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sábado, 5 de março de 2016

MULHER NO JARDIM DE SAINT-ADRESSE, de Monet



Monet realizou esta pintura numa das suas temporadas, no verão de 1867, na casa que o seu primo; Paul-Eugene Lecadre, tinha em Saint-Adresse, perto do Havre. De todas as pinturas dedicadas ao tema do jardim da herdade, que realizou nesse verão, esta é provavelmente a mais importante. A mulher de costa, vestida de branco com sombrinha, poderá ser a mulher do seu primo.

 É importante referir que esta pintura é uma das obras mais precoces do impressionismo, podendo antever-se aqui uma série de aspetos relacionados com esta tendência artística. Em primeiro lugar, trata-se de uma pintura onde a captação da atmosfera é decisiva, não apenas do ponto de vista luminoso mas também cromático.
Por outro lado, de um ponto de vista técnico há que assinalar que a obra de Monet foi concretizada utilizando pinceladas curtas, dinâmicas e com alguma quantidade de empaste, o que confere à pintura dinamismo.
No seu todo, pode afirmar-se que se trata de uma obra alegre e positiva. O jardim está cheio de flores coloridas e as árvores estão repletas de uma cor intensa e variada. Nesta pintura, Claude Monet captou a natureza em todo o seu esplendor e vida.

Se quisermos focar mais pormenorizadamente a nossa atenção sobre este óleo do pintor francês, temos de destacar dois elementos: a figura feminina e as flores no centro do jardim. A mulher vestida de branco integra-se perfeitamente na paisagem, conferindo-lhe um carácter humano, o que a torna mais próximo do espectador.
No centro da composição pictórica, Monet pintou uma árvore rodeada de flores brancas e um canteiro de flores vermelhas, cuja cor é exaltada pela luz de verão que o artista sabe captar muito bem.

Apesar de este quadro ser de Monet, ele pertence à coleção do Museu Hermitage, situado em São Petersburgo, na Rússia, tal como acontece com outros grandes quadros de pintores franceses, espanhóis e holandeses, o que demonstra o grande poder económico dos czares assim com a sua enorme sensibilidade artística.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A LEITORA, de Renoir

Há 97 anos, Limoges, na França via nascer um dos mais célebres pintores do século XIX, cujos quadros valem, hoje, milhões de euros e estão expostos nos melhores museus mundiais – Pierre-Auguste RENOIR.
O celebérrimo pintor impressionista produziu cerca de seis mil obras durante seis décadas de atividade, tornando-se numa referência da arte mundial.

Hoje proponho-vos um pequeno quadro, produzido por volta de 1874, denominado «A Leitora».
Este óleo sobre tela, de dimensões modestas (46,5x38,5) pertence à coleção do Museu d’Orsay, em França.



Depois de ter sido alvo de inúmeras críticas, no início da sua carreira artística, Renoir passou a conhecer o êxito como retratista, na segunda metade da década de setenta do século XIX. Ao longo da sua trajetória artística executou muitos retratos de mulheres, de pequenas dimensões, que representavam o seu ideal de beleza feminina.
Renoir manteve sempre um estilo próprio, ainda que seja possível detetar as influências de Manet e Monet. Através desta obra, o pintor francês mostra-nos o retrato de uma jovem leitora. A imagem torna-se encantadora e está imersa numa atmosfera cálida, em virtude da luz dourada que penetra no aposento através da janela que se insinua por detrás da jovem.
A luz intensa incide sob as páginas do livro e dá a ideia que estas iluminam, por sua vez, o rosto da leitora. A pincelada solta e enérgica cria uma interessante gradação de cores em toda a composição.
O delicado rosto da jovem está repleto de gradações de cor que lhe conferem um destacado volume e que transmitem, simultaneamente, o carácter do momento soalheiro, proporcionado pela luz do dia.

Já a mão que segura o livro parece mal desenhada, no entanto o artista consegue representar um gesto muito natural. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

NYMPHÉAS, de Claude Monet




Quem ama a pintura impressionista e pós-impressionista tem que visitar o Museu de l’Orangerie, em Paris, no antigo Palácio das Tulherias, a dois passos da Praça de la Concorde, ladeado pelo Sena e com o majestoso Museu d’Orsay como rival. Se o cenário exterior é magnífico, o interior não lhe fica atrás, com quadros de Cézanne, Matisse, Renoir, Picasso, Modigliani, Soutine, Henri Rousseau e Monet.
No piso de entrada do Museu, o visitante fica boquiaberto com a obra NYMPHÉAS, de Claude Monet.

São vários painéis que ocupam duas enormes salas ovais (construídas com esta forma para se adequar à obra de Monet) do Musée de l’Orangerie, que André Masson denominou Capela Sistina do Impressionismo e onde Claude Monet pintou o famoso ciclo dos lírios de água.
As dimensões e área coberta pelos painéis de Monet abrangem cerca de 100 metros lineares de pintura, onde o pintor gaulês deixou a marca da sua genialidade ao pintar uma paisagem pontilhada de lírios de água, ramos de salgueiro, árvores e reflexos de nuvens, dando a “ilusão de um conjunto sem fim, uma onda sem horizonte, nem barco”.

Esta obra-prima é exemplar único no mundo e merece ser admirada de perto, especialmente por quem, como eu, aprecia a pintura impressionista.
O ciclo dos lírios de água foi inspirado no jardim que o próprio Monet mandou construir na sua propriedade de Giverny, na Normandia, provavelmente já com o objetivo de o pintar.
A famosa lagoa de lírios de Monet, obrigou o pintor francês a um trabalho hercúleo de cerca de 300 pinturas, onde se incluem mais de quarenta painéis de grande formato.

Dois tipos de composição por Monet desde o início do ciclo. Um engloba as margens da lagoa e a densa vegetação – composição dos lírios de água da lagoa, pintada entre 1899 e 1900 – mais as pontes japonesas pintadas nos últimos anos de vida de Monet. A outra composição é um conjunto de peças, onde o pintor mantém somente a tabela de água, pontuada com flores e reflexos. Estamos perante as chamadas waterscapes, que Monet pintou entre 1903 e 1908, organizadas em séries, em que cada peça é apresentada como um fragmento, mas no conjunto acaba por formar um belo mural.


Nymphéas (lírios de água) é uma criação monumental e íntima; a expressão e o resultado do pensamento artístico de Claude Monet. Um projeto incrível, onde o pintor francês explorou até à exaustão as variações de luz no seu jardim e que o Musée de l’Orangerie exibe em duas salas ovais, que criam um lugar de reflexão para o visitante.
Há quase cem anos (1918), Claude Monet ofereceu este refúgio de beleza, este lugar de paz e meditação aos parisienses e hoje todo o mundo o pode apreciar.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

DA ARTE, DA PINTURA, DE AUGUSTE RENOIR EM ORSAY


“Tratar um tema pelas suas cores e não por si mesmo é o que distingue os impressionistas dos outros pintores.”  Georges Riviére,1 877


Museu D’Orsay, Paris


A Estação ferroviária de Orsay,de uma beleza imensa,haveria de ser classificada Monumento Histórico em 1978.
Em 1977,o presidente Giscard D’Estaing toma a feliz iniciativa da criação do Museu D’Orsay naquele espaço arquitetónico oitocentista,que haveria de ser inaugurado por Mitterrand a 1 de Dezembro de 1986.
Este é um dos museus imperdíveis da cidade de Paris.Em primeiro lugar,pelo facto de ser uma jóia da arquitetura parisiense.Depois,pela magnífica coleção impressionista e pós-impressionista que alberga.A pintura, a escultura, a fotografia e até a arquitetura estão ali soberbamente representadas.As artes decorativas também marcam presença nas salas dedicadas à Art Nouveau e ao movimento Arts& Crafts.
Na pintura,obras de Ingres,Delacroix,Millet,Corot,Degas,Cézanne,Gauguin ou Courbet enriquecem e embelezam aquele espaço de exceção onde se transpira cultura.
Como já perceberam, é de  Pierre- Auguste Renoir, natural de Limoges, um dos extraordinários artistas cujas obras também ali podem ser apreciadas,que vos falo hoje.A voluptuosidade da cor transcende todo o seu trabalho.Desde cedo,as suas idas à floresta de Fointainebleu para pintar permitiram-lhe o contacto com a arte de Daubigny,de quem recebe as primeiras influências.Mas é sobretudo Courbet que o fascina e que, a partir de 1866,vai marcar toda a sua obra.
Pintou paisagens,que foi alternando sempre com retratos e quadros de figuras.
 Gleyre (crítico de Arte) criticava-o dizendo que Renoir apenas ”pintava para se divertir”.Renoir em nada se incomodava e respondia “Naturalmente…se pintar não me divertisse,nunca teria pintado”.Acrescentava “A terra,paraíso dos deuses,isto é o que eu quero pintar”.E assim foi.Renoir foi sempre recriando pequenos paraísos,descobrindo a beleza,dando-a a descobrir como ninguém.
Em 1876,pintou várias telas que podemos classificar de puramente impressionistas e que estão espalhadas por diferentes museus do mundo,revelando uma espécie de sentido calmo e tranquilo dos prazeres da vida, num misto de sensualidade apuradíssima e sensibilidades únicas que as inundam.
Desse período é La Liseuse; aqui podemos observar o olhar puro do pintor sobre a jovem que lê. Os cabelos cor de trigo em desalinho são propositadamente inundados de uma luz  intensa que irradia da janela e emolduram um rosto de uma beleza sem fim. O livro por onde a jovem viaja, recebe fios de luz mais subtis e leva-nos a querer fazer parte daquela aventura misteriosa que a envolve naquele sorriso quase inquieto. Os olhos marotos, quase fechados, contrastam com os lábios desenhados em sorriso. A leitura, sendo um ato de solidão, que nos isola dos outros mas que nos traz prazer sem fim, conhecimento e viagens inimagináveis, é capaz disto. Arranca-nos belos e insondáveis sorrisos em que nos deixamos perder e para onde nos deixamos levar.
Nada se sabe sobre esta jovem modelo. Mas ela continua lá, em Orsay. Indiferente a quem a observa, mergulhada e envolvida pelas palavras que vai desvendando numa leitura atenta, persistente, cadenciada. Os olhares de admiração não a afetam, ela sabe do seu sorriso, conhece o seu efeito, acredita na luz de Renoir. E deixa-se ficar no seu mundo.
Esta liseuse é prova inequívoca do gosto e do prazer que Renoir sentia ao representar este tema, recorrente desde o séc. XVIII e que denota um apreço especial pelo grande Fragonnard.
Eu, que já a observei, lamentavelmente com alguma pressa, entendo que este é, sem dúvida, um dos mais belos sorrisos da História da Arte.
A figura feminina sempre seduziu Renoir, tendo-a representado sucessivamente, em nus completos, ou apenas em rostos que desnudava em sentimento. Como ele dizia “Seja Vénus ou Nini, não se pode conceber nada melhor.”
Ora espreitem!


Renoir,La Liseuse (Jeune Fille lisant un Livre), 1876.  Musée d'Orsay, Paris.


 Rosa Maria Alves da Fonseca

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

«O BAILE NO MOULIN DE LA GALETTE», DE RENOIR


"O Baile no Moulin de la Galette" é uma das pinturas mais famosas do grande August Renoir. Trata-se dum óleo sobre tela, datado de 1876, onde o pintor francês quis mostrar uma multidão animada a divertir-se num recinto de baile, em Paris, conhecido por «Moulin de la Galete».

Renoir fez inúmeras visitas ao local do baile, para desenhar esboços da pista de dança ao ar livre e planificar o seu quadro. Ele queria mostrar o melhor do lugar, com toda aquela gente vestida com as suas roupas mais requintadas.
As pinceladas leves e delicadas do pintor contribuem para que tudo pareça belo e harmonioso. As cores garridas e o traço difuso faziam com que esta tela parecesse às pessoas algo berrante e por acabar. Contudo, para Renoir, tratava-se de captar uma perceção instantânea de luz e de movimento.
Um olhar mais atento sobre o quadro permite observar como o chão resplandece de luz e cor. O chão ofusca pelo branco usado e mesmo as sombras estão pintadas em azul em vez de branco.
Devemos também notar a maneira hábil como Renoir dispõe as figuras no quadro. Numa primeira impressão, podemos concluir que se trata duma “fotografia” casual, mas, na realidade, todos os presentes foram cuidadosamente dispostos na tela, deixando a maior parte dos amigos do pintor de frente para o observador do quadro. Deste modo, podemos analisar as várias emoções dos amigos de Renoir, plasmadas nos seus jovens rostos. Como curiosidade, chamo a atenção para os dois homens sentados de frente para nós, que são nem mais nem menos que Georges e Norbert, amigos íntimos do pintor.


A rapariga, sentada de frente para o observador, era uma jovem das redondezas da cidade luz que Renoir convenceu a posar para ele no seu vestido às riscas. Já os dançarinos mais próximos são o pintor Cardenas e uma modelo de nome Margot.
Tudo isto nos leva concluir que esta foi uma composição trabalhada ao pormenor por Renoir e que a aparente casualidade e naturalidade das figuras representadas é só isso: aparente.
Quando foi exibido pela primeira vez, o quadro foi muito criticado e muita gente detestava-o, sobretudo pela aparência um tanto ou quanto desfocada da cena. No entanto, esta interpretação da vida popular parisiense foi ganhando adeptos e tornou-se numa das obras-primas de Renoir e do impressionismo. Adquira por Gustave Caillebotte, pertence atualmente ao Estado francês por doação daquele e tornou-se num dos quadros mais caros já vendidos.
Gabriel Vilas Boas   

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DO IMPRESSIONISMO



CLAUDE MONET, Os Lírios de Água, Giverny,
1907, Collection Jocelyn Walker, Londres

O Impressionista é o artista sincero e livre que, ao romper com os processos da escola e os requintes da moda, sente, na simplicidade do seu coração, o encanto absoluto que se desprende da natureza, e transmite, com singeleza e com a maior franqueza possível, a intensidade da impressão sentida.
Paul Mantz

A grande revolução impressionista da mancha de cor trouxe alegria, animação e vida onde a ausência do detalhe e a realidade fragmentada davam o tom a telas absolutas de alma e requinte que enriqueceram os Salons de Paris.
Gosta-se dos Impressionistas. Esta nova pintura nasce entre 1860 e 1870, a partir de um grupo de jovens artistas que se reunia no Café Guerbois e onde discutiam novas ideias sobre a Arte. Sabemos que o florescimento cultural foi uma realidade na cidade de Paris, durante o Segundo Império (1852-1870), onde a vida social era atraente e refinada, com os seus teatros e vaudevilles ,os cafés e as mostras de arte e os salões que buscavam novos talentos.
Monet criou esta nova tendência para responder, quem sabe, ao desafio da fotografia. Mas sobretudo em oposição ao Realismo e academismo da época. Não interessava competir com  a máquina fotográfica, essa invenção oitocentista que gravava de forma indelével olhares, rostos e sorrisos tristes e cinzentos, almas das famílias burguesas que se faziam retratar gravando momentos únicos. Estes novos pintores perseguiam a realidade, sim, mas sobretudo os efeitos da luz sobre as pessoas, os objetos, ou a natureza.
As telas eram trabalhadas no momento, ao ar livre, em registo de temas banais. O tema era secundário. Importava apenas o instante luminoso, representando por isso a mesma árvore, a mesma igreja, a mesma paisagem em diferentes momentos do dia, em diferentes estações, em diferentes condições atmosféricas. A tela não era nunca retocada, resultando daí uma obra inacabada, rugosa, empastelada em jogos de cores jorradas de pincéis e de tubos de tinta enlouquecidos pela ausência de misturas de cores complementares, apenas operadas em fusão de cor nos olhos do espectador.
Não há já o contraste claro-escuro, para choque de alguns academistas míopes; mas há a cor vibrante, a captação de luz, tão ao gosto também das primeiras experiências da Escola de Barbizon.
No Salon de 1868, este grupo original e revolucionário não passa despercebido. Manet é um sucesso; Degas, Renoir, Monet suscitam curiosidade. A crítica aplaude-os. Philippe Burty escreve assim, em 1875:
“…o detalhe é suprimido, com uma decisão que assusta as almas tímidas. O conjunto tanto exprime os efeitos de luz como os contrastes de tonalidade, as silhuetas e as massas, através de ataques arrojados pouco preocupados com a aprovação dos míopes…”.

Mas se a fotografia libertou a pintura da representação da realidade dando lugar a outras sensibilidades, também a influenciou, sobretudo nos enquadramentos à maneira fotográfica. O gosto pelas estampas japonesas, as novas descobertas da ótica e o fabrico industrializado das tintas em tubos permitem esta revolução. Se Claude Monet impressionou, Auguste Renoir encantou com os seus nus femininos; Camille Pissarro coloriu as suas vibrantes paisagens de tons inesperados enquanto Edgar Degas, em enquadramentos fotográficos nunca vistos em tons pastel, desenhou um quotidiano burguês de festa e lazer, para falar apenas nos meus preferidos.

EDGAR DEGAS, Primeira Bailarina,1878, Musée D’Orsay

 É com eles que vos deixo hoje, invulgarmente numa quarta- feira única porque véspera do meu encontro primeiro com o novo ano letivo que agora arranca. Já apertam as saudades dos meus alunos velhos… e a curiosidade acerca dos novos. Qual será a primeira IMPRESSÃO?? 

Rosa Maria Alves da Fonseca

quinta-feira, 1 de maio de 2014

CLAUDE MONET

Reincidências em luz e água
Não sei se fruto da minha vocação para o disparate, mas por mais de uma vez aconteceu encantar-me, numa loja, com o castanho antracite ou o azul índigo de uma camisola que, assim que transporta a orla da porta, debaixo da chuva de luz natural, transmutou-se num cinzento zombeteiro, para meu desconsolo.

 Há cores de fronteira, azul na íris de alguns, verde na de outros. Há também a nossa subjetividade. E depois há a luz e os seus efeitos. E a luz é a feiticeira da Natureza, mostra e oculta, destaca e desmerece, altera cores e volumes e dirige o nosso olhar.
 A luz foi a musa e a obsessão dos Impressionistas - à frente de todos, o pintor Claude Monet (Paris, 1840-1926). Foi, aliás, o seu quadro “Impressão: Nascer do Sol”, exposto no Salão dos Recusados, que deu nome à corrente, quando um crítico, chocado com a revolucionária forma de pintar, aparentemente tão imprecisa, pegou no título daquele quadro e reduziu o novo estilo pictórico a umas “impressões”.
O quadro “Rio” que o pintor terminou em 1868 parecia ter sido mergulhado num caldo de luz e de tal modo era o seu impacto ao vivo que os críticos se queixavam que lhes agredia a vista.
                                                              
Aos Impressionistas interessava captar a Natureza, as pessoas ou os objetos, tal como se apresentavam sob a fugidia luz solar (Guy de Maupassant, o autor de Bel-Ami, chegou mesmo a dizer de Monet que já não era pintor, era um “caçador”). Por isso privilegiavam a pintura ao ar livre (Monet afirmava mesmo que a Natureza era o seu estúdio) e pintavam não exactamente a realidade, mas o que a luz deixava ver dela, em pinceladas céleres o suficiente para acompanhar a peugada do sol. Aplicavam a tinta em manchas que ao longe se fundiam e faziam todo o sentido, revelando o objeto retratado, mas que vistas de perto e para o olhar vigente, agarrado à pintura arrumada de Courbet, lembravam esboços ou borrões e obra inacabada. O resultado era um conjunto de trabalhos muito belos, claros e delicados, de aspeto sugerido, autênticas poesias de luz e cor.
                                                     
Neste “corta-mato” com a Natureza, o pintor perdia, naturalmente muitas vezes, pelo que Monet optou por trabalhar em várias telas, com o mesmo tema (como os famosos nenúfares), ao longo do dia. Passava de umas para as outras à medida que o sol se deslocava no céu. No dia seguinte retomava o trabalho em cada uma do ponto em que tinha ficado. Nasciam assim as séries – repetições da mesma temática captada a diferentes horas do dia.

Mas nem tudo era espontâneo, quando a Natureza se adiantava, Monet fazia recuar o ponteiro do relógio biológico da forma que lhe estava ao alcance. Aconteceu quando mandou arrancar do carvalho que pintava, num ambiente invernoso, as folhas e pequenos rebentos que despontavam com a primavera.
De outra vez pagou a um comerciante de madeiras para que não derrubasse os choupos que adquirira para madeiramento, até os acabar de pintar do seu barco.

Em Giverny (Normandia), onde viveu, tornou-se, aliás, presa fácil do oportunismo de alguns vizinhos. Gulosos de fazer com ele algum dinheiro e, à maneira dos senhores feudais, faziam-no pagar portagem quando lhes pedia para atravessar os seus campos, fascinado com um retalho de paisagem que queria registar em tela. Se o viam a pintar uma meda de feno ou um álamo em terreno seu, logo se acercavam para a remover ou arrancá-lo… a menos, claro, que Monet lhes quebrasse a urgência com dinheiro.
Felizmente que os tempos de penúria já lá iam, porque esta obstinação custava-lhe verdadeiras fortunas.

 Quando pintou a série de quadros do “Lago dos Nenúfares” que mais tarde afunilou em pinturas que se enchiam apenas com um apontamento deste lago (como em “Nenúfares”), já havia criado, na sua propriedade em Giverny, o seu próprio jardim e fonte de inspiração quase única daí para a frente. Um braço-de-ferro com os agricultores da vizinhança, mais uma vez. A sua tenacidade, contudo, também era férrea. Conseguiu autorização da Câmara para drenar o Ru, um afluente do rio Epte e criar o extenso lago que pintou e repintou em variações tonais. Povoou-o com os seus amados nenúfares e foi uma dor de cabeça convencer os camponeses de que nem aqueles (praticamente desconhecidos em França, à época) nem o desvio do curso do rio, ou as algas que ondulavam na água como cabelos, prejudicavam a agricultura.
                                                     
Pintou até ao fim da vida (com um interregno de três anos de profunda tristeza motivada pela morte da sua segunda mulher, Alice, a que se sucedeu o falecimento do filho Jean), mesmo quando a doença o rasteirou e o privou do seu principal instrumento de trabalho: a visão, comprometida por cataratas e dores oculares terríveis.
Os últimos quadros, como “A Ponte Japonesa”, de 1922 (a mesma dos Lagos dos Nenúfares), são testemunhos vívidos disso mesmo, mas também da juventude anímica do octogenário Monet e um tributo ao espírito de Samuel Beckett:
Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.”               
                                                                
Maria Vilas