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sexta-feira, 5 de maio de 2017

OS ALUNOS NÃO PRECISAM DA ENCICLOPÉDIA, MAS PRECISAM DO CONHECIMENTO


Na entrevista ontem publicada na revista Visão, o secretário de Estado da Educação, João Costa, afirma com grande pompa e circunstância que “os alunos precisam de ir muito para além do conhecimento enciclopédico”. Uma constatação óbvia que, arriscaria dizer, todos os professores já têm como adquirida há anos. Aliás, há décadas que o conhecimento adquirido nas escolas não é enciclopédico, embora algum material que o Ministério disponibiliza às escolas seja do tempo em que a enciclopédia era muito bem vista.

João Costa diz ainda que não faz sentido ensinar da mesma maneira em todos os recantos do país. Outra trivialidade: já não se ensina, mas convém lembrar ao secretário de Estado da Educação que o seu Ministério realiza exames nacionais de acesso ao ensino superior e esses são iguais para todos, como tem de ser. Quem os faz são a nata dos alunos portugueses, portanto, quando João Costa, fala em projetos próprios das escolas está a referir-se a projetos destinados aqueles que não pretendem seguir o ensino superior, ou seja, os alunos menos dotados.

Destinando esses percursos alternativos aos piores alunos como quer o Ministério da Educação retirar deles grande sumo qualitativo? Não me parece… parece-me apenas que o ME quer fazer um embrulho muito bonito de algo que não tem brilho nenhum: acabar com as retenções.
Falar em modelos da Finlândia, do Canadá ou da Nova Zelândia é demagógico. Que comparação social, económica, cultural podemos fazer com eles? Pouca ou nenhuma. Era como pensar em desenvolver o modelo de educação húngaro a partir do exemplo da Nova Zelândia.

No reino das trivialidades óbvias, João Costa esqueceu-se daquela que me parece a mais óbvia: nenhum aluno pode dispensar o conhecimento. Até pode dispensar que o transitem de ano, mas jamais se conseguirá afirmar numa sociedade portuguesa, europeia ou outra se não desenvolver o seu conhecimento. O secretário de Estado quer que ele vá além do conhecimento enciclopédico? Eu acho que ele nem abrange o conhecimento do manual quanto mais da enciclopédia. 
A questão sempre teve na maneira como este conhecimento lhe chega e na tradução prática daquilo que aprende. E isso é formação de professores e coragem na revisão dos curricula, senhor secretário de Estado da Educação. O resto é apenas um embrulho muito bonito em forma de diploma para cumprir metas da escolaridade obrigatória.

Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 27 de março de 2017

A FLEXIBILIZAÇÃO DITARÁ UMA ESCOLA PÚBLICA A VÁRIAS VELOCIDADES


Ainda que a medo, o ME lá disse como pretende fazer a famigerada flexibilização curricular, onde dará às Escolas a possibilidade de escolher 25% do Curriculum. 
Tal como suspeitava, acho mesmo que serão os Diretores, mais coisa menos coisa, a decidir o que houver de relevante a decidir.
Para já a reforma arrancará em projeto-piloto, em algumas escolas (preferencialmente TEIP), e a convite do Ministério da Educação. 
Começa bem, antes de escolher o que quer que seja, as Escolas começam por ser escolhidas!

O ME é que decide em que Escolas a flexibilização será implementada. Escolhe as TEIP porque são “território seguro” e já habituado a experiências educativas. 

Acho que os professores serão chamados a trabalhar em projetos em comum, no fundo a criar/recriar novas disciplinas, mas não terão nenhum voto na matéria quanto ao seu peso no curriculum das turmas nem quanto à fundição de disciplinas, nem quanto à maneira como os professores se agruparão para concretizar os projetos. 
Um pequeno grupo (quando não o Diretor) tomará essas importantes decisões em Julho, depois do acordo do ME, e os professores que vierem a ser colocados em finais de Agosto executarão, completamente às cegas, o que outros decidiram. Prevejo que muitas disciplinas ditas teóricas, como História e Geografia, sofram bastante na diminuição dos seus créditos horários.

A flexibilização é para tornar mais fácil e cómoda a passagem dos alunos, privilegiando as disciplinas/projetos mais práticos. Não tenhamos dúvidas! 
Ora isto pode ser testado e até executado na grande maioria das escolas públicas portuguesas, mas manda o bom senso que se comece pelas TEIP, onde os professores estão habituados a obedecer aos projetos-pilotos e esfalfar-se por eles até que estes se esgotem ou esgotem os docentes.
Quanto às outras escolas, ou têm resultados nos exames que as sustentem no curriculum nacional (aquele que ninguém mexerá porque dá acesso aos principais cursos universitários) ou passam também a modo flexibilização curricular.
A flexibilização terá, enfim, o que já se tentou fazer encapotadamente através da dicotomia escola pública/escola privada – uma Escola Pública a duas velocidades, onde uns estudam para entrar na universidade e ter acesso aos mais importantes cursos superiores e outros procurarão terminar o ensino obrigatório com sucesso.
Talvez seja isto o que muitos chamam “cair na real”, ser pragmático face ao tipo e nível de aluno que temos, mas o que morre, e de vez, é aquela ideia utópica que a Esquerda tanto gosta de apregoar de uma Escola Pública de qualidade para todos.

Não é necessariamente mau, mas não é aquele conto de fadas que nos querem vender.
GAVB

domingo, 5 de março de 2017

O ENGODO DAS DISCIPLINAS SEMESTRAIS


Mais uma vez, de uma maneira informal, o Ministério da Educação pôs a circular notícias que dão conta da sua intenção em transformar as disciplinas de História e Geografia em disciplinas semestrais, tendo os alunos durante uma parte do ano Geografia e noutra parte História.
A ideia de um ano letivo dividido em semestres é muito querida entre os Diretores Escolares; já de pais, alunos e professores nunca o ME quis saber a opinião.
Atualmente um professor de História ou Geografia tem 100 minutos (duas aulas de cinquenta minutos) semanais para cumprir o extenso programa do 7.º e 8º anos, por exemplo. O tempo nunca é suficiente e nisso todos concordam. Talvez por isso, o ME prometeu aumentar o tempo dedicado à História. Ora isso significa, pelo menos, mais 50 minutos. Essa ideia pareceu sempre mais sólida do que diminuir o programa da disciplina, o que a acontecer implicaria o aval dos professores de História. Como o processo de consulta não está a decorrer, não deve estar para breve a concretização desse corte.

Agora façamos um exercício simples: atualmente temos 100 minutos + 50 minutos (prometidos) de História, durante todas as semanas do ano. Ao passarmos a disciplina para semestral, teríamos de ter seis tempos letivos semanais de História (ou Geografia), para os alunos do 7.º ano e oito tempos para os alunos do 9ªano. Acham que será isto que vão propor? Não me parece…
A passagem de História e Geografia a disciplinas semestrais é capaz de servir para pôr de lado a promessa de aumentar a carga letiva efetiva das duas disciplinas ou até de a diminuir.
O ME da Educação não fala em aumento de horas letivas para os alunos, mas adianta que pretende dar mais aulas a História, a Geografia, às Expressões e ainda introduzir Área Projeto e Educação para a Cidadania. Isto significará sempre mais quatro ou cinco tempos letivos. De onde é que eles sairão? De Português, de Matemática? É possível. E o resto de onde virá?
Ou muito me engano ou os professores de História terão de dar o mesmo programa em três aulas de 50 minutos, mas apenas durante um semestre. Em vez de aumentarem 50% o tempo da disciplina ainda vão acabar por diminui-lo…

GAVB