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segunda-feira, 7 de março de 2016

É ISSO AÍ, Seu Jorge e Ana Carolina



Na semana passada Seu Jorge esteve em Guimarães, encantando a sua imensa legião de fãs. Trouxe a guitarra, a sua potente, melodiosa e aconchegante voz, as suas músicas malandras, mas não trouxe (infelizmente) Ana Carolina para cantar a mais bonita das suas músicas: 
                                                              É ISSO AÍ.
Esta música ganha uma dimensão emocional e estética enorme quando interpretada em dueto. As duas vozes leem plenamente a emoção feminina e masculina que perpassa pela letra. A dupla brasileira supera o original do irlandês Damien Rice ao transformar É ISSO AÍ na assunção de um amor (im)perfeito, dolorido, incontornável e inevitável.

Há tristeza, há mágoa, algum desencanto, mas também um enorme Amor, na voz cansada, revoltada de Ana Carolina. A maneira como a cantora brasileira e Seu Jorge cruzam o timbre das suas vozes, interpretando a letra, torna esta música maravilhosa. Facilmente ela chega ao fundo da alma de quem a ouve e interpela-a, obrigando-a a pensar na sua vida, nas suas emoções e sentimentos, na «sua» história.

Ana Carolina encanta de uma maneira profunda, porque a sua voz não nasce nas cordas vocais mas no profundo coração. É de lá que vem aquele grito tão significativo quanto necessário. É um grito de desespero de alguém que pede atenção, que quer ser feliz.
O diálogo dos amantes, interpretado por Seu Jorge e Ana Carolina, termina com a mais profunda das evidências: eles não conseguem parar de se olhar, eles não conseguem parar de se amar, eles não conseguem…
Ambos os cantores mergulham profundamente nesta música suave, que se apoia nas guitarras e no violoncelo. À voz elegante e aveludada de Ana Carolina contrapõe Seu Jorge um tom quebrado e rouco como o de uma tempestade imperial, arrepiando qualquer um.
Talvez o amor balance entre uma coisa simples e quotidiana e um milagre no meio de tempestades de mentiras, traições e desencantos (“É isso aí! Há quem acredite em milagres / Há quem cometa maldades / Há quem não saiba dizer a verdade”). Talvez apeteça “ensinar aos filhos a escolher seus amores” para que as dores não sejam hereditárias. Talvez o Amor não consiga parar de olhar a sua parceira de sempre: a Dor.

Gabriel Vilas Boas 
  

domingo, 6 de março de 2016

QUANDO OS DITADORES MORREM: DE ESTALINE A HUGO CHÁVEZ


Quando Hugo Chávez nasceu já Estaline tinha morrido, mas a verdade é que os dois ditadores morreram no mesmo dia do ano – 5 de março. Foram, obviamente, ditadores muito diferentes, por causa das suas personalidades, do tempo em que viveram e do país onde exerceram o poder. Todavia, dominaram e exerceram um poder absoluto tempo demais, armadilhando o sistema político de tal maneira que só a morte os derrotou.
Se o comunismo se tornou monstruoso para os ocidentais, muito se deve à ação política de Estaline. O Estado era o Partido e o PCUS estava na sua mão de ferro. Durante trinta anos dominou a União Soviética e a Europa de leste no pós segunda guerra mundial, coartando-lhe as liberdades mais básicas. Todavia, o seu pior foi com os seus: mandou prender, deportar e executar os opositores em massa, destruiu as liberdades individuais e criou uma monstruosa polícia política. Ao mesmo tempo cultivou o culto da sua personalidade como arma ideológica. A sua política baseou-se no terror. Estaline foi o protótipo do grande ditador do século XX.

Tal como o comunismo cavalgou o descontentamento do povo russo com o seu Czar, Hugo Chávez aproveitou o desespero de um povo muito pobre para se eleger. Para se perpetuar no poder foi usando todas as artimanhas que a lei, que ele fez aprovar, lhe permitiu. E conseguiu até que… a doença o derrotou.
Normalmente um ditador nasce do desespero de um povo que a ele se entrega de forma absoluta. Rapidamente o carismático líder ganha a paixão dos seus que se tornam fiéis como cães. O pior vem quando o poder já não serve mas se serve. Começa a corrupção, o autoritarismo e as liberdades são cortadas às primeiras contestações. Nenhum povo desiludido, prisioneiro em sua própria casa, é feliz nem cria riqueza. Em pouco tempo, a população volta ao estádio de desespero em que se encontrava na altura em que clamou pelo seu pseudo libertador, mas então a situação está pior: não tem forma de o mandar embora.


É o tempo ou as circunstâncias que o derrubam. No entanto, mesmo depois de morto ou deposto, ele continua, porque a máquina perversa que criou, qual monstro de sete cabeças, deixou uma estrutura e uma mentalidade difíceis de erradicar. Foi assim na União Soviética, foi assim no Iraque, ainda é assim em muito países de África.
Uma ditadura pode sobreviver a um ditador. Se um povo não souber pacientemente criar um tempo de transição, o temor espalha-se pelo corpo de uma nação e ninguém pode assegurar quanto tempo demorará até dele sair. A Rússia, por exemplo, ainda não se livrou dele.

Gabriel Vilas Boas 

sábado, 5 de março de 2016

MULHER NO JARDIM DE SAINT-ADRESSE, de Monet



Monet realizou esta pintura numa das suas temporadas, no verão de 1867, na casa que o seu primo; Paul-Eugene Lecadre, tinha em Saint-Adresse, perto do Havre. De todas as pinturas dedicadas ao tema do jardim da herdade, que realizou nesse verão, esta é provavelmente a mais importante. A mulher de costa, vestida de branco com sombrinha, poderá ser a mulher do seu primo.

 É importante referir que esta pintura é uma das obras mais precoces do impressionismo, podendo antever-se aqui uma série de aspetos relacionados com esta tendência artística. Em primeiro lugar, trata-se de uma pintura onde a captação da atmosfera é decisiva, não apenas do ponto de vista luminoso mas também cromático.
Por outro lado, de um ponto de vista técnico há que assinalar que a obra de Monet foi concretizada utilizando pinceladas curtas, dinâmicas e com alguma quantidade de empaste, o que confere à pintura dinamismo.
No seu todo, pode afirmar-se que se trata de uma obra alegre e positiva. O jardim está cheio de flores coloridas e as árvores estão repletas de uma cor intensa e variada. Nesta pintura, Claude Monet captou a natureza em todo o seu esplendor e vida.

Se quisermos focar mais pormenorizadamente a nossa atenção sobre este óleo do pintor francês, temos de destacar dois elementos: a figura feminina e as flores no centro do jardim. A mulher vestida de branco integra-se perfeitamente na paisagem, conferindo-lhe um carácter humano, o que a torna mais próximo do espectador.
No centro da composição pictórica, Monet pintou uma árvore rodeada de flores brancas e um canteiro de flores vermelhas, cuja cor é exaltada pela luz de verão que o artista sabe captar muito bem.

Apesar de este quadro ser de Monet, ele pertence à coleção do Museu Hermitage, situado em São Petersburgo, na Rússia, tal como acontece com outros grandes quadros de pintores franceses, espanhóis e holandeses, o que demonstra o grande poder económico dos czares assim com a sua enorme sensibilidade artística.

sexta-feira, 4 de março de 2016

VIOLÊNCIA FAMILIAR


A violência familiar é um tema chocante e doloroso para qualquer sociedade. Infelizmente, os portugueses têm sido insistentemente sacudidos por notícias dilacerantes sobre mulheres mortas por maridos ou companheiros, crianças alvo de abandono, maus tratos e, agora, mortas, presumivelmente, por gente que devia cuidar delas.
Desgraçadamente, a expressão “violência doméstica” tornou-se um eufemismo, porque aquilo com que nos deparamos frequentemente são homicídios.

A violência em meio familiar têm crescido assustadoramente, especialmente no que ao grau de monstruosidade diz respeito, deixando a população perplexa e assustada, até porque verifica que os motivos dos crimes são quase sempre insignificantes.
A violência familiar é um problema muito difícil de atacar pela sociedade, pois é cometida, regra geral, por um membro da família descontrolado sobre outro familiar, sob forma de coação física, psicológica, emocional e económica.
O que o crime de Portimão, ocorrido durante esta semana, vem revelar é que não é preciso um grande historial de desavenças para levar alguém à insanidade criminosa. Outra conclusão devastadora que podemos tirar é a da premeditação. Quer no caso do jovem algarvio quer noutros casos dados a conhecer pela comunicação social, percebemos que estes crimes foram minimamente planeados, de modo a ocultar provas ou a atrasar a investigação ou a proporcionar a fuga dos assassinos.

É assustador constatar como existe instinto assassino à solta na sociedade portuguesa. Tanta gente capaz de matar ou deixar matar aqueles que lhe são próximos por uma qualquer sem razão.
Não deixo de pensar como a destruição familiar tem tornado a sociedade fria, insensível, desumana e violenta. Quando as relações terminam, os filhos tornam-se um problema que se quer varrer para debaixo do tapete, especialmente quando atrapalham as novas relações que os progenitores querem assumir. Se a isto adicionarmos a natural rebeldia da adolescência e o pouco tempo que os adultos passam com as crianças e adolescentes, temos um contexto potencialmente perigoso. A voragem das coisas quotidianas, a falta de compromisso afetivo, o pouco investimento feito no diálogo minam os laços familiares.
Apesar de uma monstruosidade ser uma exceção, a sua repetição, cada vez mais frequente, revela sintomas preocupantes.
Evitar uma tragédia como a de Portimão é também saber ler sinais, acompanhar casos problemáticos, alertar pais e mães para as várias armadilhas que as vias rápidas da vida têm.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 3 de março de 2016

ENTREVISTA A UM PROFESSOR DE MORAL Professor António Madureira

António Augusto Nogueira Madureira é professor de Educação Moral Religiosa e Católica (EMRC) há um quarto de século e diretor do Secretariado Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas da diocese do Porto há mais de oito anos.
E.M.R.C. é, por várias razões, uma disciplina diferente das outras no curriculum escolar. Por essa razão, achei por ouvir o professor Madureira acerca da «sua» disciplina e para todos os agentes educativos poderem ter a perspetiva de quem gere os professores de E.M.R.C. no distrito do Porto.


O que é que a disciplina de EMRC dá de mais relevante à formação/educação de um aluno?
A Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) contribui para uma educação integral, em que a dimensão transcendente e religiosa da pessoa, da sociedade e da cultura se oferece como instância de leitura interpretativa do sentido para a vida. Só uma visão ampla da cultura permite ao aluno, na sua caminhada pessoal de liberdade, assumir-se todo e em tudo como membro de uma comunidade/sociedade. O quadro da educação, onde a EMRC se insere, é a cultura, não uma cultura qualquer à medida da consideração de cada interveniente, mas a cultura de um povo, a compreensão da pessoa, da vida e da história, lida e assumida ao longo do tempo, em perspetiva cristã.

Apesar de não ter um caráter obrigatório, a disciplina é frequentada pela esmagadora maioria dos alunos das escolas portuguesas. Como interpreta este facto?
Começaria por clarificar a afirmação “esmagadora maioria” pois não é verdadeira a nível nacional! Eu prefiro olhar a disciplina de EMRC, distante das leituras estatísticas e mais como uma proposta qualificada e qualificadora, para o desenvolvimento integral e integrado da pessoa humana! Quando esta missão se cumpre na escola é razão que valida as opções dos pais e ou alunos!

Normalmente, todos os alunos obtêm boas notas em EMRC. Acha que isso é fator fundamental na atração dos alunos?
Aqui a resposta imediata é «não»; a avaliação deve ser muito dialogada para conseguir ser entendida como uma forma de ajudar cada um a rever as suas metas. As boas notas, penso que, derivam mais do estar ali com e por gosto!


A nota da disciplina não é contabilizada para a passagem do aluno. Não pensa que isso diminui a EMRC no cotejo com as outras disciplinas curriculares aos olhos dos alunos, pais e outros professores?
 Não olho para avaliação/nota como necessidade qualificadora! Esta circunstância é um desafio interno que nos exige cuidar sempre a própria dinâmica da nossa disciplina! Não podendo ser uma como as outras, a EMRC caminha sobre um fio muito fino, pressionada por muitos lados. O lugar que lhe cabe, à EMRC, é exigente. Mas conhecendo nós estes dados é mais fácil compreender e redesenhar o nosso lugar e possíveis modos de o habitar nesta escola, sem demasiada angústia, com razoável esperança.
 Que papel espera que o professor de EMRC tenha numa escola?
     Sejam testemunhas credíveis de alegria! Adultos confiáveis! Cabe-lhes cultivar horizontes 
     largos e respirar revitalizantes!
É fácil e colaborante a relação entre as direções das escolas e o trabalho dos professores de EMRC?
Tenho imensa dificuldade em responder a esta questão, pois cada escola é uma realidade diferente com modalidades de diálogo particulares e difíceis de generalizar.
O que posso dizer é que uma liderança comprometida com a escola obriga a um olhar para todos e com todos fazer caminho!

Quais as qualidades essenciais que um professor de EMRC deve ter?
A missão entregue aos professores de EMRC exige ter-se em conta o “equilíbrio e a maturidade humana”. Devem ter um comportamento sensato, uma personalidade equilibrada e maturidade adequada à missão a desempenhar, bem como “capacidade de relação e de integração escolar”. O professor de EMRC deve ainda primar pela simpatia, delicadeza e pelo bom relacionamento com todos, capacidade de comunicar e de criar empatia, além de uma atitude construtiva na comunidade, isto no perfil humano. Depois temos perfil cristão e as necessárias habilitações académicas e são estas as qualidades desejadas para o docente de EMRC.

Os professores de EMRC facilmente são confrontados com a docência de 20 turmas. Não julga que isso é excessivo e contraproducente?
Prefiro orientar o meu olhar para a sorte que tem o professor de Moral… Conhece quase toda a escola e com todos é feliz… Importante é encontrar tempo e disponibilidade para quem precisa. Braços abertos para abraços verdadeiros!

Atualmente os alunos portugueses passam cada vez mais tempo nas escolas. Este é um caminho que deve ser aprofundado e defendido?
Penso que o tempo em casa e com a família deve ser o mais amplo possível, dentro dos limites profissionais e sociais com que se debatem as famílias. É de evitar a tentação de atribuir à Escola a função de suplência ou de substituição em relação às famílias. A Escola deve respeitar o princípio dos pais como primeiros e insubstituíveis educadores e colocar-se a seu lado, mas não em sua vez. Um Estado paternalista e dominador pretende sempre formatar os seus cidadãos segundo a sua ideologia, desconfiando da família, como primeiro espaço educativo. A Doutrina Social da Igreja não apoia esta visão.

Como avalia o modo como o ensino não católico se relaciona com a disciplina de EMRC?
No que diz respeito ao ensino estatal e ao quotidiano dos professores há boas e menos boas experiências. Por outro lado, o ensino não estatal nem confessional é uma realidade muito situada em cada instituição e com respostas muito diferentes: uns vêm a disciplina como muito importante para a formação dos alunos e promovem-na na sua comunidade educativa e outros pura e simplesmente ignoram a disciplina.

Os colégios católicos têm obrigação de dar uma relevância maior à disciplina de EMRC? Acha que é isso que se passa?
Há experiências muito díspares… Há colégios que levam muito a sério o primado do seu projeto educativo e são verdadeiras escolas católicas… Há outros colégios que esqueceram a marca essencial do seu projeto educativo e são apenas boas escolas! Obviamente a disciplina de EMRC devia ser uma das «marcas de água» da especificidade da Escola Católica e a alma da mesma.

O encontro de EMRC, em Maio, para os alunos do 8.ºano, é um momento marcante na carreira de qualquer estudante. Qual é o objetivo central dessa atividade?
O encontro promovido pela Diocese do Porto para os alunos de EMRC tem como primeiro objetivo apoiar e reconhecer os discentes que conscientemente fizeram esta opção. Depois promover encontro como espaço de cuidar do outro, agir com responsabilidade e liberdade. Promover uma experiência de alegria pela alegria de estarmos juntos!

Como reage à provocação de alguns agentes educativos que defendem a eliminação de EMRC dos curricula porque o Estado é laico?
O Estado é laico, mas a sociedade é plural. A reta laicidade não implica a eliminação da disciplina ou da dimensão pública do fator religioso, neste caso oferecida por uma instituição que, tem no campo social, educativo e cultural, uma marca história e ainda hoje um contributo essencial, reconhecido pelo próprio Estado e assegurado na Concordata. Essa opinião revela um desconhecimento do que é a missão da escola, o Estado Português, ao serviço da educação pretendida pelos pais, assume a sua responsabilidade na cooperação e na criação das condições necessárias para que os pais possam livremente optar, sem agravamento injustificado de encargos, pelo modelo educativo que mais convenha à formação integral dos seus filhos. Sem a abordagem desenvolvida na EMRC é claramente posto em causa a formação integral! A dimensão religiosa é constitutiva da pessoa humana, pelo que não haverá educação integral se o fenómeno religioso e as suas expressões e influências culturais não forem tomados em consideração!
Gere os professores de EMRC da diocese do Porto. O que lhe pede o senhor bispo no início de cada ano letivo?
A palavra gere não se aplica nesta missão que me foi pedida. O meu Bispo pede-me todos os anos para cuidar dos professores de EMRC que lecionam no espaço geográfico da Diocese do Porto… Saliento o desafio CUIDAR!

Quais as grandes compensações que o seu trabalho lhe dá?
Na verdade a sucessão dos anos de serviço, onde me sinto cada vez mais “em casa”, enriquece-me sobretudo pelo trabalho de equipa, e pela minha entrega mais situada e qualificada. O assumir, na minha Diocese, a função de Secretário Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas, isso obrigou-me a tomar contacto pessoal com a realidade da Disciplina e dos Professores na Diocese. Por outro lado, a necessidade de definir um percurso, de fazer opções, de elaborar e propor orientações, para os professores e disciplina de EMRC na Diocese, levou-me a investir na minha formação pessoal, nomeadamente no estudo mais apurado da legislação, na abordagem mais atenta dos documentos do Magistério, a fim de fundamentar devidamente o trabalho, que me foi confiado pelo Bispo Diocesano. Procurei orientar tudo isto no sentido de um desafio de crescimento pessoal e de maior e melhor serviço à Igreja.
Qual o grande desafio da disciplina de EMRC na próxima década, dentro da Escola portuguesa?
O desafio é conseguir ser lugar privilegiado para o cultivo da cultura e da sensibilidade espiritual, estética, ética e transcendente.
Qual é o professor de Moral desejável: um centrado na vertente humanista ou alguém mais concentrado no aspeto teológico?
O perfil do professor de EMRC contém aspetos que se aplicam a qualquer professor e aspetos específicos que decorrem da identidade da disciplina de EMRC. Este docente é caracterizado por três funções inseparáveis: testemunha, professor e educador.

O professor de EMRC desejável é aquele que assume educar com amor e educar para o amor e em colaboração com a família!

GAVB

quarta-feira, 2 de março de 2016

MACBETH, de Shakespeare


Escrita entre 1605 e 1606, esta tragédia, esta tragédia só foi publicada muitos anos mais tarde, por volta de 1623. Para escrevê-la, Shakespeare inspirou-se na “Crónica da História da Escócia” de Raphael Holinsted, na qual a figura principal, Lady Macbeth, embora mencionada só tem uma fala.
Enquanto Shakespeare escrevia Macbeth, Londres estava cheia de escoceses que tinham vindo para assistir à festa da coroação de Jaime I, e isso permitiu ao poeta ouvir, dos mais cultos forasteiros, pormenores interessantes da história da Escócia.
Os temas da tragédia são a ambição do poder e a culpa.

A tragédia conta a história de Macbeth, general escocês, que volta de uma batalha onde lutou valorosamente em defesa do seu rei (o seu primo Duncan) e consegue uma importante vitória. De regresso ao seu país, Macbeth tem um premonitório encontro com três feiticeiras que que lhe predizem que será rei. Para facilitar o cumprimento da profecia e instigado pela sua mulher, Macbeth aproveita-se de o rei Duncan ser seu hóspede e apunhala-o, durante a noite, culpando do assassínio os guardas aos quais também mata, fingindo uma grande indignação.
Assustados, os filhos de Duncan fogem para Inglaterra, o que torna ainda mais fácil a realização das ambições de Macbeth.
Já rei da Escócia, Macbeth tudo faz para assegurar a posse do trono e procura exterminar Banko, pois as feiticeiras haviam profetizado a Banko que ele seria a origem de uma dinastia de reis.

Sicários a soldo de Macbeth matam de facto Banko, mas o filho deste consegue escapar da morte. Na mesma noite em que é cometido o crime, Macbeth oferece um banquete, durante o qual o lugar do rei é ocupado pela sombra de Banko. Apavorado, o criminoso – que é o único a ver a sombra – pronuncia palavras que quase denunciam os seus crimes. Então, a sua mulher, mais serena, dá por terminado banquete e faz com que os convidados saiam.
As feiticeiras previnem Macbeth contra Macduff, e o usurpador decide exterminar também este e a sua família. Nessa ocasião, Macduff escapa com vida, mas morrem a sua mulher e os seus filhos. Macduff, que se refugiara a tempo em Inglaterra, consegue convencer Malcom, filho do assassinado rei Duncan, a atacar o traidor Macbeth e a derrubá-lo do trono.
As tropas de Malcom combatem as do usurpador e este perece às mãos de Macduff, que lhe corta a cabeça. O filho de Duncan é então proclamado rei da Escócia.
Lady Macbeth, atormentada pelos remorsos, endoidece e suicida-se, poucos dias antes da morte do marido.

Representei, no papel de Macbeth, e encenei partes desta peça com um conjunto de jovens alunos. Em ambas as situações constatei a complexidade e profundidade da obra de Shakespeare. É verdadeiramente desafiante todo o papel do protagonista, cuja alma é escrutinada em várias dimensões. A nobreza da luta, a ambição do poder absoluto, a crueldade com que mata o primo, os remorsos incomportáveis que o abalam, a culpa que o consome. O sucesso de qualquer representação está, em absoluto, na maneira como o ator agarra toda a complexa personagem de Macbeth. Através dele, Shakespeare representou as enomes contradições do ser humano e a maneira, ironicamente amarga, como a vida estabelece-se uma espécie de justiça poética sobre as ações do Homem. 

GAVB

terça-feira, 1 de março de 2016

UNIVERSIDADE DE COIMBRA


A Universidade de Coimbra faz anos! Setecentos e vinte e oito! Para mim, que fui seu aluno durante cinco anos, continua a ser a melhor Universidade de Portugal, embora os rankings internacionais não dêem cobertura à minha escolha afetiva.
 A Universidade de Coimbra tem a história, o estatuto, os meios humanos e físicos para se tornar numa Universidade de referência no contexto europeu. No entanto, a única distinção que a Universidade coimbrã conseguiu deve-la ao… património, quando a Unesco, há três anos classificou a Universidade como Património da Humanidade. Foi bonito, importante e prestigiante, mas também um sinal de alerta. Coimbra não pode ficar agarrada à sua história, ao eu estatuto e julgar ter um lugar de destaque no panorama universitário europeu que já não tem.

O grande boom do ensino superior em Portugal, ocorrido nos últimos vinte e cinco anos, descentralizou o poder universitário e, hoje, os melhores cursos de Engenharia, Medicina, Arquitetura, Economia já não moram em Coimbra. Salva-se, talvez, o curso de Direito, onde a enorme tradição conimbricense ainda dita leis e influencia pareceres.
A Universidade de Coimbra passa por um processo de transformação difícil e delicado, onde é preciso garantir um mínimo de financiamento e ao mesmo tempo atrair os melhores alunos, cada vez maias solicitados.

Nos últimos anos, a Universidade de Coimbra tem feito uma aposta forte na internacionalização e hoje mais de 20% dos seus alunos são estrangeiros, com particular destaque para a enorme comunidade de brasileiros. Noutra vertente, a Reitoria tem dedicado especial atenção à sua imagem, abrindo as portas aos milhares de turistas que todos os dias querem ver a Biblioteca Joanina, a Sala dos Capelos, a Torre da Universidade, a mítica faculdade de Direito ou a Biblioteca Geral.

O sítio onde a universidade está implementada – a alta da cidade – é magnífico e proporciona a quem nela estuda um prazer extra. Observar o Mondego de alguns varandins excelsos da universidade de Coimbra é um prazer indizível que de vez em quando tenho de reviver. É certo que não reencontro os amigos que escreveram eternos sentimentos na minha alma, mas calcorreio os locais que a memória sabe de cor e deixo-me invadir por aquela saborosa nostalgia que até dói de tanta felicidade que concentra.
Quando daqui a um quarto de século, a «minha» Universidade fizer 750 anos, espero que esteja mais pujante e orgulhosa do seu passado glorioso do que nunca e, sobretudo, que o presente seja de um fervilhar constante de ciência, inovação e criatividade, onde qualquer cidadão europeu se sinta em casa como eu me sinto em cada regresso.

Gabriel Vilas Boas