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domingo, 7 de maio de 2017

A FIGURA DA MÃE NA TELEVISÃO


Como é que a televisão trata a figura da Mãe? Ao contrário do que seria de esperar, não temos um padrão único nem sequer um estilo tradicionalista. A mãe das séries televisivas mais icónicas das últimas décadas oscila entre a mãe-exemplo e a mãe-desnaturada.

Quem é fã de “Uma Família Moderna” há-de lembrar-se de uma Claire Dumphy que tem de lidar com um marido infantil, um irmão imprudente e uns filhos insensatos.

Na mesma linha segue Marge Simpson, exímia a gerir as birras do filho como a imaturidade do marido. No entanto, se nos recordamos da “Guerra Dos Tronos” já a imagem da mãe não é tão positiva. Os filhos de Cersei Lannister são fruto de uma relação incestuosa e proteger o trono foi sempre mais importante que proteger os filhos. Acima da maternidade está a ambição de poder.
A mesma cartilha lê Selina Meyer em “Veep”. Ela é a mãe oportunista, que não hesita em usar a filha para ganhar votos na corrida presidencial do marido.

Apesar destas versões «noir» do papel de Mãe, o normal é a televisão gravar na nossa memória uma mãe e mulher como Alicia Florrick, protagonista de “Good Wife”. Ela é a mulher de armas que decide aguentar ao lado do marido, apesar de lhe descobrir a faceta de corrupto e infiel. Fá-lo contra todas as pressões e mantendo um extraordinário equilíbrio emocional.
Em “Fresh off rhe boat” revisitamos aquele tipo de mãe rígido, intransigente e exigente, que não olha a meios para fazer dos filhos os melhores. Apesar desta inflexibilidade (tão característica em muitas mães), Jessica Huang consegue surpreender-nos com o seu excelente humor.
Por falar em humor, quem não se lembra da “Família Adams” e da desconcertante Morticia Adams, que fazia tudo para torturar os seus pobres rebentos? Já Lorelai Gilmorai (“Gilmore Girls”) parece nunca ter perdido a cabeça adolescente do tempo em que se tornou mãe e preferiu adotar o estilo mãe-permissiva, apostando mais em ser a melhor amiga da filha do que investir no papel de mãe.


Para terminar, recordo Jane Villanueva (“Jane The Virgen”), que encarna o protótipo de mãe focada, responsável e estudiosa. Alguém que nunca deixou de investir em si sem deixar de cumprir, com distinção, o sonho da maternidade. 
GAVB

sábado, 6 de maio de 2017

O RACISMO É QUASE SEMPRE UM PROJETO POLÍTICO


A frase é do investigador e historiador Francisco Bethencourt, organizador da exposição Racismo e Cidadania, patente a partir de hoje, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.
O professor do King’s College defende que o racismo não é inato e resulta da combinação do preconceito quanto à descendência étnica e ação discriminatória.


O que mais me surpreendeu nas breves palavras Francisco Bethencourt ao Expresso foi a ideia que o racismo é muitas vezes desencadeado por projetos políticos. Nunca tinha observado a questão desse prisma, mas ela faz sentido.
Nem a xenofobia nem o racismo são inatos, mas frequentemente eles são “trabalhados” por determinados partidos políticos que apostam em insuflar esses sentimentos nos eleitores quando sentem que a sociedade livre, igualitária e democrática tem dificuldade em responder às crises económicas que ciclicamente desafiam as sociedades modernas.
Em muitas pessoas há, adormecido, o vírus da intolerância e do preconceito, mas a verdade é que este é também muito bem desenvolvido por gente sem escrúpulos e que se aproveita das fragilidades do instinto humano para capitalizar politicamente.

É possível que hoje não fique bem alguém dizer-se racista, mas o discurso do nacionalismo exacerbado contra os imigrantes é uma espécie de racismo sem cor, e esse passa lindamente.


Como se luta contra isto? Denunciando o aproveitamento político, desmontando ideias erradas de que somos donos da terra apenas porque nascemos em determinado país, antecipando os momentos de depressão económica, de maneira a manter a enferrujar o animalesco instinto de sobrevivência que existe em muitos de nós.

Mais do que um truque de baixa e miserável política, o racismo é uma vitória do animal sobre o racional.
GAVB

sexta-feira, 5 de maio de 2017

OS ALUNOS NÃO PRECISAM DA ENCICLOPÉDIA, MAS PRECISAM DO CONHECIMENTO


Na entrevista ontem publicada na revista Visão, o secretário de Estado da Educação, João Costa, afirma com grande pompa e circunstância que “os alunos precisam de ir muito para além do conhecimento enciclopédico”. Uma constatação óbvia que, arriscaria dizer, todos os professores já têm como adquirida há anos. Aliás, há décadas que o conhecimento adquirido nas escolas não é enciclopédico, embora algum material que o Ministério disponibiliza às escolas seja do tempo em que a enciclopédia era muito bem vista.

João Costa diz ainda que não faz sentido ensinar da mesma maneira em todos os recantos do país. Outra trivialidade: já não se ensina, mas convém lembrar ao secretário de Estado da Educação que o seu Ministério realiza exames nacionais de acesso ao ensino superior e esses são iguais para todos, como tem de ser. Quem os faz são a nata dos alunos portugueses, portanto, quando João Costa, fala em projetos próprios das escolas está a referir-se a projetos destinados aqueles que não pretendem seguir o ensino superior, ou seja, os alunos menos dotados.

Destinando esses percursos alternativos aos piores alunos como quer o Ministério da Educação retirar deles grande sumo qualitativo? Não me parece… parece-me apenas que o ME quer fazer um embrulho muito bonito de algo que não tem brilho nenhum: acabar com as retenções.
Falar em modelos da Finlândia, do Canadá ou da Nova Zelândia é demagógico. Que comparação social, económica, cultural podemos fazer com eles? Pouca ou nenhuma. Era como pensar em desenvolver o modelo de educação húngaro a partir do exemplo da Nova Zelândia.

No reino das trivialidades óbvias, João Costa esqueceu-se daquela que me parece a mais óbvia: nenhum aluno pode dispensar o conhecimento. Até pode dispensar que o transitem de ano, mas jamais se conseguirá afirmar numa sociedade portuguesa, europeia ou outra se não desenvolver o seu conhecimento. O secretário de Estado quer que ele vá além do conhecimento enciclopédico? Eu acho que ele nem abrange o conhecimento do manual quanto mais da enciclopédia. 
A questão sempre teve na maneira como este conhecimento lhe chega e na tradução prática daquilo que aprende. E isso é formação de professores e coragem na revisão dos curricula, senhor secretário de Estado da Educação. O resto é apenas um embrulho muito bonito em forma de diploma para cumprir metas da escolaridade obrigatória.

Gabriel Vilas Boas 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ENTÃO O SUPER MARCELO AINDA NÃO LEVOU O SEU AFETO A ALMEIDA?




O concelho de Almeida, no distrito da Guarda, vive dias de agitação com a decisão da administração da Caixa Geral de Depósitos em fechar o único balcão que a CGD tem no concelho. Os almeidenses estão revoltados, indignados e isolados neste protesto.
         O presidente da Caixa nem se digna atender o Presidente da Câmara de Almeida, o primeiro-ministro não tem uma palavra e o Presidente da República, sempre tão solícito, preocupado e atento aos problemas dos mais desfavorecidos também se esqueceu da população de Almeida.
         
Considero a atitude de Paulo Macedo chocante. Ele é um nomeado pelo governo para a direção de um banco público, ou seja, em última análise, um empregado do povo português; já o Presidente da Câmara de Almeida foi eleito pelo povo, é o seu representante. Como é possível a um empregado (por mais poderoso que seja) dizer que não recebe o representante do patrão? E ninguém no Ministério das Finanças chama a atenção a Paulo Macedo? Também chocante é a atitude do primeiro-ministro, embora não seja surpreendente. Ele é o chefe do governo de Portugal, isto é, tem de ter uma visão social do problema e não apenas económica. 


Foi por causa dessa importância social e estratégica da CGD que o povo (através dos seus representantes – deputados) concordaram em se endividar mais cinco mil milhões de euros para restruturar a CGD, que é como quem diz, tapar os buracos deixados pelos amigos dos anteriores governantes. E agora António Costa não tem uma intervenção, impondo a manutenção do balcão de Almeida, por meia dúzia de migalhas? Será que Costa tem a noção da bárbara injustiça que isso significa? Com que lata nos falará ele de coesão social, de justiça redistributiva?

E Marcelo? Por onde anda o super-homem português que não deixa na mão um sem-abrigo, que foi a um ensaio da companhia Cornucópia, pressionando, de seguida, o ministro da Cultura para salvar a Companhia teatral de Luís Miguel Cintra (curiosamente a Companhia fechou mesmo, mas o Estado comprou o seu acervo – milagres culturais…) e agora ainda não teve uma palavra, um telefonema, uma selfie que seja, de apoio à gente de Almeida.
Uma agência da Caixa não custa assim tanto manter. Há concelhos tão pequenos como Almeida que mantêm agências da Caixa e de outros bancos. Almeida ficará sem nada. Afinal de contas o que significa ser concelho se até um mísera agência do banco público não consegue ter?

Gabriel Vilas Boas     

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A CHINA VAI ENTREGAR A COREIA DO NORTE A TRUMP


Talvez não seja exagerado afirmar que a força do dinheiro acabou de comprar os últimos resquícios de comunismo que existiam em Pequim, quando nos apercebemos como a China não defendeu os malucos de Pyongyang do tresloucado ataque de Trump, com o mais poderoso míssil convencional ao seu dispor.
Ao ler, hoje que “China pediu aos seus cidadãos que saiam da Coreia do Norte”
restam-me poucas dúvidas que Trump tem as costas livres para atacar aquele maníaco das bombas atómicas, pois contará com a não oposição da China (e da Rússia) no Conselho de Segurança da ONU.

Claro que corremos o risco do líder norte-coreano ser mesmo maluco e haver uma escalada nuclear, mas penso que esse risco diminui com este sinal da China.
E por que é que a China abandona os coreanos à sua sorte? A razão é óbvia: os chineses têm rios de dinheiro investido nos EUA e não pretendem pôr em risco esse investimento para sustentar a posição de um tigre de papel.
Parece agora clara a estratégia de Trump, quando no início do mandato falou forte e grosso para Pequim: fazer os chineses pensar que o seu investimento em dívida pública americana estaria em perigo, para nesta altura os ter como não-inimigos no ataque propagandístico que faria à Coreia. Com o sorriso cúmplice de Putin, Trump fará aninhar a Coreia ao bom estilo americano do far west.

Talvez a Coreia ainda não tenha percebido, mas está perto do fim. É possível que os chineses ainda lhes deem a escolher a hipótese de uma saída airosa, mas com Trump talvez isso nem seja possível.
Como não será possível à Ucrânia recuperar os territórios que os russos lhe usurparam. Hoje por hoje, o comunismo é só um invólucro encarquilhado que sustenta a ditadura do capitalismo a leste e a oriente.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 2 de maio de 2017

UM PÉSSIMO ATO DE GESTÃO


Hoje, alguns jornais titulavam que há gestores, em Portugal, a ganhar mais do que 100 trabalhadores da empresa que gerem. São uma minoria ínfima, mas existem, e tal facto, num país como o nosso, (que dá muito valor ao que é simbólico e obsceno para se escandalizar hipocritamente) tem valor mediático. Marcelo, que conhece como ninguém como deve lidar com os media, achou-se chocado. Eu estou chocado com a sua hipocrisia, mas o assunto não é esse.
A questão fundamental é que nenhum gestor «vale» por cem trabalhadores. A sua importância na empresa, a sua relevância estratégia é condicionada por diversos fatores externos e internos, que ele não controla em absoluto, e por isso o seu peso específico é bem menor do que aquilo que aufere.

O grande problema é olhar para o gestor como um acionista ou dono da empresa ou então decidir o seu salário pela faturação da empresa. Como, muitas vezes, decidem em causa própria, os gestores beneficiam-se injustificadamente ou pressionam indecorosamente a administração/patrões com a informação sigilosa que possuem.
É verdade que os gestores de topo tomam decisões que envolvem milhões de euros, mas os seus trabalhadores também produzem produtos no valor de milhões de euros e contribuem para os astronómicos lucros da empresa sem que esse critério seja tido em conta na decisão do salário que auferem. Já quando a empresa dá prejuízo ou é evidente que o gestor tomou uma má decisão, nenhum gestor se sente na obrigação de indemnizar a sua empresa.
Atribuir a um gestor o valor comercial 30, 40 ou mesmo 100 vezes superior ao de um trabalhador é um péssimo ato de gestão a vários níveis, mas eu prefiro apenas destacar um: o psicológico. Com que motivação trabalhará um emprego que sabe que grande parte do sucesso da empresa apenas compensará uma pessoa ou um pequeno grupo delas?
Os gestores públicos e privados portugueses gostam muitas vezes de dar o exemplo de empresas estrangeiras e dos valores praticados por estas quanto à remuneração dos gestores, mas nunca referem que a décalage para o empregado comum dessa empresa é bem menor que em Portugal. Por que será?

GAVB

segunda-feira, 1 de maio de 2017

FELIZ DIA DO COLABORADOR


1 de Maio de 2027
Estava uma linda tarde de primavera e na redação da Quo todos tinham vindo trabalhar, apesar de a administração ter vincado que era feriado, Dia do Trabalhador, e ninguém estava obrigado a fazê-lo. No entanto, quem viesse trabalhar dobraria o salário daquele dia. Todos compareceram, até porque não havia nada para fazer – a revista tinha ido para as bancas no dia anterior e o próximo número ainda vinha longe.
         Faltava apenas o Francisco, o sindicalista, o mais velho de todos e o único que fazia questão de ser tratado por “trabalhador” e não como “colaborador”.
         
Francisco era competente; escrevia bem e sabia muito de História. Todavia mantinha aquelas ideias de sindicalista tonto, sempre a praguejar pelos direitos do trabalhador. Ninguém lhe ligava. Nos últimos dez anos não tinha conseguido uma única adesão ao sindicato dos jornalistas entre os colegas. Apesar do seu ar contestatário a administração não o despedia – sabia o que escrevia; tinha ótimos contactos nos sindicatos, nos partidos políticos e na função pública. Um erro dispensá-lo! Quanto a ele, ninguém sabia por que continuava: o baixo salário não era atualizado há seis anos; as regalias diminuíam de ano para ano; perdera estatuto dentro da revista para quem sabia menos do que ele e os colegas gozavam-no, à socapa, sempre que ele se punha com a cartilha dos direitos do trabalhador.
       
  Inesperadamente, Francisco avisara de véspera que naquele dia viria trabalhar. Os colegas admiraram-se, mas abstiveram-se de comentários. Dois deles, no entanto, preparam-lhe uma surpresa: um bolo. “Não faz anos, mas era o Dia do Trabalhador” – atirou a Rita com ar sarcástico.
         Depois do almoço, Francisco apareceu na redação com ar sorridente e anunciou aos colegas:
         -A partir de hoje sou um dos vossos. Não quero que me tratem mais por Francisco, o sindicalista, mas somente por “colaborador”.
        Todos se entreolharam estupefactos. O que teria acontecido? Aquilo seria uma piada? Zangara-se com os camaradas do sindicato? Fez-se um constrangedor silêncio na redação apenas quebrado pelo António que comunicou ao neófito colaborador:
        
-O chefe disse que, quando chegasses, fosses ao gabinete dele.
         Mal entrou o chefe atirou:
-Isto são horas de chegar, Francisco? Disseste que vinhas hoje… mas não era para chegar às horas que te apetece!
         -Caro colega, não vejo porque te irritas. Cheguei às horas que me apeteceu…
         -Colega!? Às horas que me apeteceu!? Aqui há hierarquia – um chefe, vários subordinados… - e um horário a cumprir.
         -Isso era dantes, colega. Eu agora sou colaborador, portanto apenas colaboro contigo e com os outros… colega. Quanto ao horário, não acho que tenha de cumprir nenhum em especial. Afinal de contas, não há hora de saída, não há hora de almoço, por que havia de existir hora de chegada? Uma inutilidade.
        
-Deixa-te de tretas, Francisco! Pega aqui neste tema sobre o declínio dos sindicatos na Europa e começa a trabalhar esta matéria para o próximo número.
         -Nada disso, colega-chefe. Como te disse, sou apenas um colaborador. Se o colega precisar da minha colaboração, eu posso dar-lha, pois é para isso que me pagam, no entanto, se é um trabalho que me pede não o poderei executar, porque a partir de hoje deixei de ser trabalhador e ingressei na nobre carreira de colaborador.
         E saiu porta fora e foi sentar-se à sua secretária. Entretanto a Rita abeirou-se dele e começou a queixar-se da administração que não a deixava faltar justificadamente por assistência à filha doente nem lhe dava uma folga há cinco semanas. Francisco sorriu mas nada disse. 
Juntou-se-lhes o Pedro que queria saber dos seus direitos, visto que trabalhava na revista há cinco anos e mantinha o salário de estagiário. Francisco sorriu ironicamente:
        
-Trabalhas!? Não, Pedro, tu colaboras! E como eles te ficam tão gratos pelos teus serviços, no final do mês, dão-te uma gratificação. Eu sei que te parece uma gorjeta, mas também só “colaboras”, ou seja, fazes um trabalho em colaboração, a meias… Percebes?
         Entretanto Francisco levantou-se e deu de caras com o bolo ao centro estava inscrito “Feliz Dia do Trabalhador, Francisco”.
         Ele não desfez a pose e foi buscar uma garrafa de espumante, copos e uma faca. Partiu o bolo em fatias, uma para cada um, encheu os diversos copos. Retirou uma fatia de bolo e ergueu um copo em direção aos colegas.
         -Feliz Dia do Colaborador, colegas!

         Um silêncio profundo invadiu a sala. Ninguém pegara no seu copo, ninguém fora buscar a sua fatia. Francisco deu a colaboração daquele dia por terminada e foi para casa.
GAVB