possa ser arrebatado pela inveja dos deuses, mas talvez porque seja demasiado íntimo para se exibir. Deve ser por isso que o cantor repete anaforicamente: “Só nós dois é que sabemos”.
Sabemos porque há palavras belas para o dizer e gesto gostosos para o sentir, sejam eles beijos, abraços ou um simples aconchego.
O desdém final da canção sobre o murmurar alheio é uma afirmação cabal da vitória do essencial sobre o acessório. Nem sempre isto é fácil de concretizar. A história das nossas vidas está cheia de pequeníssimas vitórias e enormes derrotas, embora a pressa em obtermos todos os desejos sonhados nos leve a fracassos dolorosos. Talvez por isso o Amor seja uma Sabedoria que vamos sorvendo!
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 13 de outubro de 2015

CAIR O CARMO E A TRINDADE


As palavras Carmo e Trindade referem-se aos conventos do Carmo e da Trindade, que ficavam a poucos metros um do outro, no Chiado, em Lisboa. Aliás a zona tinha muitos conventos que acabaram por desaparecer, primeiro com o terramoto e depois com a extinção das ordens religiosas no nosso país em 1834. No fundo, o Chiado passou de conventual e comercial, mas não estamos a falar de doces.
Outras tragédias haveriam de marcar esta zona nobre da cidade de Lisboa que literalmente renasceu das cinzas e hoje atrai milhares de pessoas às suas ruas, entre lisboetas e turistas.


No entanto, temos de recuar ao fatídico 1 de novembro de 1755. No dia do grande terramoto estes dois conventos foram dos mais afetados e destruídos da cidade de Lisboa. Perante a desgraça, alguém terá exclamado: “caiu o Carmo e a Trindade!” e a frase ficou para sempre como uma manifestação de catástrofe e horror.
Na verdade foi a localização do convento do Carmo que ditou a sua destruição. De frente para a colina do castelo, num lugar cimeiro e com vista privilegiada, este convento foi mandado erigir pelo Condestável, Nuno Álvares Pereira. Dedicado a Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo, viu as primeiras pedras serem colocadas no final do século XIV e demorou trinta anos a ser construído devido às dificuldades levantadas pela localização.

No dia do sismo, a estrutura não resistiu aos abalos e as velas que no interior do convento estavam já acesas para a festa de todos os santos acabaram por provocar um incêndio que consumiu o resto.
Das ruínas ainda se aproveitaram alguns espaços: é aqui que fica hoje o Quartel do Carmo, o Comando-Geral da GNR, onde em 1974, o presidente do Conselho do Estado Novo, Marcello Caetano, se refugiou dos militares da revolução de 25 de abril, num cerco liderado pelo capitão Salgueiro Maia. A GNR partilha os antigos espaços do convento do Carmo com o Museu Arqueológico.
Já o Convento da Santíssima Trindade estava parcialmente onde hoje funciona a Cervejaria Trindade. Foi fundado na Idade Média, sofreu um grande incêndio em 1708, mas foi o terramoto de 1755 que o destruiu completamente.

Depois da extinção das ordens religiosas em Portugal, demoliu-se o que restava do convento para se fazer novas ruas, mas o antigo refeitório do convento, com os seus magníficos azulejos, pintados por artista Luís Ferreira, manteve-se de pé até hoje, transformado no salão grande da Cervejaria da Trindade. Os painéis do Ferreira das Tabuletas dão fama ao restaurante, num caso em que se poderia dizer: do convento para a cervejaria.