Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta Urbanismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Urbanismo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de maio de 2014

HISTÓRIA DO URBANISMO

Ainda que com algum atraso... a segunda parte do artigo “História do Urbanismo” (a 1.ª foi a 11 de Abril). Tal como tinha dito, a temática da evolução das Cidades, será concluída esta semana. Julgo que esta última fase é sem dúvida a mais interessante do ponto de vista do urbanismo actual e a que gera igualmente mais confusão e controvérsia.
Como vimos anteriormente a diferentes períodos históricos correspondem diferentes formas de fazer a cidade. Continuando numa linha cronológica iremos analisar a evolução das cidades no período compreendido entre o séc. XVIII e os nossos dias.
A CIDADE DAS REVOLUÇÕES

A segunda metade do séc. XVIII e primeira do séc. XIX foi um período de mudanças e de revoluções, de mentalidades, inovações e de invenções na agricultura, nas comunicações, etc. O início da Revolução Industrial, na Inglaterra, coincide com a Revolução Francesa. O neoclássico, movimento cultural europeu do século XVIII e parte do século XIX, defendia a recuperação da arte antiga, especialmente a greco-romana, tida como modelo de equilíbrio, clareza e proporção. No urbanismo, este movimento caracterizava-se pela racionalização dos espaços urbanos, ordenação e regularização das fachadas, e a geometrização da malha urbana.









Ilustração da cidade Neoclássica



Planta urbanística de Förster para Viena (1859)               Vista aérea de Bath (Inglaterra 1727-80), reformulação                                                                                                                                             urbanística dosWood’s (pai e filho).

Na Europa, surgem os planos urbanísticos, dos quais podemos destacar o de Paris, onde o barão Haussmann (1809-1891) reordena a cidade existente e o de Barcelona, onde Cerdá (1815-1875) elabora um plano de expansão da nova cidade. Estes tornam-se modelos de organização do espaço, copiados noutras cidades europeias.
O plano de Haussmann para Paris ocorre na cidade existente e tem três objectivos principais: uma melhoria do sistema de circulação, a resolução de problemas sanitários e a unificação dos principais pontos da cidade através de um sistema de eixos, as novas avenidas, rematadas por edifícios emblemáticos.
 Imagem da Esquerda: Planta explicativa do plano de Haussmann para Paris ; Imagem da Direita: Vista aérea de Paris evidenciando o plano de Haussmanjá realizado.

O Plano de Cerdá para Barcelona adota um papel precursor de urbanismo, ao traçar um plano que procura resolver juntamente com os problemas espaciais os sócio-económicos e administrativos. Datada de 1859, a reforma e ampliação de Barcelona, expõe um desenho de malha ortogonal cortada por um sistema de vias diagonais que interligam a cidade-velha com o novo traçado, unindo os principais pontos da cidade. A área edificada é de 50% complementada com espaços verdes. 
 
Plantas de Cerdá para Barcelona
Vista aérea da cidade de Barcelona demonstrando plano de Cerdá, já executado.
A Revolução industrial trouxe o desenvolvimento e a concentração de um novo sistema económico transformando completamente a vida e a sociedade. Na cidade industrial ergueram-se os bairros operários, construídos para albergar a vasta mão-de-obra, mas onde as condições de vida eram realmente mínimas, praticamente sub-humanas. Esta cidade operária, caracterizada pelo congestionamento e pela insalubridade, não possuía sistema de abastecimento de água, nem esgotos, nem recolha de lixo. Surgiu então a necessidade de uma ação pública, ordenando e propondo soluções, aparecendo nessa altura o urbanismo higienista, com a preocupação básica de melhorar as condições de salubridade nas cidades.
No século XIX, voltou a utilizar-se o traçado em quadrícula, agora só por motivos de economia utilitária e lógica capitalista, de especulação de terrenos.

 
 No entanto houve alguns industriais esclarecidos que procuraram corrigir este estado de coisas, construindo casas mais salubres para os operários. Um dos primeiros foi Robert Owen, que planeou uma cidade do tipo coletivo, onde se combinava a atividade industrial com a agricultura. De inspiração socialista foi a antecipação às cidades jardim de E. Howard,que defendeu uma cidade que reunia as vantagens do campo e da cidade.

Imagem da Esquerda: Esboço da colónia socialista em New Harmony (EUA) elaborada por Owen ; Imagem da Direita: Projeto da primeira Cidade-Jardim efectivamente construída – Letchworth (1904) 

                               







 Esquema da proposta de Howard para a Cidade-Jardim (1898).




O urbanismo enquanto disciplina despontou no final do séc. XIX, sendo uma área multidisciplinar, em que a análise da forma urbana para além do contributo da arquitetura, precisa também do contributo de outras disciplinas tais como a história, a sociologia, a geografia e a ecologia.
A CIDADE DO PRESENTE
Nas primeiras décadas do séc. XX, com todas as mudanças que as revoluções dos séculos anteriores causaram no desenvolvimento das urbes, tornadas “mega-cidades” e, por sua vez, com o despovoamento do campo, surgiram novos planos e ideias de “construir Cidade”. São maioritariamente os arquitetos que dão uma nova faceta ao urbanismo. Entre eles podemos destacar o funcionalista orgânico Frank Lloyd Wright (1867-1959), o futurista Sant’Elia (1888-1916), os racionalistas Walter Gropius (1883-1969) e Le Corbusier (1887-1965).
  
 Imagem da Esquerda: Desenho da cidade BroadacreCity (EUA) idealizada por Wright; Imagem da Direita: Estudo para "A cidade futurista" (projeto para aeroporto e estação ferroviária em Milão), de Sant’Elia, 1914

 Plano de Gropius para SiedlungTörten, Dessau. 1926-28

Para além do cuidado com o aspeto estético, os projetos destes urbanistas tinham em comum a preocupação com a distribuição das diferentes funções pela cidade, o traçado urbano, a distribuição de densidades e a localização e o desenho das áreas verdes. A maior parte destes projetos eram idealistas, visto proporem modelos ideais da cidade, afastados dos problemas reais destas e não propondo intervir para solucioná-los. Propunham assim um “projeto final” para uma cidade modelo, que teria requisitos para uma sociedade mais feliz.

 Ville Radieuse foi um projecto da cidade ideal de Le Corbusier, não concretizado

                                 

                                                   Plano para a cidade de St-Dié, dividida por funções zonificada de Le Corbusie


No entanto o verdadeiro objectivo do urbanismo será conseguir resolver os problemas que afetam as cidades, qualificando os espaços, criando infra-estruturas e promovendo a melhoria das condições de vida, entre os elementos construídos e as várias partes da cidade, visando uma melhoria estética, da qualidade de vida, da segurança e do conforto.
Do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), em Atenas, resultou a publicação de um documento, em 1943, onde se estabeleciam os princípios do urbanismo moderno - a Carta de Atenas.
Em termos de desenho urbano, há um rompimento com as formas tradicionais, como a organização em quarteirão da cidade histórica. Este novo modelo de cidade baseia-se em princípios funcionalistas: habitação, circulação, trabalho e divertimento, sendo Le Corbusier o seu principal mentor. Preconizam a criação de edifícios em altura (torres), dispostos no terreno em função de uma boa orientação solar, de boas condições de arejamento e facilidade de acessos. O espaço entre edifícios seria utilizado como zona verde ou parque de uso público. As vias de circulação seriam hierarquizadas e pretendia-se estabelecer uma separação entre veículos e pedestres. Estas ideias vão influenciar a produção urbanística mundial no período pós-guerra até à década de 70.
Entre outras propostas revolucionárias da Carta está a de que todo o solo urbano da cidade pertence ao município, sendo, portanto público.

Plano da cidade de Brasília, cujo plano piloto é de autoria do arquiteto e urbanista brasileiro Lúcio Costa aplica integralmente todos os princípios da Carta
  
  Imagem da Esquerda: Cidade Motores, no Rio de Janeiro, 1945de Sert e Wiener; Imagem da Direita: Projecto de Alison e Smithson,para o centro da cidade de Berlim, 1958.


O urbanismo contemporâneo procura integrar a urbe histórica e a cidade moderna analisando e estudando as diferentes formas de fazer cidade, numa estratégia de planeamento que valorize o que elas têm de melhor, requalificando as áreas que entretanto se degradaram por ação do tempo, do uso ou pela desarticulação com novas exigências funcionais.
A tarefa dos urbanistas será a de alcançar um equilíbrio, entre as edificações e as áreas verdes, através das transformações que podem ocorrer num determinado espaço urbano, sempre na procura de caminhos para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.
Hoje, o urbanismo é uma ferramenta fundamental para o planeamento das cidades, a sua intervenção, para além das preocupações sócio-económicas e ambientais, também é a de conceber espaços esteticamente apelativos, aptos a formarem-se como pólos dinamizadores e de atração a atividades economicamente lucrativas e promotores de uma convivência social equilibrada.

Teresa Beyer



sexta-feira, 11 de abril de 2014

HISTÓRIA DO URBANISMO

Nestes próximos artigos gostaria de vos falar de uma forma ligeira e descomplicada da formação e evolução das Cidades. Talvez dar o nome de História do Urbanismo seja um pouco pretensioso, visto que em épocas recuadas como a Antiguidade Clássica não existia propriamente Urbanismo, mas sim uma preocupação e um certo planeamento urbano.
A temática é extensa, por isso irei tentarei ser o mais sucinta possível, passando pelos períodos mais relevantes da História. Para tal abordarei, numa primeira fase, a evolução das cidades até sensivelmente ao século XVIII e, numa segunda fase, do séc. XVIII até aos nossos dias.
          As Cidades podem ser estudadas sob distintos pontos de vista: o histórico, o geográfico, o político, o sociológico e também o da sua arquitectura e arte.
Analisemos as primeiras grandes Cidades:

Da civilização egípcia pouca informação existe sobre o plano de urbanização. Esta é-nos dada através de pinturas e espécies de maquetes encontradas em templos e túmulos, ou através das escavações. Daí podemos depreender que a regularidade é a característica mais importante da planificação das cidades, sendo normalmente de planta quadrangular com ruas rectilíneas, estreitas e pouco longas. Era habitual serem cercadas por taipais e fossos.
                                                         Imagem – Ruínas na vila de trabalhadores do antigo Egipto, Deir
A cidade-estado grega integrava-se na morfologia do território, isto é, elementos como muralhas, ruas e edifícios adaptavam-se ao terreno sem o modificarem. Eles incorporavam proporcionalmente os velhos e os novos edifícios, com o ambiente que os rodeava, respeitando o lema que a Natureza e o Homem deveriam ser a medida da cidade. Podemos dizer que os gregos subordinavam a cidade ao centro cívico (ágora, edifícios públicos), sendo a urbe dividida em três áreas: a privada, a pública e a sagrada.
No séc. V a.C. surgiu o primeiro plano urbanístico funcional, criado por Hipódamo (filosofo e arquitecto da Ásia Menor 498-408 a.C.). Este idealizou uma organização lógica da Cidade, através de um sistema ortogonal ou de retícula, onde as avenidas longitudinais e transversais em esquadria formavam quarteirões regulares com uma funcionalidade específica. O plano coloca o enfase nas preocupações democráticas e na valorização do Homem como “medida de todas as coisas”.

Imagem de cima – Maquete de Delfos, exemplificadora da integração com ambiente natural; Imagem de baixo - A cidade de Mileto (organizada no séc. V a.C. por Hipódamo) caracteriza-se pelo seu traçado ortogonal que se adapta ao terreno, a ágora une as duas quadrículas

Nas cidades romanas o planeamento urbano, se assim podemos dizer, nasceu da tentativa de resolução dos problemas político-militares, económicos e de salubridade. Estas evoluíram da expansão de antigas povoações, acampamentos militares ou propriedades rústicas, no entanto é nas novas cidades do Império Romano que se verifica uma maior aplicação do plano urbanístico defendido pelos romanos. Este privilegia o traçado regular e geométrico, em formato de rede ortogonal atravessado por duas vias principais orientadas segundo os pontos cardeais: norte-sul – o Cardo - e este-oeste – o Decumano. No cruzamento das duas vias ficava o fórum e nas suas extremidades as portas principais da cidade, já as termas e o anfiteatro ficavam nos limites da urbe. Ao contrário dos gregos a intervenção na paisagem era uma realidade, disfarçavam a irregularidade com edifícios majestosos, movimentavam as terras para maior efeito cénico ou prático.
 
 Imagem da Esquerda – Maquete de Roma Antiga; Imagem da Direita- Plano da cidade de Timgad - Argélia, construída no ano 100 pela 3ª Legião ao serviço no Norte de África

A cidade Medieval, inicialmente campesina e espelho da sociedade feudal, ganha uma importância no ordenamento do território com o crescimento demográfico, o desenvolvimento do comércio nos Sécs. XII e XIII e o crescente aparecimento de uma classe social “burguesa”. Geralmente a cidade situa-se em locais de difícil acesso por necessidade de defesa, sendo por isso fechada em si e vulgarmente muralhada. O facto de se adaptar à topografia do terreno torna-a numa cidade orgânica e condiciona por isso a sua fisionomia espacial, dando origem a ruas irregulares e tortuosas.
Pelo facto de estas cidades terem surgido naturalmente há uma grande variedade de esquemas planimétricos: Cidade linear, Cidade em cruz, Cidade em esquadria, Cidade nuclear, Cidade binuclear, Cidade espinha de peixe, Cidade acrópolis e Cidade radioconcêntrica. No entanto esta última é a mais usual na Idade Média, talvez porque a sua forma circular ou elíptica se torne de fácil defesa e mais económica. Verifica-se aqui que as ruas mais importantes desenvolviam-se a partir do centro, radialmente, até às portas da fortificação e as secundárias ligavam as principais entre si de forma circular e dispunham-se em torno do centro, sendo este ocupado por uma catedral ou um templo e pelos edifícios mais importantes para além das necessidades de mercado - centro cívico. Os Grandes monumentos serviam de foco a toda a estrutura da cidade.




Toledo - ilustra a localização preferencial da Idade Média, numa colina rodeada por um fosso natural de um rio.

                        Vista aérea da cidade de Eguisheim França, patenteia o esquema da cidade radioconcêntrica
A cidade ideal do Renascimento nasce a partir das descrições deixadas por Vitrúvio (arquitecto romano do séc. I a.C.), sendo uma criação mais intelectual que real. No período renascentista muitos foram os teóricos que se debruçaram sobre a organização das cidades, criando mesmo o conceito de “Cidade Ideal Italiana”, onde as casas eram proporcionadas ao espaço, os centos administrativos/políticos e os palácios eram alinhados com os demais edifícios e as igrejas eram em forma circular, para que tudo confluísse numa perspectiva linear e matematicamente rigorosa, baseados nos novos conceitos e mentalidades da época. Esta cidade toma a forma de um octógono, tendo por base uma estrela de 8 pontas inscrita num círculo, devido quer à necessidade de defesa, quer à necessidade de protecção dos ventos dominantes, efectuada com torres circulares nos seus ângulos e rodeada de muralhas, ficando cada lanço da muralha oposto a um vento.
Nas cidades do velho continente, o pensamento utópico organiza cidades geométricas ideais, com preponderância dos traçados regulares, apresentando simetria e proporção rígida na execução das vias, escadarias, terraços e praças. Esta última é o “Cartão de Visitas” da cidade e das autoridades. É contudo nas novas cidades que os ideais vigentes ganham espaço surgindo um modelo regular, de ruas rectilíneas, que definem quarteirões, geralmente quadrados, onde o centro é conseguido através da supressão de quarteirões, criando assim praças onde os edifícios mais importantes são implantados.









A cidade Barroca foi herdeira dos estudos teóricos do Renascimento, do critério albertiniano, baseado na pura harmonia geométrica, independentemente da percepção visual. Esta revelava preocupação na criação de zonas monumentais, para conter grandes massas que permitissem o espectáculo absolutista da Igreja e do Rei, onde ruas e avenidas rectas, largas praças, palácios com fachadas surpreendentes, fontes e jardins exuberantes, criam o cenário para tal. É neste contexto que surge um novo tipo de cidade, a Cidade-Capital, criação moderna, racionalmente planificada, imagem da realidade nacional e consolidação do poder político num único centro. Esta criação barroca confere à cidade um elemento político, social e cultural decisivo.
O Barroco gerou uma nova ideia de conceber a cidade, esta deveria ser considerada como obra de arte, de percepção visual imediata, usando a linha recta, a perspectiva monumental, o programa e a uniformidade como meios. 




Imagem da Esquerda - A Praça Monumental, construída para servir de quadro a um rei, foi um tema adoptado pelo barroco ; Imagem da Direita – Praça de Espanha-Itália






A Cidade é feita de história, dependente das etapas por que passou e de uma certa maneira fragmentada e inacabada, constituindo uma herança dos nossos antepassados. Esta é o resultado de uma actualização das fases históricas por que passou e a sua projecção em direcção ao futuro.
Teresa Beyer