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domingo, 13 de dezembro de 2015

BOVARY, uma peça de teatro excecional


Acabo de assistir à representação da peça “Bovary”, texto e encenação de Tiago Rodrigues, a partir da imortal obra de Gustave Flaubert “Madame Boavary”. Como muito bem prognosticou a minha amiga Susana Dias, a peça surpreendeu-me, apesar de eu já ir à espera do melhor, tendo em conta o encenador, já que os jovens atores não os conhecia.
A peça excedeu amplamente as minhas altas expetativas e isso muito se deve ao magnífico trabalho do encenador Tiago Rodrigues e dos cinco atores que encheram a minha tarde de duas horas de uma magnífica representação teatral, que quase lotou o Teatro Nacional São João.

A maneira como Tiago aborda toda a polémica que esteve durante décadas associada à obra de Flaubert é magistral: ele parte do Processo “Madame Bovary” para discutir a obra do escritor francês, a sua legitimidade, a sua oportunidade, as pertinentes questões que levantou e ainda continua a levantar.
Grande parte da peça baseia-se numa troca de argumentos entre o advogado de acusação imperial e o advogado de defesa de Gustave Flaubert, em tribunal, no julgamento a que o escritor foi submetido em 1857. Um tenta provar que a obra e seu autor tiveram a clara intenção de ofender a moral e a religião, o outro luta por mostrar que Flaubert apenas mostrou a realidade, sendo que esta nem sempre é bela nem sempre é negra.
É que atuação dos dois atores encarregues de representar os dois causídicos: Gonçalo Waddington (advogado de defesa de Flaubert) e  Pedro Gil (advogado de acusação) é soberba.
O encenador soube com mestria cruzar o julgamento de Flaubert com a leitura do próprio romance, como se aquilo que estivesse a ser julgado fosse muito para além do próprio autor de “Madame Bovary”, mas o conceito de moral, um tentativa de fixar o que é certo e errado por decreto. Por momentos, a própria arte literária sente-se acossada naquele julgamento.

Se o adultério de Emma Bovary suscitou discussão acalorada durante décadas, na arte, não foi certamente porque se tratou de um crime sem desculpa, sem justificação. Mais de século e meio depois, percebemos que o que não é dito ainda é perigoso, Bovary ainda é estranha e sedutora, a arte ainda intimida quem quer controlar o pensamento dos outros e definir um moral única.
A peça de Tiago Rodrigues parte dos discursos originais dos advogados que abriram o famoso julgamento de Flaubert e explica, com mestria, como quem estava a ser julgado não era o autor, mas a personagem: Bovary, a provinciana adultera, má esposa e má mãe, que desrespeitava os ditames da igreja de modo tão descarado.

A densidade psicológica de cada personagem vai sendo tratada com grandeza pelos atores, o público fica rendido à representação e à ideia criativa do encenador; o espectador sorri e ri, mas não deixa de pensar, de tomar partido, de interiorizar aquilo que Flaubert queria que interiorizásse.
Carlos Maciel esteve magnífico, no papel de Charles Bovary, o marido engando e manso, que nem quando descobre todas as traições de Emma consegue deixar de a amar. Mas seria injusto não destacar também o desempenho de Carla Maciel (Emma Bovary) e Isabel Abreu (Gustave Flaubert/ Léon).
No fundo esta “Bovary” de Tiago Rodrigues confirma a transcendência da obra realista de Flaubert, confirma o excelente encenador que Tiago é e revela ótimos atores. O segredo é simples: a liberdade dos atores em palco, a utilização rica da língua, um ritmo de representação intenso, uma obra teatral de qualidade.
 Como muito bem explicou Charles Bovary no final da peça, todos, um dia, morrem, mas Bovary parece cortejar a imortalidade.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ELECTRA, de Eurípides no TNSJ


Ontem regressei ao TNSJ para ver o final da trilogia de tragédias gregas que o encenador Tiago Rodrigues preparou para o público portuense acerca da maldição que se abateu sobre a família de Agamémnon, a partir do momento em que os gregos decidiram resgatar Helena aos troianos.
"Ifigénia", "Agamémnon" e "Electra" são três peças que têm de ser vistas em conjunto. Na semana passada escrevi sobre as duas primeiras, hoje remato com a minha análise/comentário sobre Electra, de Eurípides.

Primeiro começo por destacar os dois grandes protagonistas – Electra e Orestes – os dois irmãos (filhos de Agamémnon e Clitemnestra), magnificamente interpretados por Flávia Gusmão e Miguel Borges. Flávia domina a primeira parte da cena e tem o seu ponto alto no momento em que despeja todo o ódio, raiva e vingança sobre a cabeça de Egisto, que Orestes acabara de cortar; Miguel Borges faz um atuação em crescendo, terminando a peça em grande nível, exibindo o estado de quase loucura a que Orestes chega, depois de assassinar a mãe, fazendo a vontade de Electra e vingando o pai, mas carregando uma culpa de que sabe que jamais se livrará tal como a sua mão não se conseguia desprender do punhal que assassinou Egisto e Clitemnestra.

O essencial do texto de Eurípides é assegurado pela representação dirigida por Tiago Rodrigues: Electra, tratada como uma escrava na terra onde devia ser princesa, por ordem direta da sua mãe, espera a chegada do irmão Orestes para se vingar dos assassinos de Agamémnon: Egisto e Clitemnestra, ou seja a sua mãe e o amante desta.
Quando os dois irmãos se reencontram, Electra impõe ao irmão a vingança sobre os cobardes que mataram o pai. Matar Egisto foi relativamente pacífico para Orestes, mas o mesmo não se passou com Clitemnestra. Qual é o filho que consegue matar a sua mãe?
Um dos pontos essenciais da tragédia estava ali. O drama interior de Orestes cresce a cada minuto e a culpa nunca mais o abandonou. A luta entre aquilo que tinha que ser feito e aquilo que ele queria fazer é imensa dentro de Orestes. Ele faz a vontade à irmã (que mesmo assim ainda teve pegar na mão de Orestes e empurrá-la contra o peito da mãe), mas a loucura apossa-se dele para sempre. 

A angústia da decisão que não queremos tomar, mas que as circunstâncias e os outros nos empurram para a tomarmos é tão evidente em Orestes como o fora em Agamémnon durante a peça “Ifigénia”. Curiosamente (ou talvez não) é o ator Miguel Borges que interpretou as duas personagens e esteve em grande nível em qualquer uma delas.
Se Orestes era dúvida, culpa (pela morte da mãe), angústia, medo, Electra era certeza, decisão, prazer e felicidade em consumar a vingança suprema sobre a mãe e o seu amante. A maneira como insulta, enxovalha, agride a cabeça decapitada de Egisto mostra quanto ódio e loucura viveram nela concentrados, durante sete anos. Sobre a morte da mãe, nenhum remorso, nenhuma pena, nenhuma hesitação. Nem quando Clitemnestra invoca a irmã Ifigénia para justificar os seus atos. Tal como para Clitemnestra o sacrifício de Ifigénia por parte de Agamémnon não tinha perdão e o marido devia morrer, também para Electra a morte do pai, o exílio de Orestes (que esteve para ser morto) e a sua escravidão também não mereciam contemplações. Sentia-se feliz com a morte da mãe.

Uma palavra final para o coro. Mais jovem, mais interventivo, é através dele que o encenador “fala” e traz a peça para junto de nós. Começa por perguntar “Porque se calam?” e desafia o público a tomar partido, a ter posição sobre o tema, a refletir sobre os grandes dramas individuais e coletivos.
Mas no final, o velho propõe “e se ficássemos em silêncio?”. É uma expressão de derrota, porque nesta tragédia todos perderam, mas é também uma provocação: não seria bom questionarmos o mundo em que vivemos quotidianamente? Talvez não mudemos o mundo, talvez nem mudemos grande coisa, mas de certeza que nos mudaríamos de alguma maneira.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

AGAMÉMNON, de Ésquilo, no TNSJ


Agamémnon, tragédia escrita por Ésquilo, foi a segunda proposta que o encenador Tiago Rodrigues apresentou ao público do TNSJ, neste final de outubro maravilhoso para quem gosta de teatro clássico.
A tragédia do dramaturgo grego chama-se “Agamémnon”, mas o encenador fez de Clitemnestra o centro da ação trágica.
Esta é uma peça sobre a vingança, uma vingança sem remorsos e até com um certo prazer; uma vingança prometida dez anos antes, ou seja, no momento da partida dos gregos para Troia, quando Agamémnon decidiu sacrificar a inocente Ifigénia, sua filha e de Clitemnestra, para que os deuses enviassem os desejados ventos que pusessem os barcos a caminho de Troia.

Clitemnestra já tinha avisado em “Ifigénia” que não esqueceria a traição vergonhosa do marido e dez anos foi tempo suficiente para preparar toda uma vingança.
A peça de Agamémnon começa com um clima de falsa festa (os atores bebem champagne enquanto passeiam pelo palco), esse nevoeiro incessante, que Clitemnestra preparou para receber o grande triunfador de Troia.
Agamémnon pressente a desgraça latente e está inquieto, mas não adivinha toda a amplitude da vingança da esposa. Durante dez anos, esta traiu Agamémnon com Egisto, primo e um dos principais inimigos do rei de Argos; tratou sem amor os filhos de
Agamémnon, Electra e Orestes, e aguardou pacientemente dez anos para consumar a total vingança: enquanto Agamémnon tomava banho e se preparava para a festa, em honra da sua vitória troiana, Clitemnestra e Egisto desferem com a espada o golpe fatal em Agamémnon. Olhos nos olhos para que este morresse com a perfeita noção de que de uma vingança e humilhação se tratavam.

 Inúteis foram os avisos de Cassandra, escrava que Agamémnon trouxera de Troia, a quem Egisto lançara olhares desejosos, antes de consumar a posse do seu corpo à força e por fim lhe cortar a cabeça.
Inúteis foram os avisos de Electra, que um pai confuso não entendeu nem conseguiu enquadrar. 
Achei muito interessante o papel que Tiago Rodrigues reservou ao coro, investido de povo de Argos, que não sabia o que fazer nem o que dizer. Uma palavra os caracterizava e aproxima de nós: indecisão. Gritavam, clamavam, queriam fazer algo, mas não avisaram o seu rei da perfídia que contra ele se urdia nem impediriam que Egisto e Clitemnestra consumassem o assassínio. Achavam mal a vingança da rainha como tinham achado mal que Agamémnon tivesse sacrificado a inocente Ifigénia dez anos antes. Na indecisão, deixaram o crime acontecer. Próprio de pessoas fracas, ainda propuseram a Clitemnestra uma saída airosa: culpar Egisto. Ela recusou. Não era nenhum fantoche.

Clitemnestra assume inteiramente a felicidade que a vingança lhe traz. Não havia nada para lhe perdoar, porque ela havia decidido morrer às suas próprias mãos, morrer por Ifigénia. Como diz repetidamente ao longo da peça, ela ficara em Auris (local do sacrifício de Ifigénia), dez anos antes.
Esta peça tem de ser vista em relação direta com "Ifigénia" de Eurípides. A vingança de Clitemnestra é uma consequência natural de uma decisão pessoal, desumana, incompreensível, evitável e irracional de Agamémnon. Segue-se “Electra”, daqui a dois dias, para completar a trilogia.
Curiosa a maneira como Tiago Rodrigues decide a intervenção final do coro, que, na minha opinião, decalca a voz de muitos de nós, atualmente: “Alguém nos ouve?”
Claro que ninguém os ouviu nem nos ouve. Não fizeram (fazemos) nada! É por isso que ninguém nos ouve. Quando passarmos a fazer, passam a ouvir-nos. E a história será, certamente, diferente. Uma tragédia não é uma inevitabilidade divina!

Gabriel Vilas Boas

sábado, 24 de outubro de 2015

IFIGÉNIA, de Eurípedes no TNSJ


Durante 10 dias, o dramaturgo e encenador Tiago Rodrigues traz ao Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, três extraordinárias tragédias – Ifigénia, Agamémnon, Electra – que nos permitem o reencontro, há muito ansiado por mim, com os grandes autores clássicos, especialmente os gregos.
Apenas um único senão: somente oito apresentações, no Porto, para estas três magníficas peças, é pouquíssimo, para todo o público do norte que gosta de teatro. Fui à estreia, na passada quinta-feira. A sala estava quase repleta e entre a plateia muita gente ligada ao mundo da representação: Lúcia Moniz, Mariana Pacheco, António Capelo, entre vários outros.


 Tiago Rodrigues e o seu magnífico elenco reinventou Ifigénia de Eurípides, dialogando com a extraordinária tragédia do dramaturgo grego e colocando-nos perante uma série de questões que a própria tragédia Ifigénia evoca.
Para perceber esta tragédia, temos de recuar a Helena (aquela que foi de Troia mas antes tinha sido dos gregos), cujo rapto ou a fuga ativou o cumprimentou de uma promessa que o pai de Helena fez jurar a todos seus pretendentes: se ela fosse raptada, todos os chefes gregos se deviam empenhar no seu resgate. Menelau exigiu ao rei dos gregos e seu irmão, Agamémnon, o cumprimento dessa promessa, mas não havia vento que permitisse que os barcos gregos partisse para Troia. Para que os deuses trouxessem o vento, um sacrifício se reclamava: Ifigénia, filha de Agamémnon e Clitemnestra tinha de ser imolada. O rei de Troia concordou, mas o seu coração de pai estremeceu e ele quis voltar com a palavra a traz, no entanto, acabou por ceder e sacrificar a sua própria filha.

Toda a peça gira em torno deste drama pessoal de Agamémnon. Um sacrifício pessoal em nome de um bem comum. Agamémnon debate-se com um dilema terrível, até porque era pressionado por Menelau, por Ulisses, pelos gregos e depois, por Clitemnestra, por Ifigénia e, sobretudo, pela sua consciência, pelo seu amor de pai.
Podia parecer que a grande culpada de tudo aquilo era Helena. Aquela que foi raptada ou se deixou raptar. Mas Helena não era mais do que uma ideia do passado, que naquele momento do drama de Agamémnon e Ifigénia já não estava presente. Podemos dizer que é ela a raiz dos problemas, mas ela está ausente, nada decide. O que decidiu o sacrifício de Ifigénia foi outra coisa que não Helena: a defesa da honra dos gregos, o exemplo de sacrifício que Agamémnon devia dar em prol do país. Com muito bem notou o encenador Tiago Rodrigues numa entrevista dada em agosto passado, “no fundo nós sabemos que o que move os humanos é outra coisa. São precisas ideias para justificar a ação.”

E a verdade é que Agamémnon não se consegue justificar à esposa que por acaso também era irmã de Helena. Mas, para ela, Helena era só uma ideia tal como é apenas uma ideia que as tragédias têm de acabar mal ou são de confiança. Para ela não havia como perdoar o marido, não havia nada que entender nem seria possível esquecer. Isabel Abreu esteve muito bem no papel de Clitemnestra. Emprestou à personagem a força da razão de um coração de mãe, vergastou Agamémnon, destruindo todos os seus argumentos, especialmente aquele que se refere ao destino e à culpa, tão associados às tragédias.
Miguel Borges, na difícil pele de Agamémnon, também teve uma atuação digna de nota, ao exibir toda a fragilidade de um náufrago, que se perdeu no labirinto da sua consciência e do seu dever. Derrotado aos pontos por um coro de mulheres zangadas que faziam o papel do público e lhe questionavam as decisões e as indecisões, contestando também os fundamentos da própria tragédia, como se ela trouxesse um guião pré-definido que não pode ser alterado. Mas pode…é o momento em que os humanos desafiam os deuses, outros dirão que é apenas o momento em que os Homem se desafia.

Gabriel Vilas Boas