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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

VÉNUS PEDINDO A VULCANO A ARMADURA PARA ENEIAS, de Boucher


Eneias, o troiano, o herói da Eneida de Vergílio, estava destinado a desembarcar em Itália e tornar-se antepassado dos romanos. À sua chegada, foi encarregue de uma série de guerras instigado por Juno, que levaram a sua mãe, Vénus, a vir em sua ajuda.
A pintura de Boucher (1732) mostra uma Vénus galanteadora e quase nua, deusa da beleza e do Amor, sentada numa nuvem rodeada de cisnes e de gansos – dois dos seus atributos. Está a olhar para o marido, Vulcano, e a pedir-lhe uma armadura especial para o seu filho.
Boucher, pintor principal do rei Luís XV de França, foi muito criticado por ser demasiado comodista e não pintar nada mais sério do que putti, ninfas e mulheres semi-nuas. No entanto, este estilo despreocupado e até um pouco frívolo, típico do Rococó, era o ideal para pinturas, decorações, tapeçarias e cenários da corte do rei.
O elemento-chave desta pintura de Boucher é Vulcano, deus do Fogo que preside sobre a forja. Vulcano é o patrono dos metalúrgicos e foi ele que fabricou os famosos raios de Júpiter, no entanto foi expulso do Olimpo quando tentou libertar a mãe que Júpiter acorrentara como castigo.
Desterrado na ilha de Lemnos na Grécia, onde construiu um palácio para si e instalou forjas, que seriam os vulcões da Terra. Os Ciclópes (gigantes com um só olho) eram os seus assistentes. Infelizmente ele partiu a perna na sua queda para a Terra e ficou coxo para sempre. Enfim, Vénus era casada com um coxo…
Vulcano criou muitas obras de arte engenhosas, tanto para os deuses como para os mortais a pedido dos seus pares, incluindo os famosos escudos, magnificamente decorados, um para Aquiles e outro para Eneias. Também produziu uma armadura completa para Júpiter, que prometeu a Vulcano aquilo que ele desejasse como recompensa. Vulcano pediu a casta Minerva mas, incapaz de a violar, derramou a sua semente na Terra, ato do qual nasceu Erictónio.
Vulcano acabou por desposar Vénus, que lhe era permanentemente infiel. Também passar de uma Minerva a uma Véus é como ir de um extremo ao outro da fogacidade feminina do Olimpo, mas Vulcano não deve ter refletido sobre isso. No entanto, Vulcano era muito esperto. Ficou célebre a história  que descreve como ele concebeu uma rede invisível, onde apanhou a sua  Vénus a ser-lhe infiel com Marte. Quando o casal de amantes foi surpreendido num abraço de paixão, Vulcano expô-los aos restantes deuses que, para tristeza de Vulcano, se divertiram bastante com a desventura de Vulcano em vez de mostrar indignação com a atitude de Vénus. Mercúrico chegou mesmo a escarnecer do deus do Fogo, dizendo que gostaria de estar no lugar de Marte.

Na pintura, a deformidade de Vulcano é normalmente visível e muitas vezes aparece semi-nu e desgrenhado trabalhando na sua forja. Outras vezes é mostrada a bater metal na bigorna com um martelo ou a segurar um raio com as tenazes. Doutras vezes pode estar ainda a soprar as chamas, de rosto enegrecido pelo fumo. De forma apropriada, muitas vezes, aparece por cima das lareiras, como acontece na pintura de Peruzzi, Vulcano Na Sua Forja.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A HISTÓRIA DE CUPIDO E PSIQUE, de Jacopo del Sellaio


Jacopo De Sellaio, um artista que trabalhara segundo o estilo de Botticelli, pintou dois painéis representando a história de amor de Psique e de Cupido. O painel aqui reproduzido, datado de 1473, conta a primeira parte da lenda.
Na villa à esquerda, vemos a conceção e o nascimento da filha de Apolo, Psique, que aparece vestido de branco no resto do painel. A sua beleza provocou o ciúme de Vénus, que mandou o seu filho Cupido fazer com que Psique se enamorasse de alguém feio.

Quando Psique aparece diante de um grupo de pretendentes, Cupido voa por cima, mas rapidamente se enamora dela e é incapaz de cumprir a sua missão. Então, um oráculo diz a Psique para subir a uma alta montanha e, no cima, ela é levada pelo vento e adormece. À direita, ela é levada para um sumptuoso palácio que Cupido põe à sua disposição, e onde é visitada pelas suas invejosas irmãs. Embora Cupido tenha proibido Psique de olhar para ele, as suas irmãs persuadem-na a espreitá-lo e ela apaixona-se.
Infelizmente, uma gota de óleo quente é derramada da sua lâmpada e quando Cupido acorda, fica zangado e desaparece. Psique segura-o pelo tornozelo, na tentativa de impedi-lo de partir.
Os outros painéis do artista completam as histórias das provas de Psique e do seu eventual casamento. Em conjunto, os dois quadros teriam formado a decoração ideal de um cassone, um baú de enxoval.

Como é bom de perceber o elemento chave deste quadro é Psique. Na segunda parte da história de Psique, a atormentada jovem vagueou pela terra à procura de Cupido, até que chegou à morada de Vénus. Aí tornou-se escrava da deusa do amor e a sua ama deu-lhe um conjunto de tarefas impossíveis de cumprir. No entanto, Psique teve sorte: algumas formigas ajudaram-na a separar um monte de cereais misturados; um junco das águas contou-lhe como obter lã  de ouro de ovelhas perigosas; a água de Júpiter veio em seu auxílio quando ela foi buscar água de um ribeiro guardado por dragões; e uma torre conduziu-a com segurança até ao mundo subterrâneo para obter alguma da beleza de Prosérpina. Por fim, Cupido implorou a Júpiter que tivesse piedade de Psique.
Foi então que os deuses se reuniram em conselho e decidiram dar-lhe uma taça de néctar para a tornar imortal. Providenciou-se uma festa para o casal em núpcias e mais tarde, Psique deu à luz uma filha de Cupido chamada Prazer.

 A história deste belo par era uma lenda romântica muito popular. Os seus numerosos episódios e a cena final do casamento eram, por vezes, usados pelos pintores para cobrir grandes áreas ou para preencher inúmeras abóbadas de um teto.