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sábado, 18 de fevereiro de 2017

SE ME DEIXASSES SER

A nova música de Tiago Bettencourt tem tudo para olharmos para ela com o enlevo das coisas belas, delicadas, sensíveis e profundas. Sobressai claramente a letra, mas é a feliz ideia musical que Tiago criou que nos faz reparar na letra.
Tiago não escreve musical banal. As suas letras são um permanente convite à reflexão; nelas percebemos um espírito atento ao mundo em que vive e aos outros. Naquele estilo paradoxalmente calmo e intenso, Tiago já escreveu uma “Carta”, já homenageou Variações na belíssima versão da “Canção do Engate”, já manifestou a sua revolta contra os políticos corruptos que tivemos nas últimas décadas em “Aquilo que Eu Não Fiz”.

Com este single de avanço do novo álbum – Se Me Deixasses Ser -, Tiago Bettencourt aborda um aspeto essencial na relação entre as pessoas: a confiança, a entrega.
Num tempo do relativo e do medo de nos magoarmos, é muito difícil às pessoas confiarem. Ora o cantor lembra que uma vida em permanente cálculo é viver pela metade.
E o que podemos ser quando alguém confia em nós? A música diz que pode ser uma promessa, um sonho ou uma ambição.
O que nos impede de deixar o outro tentar? O medo! O medo de não resultar, o medo não ser perfeito, o medo de não ser eterno. O medo é que não nos deixa SER nem permite que os outros ajudem. Obviamente que o outro não tem artes mágicas, mas quer tentar, porque se interessa por nós. Ele quer ser “O sítio onde podes voltar”, A Casa de Permanecer”, “A Casa Para Regressar”.

Ele pode falhar? Claramente, mas os muros que erguemos em volta tornaram a nossa casa fria, solitária e sem esperança.
GAVB


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

SÓ NÓS DOIS, de Tiago Bettencourt


No início dos anos 60, Tony de Matos celebrizou esta canção, tornando-a num ícone do romantismo de meados do século XX. Praticamente meio século mais tarde Tiago Bettencourt pega na extraordinária letra de “Só Nós Dois é Que Sabemos” e veste-a com a sua voz rouca, pausada, sensível e serenamente apaixonada. Canta com a naturalidade de quem conversa e expõe toda a beleza deste “poema”/canção, provando que ela se aplica a muitos de nós.´
Aquele começo sem palavras é tão lindo e poético que nos conquista ao fim de trinta segundos. 
É um segredo revelado transformado em declaração de amor, que o ouvinte pode adoptar como seu. E nessa apropriação sem nenhum laivo de usurpação, a canção triunfa sobre o tempo, como o amor vence as mais duras provas.

A voz calma de Bettencourt recoloca o amor, que perfuma toda a canção, no lugar onde ele deve ficar: no secreto entendimento entre duas pessoas.
O segredo que não interessa revelar é cumplicidade, a força e a profundidade de que é feito. Não porque possa ser arrebatado pela inveja dos deuses, mas talvez porque seja demasiado íntimo para se exibir. Deve ser por isso que o cantor repete anaforicamente: “Só nós dois é que sabemos”.
Sabemos porque há palavras belas para o dizer e gesto gostosos para o sentir, sejam eles beijos, abraços ou um simples aconchego.
O desdém final da canção sobre o murmurar alheio é uma afirmação cabal da vitória do essencial sobre o acessório. Nem sempre isto é fácil de concretizar. A história das nossas vidas está cheia de pequeníssimas vitórias e enormes derrotas, embora a pressa em obtermos todos os desejos sonhados nos leve a fracassos dolorosos. Talvez por isso o Amor seja uma Sabedoria que vamos sorvendo!
Gabriel Vilas Boas