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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

OS JOVENS PORTUGUESES ANDAM A FUMAR MUITA ERVA




Há umas semanas pedi aos meus alunos que propusessem para debate temas atuais que lhes interessassem. Deviam indicar o tema, defender uma posição, apresentar a argumentação que a sustentasse e lançar o debate. 

Surpreendentemente ou talvez não, um dos temas que colheu a preferência dos alunos foi o consumo de cannabis.
Com uma argumentação deficiente, um aluno defendia a liberalização do consumo da cannabis, pois, segundo ele, a cannabis tinha benefícios terapêuticos. Quando o indaguei sobre os malefícios, percebi que os desconhecia por completo, mas a convicção mantinha-se.
Percebi que a escolha do tema bem como o alinhamento da posição da maioria com a liberalização vinha de uma campanha feita nas últimas semanas pela liberalização da cannabis, sustentada na argumentação que esta teria apenas fins terapêuticos.

Na altura pareceu-me inusitado o debate, pois sempre se soube que a cannabis podia ter fins terapêuticos em alguns contextos, mas que os malefícios eram também por de mais conhecidos e justificavam a proibição desta substância.


Hoje revelou-se a peça que faltava no puzzle. Um estudo do Serviço de Intervenção dos Comportamento Aditivos e Dependências (SICARD) revela que nos últimos cinco anos o consumo da cannabis aumentou muitíssimo entre os jovens e jovens adultos portugueses. Beneficiando de grande complacência social e da uma campanha enganadora, segundo a qual a cannabis até faz bem à saúde, o consumo tem-se generalizado e cerca de 70% dos inquiridos confessou que consome cannabis com uma regularidade quase diária.

Toda aquela campanha fazia então sentido para mim. Criara-se a ideia que a cannabis até faz bem, antes que soasse o alarme social do aumento do consumo.
Cabe à comunicação social, aos médicos e aos agentes políticos colocar a questão como ela é. Essencialmente a canábis faz mal. Provoca mau humor, afeta os pulmões, diminui os níveis de testosterona, afeta a hormona do crescimento, cria disfunção eréctil, afeta o cérebro, pode provocar o cancro. Ocasionalmente, pode ter alguns benefícios terapêuticos, mas para esses casos existem os médicos. Tal como há medicamentos que só se podem tomar com prescrição médica, pois se fossem de toma livre causariam danos irreparáveis.
O que cada um pensa sobre a cannabis e o seu consumo é subjetivo, mas os seus efeitos negativos e positivos não o são. A cannabis não é proibida porque sim ou por uma qualquer norma de estilo. A cannabis é proibida, porque causa grandes danos à saúde. Não é preciso campanhas, é preciso dizer a verdade de forma clara e evidente e não deixar a saúde dos jovens portugueses à beira do abismo.   
GAVB

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

«AVOZINHO, SE TU FICARES EU TAMBÉM FICO»


Disse um puto de sete anos ao avô, quando o fogo ameaçava consumir a casa e todos os haveres amealhados durante uma vida de trabalho, sentindo que o avô se preparava para desistir.
Há nesta frase do João Pedro uma enorme coragem, determinação desprendimento, inconsciência até, mas acima de tudo isso um AMOR que comove qualquer um.
Entalado entre o fogo, o medo, a cobarde desistência e aquele enorme amor corajoso, o senhor Cristiano lá abandonou “aquele tudo” que afinal era tão pouco e fugiu das chamas que consumiram, em Outubro de 2017, a povoação de Barril da de Alva, em Arganil, concelho de Coimbra.
Neste domingo, família, Associação SOS Arganil e Fundação Benfica concretizaram o pequeno sonho do miúdo de sete anos: entrar no relvado do estádio da Luz com os seus ídolos.

Ao ler esta pequena notícia, perdida numa página interior dum jornal de hoje, desfoquei a minha objetiva de todas as personagens que o rodeavam. Ele era a única pessoa que passou a me interessar naquela foto cheia de craques que admiro. Não sei se o Pizzi tinha consciência, mas o herói ali era o João Pedro e a honra de lhe dar a mão e entrar em campo, perante mais de cinquenta mil pessoas, era do Pizzi.


O João Pedro salvou mais de que uma vida; a sua coragem e determinação, alicerçadas num forte amor ao avô, devolve-nos a esperança e enche de alegria o nosso coração.
O avô Cristiano dizia que, apesar de tudo o que foi perdido, do muito que ainda há que reconstruir, "o que interessa verdadeiramente é que estamos todos bem”. 
Essa agudeza de espírito, essa definição clara de valores, em momentos de stress máximo e angústia, teve-a o João Pedro. 
Ele não sabe, mas a sua história encheu de ternura, comoção e amor o dia de muitos como eu.

GAVB

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A EFACEC DE ISABEL DOS SANTOS



Quando Isabel dos Santos era a poderosa filha do presidente de Angola, não havia semana que não se falasse dela em Portugal. Que movia influência, que fazia e acontecia, apesar da maioria dos portugueses saber pouco do seu percurso profissional. Agora que Isabel assume apenas o papel de empresária, que investe em Portugal, e pretende reabilitar e relançar uma das mais importantes empresas da indústria portuguesa ninguém lhe liga nenhuma.

Apesar deste desinteresse dos media, a filha do ex-presidente de Angola esteve na Maia, na sede de Efacec, para inaugurar a nova unidade industrial de mobilidade elétrica da empresa.
Desde que adquiriu cerca de 66% das ações da empresa, a empresária angolana reestruturou a organização da Efacec e agora passa à fase do investimento. Os objetivos da unidade inaugurada [Unidade da Mobilidade Elétrica] são extremamente ambiciosos: atingir os 100 milhões de faturação no prazo de três anos; duplicar o número de empregos associados ao segmento dentro da empresa.
Se o projeto da angolana triunfar, a Efacec será um «player» importante no mercado da mobilidade elétrica. Nesta fase inicial a Efacec propõe-se construir carregadores rápidos para carros elétricos a um preço de mercado competitivo.

Não deixa de ser curioso que Isabel dos Santos resolva marcar presença num ato público empresarial em Portugal, precisamente no momento em que as relações institucionais entre os dois países estão profundamente abaladas por causa da constituição de arguido do ex-vice presidente de Angola, Manuel Vicente. Isabel dos Santos não quer só vincar a sua condição de empresária, mas também deixar claro que agora é apenas isso, ao mesmo tempo que vai furando o bloqueio institucional imposto pelo presidente angolano a Portugal. Também por isso, a presença de Isabel dos Santos na Maia tenha um profundo significado no xadrez político angolano, ou não fosse ela uma putativa candidata à sucessão do João Lourenço.
Sensatamente, António Costa enviou o seu ministro da Economia à Maia, para receber e agradecer à empresária angolana, não vá o atual poder angolano aborrecer-se ainda mais.

GAVB

domingo, 4 de fevereiro de 2018

O CANCRO DA CHANTAGEM NOS MEDICAMENTOS


«Com a saúde não se brinca!»
Ouvimos repetidamente isto ao longo da vida e o adágio popular tem servido para que os governos e os particulares gastem fortunas com os cuidados de saúde e em especial com os medicamentos.
Não é verdade que a saúde não tenha preço. Tem e, por vezes, ele é pornográfico, pois não há nenhuma justificação comercial, material ou até lógica para alguns valores que pagamos.

Numa entrevista dada recentemente ao DN e à TSF, o presidente do IPO de Lisboa, Francisco Ramos, referiu que,  nos tempos que correm, o governo português não tem qualquer capacidade negocial face às farmacêuticas e que estas testam constantemente os limites financeiros do Ministério da Saúde, aumentando os preços dos medicamentos, sem justificação, à boleia da chantagem emocional que sabem poder fazer, dado que a opinião pública jamais perdoaria a um governo que recusasse comprar um medicamento para um doente oncológico, absolutamente necessário à sua sobrevivência.

Neste momento o teto da chantagem está nos 500 mil euros por um só medicamento, para um único doente, durante um ano. Esta chantagem é um abuso intolerável, até porque o principal argumento da indústria farmacêutica colhe cada vez menos – os custos da investigação.
Se estivermos atentos, verificamos que muitas das verbas aplicadas na investigação provêm de dinheiros públicos, de doações, do apoio de fundações (que não pagam impostos). Se dermos uma olhadela pelos relatórios e contas das farmacêuticas, concluímos que continuam com lustrosos lucros, o que prova que a investigação (por muito dispendiosa que seja) não carece do esbulho feito na venda de muitos medicamentos.

O estado português deve ser firme na relação comercial que mantêm com as farmacêuticas, impondo-lhes regras fiscais condizentes com a sua postura de responsabilidade social. Não é verdade que elas tenham a faca o queijo na mão. A licença para atuar em determinado país depende do Estado assim como o próprio licenciamento dos medicamentos que circulam. Se a ganância e a má índole persistirem ainda existe a tributação especial para quem quer fazer fortuna à custa do infortúnio alheio.

Também era bom que a União Europeia atuasse de forma concertada, para que nenhum país, em situação económica frágil, ficasse à mercê deste vírus da ganância. 
GAVB

sábado, 3 de fevereiro de 2018

DUAS DISCIPLINAS E DUAS TURMAS E ESTÁ O RANKING DE UMA ESCOLA FEITO


Quando o ano letivo já vai a meio, lá saiu o momento mais desejado pelos jornais portugueses no que diz respeito à Educação: o ranking das escolas. 
Na verdade trata-se da média que os alunos de cada escola obteve nos exames do 9.º ano e do 12. ºano. E cada escola ganha direito a figurar nesse ranking desde que tenha proposto alunos à prova obrigatória de Matemática e  Português. 
Nas escolas secundárias, os alunos são submetidos a mais exames, mas não a todas as disciplinas que frequentaram. Isso pouco importa aos media, ávidos de tirar conclusões sobre a categoria de cada escola, de cada corpo docente, de cada projeto educativo.

É verdade que já passamos a fase da básica comparação entre privado e público, pois agora a moda é anotar as escolas que “inflacionam” as notas, com se não houvesse as que têm melhores notas nos exames que na avaliação interna, além do facto de ser impossível garantir que uma prova de duas horas consiga traduzir aquilo que o aluno aprendeu durante um ano ou três.

Adoro ler todas as leituras que hoje se fizeram sobre o tema, pois quase todas me fizeram sorrir. Desde do eterno diretor Filinto Lima que diz que os resultados agora divulgados se devem mais ao contexto escolar do que ao  trabalho dos professores; à conclusão do Público que afiança que a única coisa certa que os alunos podem esperar é que a maioria vai «chumbar» e não é nenhum dente enquanto o jornal I prefere sugerir que as escolas intervencionadas pelo Parque Escolar garantem maior sucesso (o lobby do cimento, dos engenheiros e arquitetos agradece, mas o ministro das finanças não). 

Curiosamente não consegui ler a opinião dos alunos e também fiquei sem saber se com ranking os alunos sabem mais ou sabem menos que há dez anos, quando a moda de hierarquizar escolas não existia.

O negócio adora rankings. 
“A escola X é ótima e a Y é péssima, por isso vamos tentar matricular o nosso filho na escola X”. “Vejam como somos excelentes, observem a nossa posição no ranking!”

E o filhinho sabe muito ou sabe pouco? É mais autónomo ou mais dependente? E como está o filhinho naquelas áreas que não contam para ranking nenhum? Isso não interessa nada! O que interessa é que o colégio ou a escola onde anda o nosso filho está bem situada ou nem por isso e talvez devêssemos pedir a transferência do nosso filho para outra mais seleta e que apresenta resultados.

Os resultados agora divulgados podem ser úteis para as escolas, para os pais, para os diretores e também para os professores, mas hierarquizar as escolas como se elas entrassem numa corrida qualquer só atrapalha.
Vai demorar tempo a aprendermos a darmos aos rankings apenas a importância que eles merecem!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

QUATRO ANOS DE PECADOS IMORTAIS

 
O dia 2 de Fevereiro é um dos meus dias preferidos do ano.  Além de ser o dia em que dois irmãos decidiram nascer,  também é  o dia em que este blog sopra as suas velinhas.  Neste momento são quatro e os resultados superaram muito as minhas expectativas. Mais de 1410 posts,  mais de 1.550.000 de visitas e, sobretudo, muitos amigos que leem o texto que blog diariamente publica.
De ano para ano o número de leitores sempre foi subindo, o que trouxe maior entusiasmo mas também maior responsabilidade.
Ser criativo, atrativo e atual sem ter medo de ter uma opinião que vá além do politicamente correto é uma tarefa árdua e complexa que procuro cumprir com alegria e ambição.
A partilha das nossas ideias, das nossas ambições, do nosso particular ângulo de visão sobre factos, figuras, acontecimentos tem o condão de despertar a opinião, o conhecimento e a sensibilidade de quem está do outro lado. Essa dialética sempre me fascinou.
Por isso sempre publiquei todos os comentários que me chegaram (muitos deles anónimos), por isso tento entusiasmar alguns leitores deste blog a postarem os seus artigos.
Nestes quatro anos já o fizeram mais de duas dezenas de pessoas e gostaria imenso que o número aumentasse no quinto ano.
O desafio é sempre fazer melhor, atingir novos públicos, inovar, respeitando valores fundamentais como a liberdade de expressão e opinião, o respeito pelo outro, a beleza deforma e conteúdo.
Hoje o blog é visto diariamente por uma média de 2500 pessoas. No princípio, este número era atingido ao final de um mês.
Deu muito trabalho chegar aqui, mas também muito prazer. O prazer de escrever, de descobrir, de pensar sobre a vida, sobre os acontecimentos do quotidiano ou sobre as diversas formas que a arte todos os dias nos oferece.
Tal como pensava há quatro anos, a amizade é a melhor maneira de embrulhar tudo isto.
 
Gabriel

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

MINISTÉRIO DA SOLIDÃO


Não é uma ideia parva ou nascida da cabeça de algum poeta, mas uma inovação do governo inglês de Theresa May. A primeira-ministra inglesa justificou a criação de um Ministério da Solidão no Reino Unido com as “demasiadas pessoas para quem a solidão é a triste realidade da vida moderna”.
Sem hesitações nem preconceitos, May nomeou a mais bizarra ministra do seu executivo, Tracey Crouch, que terá a tarefa de superintender um grupo intergovernamental que atuará sobre a problemática da solidão em todas as parte do governo.
Estou curioso para perceber como os pragmáticos ingleses tratarão  a nível formal esta questão. Que ações levarão a cabo? Como abordarão a questão e em que grupos incidirão a sua ação? E sobretudo como a sociedade reagirá ao trabalho deste grupo.

Não deixa de ser curioso ver como o Reino Unido está a  atuar em contra-mão face ao resto da Europa e até do mundo. Quando todo o mundo se abre ao exterior, arrastado pela locomotiva dos jovens, os ingleses isolam-se no seu Brexit decretado pelos seus velhos.
Quando toda  a gente procura Londres para fazer negócios, para conhecer pessoas, para estar no centro dos acontecimentos, o governo inglês preocupa-se com a solidão de grande parte da sua população.
Um relatório recente refere que cerca de nove milhões de adultos, em Inglaterra, estão quase sempre solitários e que mais de um terço desse assustador número tem na televisão a sua grande companhia.
Não sei como e com que êxito se desenvolverá a ação deste inusitado Ministério da Solidão, mas uma coisa é certa – Theresa May está atenta às pessoas mais velhas, ao drama da sua existência e prefere fazer alguma coisa do que fingir que não vê milhões de olhos tristes, desolados e sem esperança.
Talvez o futuro dos mais novos esteja na resolução do grande problema dos velhos.

GAVB