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sábado, 11 de julho de 2020

A PROSTITUTA E O JUIZ. DIGNIDADE E CREDIBILIDADE


 Uma prostitua denuncia aos deputados da Assembleia da República e à comunicação social as perversões sexuais de um juiz, que solicitava sexo oral enquanto ouvia gravações de menores.
Exposto na praça pública, o juiz usa a mesma comunicação social para se defender, negando conhecer o local dos alegados atos sexuais com prostitutas e a perversão sexual que enoja qualquer um, ao mesmo tempo que desafia a autora da denúncia a apresentar provas.

Os passos dados pela prostituta obrigam-na a comprovar cabalmente a sua acusação, mas o tempo, a denúncia e a dúvida instalada são lava incandescente sobre a dignidade do juiz, que sente o enorme peso que uma acusação deste tipo acarreta, quer a nível pessoal como social e profissionalmente.

Por mais mesquinhas que sejam as motivações da prostituta, há que olhar para este tipo de denúncia sem preconceitos.
Quanto mais rapidamente esquecermos que a denunciante é uma puta e o acusado um juiz, mais aptos estaremos para discernir entre uma cabala pérfida ou uma denúncia corajosa. 


Quero ouvir a prostituta apenas como uma mulher, tão credível como qualquer outra mulher, apesar da pouca dignidade da sua profissão. 
Quero garantir ao juiz o direito a defender a sua dignidade, mas sem trazer consigo a credibilidade da toga.

Obviamente que a culpa do acusado se afere com provas e não com suposições ou fracos indícios, embora nem sempre seja possível provar aquilo que acontece quando em causa estão serviços sexuais. 

A prostituição não é um ato digno, mas não pode servir para enlamear definitivamente a dignidade de inimigos de ocasião, nem para descredibilizar justas acusações.

O tempo de espera será um inferno para um juiz inocente, todavia seria interessante que a magistratura aproveitasse este tempo de provação para refletir sobre quanto injusta é a Justiça que tarde; quantas almas destroem os julgamentos adiados, as sentença que se espreguiçam, indolentes, sobre os anos, como se não houvesse vidas em suspenso. 

Ao contrário do que a prostituta afirma, o tribunal que hoje condena e absolve - o tribunal mediático - ouve-a e considera as suas palavras. 
Há até um incontido prazer, em grande parte da população, em conhecer estas denúncias. Muitos tomam-nas imediatamente como verdadeiras, sem grande exigência de provas. A prostituta-denunciante sabe-o bem! Também por isso devemos exigir-lhe provas claras. Não porque do outro lado está um juiz, mas porque do outro lado está um ser humano.

Dignidade e Credibilidade não devem ser um exclusivo de determinadas profissões ou negadas a outras à partida. Porque são valores fundamentais para qualquer pessoa, exige-se que não brinquemos com eles. Muito menos de uma maneira perversa, jogando com os preconceitos de uma plateia ávida de sangue moral.

GAVB

sábado, 13 de junho de 2020

O QUE FAZER COM A HISTÓRIA QUE NOS DÓI?

    A História não pode ser reescrita. Foi o que foi e cada povo deve asumi-la, mas também enquadrá-la. Daqui a umas décadas acontecerá o mesmo connosco, pois aquilo que agora consideramos aceitável pode, muito bem, ser visto como abjeto, pelas próximas gerações.  
     

Assumir o que os portugueses fizeram em África, desde o século XV até ao final do século XX é um dever para com a verdade. 
  É verdade que alguns portugueses tiveram comportamentos racistas durante décadas, como é verdade que muitos (a maioria) não os tiveram. 
   A maneira como o mundo era visto nos séculos XVI ou XIX era muito diferente da atual visão dos comportamentos humanos aceitáveis, mas isso não justifica tudo o que de mal se fez. Há que fazer um ato de contrição e... avançar. 

  Assumir responsabilidades históricas não é ficar eternamente preso a um culpa cometida pelos nossos antepassados, mas assumir essa herança negativa porque se quer um mundo melhor, mais justo, mais harmonioso e pacífico.
     Pedir desculpa pelo passado não é aceitar a violência nem o ódio do presente! Quem fomenta o ódio e a vingança não quer construir nada de bom entre povos, nem quer aceitar qualquer pedido de desculpas, mas apenas vingar-se.
Destruir estátuas ou vandalizar monumentos relevantes para um povo que nos acolhe, porque, no passado, alguém desse povo foi racista não é fazer justiça, mas apenas fomentar a vingança, a discórdia e a guerra. 

   
O racismo não é só um problema de cor nem de contexto histórico. Infelizmente, ele perdura em muitas almas desumanas e arrogantes, que sempre se julgarão com mais direitos que outras.
     
    No final de 2019, Angela Merkel esteve em Auschwitz para assumir, em nome da Alemanha, a responsabilidade pelo holocausto. Vergonha e mágoa, mas também a consciência de que assumir a dor e a vergonha do passado é o caminho para seguir em frente, construindo um futuro melhor.
    Os povos e as pessoas precisam de seguir em frente e quem quer seguir em frente, construindo a paz entre povos, não tem interesse em estar constantemente em processos de vingança e ajustes de contas.
    É verdade que muitos povos europeus têm de prestar contas pelo seu passado, mas também é verdade que muitos povos africanos têm de prestar contas pelo seu presente e passado recente. Que sociedades construíram eles depois da descolonização? África é hoje um exemplo de igualdade, democracia e paz? Não há racismo nem ódio em África ou na Ásia? 
Quando se perde tempo e energia a destruir, não sobra força nem arte para construir paz, igualdade, respeito pelo ser humano. 

     O grande problema do Racismo é que ele não faz apenas parte do passado. Ele está impregnado em muitas almas infelizes, doentias e malévolas. Combatê-lo é um luta diária, que terá de ser vencida sem ódio, sem violência, sem ceder à provocação.  
GAVB

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A CULTURA NÃO É UM HOBBY


“Entristece-me muito a mentalidade de que a cultura é um hobby ou de que não é um trabalho. É muito estranho isto ainda acontecer aqui. Noutros países os apoios à cultura foram quase automáticos e com valores substanciais”- Sofia Escobar 

     Quando a crise económica visita um povo pouco esclarecido ou governado por gente incapaz, a cultura é a primeira fatia do orçamento a cortar. Não por ser a maior, mas por ser a mais fácil de aceitar pelo povo. Realmente, quando uma imensa maioria não está habituada a consumir cultura, a pagá-la, não lhe sente a falta. Provavelmente, por isso, acha muito bem que as migalhas que anualmente lhe são atribuídas podem muito bem desaparecer e deixar na indigência milhares de pessoas. 

     Como se os artistas não fossem trabalhadores de pleno direito ou aquilo que fazem não tivesse a dignidade de uma profissão. É possível que muitos achem que a vida de artista é um hobby de fim-de-semana e que o músico, o artista plástico ou a atriz têm outro trabalho donde retiram o dinheiro que paga as contas. 

     É aceitável que, em Portugal, um jogador profissional tenha um salário que varia em os dez mil euros e os duzentos mil euros líquidos mensais? Ao que parece há suporte empresarial para isso e a indústria sabe como angariar receitas e fazer exigências ao poder político. Ano após ano consegue montar uma rede de influências que permite aos vários agentes viver trinta a quarenta anos com rendimentos angariados durante quinze. 

     E os outros artistas? Os atores, os músicos, os técnicos de som, os artistas de circo, os artistas plásticos – que rendimento têm? Como asseguram eles a sua reforma? Como vivem em tempos de pandemia? Que ajudas têm do Estado? 

     É necessário socorrer os agentes culturais, como medida de emergência. Depois é necessário uma profunda reforma da maneira como funciona a cultura em Portugal, tornando-a, paulatinamente, num produto de consumo comum, alargando drasticamente o número de consumidores, para que, no futuro, os artistas não façam o triste papel de pedintes a quem o Estado ou a população em geral, quando está bem disposta ou de barriga cheia, faz donativos para alguns dotados exercerem o seu hobby. 

     Urge mudar a mentalidade, alterar as regras, tornar a cultura (qualquer que seja a sua manifestação) num ato digno, respeitado sustentável. E isto tem tanto urgência como salvar um banco. 

A propósito, quantos orçamentos anuais do ministério da cultura já enterramos no Novo Banco?

GAVB

quarta-feira, 10 de junho de 2020

ARISTIDES SOUSA MENDES NO PANTEÃO NACIONAL

Aristides Sousa Mendes é um herói português, de quem o Estado português sempre teve vergonha. 
O homem que foi contra Salazar, contra o politicamente correto, contra a hipócrita etiqueta diplomática, mas a favor da humanidade, da vida, de milhares de homens, mulheres e crianças que conseguiram fugir  de um destino trágico, criado por um louco que perseguia o ideal de extermínio dos judeus.

Apesar de todas as reabilitações públicas, o poder político sempre teve um certo pejo em assumir a sua herança humanista, no entanto, lentamente essa inércia ética vai-se esbatendo e por estes dias o parlamento português aprovará um projeto de resolução que visa dar honras de panteão nacional a Aristides Sousa Mendes.

O projeto é da deputada Joacine Katar Moreira e parece reunir amplo consenso entre os vários partidos políticos, ainda que não note grande entusiasmo em nenhum deles. Pouco importa! O que é relevante é que a memória dos seus atos não se apague e, pelo contrário, as gerações mais novas de portugueses respirem os seus ideais humanistas, a sua coragem política e diplomática, a maneira com soube valorizar a vida.

É certo que o panteão nacional não é um lugar icónico da portugalidade nem um dos mais turísticos, mas o seu simbolismo é inegável e através dele podemos percecionar muito do que fomos e somos enquanto país e povo.
Quando, daqui a um ano ou a década, um jovem visitar o Panteão e indagar sobre os feitos dos heróis que lá são evocados, poderá aprender sobre a simbólica coragem portuguesa, em tempos de cobardia e taticismo político, durante a segunda guerra mundial. 

E certamente abrirão um sorriso longo e satisfeito, que iluminará a face satisfará a alma. Aristides Sousa Mendes foi e é esse raio de esperança com carimbo português, no passaporte da vida.

GAVB

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A HUMANIDADE NÃO DEU CERTO

Flávio Migliaccio não aguentou mais a desumanidade que tomou conta do Brasil, em tempos de pandemia, onde o vírus Bolsonaro consegue destruir mais rápido a alma de um povo do que a letalidade da COVID-19. 
Flávio suicidou-se. 


Depois de uma vida tão longa e tão bela, fazendo rir e chorar milhões de pessoas por todo o Brasil, acabou os seus dias em sofrimento de alma, vendo um país trespassado pela desumanidade de um maluco, que desprotegeu o seu povo, a ponto de hospitais fecharem portas, por falta de capacidade para acolher mais infetados com o corona vírus.
Imagino a angústia do velho Migliaccio nestes dias de treva profunda, onde nenhum prémio, nenhuma recordação doce de tantos momentos de glória foi suficentemente forte para o impedir de partir. 

Suicidou-se por absoluta incapacidade de continuar a ver tanta crueldade e desumanidade. Deixou-nos uma carta amargurada, onde descrê totalmente da humanidade, onde lamenta o hálito putrefacto a ditadura militar que nauseia o Brasil de Bolsonaro.
A morte de Flávio calou fundo no mundo artístico e social brasileiro, com Lima Duarte a fazer questão de lembrar a todos os que lavam as mãos desta morte, de todas as mortes evitáveis da Covid-19, o fazem numa bacia de sangue.
Deve ter sido por isso que Regina Duarte resignou ao seu cargo na Secretaria da Cultura, depois de tão ignóbeis e despreziveis afirmações nas últimas semanas. 
Flávio não foi fraco, Flávio não foi cobarde, foi apenas coerente com o seu sentido ético. A grandeza do seu coração talvez não merecesse continuar a ver tanta ignominia.   

GAVB

terça-feira, 19 de maio de 2020

EU


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca

terça-feira, 5 de maio de 2020

UMA LÍNGUA DE MUITAS PÁTRIAS


Há muito que o português é uma língua mundial. Em número de falantes só é suplantada pelo inglês, francês e espanhol, o que só por si fala do valor que a língua de Camões, Pessoa, Jorge Amado ou Pepetela têm no planeta.
Desde do 2019, o dia 5 de Maio passou a ser o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

O melhor império é o da língua.  
Sentir que milhões de pessoas, espalhadas por vários continentes, se sentem em casa quando dizem «Mãe», «Obrigado», «Saudade» devemos encher de orgulho pela nossa História.

Esse orgulho constrói-se em cada dia, pelo prazer de falar bem português, pela vontade de elevar  aqueles que cultivam o português como a sua língua, pela defesa da nossa maneira de contar histórias, de abordar a realidade, de definir conceitos.

Há uns tempos, no centro de Madrid, um extraordinário guia turístico contou-me sobre a sua intenção de aprender português. Aprender o encanto das palavras, a sua musicalidade e doçura. Surpreendeu-me num espanhol tal desejo, mas hoje cada vez mais europeus se apaixonam pela nossa língua e até chefes de estado ou de governo fazem questão de se dirigir aos portugueses na nossa língua.

A língua portuguesa é  maior património da lusofonia. Precisamos de a tratar melhor. Dentro e fora da CPLP. Precisamos de ter orgulho em falar, de cantar em português, de discursar em português. Devemos fazê-lo sempre que possível e sem vergonha, porque somos uma língua de muitas pátrias e povos, com história, com passado e sobretudo com muito futuro.

Gabriel Vilas Boas