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sábado, 2 de abril de 2016

CABEÇA DE NEGRO, Rubens


Durante muitos anos esta obra foi atribuída a Anthony van Diyck, mas recentemente fixou-se a autoria em Rubens.
Trata-se de um estudo de cabeças em forma de esboço. Estas dispõem-se naturalmente no espaço, preenchendo-o através de uma diagonal.
Rubens faz uma análise das diferentes expressões faciais: da alegria, passando pelo rosto pensativo, à dúvida. Este tipo de estudo era normal no trabalho de um pintor que procura sempre captar a expressão humana dos mais variados ângulos e sentimentos.
Habituado às compleições brancas e rosadas dos homens do norte da Europa, Rubens encontra neste óleo sobre madeira transposto para tela um verdadeiro desafio à sua arte criativa. Só a partir do século XVI, com a descoberta do continente africano pelos portugueses e a chegada de escravos à Europa em profusão, é possível aos pintores terem disponível nova matéria-prima para o estudo do Homem.
Rubens usou o modelo desta pintura algumas vezes, sobretudo em quadros sobre o tema da Epifania, caracterizado como Baltasar. Van Dyck também fazia o mesmo e talvez por esse motivo, durante muitos anos, esta tela lhe fosse atribuída.
Neste estudo é visível a pincelada de Rubens, em forma de mancha, exprimindo simultaneamente a cor, o movimento e a forma.

Quando olho este belo quadro de Rubens, patente nos Museus Reais de Belas-Artes, em Bruxelas, não deixo de pensar como ela personifica bem a personalidade e a vida do homem negro ao longo dos últimos cinco séculos: a inocente a natural alegria do africano que se dá sem reservas, a dúvida sobre as intenções e sentimentos dos homens de outras cores; a tristeza pensativa de quem não percebe nem o ódio nem a discriminação. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

OS QUATRO CONTINENTES, de Peter Paul Rubens


Artista prolífico e diplomata ativo, Rubens viajou bastante, o que também o tornou amicíssimo de muitos governantes europeus – dois dos quais o armaram cavaleiro.
Rubens era igualmente um pintor muito culto, incluindo frequentemente referências clássicas nas suas pinturas alegóricas. Acredita-se que esta tela de 1625 representa os quatro continentes da África, da Ásia, da Europa e da América.
Os vasos caídos são atributos dos antigos deuses que habitavam os rios dos países – os deuses são vistos a descansar debaixo de uma proteção, servidos por mulheres nuas. Uma tigresa representa o rio Tigre enquanto vários putti brincam com um crocodilo, que é o símbolo do rio Nilo.
Obviamente que o elemento-chave desta composição de Rubens são os continentes. Os quatro continentes eram temas populares entre os artistas barrocos, como por exemplo o fresco que Tiepolo pintou no teto, em 1750, intitulado “Apolo e os continentes”.
Os jesuítas também gostavam do tema, pois isso era altamente benéfico para a sua intenção de espalhar a fé católica. Os continentes era muitas vezes personificados como deuses dos rios e podem aparecer como indígenas ou reclinados como animais onde jorra a água - uma cabeça velada, por exemplo, indica que a fonte do rio era desconhecida.
África pode usar coral e aparecer junto de uma esfinge, um leão ou um elefante. As Américas podem vestir-se como caçadores com um elmo emplumado, com moedas que representam os seus ricos recursos naturais. A Ásia pode surgir com um camelo, um rinoceronte, um elefante ou palmeiras exóticas; a Europa pode ser um touro ou um cavalo, pode ter na mão uma cornucópia ou usar a coroa da supremacia ou então pode aparecer rodeada de figuras representando as artes.



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O JULGAMENTO DE PÁRIS, de Rubens



Rubens pintou várias versões deste tema, maravilhado com a história, que lhe permitia representar três belas mulheres numa paisagem pastoril idealizada onde as vestes eram desnecessárias.
Numa narrativa de O Julgamento de Páris, o príncipe troiano tinha efetivamente pedido às deusas para tirarem a roupa no sentido de melhor determinar qual seria a vencedora do concurso de beleza divino.
Nesta versão de Rubens aqui apresentada, datada de 1639, Páris aparece com os seus trajes de pastor. Ele fixa as três magníficas deusas nuas, contemplando-as de lado, de frente e de costas enquanto Mercúrio tem na mão a maçã que deveria servir de prémio.
Minerva aparece com a sua coruja (a armadura jaz no chão atrás dela); Vénus com o seu filho Cúpido e Juno surge com o seu pavão. As expressões suaves e os movimentos graciosos das deusas revelam nada acerca das consequências desastrosas provocadas pela decisão de Páris e que deram origem à guerra de Troia.
Este quadro de Rubens explora bastante a nudez das deusas, de modo a realçar a sua beleza, já que este era a questão fundamental deste julgamento/concurso. 
O elemento fulcral desta pintura de Rubens, assim como da história de lhe está subjacente, é Páris. Filho do rei Príamo de Troia, Páris foi destinado, por altura do seu nascimento, a ser a ruína do seu país. O seu pai ordenou a sua morte, mas o escravo a quem tinha confiado a tarefa abandonou o rapaz no monte Ida. Páris foi encontrado pelos pastores, que o criaram e o transformaram num guardador de rebanhos. Mais tarde a ninfa Enone apaixonou-se por ele.
No famoso julgamento de Páris, este foi encarregue de oferecer como prémio uma maçã de ouro da Discórdia à deusa que ele considerasse ser a mais bela. Juno oferecia-lhe a Ásia se ele a escolhesse; Minerva disse que faria dele um grande guerreiro e conquistador; Vénus prometeu-lhe a bela Helena de Esparta, a par do Amor, do Desejo, das Três Graças, da Paixão e do Himeneu.
Vénus ganhou a maçã, mas a decisão provocou o ressentimento de Juno e de Minerva. Além disso, quando Páris raptou Helena, enfureceu os gregos que se juntaram para a recuperarem. Assim, começou a Guerra de Troia, na qual lutou sem entusiasmo até ao final e que terminou na prometida destruição de Troia.

Para ver ao perto um das obras-primas de Rubens não é preciso ir muito longe, pois este quadro do pintor flamengo está no museu do Prado, em Madrid.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A CABEÇA DE MEDUSA, DE RUBENS

Segundo a mitologia clássica, Medusa era uma jovem bonita e orgulhosa que ousou julgar os seus cabelos mais belos que os de Atenas. Para punir tão grande vaidade, essa deusa transformou-os em serpentes. Além disso aquele que cruzasse o olhar com o da mortal Medusa seria logo paralisado.
Medusa era uma das três Gorgonas, filhas de divindades marítimas. Era a única mortal. Vivia junto ao país das Hespérides e tinha corpo de mulher e serpentes venenosas em vez de cabelos. O penetrante olhar deste espantoso monstro era capaz de petrificar todo aquele que a olhava.
Rubens representa a perturbadora cabeça de Medusa, após ter sido decapitada por Perseu e antes de ter sido entregue à deusa Atena. Para poder matar Medusa, o herói teve de valer-se de um escudo que a refletia para evitar olhá-la diretamente. A repulsiva cabeça do monstro jaz sobre uma rocha de cabelo mostrando, no entanto, as feridas da sua morte agonizante. O pescoço inundado de sangue, com cobras que se alimentam dele, é arrepiante.
Com grande dramatismo, um emaranhado de desagradáveis serpentes entrelaça-se e, inclusivamente, lutam pela sobrevivência ao mesmo tempo que o rosto de Medusa transmite, com grande vivacidade, fortes emoções. Os efeitos luminosos contribuem para potenciar a dantesca imagem.
Um análise mais pormenorizado do óleo que o pintor do flamengo do estilo barroco pintou em 1618 permite-nos perceber com nitidez as texturas escamadas, as quais são representadas com grande realismo. O colorido dos répteis, as suas formas ondulantes e os reflexos que a incidência da luz provoca sobre eles, torna-os quase reais.
O rosto pálido de Medusa é intimidante e o seu ricto perturbador. Os grandes e expressivos olhos mantêm o olhar alheio enquanto a língua sobressai dos seus lábios arroxeados.

A cabeça de Medusa foi também representada por Caravaggio em 1599,num óleo de dimensões bem mais reduzidas do que a tela de Rubens que podemos observar em Viena, no Museu Kunsthistorisches.
Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A PINTURA E O NATAL


O Nascimento de Cristo é a temática religiosa que mais inspirou os pintores ao longo dos séculos. Grandes mestres da pintura retrataram os momentos mais marcantes do nascimento de Jesus Cristo, produzindo quadros que ajudaram a fazer a história da arte.
Rembraudt, Ribera, Strozzi, Tintoretto, El Greco, Murillo, Rubens, Giotto, Caravaggio, Ghirlandaio têm quadros magníficos e muito belos que focam a temática natalícia.

Neste dia de Natal, selecionei três dessas obras para delas “falar”: “A adoração dos Pastores”, de Tintoretto; “A Adoração dos Reis Magos” de Rubens e a “Sagrada Família” de Rafael Sanzio.




A tela de Tintoretto é uma composição grandiosa, onde o pintor veneziano ilustra  a homenagem dos mais simples ao Cristo Redentor acabado de nascer. Neste óleo, o pintor renascentista evidencia algumas características da sua obra: a ilusão de profundidade, dada especialmente ao nível do teto da humilde cabana onde Cristo nasceu; a valorização do uso da cor, através da exploração das diversas tonalidades do castanho e, sobretudo, os efeitos da luz que fazem sobressair as formas dos diversos elementos da cena.




Se Tintoretto pintou a Adoração dos Pastores a Jesus, de Rubens escolhi a tela que retrata a “Adoração dos Reis Magos”. Trata-se duma tela de grandes proporções, datada de 1624, em que o pintor flamengo, mestre da arte barroca, retrata a chegada dos Reis Magos a Belém para adorar o Deus menino.

À boa maneira barroca, a distribuição das personagens retratadas segue um sentido diagonal. Nesta tela podemos observar três sequências diagonais em três planos. Um desses sentidos vai desde os homens sobre os camelos até um outro homem sobre um cavalo. Um segundo sentido vai do homem de negro até um dos reis magos com manto vermelho; e um terceiro sentido diagonal vai desde S. José (lado direito da tela) até ao rei mago que está de joelhos diante de Jesus.

Neste óleo do século XVII, devemos ainda notar que S. José parece um pouco “deslocado” nesta cena da adoração, pois é posto à sombra por Rubens, em contraste com as outras figuras que estão mais iluminadas.
Também devemos notar, nesta composição do artista belga, a utilização duma paleta de cores com tonalidade quentes que é uma das imagens de marca de Rubens.   


  

A minha última proposta artística do dia é o quadro “Sagrada Família” de Rafael Sanzio, que atualmente se encontra no Museu do Louvre, em Paris.
Mais uma composição belíssima, em que o destaque é, obviamente, a figura do Menino e de Maria. Rafael coloca a sua atenção num menino Jesus mais crescido, que, sorridente, procura o colo de Maria, perante o olhar enlevado doutra criança imediatamente atrás de si. Este quadro apresenta um lado mais humano da sagrada família, pois junta-lhe outras figuras, com quem possivelmente confraternizaria quotidianamente. Mais uma vez, S. José aparece numa posição subalterna.

A tela de Rafael destaca-se pela diversidade de cores e pela comunicação de estados de alma que as formas das personagens nos transmitem. Há uma preocupação clara de Sanzio em revelar a alegria de Cristo, o ar pachorrento de S. José, a satisfação de Maria. No meu entender, o pintor humanizou estas figuras divinas com esta composição artística.

Nestes três quadros, que não são mais que uma escolha pessoal, está bem evidente como a arte homenageou o Natal e com este acontecimento marcou a afirmação artística dos melhores pintores que a humanidade conheceu.

Gabriel Vilas Boas