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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE BANKSY NO PORTO E EM LISBOA



A exposição “Banksy’s, Dismaland and Others” vai chegar a Portugal dentro de pouco dias. A abertura está marcada para o dia 19 de janeiro, na Alfândega do Porto, e irá seguir viagem para Lisboa, em local ainda a designar. 

A exposição não tem carácter oficial (ou não estivéssemos a falar do misterioso Banksy) e é organizada por Barry Cawston, que muitos julgam ser o fotógrafo de Banksy, mas que apenas se assume como divulgador as suas obras através das fotografias. 

'Banksy, Dismaland and Others' by Barry Cawston é uma exposição poderosa e que atrairá, por certo, muitos curiosos. Através dela será possível viajar através do polémico e misterioso trabalho de um artista, que, há mais de 25 anos, usa a sua arte para questionar os valores da sociedade e que chega, agora, e pela primeira vez, a Portugal. 

Para além das fotografias de Barry Cawston, a exposição vai ainda integrar uma série de trabalhos de jovens artistas portugueses, servindo também como rampa de lançamento de novos nomes do universo da arte urbana.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

TRAGÉDIA NO DOURO


Para os portuenses, a mais sinistra das invasões francesas foi a segunda, a de 1809, quando o começo da Primavera trouxe o terrível general Soult ao norte de Portugal, para, no espaço de duas semanas, tomar posse de uma parte significativa de um reino desordenado e indefeso.

Napoleão estava ávido de vingança, depois da humilhação sofrida em 1908, e por isso trouxe as tropas até Madrid e encarregou o Soult de arrasar o norte de Portugal. Chaves foi uma porta fácil de arrombar e Braga rendeu-se sem grande luta, o que muito enfureceu a população, que logo tratou de assassinar o seu fraco defensor, à paulada.

O Porto também não resistiu mais de três noites. A 29 de Março de 1808 a multidão desodenada tentou correr sobre as águas do Douro, tendo as famosas barcas como tapete salvador. Obviamente o frágil chão cedeu e vários alçapões se abriram naquelas centenas de metros que separam as margens do rio Douro. Para muitos milhares de portuenses, aquela foi a sua última noite. O povo falou em vinte mil mortos, mas relatos menos emotivos apontam para quatro mil portuenses que deixaram as suas vidas no Rio Douro. Acossados pelos franceses, pelas costas, os fugitivos empurraram-se a ânsia de alcançarem a outra margem, acabando, muitos deles por cair à água e afogarem-se na forte corrente que o rio trazia. 

A cidade chorou amargamente aquela desastre, mas Soult não ficou muito tempo a saborear a vitória. Mês e meio mais tarde, já o general Wellesley cruzava o Douro, vindo de Gaia, e obrigava o fanfarrão Soult a fugir, com o rabinho entre as pernas, para a Galiza. 

Os franceses ficaram pouco tempo na cidade e no país, mas o suficente para espalhar o horror e a destruição. O povo que tinha feio a revolução da "liberdade, igualdade e fraternidade" mostrava-se boçal, carniceiro, não respeitando tradições, pessoas, património. 

Para o Porto ficava aquela mancha histórica e social, que o tinha feito prder em toda a linha: as pessoas, os bens e o orgulho. 

GAVB 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

DESCOBRINDO O PORTO OITOCENTISTA EM TEMPO DE GUERRA


Com o objetivo de assinalar o 220 anos do nascimento de Dom Pedro IV (o lisboeta que os portuenses mais amaram), a Irmandade da Lapa, em parceria com a autarquia portuense, a Misericórdia da invicta, o exército português, a Santa Casa da Misericórdia do Porto e a Direção Regional da Cultura do Norte promove a Rota do Porto Liberal. 

São dezasseis sítios históricos da cidade, onde se escreveram alguns dos momentos mais determinantes da História de Portugal, por via da Revolução Liberal de 1820, que haveria de se desenvolver em guerra civil entre absolutistas e liberais e na qual a cidade do Porto assumiu um papel preponderante, contribuindo de forma decisiva para a vitória dos liberais na guerra fratricida de 1932-34.

Rota Porto Liberal percorre esses lugares históricos, fazendo-nos deambular entre espaços e edifícios icónicos da cidade como A igreja de Nossa Senhora da Lapa, a Cadeia do Tribunal da Relação do Porto, o Museu Nacional Soares dos Reis, o Museu da igreja da Misericórdia, o Quartel General de Dom Pedro IV e o Quartel de Santo Ovídio, a rua dos Mártires da Liberdade, onde em 1929, os absolutistas de Dom Miguel mandaram enforcar e decepar os homens que passaram para a História como os Mártires
da Liberdade.


A Rota deve ser percorrida com tempo, energia e a companhia de um bom professor da História da Cidade do Porto, até para percebermos melhor toponímias como "Rua do Heroísmo", "Praça da Liberdade", "Rua General Sousa Dias" ou a importância que tiveram na História do Porto Oitocentista em tempos de guerra locais como "O Mosteiro da Serra do Pilar", "A Casa dos Guedes da Silva" ou "A Igreja dos Congregados". 

O projeto da Irmandade (que obteve o prémio de informação Turística) propõe ainda concertos e colóquios. A próxima atividade acontece já daqui a duas semanas, no dia 24 de Setembro - As Exéquias Em Memória De Dom Pedro IV", assinalando o dia da morte do rei soldado.

Percorrer a Rota Liberal do Porto ajuda imenso a descobrir a essência liberal, insubmissa e leal de uma cidade de alma única.

GAVB

quinta-feira, 19 de julho de 2018

ERRADICAR OS PORTUENSES DO PORTO


O processo está em marcha e não demorará muito tempo: daqui a uma década, se o tão desejado fluxo turístico à Invicta continuar, os portuenses serão uma espécie tão rara na sua própria cidade que ainda os convertem em atração turística.
É bom ter turistas e não apenas do ponto de vista económico ou de visibilidade exterior, mas é necessário ter um plano organizado para incorporar o turismo no tecido social da cidade, para que daqui a uma década não ter de criar um plano de emergência para proteger essa espécie em vias de extinção que será o portuense.


O problema, que se adivinha, irá assolar a identidade da cidade do Porto, já o sente Veneza ou Dubrovnik, Pamplona ou até Lisboa. É preciso perceber que a cidade atrai turistas pela sua atmosfera única, pelo rio, pelo vinho e pelas pessoas. Os turistas querem interagir com o portuense e não com outros turistas. Quando isso deixar de acontecer, o Porto  torna-se uma cidade artificial, igual a muitas outras, espalhadas pela Europa. 

No meu entender, é fundamental não expulsar os portuenses das zonas históricas, não lhes alterar os hábitos enraizados de uma maneira absurda e desrespeitosa. Não é bom submeter tudo aos interesses turísticos. A edilidade deve também preocupar-se com as necessidade dos portuenses e fazer opções de governo em que fique claro que atua para os portuenses antes de tudo. 

A norte, o exemplo da cidade do Porto será determinante para outras cidades, como Aveiro ou Viana do Castelo. Também por isso, o atual Presidente de Câmara tem uma responsabilidade que extravasa as fronteiras do seu concelho.
Seria tão bem sentir que o Porto continuará a ser uma cidade orgulhosa, nobre e... Invicta.

GAVB

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O PORTO TAMBÉM VAI TER A SUA TAXINHA


Em 2014, Pires de Lima do CDS/PP ridicularizou António Costa e a Câmara de Lisboa acusando-a de criar taxas e taxinhas, sobre o turismo de Lisboa, que acabariam por matar a galinha dos ovos de ouro do turismo, de que a capital começava a tirar bons dividendos. António Costa seguiu em frente, apesar de algum embaraço.

Lisboa cobra um euro por noite, a cada turista que a visita. Um euro é uma taxinha, mas Lisboa não é Londres, Roma, Veneza, Paris, Florença, Rio de Janeiro ou Barcelona. Felizmente, a capital saiu-se bem e hoje já consegue arrecadar quase um milhão de euros por mês com a sua taxinha turística.

O Porto de Rui Moreira segue-lhe as pisadas, mas pensa numa taxa de dois euros. Acho exagerado. O Porto não é capital do país e tem uma oferta inferior, embora seja, hoje, uma cidade mais sedutor e requisitada que Lisboa.


Uma taxa turística costuma ter uma de duas funções: ou seleciona os turistas, controlando o número daqueles que podem aceder à cidade ou fá-los pagar um pouco mais por estarem numa cidade muito visitada. Ora o Porto (como Lisboa) está numa fase de expansão turística e por isso não se pode dar ao luxo de parecer demasiado guloso e oportunista. O Porto vale pela sua atmosfera peculiar e única e não pelos extraordinários museus ou obras arquitetónicas. O Porto ainda é uma cidade acessível aos turistas europeus, ainda com uma interessante capacidade de absorção de visitantes e também por isso deve saber gerir a sua imagem junto deles.

Por outro lado, Rui Moreira diz que o dinheiro arrecadado será para investir na construção de habitação mais barata para a classe média/jovem, que quer morar no Porto, mas não tem meios financeiros para o fazer. A ideia é bonita, mas lírica e eleitoralista. Se o Porto quer aumentar o número de turistas, isso fará necessariamente aumentar o preço das habitações na cidade. Além disso, os jovens casais portuenses continuarão a ganhar os salários que se praticam em Portugal e por isso terão cada vez menos possibilidade de comprar habitação própria na cidade. Como tenho Rui Moreira como uma pessoa inteligente, o melhor é mesmo não se pôr com propostas demagógicas à custa das taxinhas do turismo que o Porto também vai ter.

GAVB

segunda-feira, 5 de junho de 2017

MIRA, CÓMO ES BONITO!


Quando chego a uma cidade, um dos meus objetivos é sempre poder observá-la de um sítio elevado. Então, se ela se estende por uma suave colina e tem um rio ou o mar como pano de fundo, esse desejo tem forçosamente que ser satisfeito. Para isso os miradouros são locais fantásticos, que nos proporcionam uma panorâmica única das cidades e imagens belíssimas que guardamos na memória como momentos de grande prazer sensorial.


Toda a gente conhece os míticos miradouros de Lisboa, pois uma viagem ao Bairro Alto ou ao Castelo sustêm os nossos passos e demoram a nossa vontade por largos minutos nesses locais onde a vista se lambuza.


Também a cidade do Porto é dotada desses sítios mágicos. Nalguns temos de pagar para ver, noutros convém pedir uma bebida, levar companhia e esquecer o relógio e compromissos.
Das várias opções, escolhi cinco: Torre dos Clérigos, Miradouro da Vitória, Miradouro das Virtudes, Miradouro Ignez e Miradouro da Serra do Pilar.
Convém não começar as visitas antes das 11 horas da manha para que a tradicional neblina portuense não embacie a lente da máquina nem entristeça o momento.
Se começarmos o dia por uma visita à Lello e seguirmos pelas Galerias, daremos tempo a que o sol destrua a neblina matinal e quando chegarmos ao cimo dos 240 degraus da Torre dos Clérigos desfrutaremos de uma vista de 360 graus sobre a Invicta. Qualquer pessoa se sente o Rei da Cidade.


No entanto, se a nossa opção for rumar à ribeira, o melhor é fazer uma paragem pela Miradouro da Vitória. Nem é preciso abrir muito o zoom da máquina para perceber os pormenores da Sé Catedral ou do Palácio da Bolsa, mas se o objetivo for ver as Caves do Vinho do Porto, do outro lado do Douro, o melhor é espreitar através do óculo e fazer click para uma grande fotografia. Antes de chegar à ribeira, não é mal pensado fazer uma paragem no Mercado Ferreira Borges ou no Palácio da Bolsa, porque há sempre qualquer coisa de interessante e única para ver ao perto que uma vista de cima não vislumbra.


Depois de um almoço a ver um rio D’Ouro, recomenda-se um passeio pelos Jardins do Palácio de Cristal. Recantos mágicos e românticos, um Museu e novamente uma vista deslumbrante sobre o rio cheio de barcas, de vinho e de História. Estamos no Miradouro das Virtudes. De lá vemos o azul intenso do rio, o leve serpentear da água entre Gaia e o Porto e só apetece sorrir para a vida.


Se tivermos companhia, o melhor é sugerir um pôr de sol no Ignez. Não fica longe (no Porto, tudo é relativamente perto) e a vista será acompanhada de boa bebida, excelente comida e agradável música. O Miradouro Ignez nasceu há pouco mais de um ano, a partir da requalificação de um edifício devoluto da Câmara Municipal, feita por dois amigos que lá instalaram um dos bares mais in da cidade. Vinho do Porto, uma grande panóplia de gins, cocktails e um fabuloso hambúrguer no bolo do caco, ao som de uma bela música e o pôr-do-sol parece um poema.


O sol pode se pôr mas o dia não acaba ainda, porque há o jantar. O melhor é escolher Gaia, pois quando o jantar acabar, qualquer amante de miradouros vai querer subir à Serra do Pilar. De lá pode ver a mais icónica imagem do Porto, à noite. É impossível não sair de lá com uma bela foto desse Porto Sentido e Único, que Rui Veloso tão bem imortalizou em música há trinta anos. Vá a pena tornar a ouvir.
GAVB


quarta-feira, 26 de abril de 2017

CAETANO VELOSO NO PORTO

Fotografia de Anabela Magalhães

O QUE É QUE O BAIANO TEM?

Mesmo aos 74 anos de idade, Caetano Veloso continua a cantar e encantar o público português, lotando as salas por onde passa. Aconteceu novamente ontem, no Porto, no Coliseu, e por isso, a esta hora, Caetano Veloso sobe novamente à mais nobre sala de espetáculos da cidade portuense.

Caetano Veloso só fez a segunda parte, porque antes a surpreendente Teresa Cristina encheu a sala com a sua voz potente, cristalina, delicada e afinada. 




Entre as várias canções que escolheu para o seu show, ficou-me no ouvido aquele “O Mundo É Um Moinho”, com o seu sábio o tocante refrão
Ouça bem, Amor,
Presta atenção: O mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir suas ilusões a pó”.


Depois veio o senhor da noite. Calmo e penetrante como o mar da Baia, de perna cruzada, pegou seu violão e foi desfiando algumas pérolas de uma carreira cheia de êxitos. Aquela voz de menino do Rio hipnotiza qualquer um. Caetano é esse menino que ainda provoca arrepio, pois nos faz sonhar com aquilo que sai da sua viola e da sua voz.
Caetano tem voz e coração de “Leãozinho” que todos gostam de ouvir cantar, como se de um amigo se tratasse. Ele é muitos sendo um, tanto traz o samba do Rio como a ternura da Baia. Ele é o cantor internacional e viajado e ao mesmo tempo o maior embaixador do tropicalismo brasileiro. No fundo, ele é “o vento que lança a areia do Saara, / sobre os automóveis de Roma/ a sereia que dança / A destemida lara”

Claro que nos cegas, Caetano. Com o teu Reconvexo (que a tua irmã canta melhor…) ou com aquele SOZINHO, sussurrado por todo o Coliseu numa comunhão de alma lindíssima. Quantas vezes no silêncio da noite, não penso em você ou nos vocês que me trazes à memória?

Com Caetano “Tudo está certo – dois e dois são cinco. /Cinco!” Deve ser por isso que Teresa Cristina disse que “Caetano é Foda”. Mesmo com 74 anos, depois de assistir a um espetáculo do homem, uma pessoa tem de concordar. 
GAVB


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

PORTUGAL TEM ORGULHO NO PORTO? E O PORTO ADMIRA O SEU PAÍS?


Pela terceira vez, a cidade do Porto foi eleita o melhor destino turístico europeu de 2017, numa votação à escala mundial, organizada pela European Best Destinations, uma organização que promove a cultura e o turismo na Europa.
A cidade portuguesa ficou à frente de Milão, reconquistando o galardão alcançado em 2012 e 2014. O Porto foi a cidade mais votada em França, Reino Unido, África do Sul, Coreia do Sul, Suécia, Canadá.
Obviamente os portuenses têm de estar felicíssimos com esta distinção, que os enche de orgulho assim como ao país. Ou pelo menos devia. 
Como é que o país olha para este prémio conquistado pela segunda cidade mais importante do país? Com alegria ou com indiferença? Com inveja ou com satisfação?

O primeiro-ministro deu publicamente os parabéns à cidade e fez questão de mencionar o prémio, mas o mais certo é que ele passe um pouco ao lado da rua principal das notícias do dia.
Muitas vezes os portuenses sentem, e com razão, que os seus feitos não são valorizados, que as suas gentes, costumes e monumentos não são promovidos e acarinhados devidamente. É possível que tenham alguma razão, mas também é verdade que a cidade sempre procurou afirmar-se pelo confronto, pelo primeiro «nós» e só depois o país, pela reivindicação constante.
Ora o Porto ficou mais bonito e atrativo quando se abriu ao mundo, deixando de lado o confronto com a capital, procurando vender-se sem apoucar os outros. Hoje o turista chega ao Porto e ninguém lhe esconde o Minho ou o Douro. O Porto vende-se (turiscamente falando) e sabe promover o resto do país. É claro que a bondade portuense ainda só se estende à região norte, mas creio que em poucos anos, quem chegar ao aeroporto Sá Carneiro receberá bastante informação de Coimbra, Viseu, até de Lisboa.

Para quem chega de outro país não percebe que uma cidade desvalorize outra cidade do seu país. Esta é a das maiores fraquezas que se podem apontar ao turismo português. Um turista alojado em Lisboa tem que ser seduzido a conhecer o Porto e vice-versa.
A rivalidade entre as duas principais cidades portuguesas só é salutar e benéfica para o país quando dotada de racionalidade. 
Além da conquista de turistas estrangeiros, o grande desafio que se coloca ao Porto é conquistar os turistas portugueses. Eles virão mais vezes quando deixarem de ouvir que o «Porto é o maior» ou a «melhor parte» do país e passarem a ouvir que o Porto é uma das partes mais belas e charmosas do país.

Melhor que suscitar inveja, é provocar admiração.
GAVB

quarta-feira, 23 de março de 2016

CASA DOS 24, de Fernando Távora


O edifício conhecido como CASA DOS 24 – mais rigorosamente, o edifício dos Paços do Concelho – situa-se junto à Sé do Porto e foi proposto como um sinal da reconstrução da zona envolvente da Sé que as demolições da década de 40 fizeram desaparecer.
Funcionando como um obstáculo vertical, A CASA DOS 24 reenquadra visualmente a Sé e a sua proximidade física face à catedral portuense permitiu reabrir o debate sobre os limites de intervenção arquitetónica em zonas de grande valor patrimonial.

O projeto de Fernando Távora constitui uma radical inversão dos propósitos “higienistas” que pretendem exponenciar a monumentalidade da Sé, criando uma esplanada que até permaneceu inacabada.
No plano programático, a CASA DOS 24 pretendia criar uma espécie de “memorial recordatório dos longos anos de vida e de História da cidade do Porto”, e por isso três pisos – à cota do Terreiro da Sé, da Rua Sebastião e ainda um intermédio – criam percursos e espaços para contemplar a beleza de uma cidade ímpar.

Não havendo documentos históricos que provem exatamente a conformação do edifício, Távora apoiou-se num documento que refere que este tipo de edifício teria mais de “cem palmos de altura”. No entanto, Távora propõe uma estrutura que evoca a antiga casa-torre. Assim sendo, “uma estrutura de paredes em U, repousando sobre parte da ruína inexistente”, ergue-se conformando três lados da torre.

O quarto lado é realizado com uma parede de vidro, permitindo uma leitura abrangente da cidade e criando uma escala mais amena face à malha urbana envolvente.
Continuando a trabalhar no sentido de recriar com clareza e projeto a matriz histórica dos edifícios ou espaços onde intervém, Fernando Távora pretendeu reintroduzir a relação original da Sé do Porto com a sua envolvente.

Siza Vieira considerou este projeto de Távora como pedra fundadora da intervenção que que ele próprio levou a cabo no início do século XX na chamada “Avenida da Ponte”, onde retomou a ideia consagrada neste edifício emblemático da cidade do Porto.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

PORTO EXIT GAMES, fazendo furor na movida portuense


Saí da frente do computado e vem jogar na vida real. Tens 60 minutos para mostrares o que vales e escapares de uma sala fechada, onde misteriosos enigmas desafiam a tua mente a encontrar a porta de saída.
Exit Games é o entretenimento da moda na cidade do Porto e está a fazer furor quer entre os turistas estrangeiros que visitam a invicta quer entre os portuenses que procuram explorar todo o glamour que o Porto oferece, além da movida, dos restaurantes gourmet, do maravilhoso vinho do Porto, e dos passeios de barcos por um rio dourado.


O engenheiro António Silva e a flautista húngara Krisztina Dobner desafiaram outro casal amigo (Thaís Nomi e Joaquim Valente) a fundar o Porto Exit Games, um novo conceito de divertimento na cidade do Porto totalmente baseado na ideia de jogos de fuga, já muito populares noutras cidades europeias.


Atualmente Porto Exit Games propõe três jogos: The Sacrifice, Lost Memories, Port Wine Sabotage. Para jogá-los não é preciso saber línguas nem temos sequer de escrever, mas apenas usar o raciocínio, pois tudo funciona à base de códigos.


 
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A temática dos jogos é a cidade do Porto e as suas diversas facetas. Por exemplo, em Port Wine Sabotage somos encerrados no escritório de Jack Carrapato, um investidor que terá destruído parte das vinhas do Douro com uma praga de insetos. A nossa missão é salvar o vinho, escapando da sala antes que ele chegue. Temos 60 minutos e algumas ajudas que nos chegam sob a forma de bilhetes deixados ao acaso pelo escritório de Jack. Conseguiremos? Há pipas, garrafas de vinho, caixas, chaves e imensa adrenalina para viver. De preferência em grupo, de cinco a oito elementos, porque este jogo foi criado para um encontro de amigos ou para uma família viverem uma aventura inesperada e diferente no meio de uma cidade cosmopolita como o Porto.
Sai de casa! Desafia a tua família e os teus amigos a uma experiência nova e excitante e depois leva-os a jantar, na Ribeira ou em Gaia, mas sempre com o Douro como cenário.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CEM ANOS DE AVENIDA DOS ALIADOS


Salão de visitas da cidade do Porto, a Avenida dos Aliados celebra, hoje, 100 anos de vida.
A 1 de fevereiro de 1916, o então Presidente da República, Bernardino Machado, lançou simbolicamente a obra desmoronando a primeira pedra do palacete barroco da Praça da Liberdade, onde até então estava instalada a Câmara Municipal.
Paulatinamente foram desaparecendo os vários prédios e arruamentos do bairro do Laranjal para dar lugar a uma avenida longa e ampla, onde se instalou o poder político, social e económico de uma cidade orgulhosa, leal, liberal e… invicta.
O nome – Aliados – pretendeu ser uma homenagem aos países aliados na 1.ª Guerra Mundial, onde Portugal teve uma breve e infeliz participação.

Após várias restruturações, foram-se instalado na nova avenida portuense os serviços do Estado (Paços do Concelho, Caixa Geral dos Depósitos, Banco de Portugal), as sedes dos principais jornais da cidade (daí a presença da estátua do ardina), consultórios médicos e estabelecimentos de prestígio, cafés emblemáticos como o Guarany ou o Imperial, com os seus vitrais coloridos de Art Déco.

Além da extraordinária largueza que permite uma fenomenal entrada de luz, a Avenida dos Aliados caracteriza-se por todos os seus edifícios serem de granito, muitos deles coroados por cúpulas, lanternins e coruchéus que transmitem a quem chega à cidade toda a personalidade do portuense.Quando, há dez anos, os prestigiados arquitetos Álvaro Siza Vieira e Souto Moura retiraram as flores da placa central da Avenida dos Aliados, a polémica instalou-se, mas a verdade é que os dois arquitetos leram muito bem a essência dos Aliados e da cidade calcetando os Aliados de paralelepípedos de granito. Ainda que as flores transmitissem cor e “aquecessem” a avenida transmitiam-lhe também uma ideia algo provinciana, que em nada condiz com um Porto cosmopolita, onde a neblina matinal envolve os estrangeiros num mistério que parece exalados dos edifícios altos, austeros, imponentes.


Ao fundo, o Palácio das Cardosas faz uma vénia à estátua equestre de D. Pedro IV e estende o olhar, avenida a cima, até à Praça General Humberto Delgado, onde Almeida Garrett o espera de pena da pena, para lhe contar que nos Aliados se respira liberdade e orgulho de pertencer a uma cidade… invicta.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 14 de abril de 2015

DEZ ANOS DE CASA DA MÚSICA


A Casa da Música está de parabéns: faz dez anos de vida.
Durante dez anos acolheu 4 milhões e 500 mil pessoas, tornando-se no mais importante polo cultural do norte do país. Afirmou-se convictamente com um espaço de excelência aberto a todo o tipo de música e não apenas à música erudita e isso foi das medidas mais sábias que a direção da Casa da Música tomou.
No entanto, a gestação deste projeto cultural foi difícil e conturbado. Pensada como elemento âncora do Porto Capital Europeia da Cultura 2001, falhou todos os prazos de construção e quadruplicou o orçamento. Depois o projeto apresentado pelo arquiteto holandês Koolhaas causou enorme polémica, pois muitos consideraram-no demasiado arrojado e desfocado da zona envolvente.

No entanto, a força das convicções e dum orçamento generoso permitiu que a criança visse a luz do dia e o primeiro concerto oficial tivesse lugar a 14 de abril de 2005. Aí todos puderam ver a excelência da acústica das diversas salas e auditórios.
Uma análise mais atenta possibilita verificar a continuidade visual que se estabelece entre interior e exterior, assim como entre os próprios espaços de referência no interior do gigantesco edifício. Quem percorre o edifício pela primeira vez sente-se dentro duma caixa de surpresas, onde o mistério e ambiguidade são permanentes e nos impelem à descoberta.

Uma das grandes virtudes da Casa da Música é a sua funcionalidade. Possui dois auditórios principais, embora outras áreas possam ser adaptadas para concertos e espetáculos. O auditório grande possui capacidade para 1238 pessoas, mas a sua capacidade pode variar de acordo com os interesses do espetáculo. A mesma flexibilidade acompanha o auditório mais pequeno, embora normalmente possam caber 300 pessoas sentadas e 650 de pé.
Tudo foi pensado em função do espetáculos e das suas especificidades assim como da comodidade do espetador. Nesta casa mãe da música habitam quatro agrupamentos residentes: a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música; o Remix Ensemble Casa da Música (grupo de música contemporânea); a Orquestra Barroca Casa da Música e o Coro Casa da Música.

Além disso, a Casa da Música tem um importante Serviço Educativo que faz a ligação com o meio escolar e com o público menos educado musicalmente.
A nível de espetáculos, o espetadores pode ver e ouvir de tudo um pouco, pois há ciclos de piano, de jazz e de música barroca, ao longo de todo o ano. É um espaço aberto a todos os géneros musicais e possui uma excelente programação.
Por opção própria da Casa da Música, não é possível ouvir ópera em condições excelentes, como acontece, por exemplo, no S. Carlos. Isso acontece porque a Casa da Música não tem fosso para orquestra. E o mesmo sucede com os bailados. Esta opção (de não colocar o fosso) prende-se com a acústica que dessa forma perderia qualidade.
Assistir a espetáculos musicais na Casa Da Música é um privilégio que muitos tornaram um hábito, enriquecendo o espírito, o gosto e a vista.

Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OBVIAMENTE, UM GENERAL SEM MEDO






Aquilo que as salas de cinema deviam estar a passar neste dia chuvoso, em vez de um filme erótico de segunda classe, era, sem sombra de dúvida, o filme de Jorge Campos “POR AMOR AO PORTO”, de 2008, que homenageou um dos homens mais relevantes do século XX em Portugal – Humberto Delgado, e assinalou um dia cheio de sol no longo inverno da ditadura salazarista: 14 de maio de 1958, dia em que o Portugal que amava a liberdade não aguentou mais o desejo reprimido e foi esperar o seu salvador à estação de S. Bento, no Porto.   
Hoje passam 50 anos sobre a data do assassínio do general Humberto Delgado por essa máquina de cobardes, investida de “ polícia de defesa do Estado” que se chamou Pide. Não é uma data para comemorações, mas para recordações. É bom lembrar de que material era feito o regime para os saudosos das vitórias incontestadas na secretaria, mas é, sobretudo, importante relembrar que “até numa noite triste, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”


O filme/documentário de Jorge Campos sobre esse monstro sagrado da liberdade e da democracia que dava pelo nome de Humberto Delgado devia ser mostrado nas escolas e exibido nos cinemas para que a memória não se apague e os poucos bons exemplos da nossa história coletiva encontrem eco nos jovens que descrêem da classe política.
Humberto Delgado tinha aquela voz possante de homem determinado e frontal que sabe o que quer para os seus e não está disposto a negociar a democracia nem a liberdade. Por isso não teve medo de declarar em campanha OBVIAMENTE, DEMITO-O.
Aquela receção no Porto, de que só temos registos fotográficos, é obviamente impressionante e carimba sem censura as eleições de 1958 como as mais fraudulentas da nossa História. Claro que o coração de Humberto Delgado só podia ficar no Porto, como havia ficado o de D. Pedro. A mística protestante do Porto afrontou o medo e o poder percebeu claramente a sua ilegitimidade.
O homem que Casimiro Monteiro assassinou sob as ordens desse terror de pessoa chamada Rosa Casaco conseguiu convencer a oposição a unir-se e o povo a sair à rua para vitoriar aquele que nos devia ter governado na década de sessenta.



Mas, obviamente, um regime inspirado em Mussolini não permitiria que o seu poderzinho fosse posto em causa por um general sem medo. Usou todos os truques sujos, alguns hilariantes.
O filme de Jorge Campos relembra o silenciamento do Rádio Clube Português, a proibição dum comício de Humberto Delgado, em Braga, com a desculpa que desestabilizar as cerimónias religiosas – logo nós que desde 1910 éramos um Estado laico – a polícia, a Pide e a GNR a cercarem sempre o general de modo a que este não pudesse ser saudado por quem o quisesse ver e ouvir…

Há 50 anos desceu uma grande sombra sobre Portugal. Todos perceberam que não era possível derrotar honestamente um regime desonesto, porque este usava todos os meios para se perpetuar no poder. As eleições que elegeram Humberto Delgado, perdão, Óscar Carmona, em 1958, foram uma fraude completa.
O sentimento de derrota e de desânimo, apoderou-se dos portugueses ao mesmo tempo que a repressão afiava ainda mais as suas garras. Não lhe bastou exonerar Humberto Delgado do exército, obrigá-lo ao exílio no Brasil; tinha de o matar, pois até a sua sombra era demasiado poderosa. Mas era uma sombra boa e vigorosa, porque trazia o doce sorriso da liberdade e da democracia que tinha desaparecido do rosto dos portugueses.
Gabriel Vilas Boas