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segunda-feira, 4 de julho de 2016

MUSEU NADIR AFONSO


Se hoje fosse vivo, Nadir Afonso sorriria de satisfação e comoção. Na sua terra (Chaves) o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, inaugura o Museu Nadir Afonso.
Projetado pelo renomado Álvaro Siza Vieira (como era desejo do próprio Nadir), o museu do arquiteto que se tornou pintor é uma justa homenagem ao homem que  aproximou a arte da matemática, defendendo uma teoria estética segunda a qual a arte é regida por leis matemáticas e não pela imaginação. Para Nadir, a arte nascia da observação, da perceção e da manipulação da forma.



Apesar de ter começado por adquirir formação na área da arquitetura, Nadir Afonso destacou-se na pintura, onde a sua obra passa por diversas fases: abstracionismo geométrico, período barroco, período egípcio, espacillimité, período ogival, período perspectivo, período organicista e antropomórfico, período fractual. A vida de Nadir foi longa…
Para muitos estudiosos, Nadir foi um dos grandes artistas do século XX e este museu irá mostrar essa grandiosidade. 
A peça arquitetónica desenhada por Siza Vieira tem um pequeno auditório, uma loja, salas de exposições permanentes e temporárias e o ateliê Nadir Afonso. No entanto, o que distingue este museu são as amplas janelas luminosas que deixam entrar os montes e as árvores da reserva nacional onde o edifício cresceu.


Apreciar a vasta obra de Nadir Afonso (a exposição de abertura do museu começa com o quadro da adolescência de Nadir em que a cidade de Chaves aparece representada e abrange os primeiros trinta e cinco anos do trabalhos do pintor, onde destaco o período Espacillimité – quando introduz elementos cinéticos e constrói uma máquina que permite rodar a pintura como se de um filme se tratasse) tendo como pano de fundo a paisagem flaviense é um deleite suplementar que satisfará muitos dos visitantes do Museu Nadir Afonso.
Nadir Afonso nunca cuidou da sua imagem, da promoção da sua obra nem do sucesso ou do reconhecimento pessoal. Preocupou-se em pintar e fê-lo de uma forma libertadora e sublime.   
Gavb

quarta-feira, 9 de março de 2016

CENTRO GALEGO DE ARTE CONTEMPORÂNEA, de Siza Vieira


A ideia inicial era que o Centro Galego de Arte Contemporânea ou Museu de Santiago de Compostela seria no antigo jardim do convento de Santo Domingo de Bonaval. No entanto, Siza Vieira tinha uma ideia diferente e propôs edifica-lo numa zona de maior densidade urbana, implementando-o perto da entrada da Igreja de Santo Domingo e da rua Valle-Inclán. Siza começa a deixar a sua marca desde início, ou seja, na escolha do sítio onde o seu projeto melhor resultaria. Siza não pensava propriamente em colocar o “Centro Galego de Arte Contemporânea” no melhor ou no mais central dos lugares, mas naquele sítio onde a sua arquitetura podia ser mais útil.

Ocupando um lugar-fronteira, o Centro Galego de Arte Contemporânea ergue-se como um elemento definidor de uma área outrora degradada, assumindo uma vocação de atração urbana além da sua vocação de polo cultural.
Siza desenhou um Museu constituído por dois volumes que decorrem das duas principais direções proposta: um implanta-se face à rua Valle-Inclán, conformando-a, e um outro face ao Convento, definindo um percurso de acesso ao jardim, entretanto recuperado.

Os dois espaços/volumes criam uma tensão formal entre si e isso constitui o principal tema arquitetónico do projeto do arquiteto português. O átrio triangular que resulta da interseção dos dois volumes desmaterializa as partes e os pressupostos do contexto, impondo-se como espaço de acesso, de representação institucional, de fruição estética. No átrio estamos no lugar do Museu por excelência, acima de qualquer contexto.

Se é verdade que os principais elementos do edifício são simples (dois volumes em tensão), a formalização do Museu a partir deles é extremamente complexa. Uma série de encontros, interseções, deslizes, encaixes permite moldar o espaço às valências programáticas de um museu moderno.
No interior do Museu, a racionalidade do esquema volumétrico cria uma interessante sucessão de espaços dissonantes, com limites algo difusos, mas onde a modernidade e a orgânica são um traço distintivo. Embora a modernidade seja evidente, Siza soube incluir elementos historicistas como o dispositivo neoclássico sucessivas com acesso axial.

Numa perspetiva oposta, a consola sobre a rampa, a parede suspensa sobre uma viga de dois pilares de ferro à entrada mostram claramente que Álvaro Siza Vieira procurou um objeto arquitetónico moderno até a nível do plano estrutural.

A expressão pétrea do exterior é contrastada pela luminosidade branca do interior, que remete para a tradição abstrata. Neste balanço Siza afirma, mais uma vez, uma ideia central da sua arquitetura: a arquitetura moderna é um garante de continuidade e de sentido civilizacional.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CEM ANOS DE AVENIDA DOS ALIADOS


Salão de visitas da cidade do Porto, a Avenida dos Aliados celebra, hoje, 100 anos de vida.
A 1 de fevereiro de 1916, o então Presidente da República, Bernardino Machado, lançou simbolicamente a obra desmoronando a primeira pedra do palacete barroco da Praça da Liberdade, onde até então estava instalada a Câmara Municipal.
Paulatinamente foram desaparecendo os vários prédios e arruamentos do bairro do Laranjal para dar lugar a uma avenida longa e ampla, onde se instalou o poder político, social e económico de uma cidade orgulhosa, leal, liberal e… invicta.
O nome – Aliados – pretendeu ser uma homenagem aos países aliados na 1.ª Guerra Mundial, onde Portugal teve uma breve e infeliz participação.

Após várias restruturações, foram-se instalado na nova avenida portuense os serviços do Estado (Paços do Concelho, Caixa Geral dos Depósitos, Banco de Portugal), as sedes dos principais jornais da cidade (daí a presença da estátua do ardina), consultórios médicos e estabelecimentos de prestígio, cafés emblemáticos como o Guarany ou o Imperial, com os seus vitrais coloridos de Art Déco.

Além da extraordinária largueza que permite uma fenomenal entrada de luz, a Avenida dos Aliados caracteriza-se por todos os seus edifícios serem de granito, muitos deles coroados por cúpulas, lanternins e coruchéus que transmitem a quem chega à cidade toda a personalidade do portuense.Quando, há dez anos, os prestigiados arquitetos Álvaro Siza Vieira e Souto Moura retiraram as flores da placa central da Avenida dos Aliados, a polémica instalou-se, mas a verdade é que os dois arquitetos leram muito bem a essência dos Aliados e da cidade calcetando os Aliados de paralelepípedos de granito. Ainda que as flores transmitissem cor e “aquecessem” a avenida transmitiam-lhe também uma ideia algo provinciana, que em nada condiz com um Porto cosmopolita, onde a neblina matinal envolve os estrangeiros num mistério que parece exalados dos edifícios altos, austeros, imponentes.


Ao fundo, o Palácio das Cardosas faz uma vénia à estátua equestre de D. Pedro IV e estende o olhar, avenida a cima, até à Praça General Humberto Delgado, onde Almeida Garrett o espera de pena da pena, para lhe contar que nos Aliados se respira liberdade e orgulho de pertencer a uma cidade… invicta.

Gabriel Vilas Boas