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sábado, 7 de novembro de 2015

MAGIC JOHNSON



Há precisamente 24 anos, o basquetebolista norte-americano “Magic” Johnson anunciava em Los Angeles que se retirava do desporto por ser portador do vírus HIV.
“Magic” foi um dos melhores basquetebolistas de sempre da história deste desporto, um verdadeiro herói americano. A sua alcunha – Magic – dizia tudo: ele fazia magia e carregava o orgulho de uma cidade tão glamourosa como Los Angeles num dos desportos mais populares em toda a América.

Nos anos 80 fiquei tardes inteiras a ver jogos da NBA, passados em diferido na RTP2, para o ver jogar contra os “meus” Celtic de Boston de Lary Bird ou os Chicago Bulls de Michael Jordan. Foi com jogadas impossíveis, maravilhosas, únicas como as que ele fazia que aprendi a adorar o basquetebol, que era mesmo faaantástico como dizia o Carlos Barroca, que comentava o magazine semanal sobre a NBA na televisão pública.
“Magic” jogou durante 13 épocas, entre 1979 e 1991, na mais famosa liga do mundo de basquetebol. Encantou para sempre sucessivas gerações de fãs, empolgou uma rivalidade sadia com Michael Jordan que se entendia para lá das fronteiras dos EUA. Muitas vezes pensava que assistia a um bailado ou então a uma demonstração de sincronismo entre o movimento do homem, da bola e um lançamento ao cesto. 

Tudo parecia tão fácil e belo que só podia ser Magic. O n.º 32 dos L.A. voava para o cesto como a graciosidade dum bailarino, a força dum atleta e depositava a bola no cesto com a simplicidade de uma criança. Ou então atirava certeiro de uma distância superior a seis metros do cesto com uma pontaria dum sniper que ninguém ficava indiferente à sua classe.
Cinco vezes campeão da NBA, três vezes considerado o melhor jogador da competição, campeão olímpico, em Barcelona, em 1992, com o famoso "Dream Time”, Magic viu o mundo desabar-lhe sobre a cabeça quando soube que tinha Sida.
Como mais tarde confessou, nunca soube ter os básicos cuidados de saúde nas diversas relações íntimas que manteve e, no seu caso, o vírus não entrou por uma questão de azar, mas de descuido. Mas Magic soube reagir como um campeão que sempre foi, utilizando toda a fama, prestígio e dinheiro que angariou numa carreira de sucesso para se tornar num ativista a favor da saúde humana, impulsionando grande parte dos tratamentos alternativos para os portadores do vírus do HIV.

Magic passou jogar noutro campeonato, onde a magia se fazia de conquistas diárias e alertas permanentes que o tornassem, desta vez, um exemplo a não seguir.

A vida de Magic Johnson teve luz e teve sombra, mas em todas as alturas ele foi um campeão, um exemplo de garra de determinação de que os vencedores são feitos.
Gabriel Vilas Boas




sexta-feira, 6 de novembro de 2015

TODO O TEMPO DO MUNDO, de Rui Veloso


Esta canção da dupla Rui Veloso/ Carlos Tê está, para mim, emocionalmente ligada aos últimos meses de vida do meu pai. Impossível ouvi-la sem me recordar desses tempos em que fazia longas viagens, aos fins-de-semana, para o ver, para falar com ele, para o ouvir.
Nessa altura tinha “todo o tempo do mundo” para escutar, mas o mundo já tinha virado a ampulheta do tempo pela última vez e restava-me muito pouco dessa preciosidade que se conta em minutos para lhe dizer quanto gostava dele, sobretudo porque o queria fazer com a minha presença, os meus gestos, o meu olhar, todo o meu tempo disponível.
Na verdade, eu já não tinha todo o tempo do mundo para ele, porque o tempo entrara em contagem decrescente. Ambos o sabíamos embora só eu tivesse consciência disso. Uma consciência que me recusei sempre a aceitar. De nada me valeu.

Mas o tempo que temos, quando aqueles que amamos ainda são imortais, é mesmo “todo o tempo do mundo”. E nessa “todo” está o poder de parar os ponteiros do tempo para ouvir “aquela pequena glória” /”aquele pequeno troféu” que têm para partilhar connosco. E nessa partilha está tão amor que as palavras não o conseguem explicar.
Normalmente achamos que tudo aquilo que fazemos é tão importante que se pararmos, o mundo à volta acaba. Mas não acaba. O que termina é a esperança dos velhos e dos novos em que queiramos fazer parte da equipa deles. Falarão, protestarão, chamarão a nossa distraída atenção até desistirem.
O tempo não para nunca, mas o «nosso» mundo acaba. Acaba quando um dos nossos adoece ou se vai embora de vez. É desnecessária uma lição tão dura para perceber que as nossas preocupações e ambições são tão relativas e pequeninas.

A minha experiência é semelhante à de muitos milhares de pessoas, mas é preciso torná-la cada vez mais rara. Quando o nosso mundo é feito de todo o tempo, não podemos dizer “não tenho tempo para isso! A tua história é pequena e insignificante”. A nossa disponibilidade é também um modo de afirmar a nossa personalidade. Por isso, “podes vir a qualquer hora / cá estarei para te ouvir / O que tenho para fazer / posso fazer a seguir”. E quando o tempo do meu mundo acabar, não quero lamentações, quero apenas ouvir ou dizer “Muito obrigado!”.
Gabriel Vilas Boas


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

OS QUATRO CONTINENTES, de Peter Paul Rubens


Artista prolífico e diplomata ativo, Rubens viajou bastante, o que também o tornou amicíssimo de muitos governantes europeus – dois dos quais o armaram cavaleiro.
Rubens era igualmente um pintor muito culto, incluindo frequentemente referências clássicas nas suas pinturas alegóricas. Acredita-se que esta tela de 1625 representa os quatro continentes da África, da Ásia, da Europa e da América.
Os vasos caídos são atributos dos antigos deuses que habitavam os rios dos países – os deuses são vistos a descansar debaixo de uma proteção, servidos por mulheres nuas. Uma tigresa representa o rio Tigre enquanto vários putti brincam com um crocodilo, que é o símbolo do rio Nilo.
Obviamente que o elemento-chave desta composição de Rubens são os continentes. Os quatro continentes eram temas populares entre os artistas barrocos, como por exemplo o fresco que Tiepolo pintou no teto, em 1750, intitulado “Apolo e os continentes”.
Os jesuítas também gostavam do tema, pois isso era altamente benéfico para a sua intenção de espalhar a fé católica. Os continentes era muitas vezes personificados como deuses dos rios e podem aparecer como indígenas ou reclinados como animais onde jorra a água - uma cabeça velada, por exemplo, indica que a fonte do rio era desconhecida.
África pode usar coral e aparecer junto de uma esfinge, um leão ou um elefante. As Américas podem vestir-se como caçadores com um elmo emplumado, com moedas que representam os seus ricos recursos naturais. A Ásia pode surgir com um camelo, um rinoceronte, um elefante ou palmeiras exóticas; a Europa pode ser um touro ou um cavalo, pode ter na mão uma cornucópia ou usar a coroa da supremacia ou então pode aparecer rodeada de figuras representando as artes.



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

PARABÉNS, AMIGOS!


O dia do nosso aniversário é o nosso dia! É o dia em que esperamos ver confirmado o amor, o carinho, o afeto, daqueles de quem gostamos. Com festas, com presentes, flores, com um telefonema, uma carta, um postal ou um simples sms ou através de uma mensagem via rede social, qualquer forma serve para nos mimar e tornar o dia diferente. E ele é de facto diferente e único para nós.
Sem nos darmos conta os amigos assumem uma grande importância no dia do nosso aniversário. Eles não têm uma obrigação familiar de nos felicitar e os parabéns deles (especialmente aqueles que se lembraram de nós sem o lembrete do facebook) enchem-nos a alma de satisfação e alegria. São a prova que somos um bocadinho importantes para eles.

Hoje é o dia do aniversário de quatro amigos, sendo que um deles é meu familiar, mas não deixa por isso de ser meu amigo. O Ricardo Araújo, a Alice Costa, a Elisabete Costa e Elsa Moreira fazem hoje anos.
O Ricardo é um homem que transpira classe e originalidade. Um criativo puro, um empreendedor, que faz amigos com a facilidade que só as grandes pessoas conseguem.


A Elsa é minha colega de trabalho. Um sorriso aberto que significa uma permanente e sincera disponibilidade para ajudar a resolver qualquer problema. Faz crescer os alunos com quem trabalha, tornando-os autónomos e mais preparados para vida. Parece ter uma energia inesgotável, sendo capaz de desempenhar diversos papéis (professora, mãe, amiga) com igual empenho, dedicação e qualidade. 


A Elisabete tem a jovialidade dos da minha geração tendo a idade da minha mãe. Nunca encontrei ninguém na minha profissão que trabalhasse tanto para a escola, durante quase todos os dias do ano e arranjasse sempre tempo para ouvir o colega, para resolver o pequeno e o grande problema, para apoiar nos momentos mais difíceis. Não me lembro de a ver exaltada em momentos de tensão, não me lembro de um capricho e, sobretudo, recordo a recusa do protagonismo e dos louros do trabalho que tantas vezes realizou sozinha, em condições muito adversas.


E por fim a Alice Costa. Deixámos de trabalhar juntos há três anos, mas a amizade permaneceu. É uma pessoa fantástica. Deixa saudades por todas as escolas onde passa e quem contacta com ela, em poucas semanas percebe a razão. Profissional dedicada e muito afetuosa com os alunos, rapidamente cria uma relação de cumplicidade que cativa qualquer jovem e o obriga a gostar daquilo que ela ensina. Alia a uma grande capacidade de trabalho, uma humanidade rara e uma sensibilidade incomum. Filha dedicadíssima e mãe de eleição, desdobra milagrosamente o tempo e faz feliz muita gente quase todos os dias. É um prazer ser seu amigo.

Além destes quatro, há muitas mais pessoas que considero muito e que enchem os meus dias de alegria. Nestes quatro simbolizo a grande importância que atribuo à amizade na felicidade individual. Os nossos dias são tanto mais especiais quanto mais os enchemos de amigos. Saber fortalecer esses laços, regando as flores únicas do nosso jardim é uma sabedoria que se exercita todos os dias e que nos compensa sempre.
Gabriel Vilas Boas


terça-feira, 3 de novembro de 2015

A FAMÍLIA BÉLIER


Pode parecer um pouco anacrónico falar de um filme de 2014, no final de 2015, mas a verdade é que só agora o vi e ainda foi em cinema. Apesar de ter estreado, em Portugal, no final de Agosto, lá vai resistindo, o que atesta a sua qualidade.
Catalogado como comédia, o melhor filme francês do ano passado, é muito mais um drama que uma comédia. O que acho é que é um drama pessoal e familiar, com muito bom humor.

A história é simples, mas comove qualquer espetador! A família Bélier era uma família especial: vivia no campo, era genuinamente muito unida e todos os elementos eram surdos, com exceção da filha adolescente, Paula (interpretada por Louane Emera), que servia simultaneamente de porta-voz e intérprete da família. Sem nunca se envergonhar da sua família nem se furtar ao trabalho do campo, Paula vai descobrir um surpreendente talento para a música quando se inscreve no coro da escola apenas para seguir uma paixão de adolescente.

Quando o professor de música descobre o enorme talento de Paula, propõe-lhe que trabalhe arduamente para entrar num concurso em Paris, desafio aceite por Paula. Ao mesmo tempo que a paixão por Gabriel cresce por entre arrufos, o talento da protagonista afirma-se e urge tomar a decisão de comunicar aos pais o seu desejo de ir a Paris em busca do seu sonho.
Perante a difícil decisão de se manter perto da família, que dela precisa, ou partir em busca do seu sonho, Paula sofre, vacila e desiste de si até que o seu pai intui que o coração da filha queria voar. O final é um happy end que todos desejam, comovedor sem nunca ser lamechas. E esta é uma vitória do realizador Eric Lartigau.

Como o consegue? Tratando com simplicidade e frontalidade as diversas temáticas que o filme aflora. A deficiência da família Bélier é vista sem piedade, paternalismo ou falso moralismo, mas com surpreendente humor. O ambiente rural, em que a família vive, é tratado com naturalismo, sem a clássica catalogação de “atrasado” ou “monótono”. O realismo também está presente nos diálogos dos jovens, na escola, onde a gíria dos estudantes e as falas curtas dão um dimensão correta e atual do meio.
Claro que toda esta segurança na direção se apoia no talento de dois pesos pesados do cinema francês e belga, respetivamente Karin Viard e François Demiens, que interpretam os pais surdos de Paula. O estilo exagerado de Viard articula-se bem com o estilo mais contido de Demiens, assegurando os dois uma representação equilibrada, humorada e que jamais desrespeita os surdos.
O calcanhar de Aquiles deste filme está no argumento, que se apoia em três vetores: a descoberta de Paula do seu talento para a música, a descoberta amorosa da protagonista, a audaz ideia do seu pai em se tornar presente da câmara local. Talvez a ideia fosse mostrar que todos os sonhos se podem concretizar, por mais idealistas que possam parecer. No entanto, o caso amoroso de Paula e as pretensões políticas do pai desta são abandonados pelo realizador que decide concentrar o filme no sonho de Paula em ser cantora. O argumentista não soube guiar com igual fulgor e classe cada uma das histórias que foram feitas para se fundir.
Apesar desta fraqueza, este é um filme muito bem feito, que traz prazer ao espectador e nos lembra a necessidade de deixar voar os nossos filhos quando as suas asas se abrem!
Gabriel Vilas Boas


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ELECTRA, de Eurípides no TNSJ


Ontem regressei ao TNSJ para ver o final da trilogia de tragédias gregas que o encenador Tiago Rodrigues preparou para o público portuense acerca da maldição que se abateu sobre a família de Agamémnon, a partir do momento em que os gregos decidiram resgatar Helena aos troianos.
"Ifigénia", "Agamémnon" e "Electra" são três peças que têm de ser vistas em conjunto. Na semana passada escrevi sobre as duas primeiras, hoje remato com a minha análise/comentário sobre Electra, de Eurípides.

Primeiro começo por destacar os dois grandes protagonistas – Electra e Orestes – os dois irmãos (filhos de Agamémnon e Clitemnestra), magnificamente interpretados por Flávia Gusmão e Miguel Borges. Flávia domina a primeira parte da cena e tem o seu ponto alto no momento em que despeja todo o ódio, raiva e vingança sobre a cabeça de Egisto, que Orestes acabara de cortar; Miguel Borges faz um atuação em crescendo, terminando a peça em grande nível, exibindo o estado de quase loucura a que Orestes chega, depois de assassinar a mãe, fazendo a vontade de Electra e vingando o pai, mas carregando uma culpa de que sabe que jamais se livrará tal como a sua mão não se conseguia desprender do punhal que assassinou Egisto e Clitemnestra.

O essencial do texto de Eurípides é assegurado pela representação dirigida por Tiago Rodrigues: Electra, tratada como uma escrava na terra onde devia ser princesa, por ordem direta da sua mãe, espera a chegada do irmão Orestes para se vingar dos assassinos de Agamémnon: Egisto e Clitemnestra, ou seja a sua mãe e o amante desta.
Quando os dois irmãos se reencontram, Electra impõe ao irmão a vingança sobre os cobardes que mataram o pai. Matar Egisto foi relativamente pacífico para Orestes, mas o mesmo não se passou com Clitemnestra. Qual é o filho que consegue matar a sua mãe?
Um dos pontos essenciais da tragédia estava ali. O drama interior de Orestes cresce a cada minuto e a culpa nunca mais o abandonou. A luta entre aquilo que tinha que ser feito e aquilo que ele queria fazer é imensa dentro de Orestes. Ele faz a vontade à irmã (que mesmo assim ainda teve pegar na mão de Orestes e empurrá-la contra o peito da mãe), mas a loucura apossa-se dele para sempre. 

A angústia da decisão que não queremos tomar, mas que as circunstâncias e os outros nos empurram para a tomarmos é tão evidente em Orestes como o fora em Agamémnon durante a peça “Ifigénia”. Curiosamente (ou talvez não) é o ator Miguel Borges que interpretou as duas personagens e esteve em grande nível em qualquer uma delas.
Se Orestes era dúvida, culpa (pela morte da mãe), angústia, medo, Electra era certeza, decisão, prazer e felicidade em consumar a vingança suprema sobre a mãe e o seu amante. A maneira como insulta, enxovalha, agride a cabeça decapitada de Egisto mostra quanto ódio e loucura viveram nela concentrados, durante sete anos. Sobre a morte da mãe, nenhum remorso, nenhuma pena, nenhuma hesitação. Nem quando Clitemnestra invoca a irmã Ifigénia para justificar os seus atos. Tal como para Clitemnestra o sacrifício de Ifigénia por parte de Agamémnon não tinha perdão e o marido devia morrer, também para Electra a morte do pai, o exílio de Orestes (que esteve para ser morto) e a sua escravidão também não mereciam contemplações. Sentia-se feliz com a morte da mãe.

Uma palavra final para o coro. Mais jovem, mais interventivo, é através dele que o encenador “fala” e traz a peça para junto de nós. Começa por perguntar “Porque se calam?” e desafia o público a tomar partido, a ter posição sobre o tema, a refletir sobre os grandes dramas individuais e coletivos.
Mas no final, o velho propõe “e se ficássemos em silêncio?”. É uma expressão de derrota, porque nesta tragédia todos perderam, mas é também uma provocação: não seria bom questionarmos o mundo em que vivemos quotidianamente? Talvez não mudemos o mundo, talvez nem mudemos grande coisa, mas de certeza que nos mudaríamos de alguma maneira.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 1 de novembro de 2015

TERRAMOTO DE LISBOA, 1755


No dia 1 de novembro de 1755, nem todos os santos impediram a natureza de dar uns fortes abanões na cidade de Lisboa. Tão fortes que os mortos e a destruição que causou ficaram para a História de Portugal. Duzentos e sessenta anos depois convém lembrar que este planeta que habitamos não é só nosso, como muito de vez em quando nos faz questão de lembrar a força bruta da Terra.
O Grande Terramoto de Lisboa causou a morte a cem mil pessoas e devastou a capital portuguesa desfigurando-lhe a face. Os efeitos do tsunmami lisboeta fizeram sentir-se em Inglaterra, estimando-se mais tarde que terá atingido o grau nove na escala de Richter. 

O terramoto também gerou ondas de choque filosóficas, como se as outras não fossem suficientes… Teólogos e padres esforçavam-se por conciliar a destruição de Lisboa com a noção de divindade benevolente. Ainda por cima o convento da Trindade tinha ficado de rastos e o do Carmo em ruínas! Talvez não fosse má ideia iniciar os crentes na noção de livre arbítrio, mas devem ter-se esquecido...
No seu romance “Candide”, 1759, que contém numerosas referências ao terramoto, Voltaire (que também escreveu o “Poema sobre o desastre de Lisboa”) satiriza o otimismo filosófico do pensador alemão Gottfried Leibniz que sustentava que o “melhor de todos os mundos possíveis” era o nosso porque foi criado por um deus omnipotente e omnipresente.

Quem não esteve para filosofias foi o Marquês do Pombal, que mandou enterrar os mortos e cuidar dos vivos e aproveitou os escombros da Baixa lisboeta para alargar as ruas, abrir avenidas e dar à capital portuguesa uma dimensão arquitetónica bem mais moderna de que ainda hoje usufrui.
Não devia ser preciso ocorreram grandes desgraças para tomarmos as decisões estruturantes das nossas vidas, todavia são elas (as tragédias naturais) que criam o inevitável, afastam a indecisão e o medo e calam as polémicas. Também nos lembram que a paciência da Natureza tem limites.

Gabriel Vilas Boas