Caetano Veloso tem, sobretudo, uma voz lindíssima e sensual que me faz lembrar a serenidade do Oceano Pacífico. Muitas das suas músicas fazem parte da nossa memória pessoal e coletiva e possuem o condão de nos transportar ao mundo dos sonhos. Lá, onde tudo é pacífico e doce, a sua voz ganha o encanto das sereias.
Hoje e amanhã, Caetano dá dois concertos em Lisboa, para uma plateia selecionada, que rapidamente esgotou os caros bilhetes destes concertos. Apesar de ser possível ter a voz do baiano à distância de um click, é óbvio que o prazer de o ver e ouvir ao vivo é único.
O irmão mais velho de Maria Bethânia promete passar em revista os grandes êxitos de uma carreira extensa e muitas vezes polémica, porque Caetano não é politicamente correto. Como acontece com muitos artistas brasileiros, ele tem opinião cultural, social e política. Por exemplo, Caetano foi um dos grandes defensores de Dilma e é frontalmente contra o novo presidente Brasileiro, Temer, mas foi com Lula que a polémica estalou. O baiano chegou a chamar “cafona”, “analfabeto” e “grosseiro” ao antigo Presidente da República do Brasil.
Se na política Caetano está longe de ser consensual, na música todos se rendem ao seu violão e à sua voz. E não é para menos. A candura doce de “Leãozinho” comove qualquer um, do mesmo modo que “Menino do Rio” é o melhor bilhete-postal sonoro da cidade maravilhosa e “Sozinho” faz-nos lembrar quanto maravilhoso é amar alguém, apesar da ausência. No entanto, é em “Você é Linda” que Caetano melhor homenageia a beleza feminina. Com uma letra belíssima, onde o ritmo descontraído e a voz serena do cantor parecem pintar uma linda aguarela da Baía ao entardecer.
A imensa maioria de portugueses que não pode ver hoje nem amanhã este grande cantor brasileiro pode deixar que a música do baiano invada, por breves minutos, as suas quentes noites de fim de verão.
Vinicius de Moraes foi aquele poeta que qualquer cantor queria ter por perto. O poetinha, que também foi diplomata, jornalista e dramaturgo, transpirava poesia. Era impossível não ficar rendido aos seus sonetos, à sua eterna arte de seduzir e conquistar através da palavra.
A vida boémia e de excessos que levou durante cinco décadas não permitiu tê-lo entre o reino dos vivos mais de sessenta e seis anos, mas a genialidade dos seus textos deram-lhe um visto gold para a eternidade, através das belíssimas canções que nasceram da sua caneta.
Sem surpresa, Vinicius cantou o Amor. De uma maneira intensa e persuasiva, bela e provocante, a que ninguém ficava indiferente. Foi ele o criador da imortal “Garota Ipanema” que desarma qualquer um no primeiro verso “Olha que coisa mais linda” e termina de modo sublime “Ah, se ela soubesse/ Que quando ela passa/ O mundo inteirinho se enche de graça/ E fica mais belo/ Por causa do amor”.
Vinicius eram um excelente parceiro. Além da eterna parceria com o uísque, formou nove parcerias conjugais dando razão a uma das suas mais célebres frases – “O Amor é eterno enquanto dura” -, mas aquelas que ficaram mais célebres foram as que assinou com Toquinho, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra.
Há várias canções escritas por Vinicius que revisito, de quando em vez, no entanto há duas que aprecio pela sua qualidade poética, simplicidade e pelo impacto que tiveram na carreira do poetinha e de outros nomes grandes da cultura brasileira: “Chega de Saudade” e “Eu sei que vou te amar”. São dois saborosos frutos da parceria com o amigo Tom Jobim, nos maravilhosos anos cinquenta, da música popular brasileira.
No poema “Chega de saudade”, Vinicius declara a saudade como uma coisa triste e causador de sofrimento. Ele que sempre foi um prático, achou que as saudades eram coisa para morrer entre “abraços apertados, beijos e carinhos”. Curiosamente há outro texto do poetinha em que ele reconhece todas as agruras e sofrimentos do Amor. Em “Tempo de
Amor”, Vinícius declara:
”Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar
Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar”
Como diria o grande Camões, Vinicius é um fogo que arde e que se vê. Nas suas poesias, há sempre paixão, erudição e muito amor. Reservei para o final, o poema de Vinicius de Moraes que mais gosto – Eu sei que vou te amar -, cujos méritos são sobejamente conhecidos, de tal forma que grandes vultos da música brasileira como Caetano Veloso, Tom Jobim, Ivete Sangalo, Elis Regina e Ana Carolina não resistiram a cantá-lo. Vale sempre a pena ouvi-lo, em qualquer interpretação.
Esta é a canção da cantora brasileira Rita Lee que mais gosto. O motivo é a extraordinária letra da composição. De uma maneira descontraída, simples e ao mesmo tempo bem certeira, a canção tenta definir amor e sexo.
Uma ideia que ressalta da letra (e não só…) é que sexo e amor são dois elementos fundamentais da felicidade humana, pois uma grande parte da humanidade elege o Amor (espiritual e físico) como fator decisivo da sua felicidade.
A ideia mais forte que a música desta compositora brasileira me transmite é a que amor e sexo não são antagónicos nem adversários, antes complementares. Em certos momentos, precisam desesperadamente um do outro. Sexo e amor podem viver separados, mas a verdade é que parecem que foram feitos um para o outro.
Um dos segredos da sincronia perfeita está em não desvalorizar um em detrimento do outro, como muitas vezes acontece em relação ao sexo.
Representantes superiores do espírito e do corpo, ambos são “coisas boas”. Amor e Sexo afirmam o ser humano enquanto relacional, e que faz da relação pedra angular da sua existência.
Numa letra cheia de metáforas incisivas, explicativas e iconográficas, gostaria de destacar esta quadra:
“Sexo vem dos outros
E vai embora
Amor vem de nós
E demora”
Pois sugere que o amor começa sempre em nós, mas precisámos sempre do outro para o concretizar… fisicamente. Talvez o sexo seja rápido e fugaz, mas onde há amor ele demora-se.
Como a própria canção admite no final há uma eternidade de definições para este para romântico, por isso talvez não fosse má ideia ficarmos pelos sugestivos “Ah!...” e “Hum….”, porque, como anuncia Rita Lee na abertura da canção, por muita vontade que tenhamos em ler a lição do amor, ele pode ser uma questão de… sorte!
É muito difícil definir Maria Bethânia, mas é muito fácil gostar da sua Música. Ao longo de cinquenta anos, a irmã de Caetano Veloso criou uma forma de cantar única que conquistou o coração de milhões de brasileiros e portugueses. A sua música tem uma força vital tão imponente e prodigiosa que parece brotar da natureza, mas também a delicadeza feminina que enfeitiça em cada nota.
Bethânia cantou centenas de canções, algumas ficaram entranhadas na nossa memória para sempre.
Começo por recordar Reconvexo, onde parece se definir nessa amplitude paradoxal:
Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Lara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não, e nem disse que não
Eu sou o preto norte-americano forte
Com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música a mais velha
Mais nova espada e seu corte
Eu sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá gogoya
Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
(…)
Na relação entre a tensão e o êxtase, Maria Bethânia faz o seu canto. Ele canta com toda a força do seu corpo. São rios sanguíneos de paixão e ira, romance e revolta, doçura e dureza. Ela tem o veneno e o antídoto da vida. Canta o que vale a pena, o que faz sentido: o Amor.
Ainda que de um jeito desconcertante:
Eu sei que eu tenho um jeito Meio estúpido de ser E de dizer coisas que podem magoar e te ofender Mas cada um tem o seu jeito Todo próprio de amar e de se defender Você me acusa e só me preocupa Agrava mais e mais a minha culpa Eu faço, e desfaço, contrafeito O meu defeito é te amar demais Palavras são palavras E a gente nem percebe o que disse sem querer E o que deixou pra depois
Mais o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois
Eu tento achar um jeito de explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar
Bethânia não se explica
somente a ela. Ele explica o jeito intrincado de muitos de nós, especialmente no que se refere à difícil arte de amar.
Entre as várias facetas da inesquecível cantora brasileira há ainda uma outra que me conquista completamente: a doçura da sua voz. Isto fica evidente em muitas canções, mas “Gostoso Demais” exponencia esta qualidade tão brasileira da baiana. Como diria Caetano Veloso, o “modo como ela atrasa os últimos momentos de cada compasso aponta para o futuro da beleza”.
Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu
É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais
Teu cheiro me dá prazer
Quando estou com você
Estou nos braços da paz
Pensamento viaja
E vai buscar meu bem-querer
Não posso ser feliz, assim
Tem dó de mim
O que é que eu posso fazer.
Talvez por tudo isto, ontem, no final do seu concerto no Coliseu do Porto, o público tenha saído, mais uma vez, rendido à sua música que se solta como seiva de alma tão profunda e delicada. Ouvir Bethânia continua a ser um sonho, um sonho lindo que quero continuar a ouvir em palco. Dona Canô chamará mais dia, menos dia e Bethânia irá, como filha dedicada, mas que esse dia venha longe.
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe
Sonho meu
Vai mostrar esta saudade
Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu
Sinto o canto da noite
Na boca do vento
Fazer a dança das flores
No meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor.
Por esta hora, Roberto Carlos dá o último dos quatro concertos que programou para esta tournée em Portugal. Com setenta e quatro anos de idade e cinquenta e cinco de carreira, o Rei veio, provavelmente, para se despedir duma enorme legião de fãs que o venera há mais de quatro décadas.
Cresci a ver a geração dos meus pais idolatrar o grande cantor romântico da música brasileira e durante algum tempo olhei para a sua música com algum desdém, próprio de quem considerava todo aquele romantismo das suas letras e músicas ultrapassado e desfasado da realidade das relações entre homens e mulheres.
No entanto, com o passar dos anos, fui-me rendendo a toda a beleza das canções de Roberto Carlos. Como diria Paulo Gonzo, sei, quase de cor, algumas letras das músicas mais emblemáticas e tenho de me vergar perante a poesia e melodia, extremamente sedutoras, que exalam de muitas delas. Roberto Carlos tem uma voz encantadora, cavalheiresca, melodiosa que cativa até quando fala. A sua música chega a todas as classes sociais e a sua qualidade intrínseca acabou por conquistar até aqueles que dela escarneciam à socapa.
De todas as suas músicas, “As Baleias” ocupará sempre um lugar de destaque no meu coração. Pela consciência ecológica que dela emana quando a ecologia nem era tema, pela poesia da letra, pela serenidade e beleza da melodia.
“Como é possível que você tenha coragem
De não deixar nascer a vida que se faz
Em outra vida que sem ter lugar seguro
Te pede a chance de existência no futuro”.
Mas o que faz de Roberto Carlos o Rei é a música romântica que enterneceu, uniu e acasalou milhões de corações ao longo de décadas. Canções como Tudo Pára(E é tão grande o amor que a gente faz/ Que até os absurdos são reais…), Lady Laura(Lady Laura, me leve para casa/ Lady Laura, me conte uma história/ Lady Laura, me faça dormir/ Lady Laura),Emoções (Mas eu estou aqui/ vivendo esse momento lindo/ de frente para você/ e as emoções se repetindo)Cama e Mesa(Eu quero ser sua canção/ Eu quero ser som tom/Me esfregar na sua boca/Ser o seu batton…), Detalhes (Detalhes tão piquenos de nós dois são coisas muito grandes para esquecer, e a toda hora vão estar presentes, você vai ver…) fazem-nos perceber toda a excelência do romantismo das canções de Roberto Carlos. Todavia, ele vai muito para além desse romantismo, pois também toca outro tipo de relações humanas, como aquelas que temos com os nossos pais, em “Meu Pai, Meu Velho, Meu Amigo”.
Há ainda o Roberto Carlos profundamente religioso que celebrizou Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui ou Nossa Senhora.
Temos ainda o Roberto Carlos brincalhão e bem-disposto, apitando ao volante do seu Calhambeque ou alguém que canta coisas tão fabulosas que saem do Fundo do Meu Coração(Vi todo o orgulho em sua mão,/Deslizar, se espatifar no chão/ Vi o meu amor tratado assim/ Mas basta agora o que você me fez/ Acabe com essa droga de uma vez, /Não volte nunca mais para mim). Descobri esta extraordinária canção numa interpretação excecional de Adriana Calcanhotto, que recomendo a todos ouvirem, pelo menos, uma vez.
Roberto Carlos está a despedir-se dos fãs que tem espalhados pelo mundo. Infelizmente, não consegui ainda vê-lo ao vivo, mas a sua música conquistou-me. Com a sabedoria das coisas grandes e belas, as canções de Roberto Carlos fizeram felizes milhões de pessoas, transmitindo o que de melhor a vida tem: o amor, a paz, a concórdia e a gratidão pelo enorme prazer que é viver.