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quarta-feira, 20 de maio de 2020

A HUMANIDADE NÃO DEU CERTO

Flávio Migliaccio não aguentou mais a desumanidade que tomou conta do Brasil, em tempos de pandemia, onde o vírus Bolsonaro consegue destruir mais rápido a alma de um povo do que a letalidade da COVID-19. 
Flávio suicidou-se. 


Depois de uma vida tão longa e tão bela, fazendo rir e chorar milhões de pessoas por todo o Brasil, acabou os seus dias em sofrimento de alma, vendo um país trespassado pela desumanidade de um maluco, que desprotegeu o seu povo, a ponto de hospitais fecharem portas, por falta de capacidade para acolher mais infetados com o corona vírus.
Imagino a angústia do velho Migliaccio nestes dias de treva profunda, onde nenhum prémio, nenhuma recordação doce de tantos momentos de glória foi suficentemente forte para o impedir de partir. 

Suicidou-se por absoluta incapacidade de continuar a ver tanta crueldade e desumanidade. Deixou-nos uma carta amargurada, onde descrê totalmente da humanidade, onde lamenta o hálito putrefacto a ditadura militar que nauseia o Brasil de Bolsonaro.
A morte de Flávio calou fundo no mundo artístico e social brasileiro, com Lima Duarte a fazer questão de lembrar a todos os que lavam as mãos desta morte, de todas as mortes evitáveis da Covid-19, o fazem numa bacia de sangue.
Deve ter sido por isso que Regina Duarte resignou ao seu cargo na Secretaria da Cultura, depois de tão ignóbeis e despreziveis afirmações nas últimas semanas. 
Flávio não foi fraco, Flávio não foi cobarde, foi apenas coerente com o seu sentido ético. A grandeza do seu coração talvez não merecesse continuar a ver tanta ignominia.   

GAVB

domingo, 10 de novembro de 2019

ÀS VEZES O AMOR NÃO BASTA

A 10 de novembro de 2009 Robert Enke saiu de casa pela manhã e disse à mulher que ia chegar tarde. Tinha duas sessões de treino marcadas com o treinador de guarda-redes do Hannover, que não esperasse por ele. Teresa acreditou.

Só que ao final do dia Enke não apareceu em casa e Teresa ficou preocupada. Telefonou ao treinador de guarda-redes e soube que afinal não tinha havido qualquer treino marcado. Soaram os alertas, Teresa temeu o pior. Ligou de seguida ao empresário de Robert, em pânico. Ele pediu-lhe para ver em casa se o marido lhe tinha deixado algum bilhete e ela encontrou uma carta no quarto. "Querida Terri..."


Desejou nunca ter saído do Benfica, onde era feliz. Acabou por rumar à Turquia, ao Fenerbahhçe, por empréstimo, mas ao cabo de apenas 13 dias estava de regresso a Barcelona. Depois de uma derrota por 3-0, em que os adeptos lhe atiraram objetos da bancada e o ofenderam verbalmente, Enke não aguentou. Foi nesta fase que começou a ser seguido pelo dr Makser. Com a autoestima muito em baixo rumou ao Tenerife. 


Em 2004 regressou à Alemanha, assinando pelo Hannover. Foi este o clube que o catapultou para a seleção da Alemanha, mas nem isso o fazia sorrir. Enke vivia com medo do fracasso, da crítica, de perder o futebol e a filha. Havia dias em que não queria sair da cama, em que se sentia mal, muito mal. Ninguém no clube sequer suspeitou, todos pensavam que não era muito falador porque era uma pessoa reservada. Nada mais.


O Dr. Makser queria interná-lo, mas ele dizia que não, que estava bem. Mas não estava. Enke achou que apenas a morte o podia livrar daquele fardo e marcou encontro com ela naquele final de tarde do dia 10 de novembro de 2009. "As vezes o amor não basta", constatou Teresa, que sempre fez de tudo para resgatar o marido da tristeza em que estava atolado.

Depressão

Falar em depressão no futebol há 10 anos era como falar de homossexualidade. Era tabú. Ninguém admitia estar triste, psicologicamente doente, pois havia o medo de ser considerado fraco, de perder o lugar na equipa ou de ser humilhado pelos adeptos.


Mas nos últimos anos inúmeros atletas têm vindo a público falar sobre tema. André Gomes, no Barcelona, passou por momentos complicados; Gianluigi Buffon, Gary Neville, Iniesta e mais recentemente Marcelo já confessaram ter passado por momentos complicados. Se hoje fosse vivo Enke saberia que não estava sozinho... 
in Record


sábado, 10 de janeiro de 2015

GETÚLIO, O FILME


"Saio da vida para entrar na História." Getúlio Vargas

Recentemente vi, já em vídeo, o filme “Getúlio”, sobre a maior figura política do Brasil da primeira parte do século XX – Getúlio Vargas. Revolucionário, chefe de governo, ditador, presidente eleito pelo povo, acabou por se suicidar a 24 de Agosto de 1954, quando decorria uma investigação ao assassínio do jornalista Carlos Lacerda, principal opositor de Getúlio Vargas.
O filme percorre a angústia de Getúlio nos últimos 19 dias da sua vida até decidir suicidar-se, quando se torna evidente, para toda a gente, que fora a sua guarda pessoal a arquitetar a morte do principal rival de Vargas, sem dar disso conhecimento a Getúlio.
Tony Ramos esteve brilhante, como é seu costume, no papel de Getúlio, que me pareceu um individuo cansado, amargurado, um pouco desiludido com aqueles que lhe eram mais próximos.

"Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem."




O filme não é uma biografia de Getúlio, pois todos os anos que o controverso político brasileiro esteve no poder são resumidos pela voz da personagem principal do filme logo no início da película, com uma lucidez arrepiante. Na primeira pessoa, Getúlio refere as diversas fases em que teve o poder na mão, o modo antidemocrático como o manteve, mas também as coisas boas que fez, nomeadamente a criação da Petrobras, o salário mínimo, as férias pagas. Ao longo do filme, ele repisará estas ideias, para que fique bem claro que Getúlio fora um ditador que governou a favor do povo.
No entanto, não é esse o objetivo do filme. Penso que a pretensão do realizador foi mostrar a angústia de Getúlio nos últimos dias de vida, perante a acusação explícita de que seria impossível não ter dado tácito aval ao assassínio do seu principal opositor.


" Metade dos meus homens de governo não é capaz de nada, e a outra metade é capaz de tudo."

Vargas, melhor do que ninguém, sabia que em política o que parece é, mas neste caso o que parecia não era. No meu entender, é essa reabilitação moral inequívoca que o filme procura e que, no meu entender, consegue.
Todavia, penso que o realizador deveria ter ido um pouco mais além do drama psicológico final de Getúlio. A sua vida política rocambolesca incitava a uma abordagem mais histórica e factual da sua ação pública. Ainda que esta já tenha sido abordado em anteriores trabalhos cinematográficos e os brasileiros a conheçam bem, os europeus, como eu, e as jovens gerações brasileiras não têm um domínio tão claro dos factos.



Além do extraordinário desempenho de Tony Ramos, sobressai Drica Moraes, no papel de Alzira Vargas, a filha de Getúlio. Ela é a grande companheira, confidente, amparo do pai. Drica consegue sobressair dos restantes atores, agitando a cena, marcando ritmo, completando e contrapondo a sua personalidade lutadora ao cansaço de Getúlio.
A nível técnico é de realçar a excelente fotografia do filme e a ótima caracterização de atores, que fazem de GETÚLIO, de João Jardim, um bom filme, mas longe de ser excecional. Para ver e para discutir com os amigos que gostam de história do Brasil.

Gabriel Vilas Boas