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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ELECTRA, de Eurípides no TNSJ


Ontem regressei ao TNSJ para ver o final da trilogia de tragédias gregas que o encenador Tiago Rodrigues preparou para o público portuense acerca da maldição que se abateu sobre a família de Agamémnon, a partir do momento em que os gregos decidiram resgatar Helena aos troianos.
"Ifigénia", "Agamémnon" e "Electra" são três peças que têm de ser vistas em conjunto. Na semana passada escrevi sobre as duas primeiras, hoje remato com a minha análise/comentário sobre Electra, de Eurípides.

Primeiro começo por destacar os dois grandes protagonistas – Electra e Orestes – os dois irmãos (filhos de Agamémnon e Clitemnestra), magnificamente interpretados por Flávia Gusmão e Miguel Borges. Flávia domina a primeira parte da cena e tem o seu ponto alto no momento em que despeja todo o ódio, raiva e vingança sobre a cabeça de Egisto, que Orestes acabara de cortar; Miguel Borges faz um atuação em crescendo, terminando a peça em grande nível, exibindo o estado de quase loucura a que Orestes chega, depois de assassinar a mãe, fazendo a vontade de Electra e vingando o pai, mas carregando uma culpa de que sabe que jamais se livrará tal como a sua mão não se conseguia desprender do punhal que assassinou Egisto e Clitemnestra.

O essencial do texto de Eurípides é assegurado pela representação dirigida por Tiago Rodrigues: Electra, tratada como uma escrava na terra onde devia ser princesa, por ordem direta da sua mãe, espera a chegada do irmão Orestes para se vingar dos assassinos de Agamémnon: Egisto e Clitemnestra, ou seja a sua mãe e o amante desta.
Quando os dois irmãos se reencontram, Electra impõe ao irmão a vingança sobre os cobardes que mataram o pai. Matar Egisto foi relativamente pacífico para Orestes, mas o mesmo não se passou com Clitemnestra. Qual é o filho que consegue matar a sua mãe?
Um dos pontos essenciais da tragédia estava ali. O drama interior de Orestes cresce a cada minuto e a culpa nunca mais o abandonou. A luta entre aquilo que tinha que ser feito e aquilo que ele queria fazer é imensa dentro de Orestes. Ele faz a vontade à irmã (que mesmo assim ainda teve pegar na mão de Orestes e empurrá-la contra o peito da mãe), mas a loucura apossa-se dele para sempre. 

A angústia da decisão que não queremos tomar, mas que as circunstâncias e os outros nos empurram para a tomarmos é tão evidente em Orestes como o fora em Agamémnon durante a peça “Ifigénia”. Curiosamente (ou talvez não) é o ator Miguel Borges que interpretou as duas personagens e esteve em grande nível em qualquer uma delas.
Se Orestes era dúvida, culpa (pela morte da mãe), angústia, medo, Electra era certeza, decisão, prazer e felicidade em consumar a vingança suprema sobre a mãe e o seu amante. A maneira como insulta, enxovalha, agride a cabeça decapitada de Egisto mostra quanto ódio e loucura viveram nela concentrados, durante sete anos. Sobre a morte da mãe, nenhum remorso, nenhuma pena, nenhuma hesitação. Nem quando Clitemnestra invoca a irmã Ifigénia para justificar os seus atos. Tal como para Clitemnestra o sacrifício de Ifigénia por parte de Agamémnon não tinha perdão e o marido devia morrer, também para Electra a morte do pai, o exílio de Orestes (que esteve para ser morto) e a sua escravidão também não mereciam contemplações. Sentia-se feliz com a morte da mãe.

Uma palavra final para o coro. Mais jovem, mais interventivo, é através dele que o encenador “fala” e traz a peça para junto de nós. Começa por perguntar “Porque se calam?” e desafia o público a tomar partido, a ter posição sobre o tema, a refletir sobre os grandes dramas individuais e coletivos.
Mas no final, o velho propõe “e se ficássemos em silêncio?”. É uma expressão de derrota, porque nesta tragédia todos perderam, mas é também uma provocação: não seria bom questionarmos o mundo em que vivemos quotidianamente? Talvez não mudemos o mundo, talvez nem mudemos grande coisa, mas de certeza que nos mudaríamos de alguma maneira.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 24 de outubro de 2015

IFIGÉNIA, de Eurípedes no TNSJ


Durante 10 dias, o dramaturgo e encenador Tiago Rodrigues traz ao Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, três extraordinárias tragédias – Ifigénia, Agamémnon, Electra – que nos permitem o reencontro, há muito ansiado por mim, com os grandes autores clássicos, especialmente os gregos.
Apenas um único senão: somente oito apresentações, no Porto, para estas três magníficas peças, é pouquíssimo, para todo o público do norte que gosta de teatro. Fui à estreia, na passada quinta-feira. A sala estava quase repleta e entre a plateia muita gente ligada ao mundo da representação: Lúcia Moniz, Mariana Pacheco, António Capelo, entre vários outros.


 Tiago Rodrigues e o seu magnífico elenco reinventou Ifigénia de Eurípides, dialogando com a extraordinária tragédia do dramaturgo grego e colocando-nos perante uma série de questões que a própria tragédia Ifigénia evoca.
Para perceber esta tragédia, temos de recuar a Helena (aquela que foi de Troia mas antes tinha sido dos gregos), cujo rapto ou a fuga ativou o cumprimentou de uma promessa que o pai de Helena fez jurar a todos seus pretendentes: se ela fosse raptada, todos os chefes gregos se deviam empenhar no seu resgate. Menelau exigiu ao rei dos gregos e seu irmão, Agamémnon, o cumprimento dessa promessa, mas não havia vento que permitisse que os barcos gregos partisse para Troia. Para que os deuses trouxessem o vento, um sacrifício se reclamava: Ifigénia, filha de Agamémnon e Clitemnestra tinha de ser imolada. O rei de Troia concordou, mas o seu coração de pai estremeceu e ele quis voltar com a palavra a traz, no entanto, acabou por ceder e sacrificar a sua própria filha.

Toda a peça gira em torno deste drama pessoal de Agamémnon. Um sacrifício pessoal em nome de um bem comum. Agamémnon debate-se com um dilema terrível, até porque era pressionado por Menelau, por Ulisses, pelos gregos e depois, por Clitemnestra, por Ifigénia e, sobretudo, pela sua consciência, pelo seu amor de pai.
Podia parecer que a grande culpada de tudo aquilo era Helena. Aquela que foi raptada ou se deixou raptar. Mas Helena não era mais do que uma ideia do passado, que naquele momento do drama de Agamémnon e Ifigénia já não estava presente. Podemos dizer que é ela a raiz dos problemas, mas ela está ausente, nada decide. O que decidiu o sacrifício de Ifigénia foi outra coisa que não Helena: a defesa da honra dos gregos, o exemplo de sacrifício que Agamémnon devia dar em prol do país. Com muito bem notou o encenador Tiago Rodrigues numa entrevista dada em agosto passado, “no fundo nós sabemos que o que move os humanos é outra coisa. São precisas ideias para justificar a ação.”

E a verdade é que Agamémnon não se consegue justificar à esposa que por acaso também era irmã de Helena. Mas, para ela, Helena era só uma ideia tal como é apenas uma ideia que as tragédias têm de acabar mal ou são de confiança. Para ela não havia como perdoar o marido, não havia nada que entender nem seria possível esquecer. Isabel Abreu esteve muito bem no papel de Clitemnestra. Emprestou à personagem a força da razão de um coração de mãe, vergastou Agamémnon, destruindo todos os seus argumentos, especialmente aquele que se refere ao destino e à culpa, tão associados às tragédias.
Miguel Borges, na difícil pele de Agamémnon, também teve uma atuação digna de nota, ao exibir toda a fragilidade de um náufrago, que se perdeu no labirinto da sua consciência e do seu dever. Derrotado aos pontos por um coro de mulheres zangadas que faziam o papel do público e lhe questionavam as decisões e as indecisões, contestando também os fundamentos da própria tragédia, como se ela trouxesse um guião pré-definido que não pode ser alterado. Mas pode…é o momento em que os humanos desafiam os deuses, outros dirão que é apenas o momento em que os Homem se desafia.

Gabriel Vilas Boas