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quinta-feira, 22 de maio de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE PIET MONDRIAN

Piet Mondrian, Auto-Retrato,1918
Óleo s/tela,88x71cm
Haia, Haags Gemeentemuseum

Nem sempre é fácil escolher um tema para conversar convosco neste encontro semanal. O mote desta vez foi dado por umas das minhas alunas, a Raquel. Interessada e atenta, fã de Pollock, de Mondrian e da arte em geral, dotada de um espírito crítico que não dá tréguas, numa das últimas aulas, trouxe-me para que eu visse, um livro sobre Mondrian que havia comprado e que recomendava.
Satisfeita porque me agrada sempre ver o interesse que os meus alunos devotam à disciplina, folheei-o com prazer. Os livros de Arte são únicos: é o toque do papel sedoso, as palavras que desvendam segredos, o cheiro, o encanto da cor. Neste que pude apreciar sem pressas, admirei as flores de Mondrian, as suas paisagens coloridas, a temática recorrente dos moinhos, as impressões noturnas em cromatismos expressivos que me surpreenderam e também deliciaram a todos. Afinal, numa viagem pelo tempo em que a autora Susanne Deicher nos transportou, observei diante de mim dois Mondrian: um, apenas holandês, guardião fiel de memórias e das cores de Rembrandt e de tantos outros, em busca constante da perfeição pictórica; o outro, envergando vestes parisienses, inovadoras, numa construção muito pessoal e peculiar, admirador de Picasso e de Braque, de quem busca o traço e a paleta quase monocromática.
Mondrian, nascido em 1872, em Amersfoort, uma cidade holandesa como tantas outras, encantada ainda com o esplendor do seu século de ouro, o séc. XVII, afirmava categoricamente querer tornar clássica a pintura moderna, para ele só comparável “à arquitetura dos gregos antigos”. Desejava combinar a tradição com o novo, fazendo da arte abstrata uma continuação da grande pintura dos séculos passados.
Interessou-se pelo tema da paisagem, na senda da tradição holandesa. As suas flores deliciavam protestantes que desejavam e pagavam por uma arte naturalista. Vincent Van Gogh serviu-lhe igualmente de inspiração, experimentando impressões noturnas, criando nas suas telas mundos novos, artificiais, distantes já da realidade envolvente.
Mas a sua partida para Paris transfigura-o. O Mondrian expressionista, simbolista e fauve, dá lentamente lugar a um dos mais radicais abstracionistas do séc. XX.
É assim que Mondrian se liberta da realidade e da figuração e conduz o cubismo até aos caminhos da abstração pura. Para trás ficam as flores de Mondrian, as paisagens, as vistas noturnas. Sobretudo, as flores, de que tanto gosto e que não resisto, aqui, a partilhar. Mas até elas sofrem contornos de modernidade à medida que Mondrian apura o seu estilo e caminha por veredas que o transportam para as desejadas vanguardas.


Piet Mondrian, Crisântemo, Aguarela sobre papel,
Nova Iorque, Coleção Sidney Janis
Piet Mondrian
Rosa num Copo, Aguarela sobre papel
Haia, Haags Gemeentemuseum

Profundo admirador de Picasso, cujas obras viu expostas em Amesterdão em 1911,e sob o impacto do Cubismo Analítico, Mondrian elabora nos tempos que se seguem um estilo a que vai chamar Neoplasticismo. Este movimento artístico holandês não se resumia à pintura. Englobava também a arquitetura, o design e a literatura, pelas mãos da revista De Stijl (O Estilo),onde Mondrian e Theo van Doesburg publicaram os seus pensamentos acerca do movimento e da Arte. Pioneiro da abstração geométrica, submete-se rapidamente à disciplina rigorosa da linguagem cubista. O Neoplasticismo, também conhecido pelo nome “De Stijl”,é abstração completa, limitação à linha e ao ângulo reto; limitação às três cores primárias -azul, amarelo e vermelho -em conjugação com as três não -cores- o branco, o cinza e o preto.


Piet Mondrian, Auto-Retrato,1918
Óleo s/tela,88x71cm
Haia, Haags Gemeentemuseum


A fase final da sua obra teve por cenário Nova Iorque, cidade que o tocou profundamente pela modernidade evidente da sua arquitetura e do seu traçado retilíneo e ortogonal. Deixo-vos com as telas desta fase final: Nova Iorque, Brodway Boogie-Woogie e Vitory Boogie-Woogie. Aqui, o domínio do homem sobre a Natureza é perseguido e talvez conseguido.

New York City, 1942
Óleo s/tela
Centro Georges Pompidou


Piet Mondrian, Broadway Boogie-Woogie, 1942
Oleo sobre tela, MoMA, Nova Iorque, EUA
Victory Boogie-Woogie, 1944, óleo s/tela
Coleção particular

















 Espero que gostem. Eu, devo confessar, tive de aprender a gostar. Com a idade, o gosto também se apura.
E agora, para animar um pouco a vossa leitura e trazer musicalidade à vossa fruição, fiquem com um “Boogie-Woogie”.

Rosa Maria Alves da Fonseca


quarta-feira, 21 de maio de 2014

VASCO DA GAMA

Ontem completaram-se 516 anos que Vasco da Gama chegou à Índia. A chegada à Índia é, talvez, o momento mais glorioso dos Descobrimentos portugueses e um dos maiores da nossa História coletiva. O navegador e descobridor nascido em Sines (1468 ou 1469) personaliza esse momento único da nossa História.
A chegada à Índia em 1498 foi o grande desígnio nacional do século XV. Por ele, o reino investiu recursos materiais e humanos, lutou e inovou, foi audaz e corajoso. A chegada à Índia foi o ponto culminante de um século de esforços coletivos, de visão e estratégia política, económica e social. Vasco da Gama foi o eleito para concretizar esse objetivo e conseguiu-o de forma plena. Por isso, hoje é recordado, muito justamente, com um dos símbolos maiores da nossa História. Talvez merecesse que os portugueses o prestigiassem mais, mas isso é um mal de que até Camões se pode queixar.
Vasco da Gama ficará para sempre na História como o navegador que comandava a armada portuguesa que alcançou um dos maiores feitos dos Descobrimentos Marítimos Portugueses: no ano em que completava trinta anos, e após inúmeras peripécias, alcançou Calecut, numa viagem que ligou por mar a Europa e a Ásia, feito que, na época, muitos duvidaram que fosse conseguir.
A descoberta do caminho marítimo para a Índia permitiu construir um império, ainda que baseado no domínio de rotas e centros de comércio.
A viagem que permitiu unir por mar a Europa à Ásia, surge como corolário de diversas viagens de exploração à Costa Africana, muitas das quais contaram com a participação de Vasco da Gama.
A armada saiu de Lisboa a 8 de julho de 1497, a 3 de agosto aportou a Cabo Verde, seguindo-se depois um dos momentos mais complicados da viagem, quando os portugueses foram obrigados a navegar noventa dias sem ver terra. A 8 de novembro a armada fundeou na ilha de Santa Helena, e a 18 desse mês dobrou o Cabo da Boa Esperança, entrando no Oceano Índico.
Na Costa Oriental de África, a armada fez escala em Moçambique e em Melinde, onde foi contratado um piloto que a orientou até Calecut, local alcançado em maio de 1498.
A viagem de regresso foi atribulada, o irmão de Vasco da Gama, Paulo da Gama, morreu ao chegar à Ilha Terceira, nos Açores, e a nau S. Rafael teve de ser abandonada e queimada. O próprio Vasco da Gama só chegaria a Lisboa alguns dias depois da nau Bérrio, a primeira da armada a atracar no rio Tejo. O feito valeu a Vasco da Gama o título de Conde da Vidigueira.
 Em 1524, foi mesmo eleito Vice-Rei da Índia, onde morreu pouco tempo depois de ter chegado. Seria a sua última viagem.
Gabriel Vilas Boas


terça-feira, 20 de maio de 2014

SHAKESPEARE


Shakespeare é considerado, muito justamente, o maior dramaturgo mundial. Este inglês nascido em Strafford-upon-Avon notabilizou-se na dramaturgia e no teatro. Na arte dramática escreveu 38 peças, onde se incluem as comédias e tragédias mais afamadas de sempre. Os seus textos dramáticos são encenados frequentemente, um pouco por todo o mundo, o que mostra a universalidade e intemporalidade dos temas das suas obras e, sobretudo, a qualidade artística das suas peças de teatro. 

A vida de Shakespeare está cheia de acontecimentos curiosos (nasceu e morreu no mesmo dia – 21 de abril) e polémicos.
O que não oferece qualquer dúvida é a qualidade de textos como “Romeu e Julieta”, “Hamlet”, “Rei Lear”, “Macbeth” ou “Sonho de uma noite de verão”.

Ainda vivo, Shakespeare já era um escritor admirado e respeitado, mas foram os românticos (século XIX) que o tornaram num ídolo das letras, aclamando a sua genialidade. No século XX, a sua obra foi redescoberta por diversos encenadores que a reinterpretam constantemente. Por isso, vemos frequentemente peças suas a serem encenadas em diversos pontos do globo ou a serem transformadas em filme ou a servirem de inspiração a dramaturgos contemporâneos. 

Grande parte da obra shakespeariana situa-se entre 1590 e 1613. Durante este período encontramos três fases. De 1590 a 1594, escreve sobretudo comédias de influência italiana, onde sobressai o gosto por acontecimentos e personagens históricos. 

“Romeu e Julieta”, em 1595, marca o início da segunda fase que se prolonga até 1599, ano em que escreve “A Tragédia de Júlio César”. Apesar de este período começar e terminar com uma tragédia, estes cinco anos são marcados pela escrita de… comédias. Realço “O Mercador de Veneza”, de que gosto particularmente. 

A terceira fase (1600 – 1608) produz três das suas mais imponentes obras: Hamlet, Rei Lear e Macbeth. Três tragédias soberbas que passados séculos continuam a ser encenadas e a suscitar a admiração e o aplauso do público.

O período seguinte é marcado pela escrita de romances e tragicomédias que não alcançaram a fama das obras anteriores. São desta fase obras como “Cimbelino”, “A Tempestade” e “Péricles, príncipe de Tiro”. São obras menos sombrias que as tragédias do período anterior, mas comédias mais graves e sérias que aquelas que escreveu na sua primeira fase literária. Há quem veja aqui uma mudança de estilo de Shakespeare, refletindo um período mais sereno na sua vida pessoal. 

Se há algo que distingue as obras de Shakespeare é o refinado tratamento que ele faz das suas personagens. As personagens shakespearianas são complexas. Elas alternam entre o cómico, o dramático e o trágico. Dessa forma, Shakespeare expande e enriquece a identidade das suas personagens. 
Tomemos por exemplo o período dourado da criação literária do dramaturgo inglês (1600-1608), altura em que escreveu Hamlet, Rei Lear ou Otelo.

Se o autor da famosa frase “To be or not to be” era um herói pensativo, reflexivo e ponderado, em Otelo e Rei Lear encontramos heróis imprudentes e precipitados. Por exemplo, na tragédia Rei Lear, este comete o erro de abdicar dos seus poderes, provocando acontecimentos que conduziram ao assassínio da sua filha e à tortura e cegueira do Conde Glósester. Em Macbeth, a incontrolável ambição de Macbeth e sua esposa, Lady Macbeth, levam ao assassínio do rei e à usurpação do trono. Contudo, a culpa, que ambos sentem, faz com que os dois se destruam. Talvez por isso seja Hamlet a personagem shakespeariana mais admirada. Hamlet é inteligente, observador, sábio. 

Em conclusão, podemos concluir que as peças teatrais do dramaturgo britânico são densas, misteriosas e peculiares e nelas ressalta um fundo psicológico admirável. Uma das qualidades do trabalho de Shakespeare foi justamente a sua capacidade de individualizar todos seus personagens, fazendo com que cada um se tornasse facilmente identificado. Vários filósofos e psicanalistas de renome como Goethe, Freud ou Schopenhauer estudaram atentamente as grandes peças de Shakespeare e todos detectaram a riqueza psicológica e existencial das suas personagens. Não deve ter sido por acaso! 


Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 19 de maio de 2014

AO SOM DE... JOSÉ VIANNA DA MOTTA


José Vianna da Motta nasceu em São Tomé e Príncipe no ano de 1868 e morreu em Lisboa, em 1948.
Foi, para além de compositor, professor, maestro e um grande intérprete de piano. Escreveu livros como “Vida de Liszt” e colaborou em várias revistas e jornais.
Vianna da Motta iniciou os estudos de piano no Conservatório de Lisboa e prosseguiu-os em Berlim sob o patrocínio do rei D. Fernando II e sua segunda mulher, a Condessa de Edla. O rei D. Fernando II era muito dado às artes e a condessa de Edla tinha sido cantora de ópera até ao seu casamento com o rei. Vianna da Motta, durante a sua estadia em Berlim, deslocou-se a Weimar para frequentar um curso de verão ministrado por Liszt, pelo que realmente chegou a ser aluno de Liszt, mesmo que por um breve período de tempo. Vianna da Motta era um excelente intérprete de Liszt, Bach e Beethoven. Efetuou várias digressões internacionais, tendo tocado ao lado de nomes como Enesco, Pablo Casals e Guilhermina Suggia.
Como compositor, a sua obra mais marcante é a sinfonia “À Pátria” que, influenciada pelos ideais nacionalistas e pela corrente do romantismo, evoca a obra “Os Lusíadas” de Luís de Camões. Usou o género Lied com poemas de João de Deus, Guerra Junqueiro, Almeida Garrett e Luís Vaz de Camões.
Enquanto decorreu a Primeira Guerra Mundial, Vianna da Motta refugiou-se na Suíça onde dirigiu o Conservatório de Genebra. Com o fim da guerra regressa a Portugal. Nessa altura abandona a composição e torna-se maestro da Orquestra Sinfónica de Lisboa e director do Conservatório Nacional. Em parceria com Luís de Freitas Branco, implementa grandes reformas no ensino da música, nas práticas pedagógicas e nos programas. Enquanto professor, teve como alunos, entre outros, Sequeira Costa e Fernando Lopes Graça.

Vianna da Motta é uma figura importante da História da Música Portuguesa, quer como compositor, quer como intérprete e pedagogo.
Margarida Assis

domingo, 18 de maio de 2014

VOLUNTÁRIO À FORÇA


A partir de 2017, os cerca de 320 mil alunos da Universidade de Buenos Aires (UBA) passarão a ter que realizar atividades solidárias para que possam terminar os estudos e obter o seu diploma, de acordo com uma diretiva da própria entidade – que é pública e gratuita. No entendimento dos diretores e professores, a sociedade deve ser “recompensada” por ter permitido aos alunos a oportunidade de usufruírem de um ensino gratuito.


Li esta notícia e não pude deixar de ficar perplexo. Sou totalmente a favor do voluntariado e acho que é uma das pechas da sociedade atual, mas acho bizarra a ideia de voluntariado à força ou, numa versão mais suave, voluntariado por constrangimento.
O voluntariado é uma atitude nobre e não pode ser imposta, pois corremos o risco de matar um conceito que deve ser desenvolvido e acarinhado.

O voluntariado é a maneira que cada um tem de mostrar o seu comprometimento com a sociedade em que se insere; é a forma de mostrar os valores que preza; é o modo de contribuir para um bem comum.


O voluntariado não é um espetáculo, uma atitude extemporânea ou modo de promover uma imagem. O voluntariado faz-se em silêncio, perto de casa e com simplicidade. Tem que ser uma atitude consistente, implicar esforço de quem o faz e ser encarado com espírito de missão. Não pode envolver qualquer sentido de superioridade moral, vaidade intelectual ou aproveitamento pessoal.

Acho que o voluntariado é uma questão de cultura de povo. Os que ainda não o têm enraizado podem adquiri-lo ou implementá-lo através da escola, não na universidade nem com um carácter obrigatório. Defendo que o voluntariado deve ser ensinado desde o 1º ciclo escolar. As crianças devem perceber as suas vantagens e praticá-las, ficando bem claro que a vontade do próprio em executar essas tarefas é muito relevante.


Há dois anos atrás desenvolvi com os meus alunos do 3º ciclo uma atividade em que lhes mostrei os principais centros de apoio social de Amarante (Cerci, Lares, Centros de Dia, Apoio a Invisuais). O trabalho foi feito com dois/três alunos de cada vez, numa tarde sem aulas dos alunos, sem qualquer carácter obrigatório e sem qualquer benefício ao nível da classificação final deles na minha disciplina. Dum total de vinte e sete alunos, só uma aluna recusou participar no projeto. O objetivo foi mostrar-lhes como podiam ajudar aqueles que, perto deles, mais necessitavam, despendendo um pouco do seu tempo livre, uma vez por semana. Todos aqueles que participaram ficaram sensibilizados e gostaram da ideia.

Tenho consciência que o meu trabalho não foi além da consciencialização e muito poucos foram aqueles que continuaram a praticar voluntariado. Todavia, ficou a semente. Espero que ela germine em algum dos meus ex-alunos.

Ainda que o caminho seja longo e difícil, não podemos ir pela imposição. É um contra senso absoluto. As ações solidárias não resultam duma imposição, mas duma vontade. Só assim nascem as sociedades fortes e convictas.

Gabriel Vilas Boas





sábado, 17 de maio de 2014

O ADVOGADO DO DIABO



"A vaidade é o defeito que mais aprecio nos homens"

O Advogado do Diabo é um filme realizado em 1997 por Taylor Hackford e tem como protagonistas os atores Keanu Reeves e Al Pacino. 

O filme permite uma extraordinária reflexão do espectador sobre o problema do livre-arbítrio no ser humano. Este é o tema principal, embora nesta película possa também observar como é fácil o ser humano ser persuadido pela vaidade (Lomax deixa-se levar pelas tentações, que lhe surgem duma forma convidativa e mascarada).

Com uma certa conotação religiosa, o filme caracteriza problemas como egocentrismo, vaidade e ganância no homem, mostrando as consequências negativas que emergem caso esses pecados sejam exercidos.

Kevin Lomax (Keanu Reeves) é um jovem e brilhante advogado que nunca perdeu um caso (tinha o impressionante recorde de sessenta e quatro vitórias e nenhuma derrota), mesmo que em certos casos nem ele acredite na inocência daqueles que defende. A certa altura, Kevin Lomax recebe uma tentadora proposta por parte duma grande firma de advocacia de Nova Iorque. 


Mas o cargo que Lomax aceitou não é bem o que parece. O Diabo estava implícito nas entrelinhas. A poderosa firma de advogados era dirigida pelo misterioso John Milton (Al Pacino). Mary Ann (Charlize Theron), a mulher de Kevin, é a primeira a perceber que algo estava errado, quando tem estranhas visões demoníacas e gradualmente entra num estado de depressão, mas Kevin não se preocupa muito com isso, apenas pretende vencer caso após caso. Milton, a encarnação do Diabo, vai “ensinando” a Lomax que a advocacia é o reino onde há inúmeros casos para se vencerem... e almas para se perderem. 

Os triunfos de Lomax no tribunal sucedem-se a um ritmo vertiginoso e a sua ascensão é rápida, mas isso tem um preço: a sua alma, a sua família, a sua vida. Como o Diabo lhe diz a certo passo, “talvez tenha chegado a altura de perderes”, mas a ambição, o egocentrismo e sobretudo a vaidade (“o pior defeito do ser humano”), levam-no a perder tudo: mulher, família, vida. 

Este filme, que fala sobre Direito e Lei, insere-se numa esfera de escolhas e decisões, que é o livre-arbítrio, tão retratado em diversas situações ao longo do filme.
Somos livres quando o que fazemos resulta apenas das nossas deliberações, quando escolhemos que ação está mais de acordo com os nossos desejos e valores e quando sentimos que podíamos ter agido de modo diferente sendo as causas anteriores iguais. Sabemos também que ao agir livremente, somos moralmente responsáveis por tudo o que fazemos. Deste modo, a liberdade humana está ligada à consciência.


Na última parte do filme, predomina a luta entre o bem e o mal assim como o livre-arbítrio. Kevin perde a sua mulher e descobre toda a verdade sobre John Milton, que ele é seu pai e ao mesmo tempo um demónio. 

Milton convence Kevin de que ele próprio foi o responsável pela morte da sua esposa, pois dera-lhe oportunidades para deixar os casos e cuidar da mulher doente, porém a sua vaidade e ambição foram superiores. Kevin acusa John Milton de ter manipulado os seus sentimentos, mas o diabo responde-lhe que a preocupação consigo próprio fora a sua única preocupação. Kevin Lomax, consciente desta realidade, arrepende-se, mas, Milton não pretende o seu arrependimento, mas sim que ele tenha um filho com a sua meia-irmã, a belíssima Christabella (Connie Nielson). No entanto, a decisão de Kevin devia ser espontânea e livre. Christabella tenta seduzi-lo com a sua beleza, mas ele recusa e, de seguida, olha para o seu pai e mata-se livremente, escolhendo o único caminho após tantos erros. A sua opção resultou unicamente das suas ponderações. 

No final do filme, a cena volta ao início do filme. Numa fração de segundo Kevin tem a oportunidade de olhar-se ao espelho e vislumbrar o destino do mundo dominado pela vaidade. Aliviado por ver a esposa Mary Ann, a sua consciência estimula-o a tomar a decisão correta de desistir do caso, uma vez que ele compreendeu que estava a defender o verdadeiro culpado.

Não podemos viver sem o livre-arbítrio porque a experiência da liberdade é constitutiva da experiência de agir. Agir pressupõe o livre-arbítrio, a completa autonomia para decidir a cada momento o que pretendemos fazer ao longo da vida. Qualquer decisão tomada é da nossa inteira responsabilidade. Devemos interpretar corretamente o que nos é sugerido, porque ser livre tanto é aceitar como recusar.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 16 de maio de 2014

HISTÓRIA DO URBANISMO

Ainda que com algum atraso... a segunda parte do artigo “História do Urbanismo” (a 1.ª foi a 11 de Abril). Tal como tinha dito, a temática da evolução das Cidades, será concluída esta semana. Julgo que esta última fase é sem dúvida a mais interessante do ponto de vista do urbanismo actual e a que gera igualmente mais confusão e controvérsia.
Como vimos anteriormente a diferentes períodos históricos correspondem diferentes formas de fazer a cidade. Continuando numa linha cronológica iremos analisar a evolução das cidades no período compreendido entre o séc. XVIII e os nossos dias.
A CIDADE DAS REVOLUÇÕES

A segunda metade do séc. XVIII e primeira do séc. XIX foi um período de mudanças e de revoluções, de mentalidades, inovações e de invenções na agricultura, nas comunicações, etc. O início da Revolução Industrial, na Inglaterra, coincide com a Revolução Francesa. O neoclássico, movimento cultural europeu do século XVIII e parte do século XIX, defendia a recuperação da arte antiga, especialmente a greco-romana, tida como modelo de equilíbrio, clareza e proporção. No urbanismo, este movimento caracterizava-se pela racionalização dos espaços urbanos, ordenação e regularização das fachadas, e a geometrização da malha urbana.









Ilustração da cidade Neoclássica



Planta urbanística de Förster para Viena (1859)               Vista aérea de Bath (Inglaterra 1727-80), reformulação                                                                                                                                             urbanística dosWood’s (pai e filho).

Na Europa, surgem os planos urbanísticos, dos quais podemos destacar o de Paris, onde o barão Haussmann (1809-1891) reordena a cidade existente e o de Barcelona, onde Cerdá (1815-1875) elabora um plano de expansão da nova cidade. Estes tornam-se modelos de organização do espaço, copiados noutras cidades europeias.
O plano de Haussmann para Paris ocorre na cidade existente e tem três objectivos principais: uma melhoria do sistema de circulação, a resolução de problemas sanitários e a unificação dos principais pontos da cidade através de um sistema de eixos, as novas avenidas, rematadas por edifícios emblemáticos.
 Imagem da Esquerda: Planta explicativa do plano de Haussmann para Paris ; Imagem da Direita: Vista aérea de Paris evidenciando o plano de Haussmanjá realizado.

O Plano de Cerdá para Barcelona adota um papel precursor de urbanismo, ao traçar um plano que procura resolver juntamente com os problemas espaciais os sócio-económicos e administrativos. Datada de 1859, a reforma e ampliação de Barcelona, expõe um desenho de malha ortogonal cortada por um sistema de vias diagonais que interligam a cidade-velha com o novo traçado, unindo os principais pontos da cidade. A área edificada é de 50% complementada com espaços verdes. 
 
Plantas de Cerdá para Barcelona
Vista aérea da cidade de Barcelona demonstrando plano de Cerdá, já executado.
A Revolução industrial trouxe o desenvolvimento e a concentração de um novo sistema económico transformando completamente a vida e a sociedade. Na cidade industrial ergueram-se os bairros operários, construídos para albergar a vasta mão-de-obra, mas onde as condições de vida eram realmente mínimas, praticamente sub-humanas. Esta cidade operária, caracterizada pelo congestionamento e pela insalubridade, não possuía sistema de abastecimento de água, nem esgotos, nem recolha de lixo. Surgiu então a necessidade de uma ação pública, ordenando e propondo soluções, aparecendo nessa altura o urbanismo higienista, com a preocupação básica de melhorar as condições de salubridade nas cidades.
No século XIX, voltou a utilizar-se o traçado em quadrícula, agora só por motivos de economia utilitária e lógica capitalista, de especulação de terrenos.

 
 No entanto houve alguns industriais esclarecidos que procuraram corrigir este estado de coisas, construindo casas mais salubres para os operários. Um dos primeiros foi Robert Owen, que planeou uma cidade do tipo coletivo, onde se combinava a atividade industrial com a agricultura. De inspiração socialista foi a antecipação às cidades jardim de E. Howard,que defendeu uma cidade que reunia as vantagens do campo e da cidade.

Imagem da Esquerda: Esboço da colónia socialista em New Harmony (EUA) elaborada por Owen ; Imagem da Direita: Projeto da primeira Cidade-Jardim efectivamente construída – Letchworth (1904) 

                               







 Esquema da proposta de Howard para a Cidade-Jardim (1898).




O urbanismo enquanto disciplina despontou no final do séc. XIX, sendo uma área multidisciplinar, em que a análise da forma urbana para além do contributo da arquitetura, precisa também do contributo de outras disciplinas tais como a história, a sociologia, a geografia e a ecologia.
A CIDADE DO PRESENTE
Nas primeiras décadas do séc. XX, com todas as mudanças que as revoluções dos séculos anteriores causaram no desenvolvimento das urbes, tornadas “mega-cidades” e, por sua vez, com o despovoamento do campo, surgiram novos planos e ideias de “construir Cidade”. São maioritariamente os arquitetos que dão uma nova faceta ao urbanismo. Entre eles podemos destacar o funcionalista orgânico Frank Lloyd Wright (1867-1959), o futurista Sant’Elia (1888-1916), os racionalistas Walter Gropius (1883-1969) e Le Corbusier (1887-1965).
  
 Imagem da Esquerda: Desenho da cidade BroadacreCity (EUA) idealizada por Wright; Imagem da Direita: Estudo para "A cidade futurista" (projeto para aeroporto e estação ferroviária em Milão), de Sant’Elia, 1914

 Plano de Gropius para SiedlungTörten, Dessau. 1926-28

Para além do cuidado com o aspeto estético, os projetos destes urbanistas tinham em comum a preocupação com a distribuição das diferentes funções pela cidade, o traçado urbano, a distribuição de densidades e a localização e o desenho das áreas verdes. A maior parte destes projetos eram idealistas, visto proporem modelos ideais da cidade, afastados dos problemas reais destas e não propondo intervir para solucioná-los. Propunham assim um “projeto final” para uma cidade modelo, que teria requisitos para uma sociedade mais feliz.

 Ville Radieuse foi um projecto da cidade ideal de Le Corbusier, não concretizado

                                 

                                                   Plano para a cidade de St-Dié, dividida por funções zonificada de Le Corbusie


No entanto o verdadeiro objectivo do urbanismo será conseguir resolver os problemas que afetam as cidades, qualificando os espaços, criando infra-estruturas e promovendo a melhoria das condições de vida, entre os elementos construídos e as várias partes da cidade, visando uma melhoria estética, da qualidade de vida, da segurança e do conforto.
Do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), em Atenas, resultou a publicação de um documento, em 1943, onde se estabeleciam os princípios do urbanismo moderno - a Carta de Atenas.
Em termos de desenho urbano, há um rompimento com as formas tradicionais, como a organização em quarteirão da cidade histórica. Este novo modelo de cidade baseia-se em princípios funcionalistas: habitação, circulação, trabalho e divertimento, sendo Le Corbusier o seu principal mentor. Preconizam a criação de edifícios em altura (torres), dispostos no terreno em função de uma boa orientação solar, de boas condições de arejamento e facilidade de acessos. O espaço entre edifícios seria utilizado como zona verde ou parque de uso público. As vias de circulação seriam hierarquizadas e pretendia-se estabelecer uma separação entre veículos e pedestres. Estas ideias vão influenciar a produção urbanística mundial no período pós-guerra até à década de 70.
Entre outras propostas revolucionárias da Carta está a de que todo o solo urbano da cidade pertence ao município, sendo, portanto público.

Plano da cidade de Brasília, cujo plano piloto é de autoria do arquiteto e urbanista brasileiro Lúcio Costa aplica integralmente todos os princípios da Carta
  
  Imagem da Esquerda: Cidade Motores, no Rio de Janeiro, 1945de Sert e Wiener; Imagem da Direita: Projecto de Alison e Smithson,para o centro da cidade de Berlim, 1958.


O urbanismo contemporâneo procura integrar a urbe histórica e a cidade moderna analisando e estudando as diferentes formas de fazer cidade, numa estratégia de planeamento que valorize o que elas têm de melhor, requalificando as áreas que entretanto se degradaram por ação do tempo, do uso ou pela desarticulação com novas exigências funcionais.
A tarefa dos urbanistas será a de alcançar um equilíbrio, entre as edificações e as áreas verdes, através das transformações que podem ocorrer num determinado espaço urbano, sempre na procura de caminhos para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.
Hoje, o urbanismo é uma ferramenta fundamental para o planeamento das cidades, a sua intervenção, para além das preocupações sócio-económicas e ambientais, também é a de conceber espaços esteticamente apelativos, aptos a formarem-se como pólos dinamizadores e de atração a atividades economicamente lucrativas e promotores de uma convivência social equilibrada.

Teresa Beyer