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sábado, 7 de junho de 2014

O ROMÂNICO EM AMARANTE (VI)

A ESCULTURA

Na Idade Média, as várias actividades artísticas não eram consideradas expressões independentes entre si. Esperava-se delas que contribuíssem para os objectivos e decoração da obra fundamental que era a Igreja, onde se reunia a comunidade cristã e onde se exaltava a grandeza do Criador. A escultura aparecia assim subordinada às necessidades e preferências da arte principal que era a arquitectura, dependendo totalmente dela!
Como a arquitectura, a escultura românica é profundamente marcada pela cultura medieval e é um dos seus melhores expoentes. É através da escultura que se afirma a ideia de omnipotente e omnipresente de Deus, a ideia da religião como mistério, como única salvação para não se perder num mundo desconhecido e obscuro. 
Nas igrejas românicas de Amarante a escultura está limitada aos portais de acesso, bases e capitéis das colunas, modilhões das cornijas e pouco mais.
  
O PÓRTICO 
Os portais principais dos templos românicos eram quase sempre virados a Oeste, frontais ao altar-mor, o que colocava os fiéis virados para Oriente quando oravam! Estes portais eram um dos elementos profusamente esculpidos. Assumem a forma rectangular e são encimados por um semicírculo (tímpano). O tímpano, é suportado por um lintel, aquilo a que numa construção vulgar damos o nome de “padieira” que assenta directamente sobre as colunas ou então em mísulas mais ou menos decoradas! O portal não é rasgado a prumo, isto é, cortado a direito na parede, mas sim com um voamento mais ou menos acentuado: o que significa que, embora mantendo o mesmo perfil vai, a pouco e pouco, estreitando-se de fora para dentro, como se pode ver nas figuras seguintes:

    Pórtico Ocidental de Travanca              Porta Norte de Travanca

Nas igrejas de três naves, como a de Travanca, este portal abre-se para a nave central!
A escultura materializa-se aqui, nas bases e capitéis dos colunelos; as arquivoltas do Pórtico são quase sempre esculpidas e no caso do pórtico ocidental de Travanca são-no em forma de rolo.
Como exemplo da decoração do tímpano, observemos o pórtico que dá acesso à torre da Igreja do Mosteiro de Travanca que foi decorado com um “agnus dei” e as arquivoltas decoradas como Xosé Lois Garcia tão bem descreve na caixa de texto seguinte:

Poratal da torre de Travanca

A porta é circundada por doze grifos que levam os doze ramos da vida. Estes seres híbridos (Leão e águia) configuram o poder de Cristo na terra (leão) e no céu (águia). 

A arquivolta inferior está decorada por cinco faces de leão, que franqueiam a entrada. O tímpano tem um agnus dei, que ergue a cruz com a pata direita e tem a face posta nela. 

Xosé Lois Garcia (adaptado)


No pórtico ocidental da Igreja de Jazente, o tímpano é sustentado por mísulas lisas que repousam sobre uma espécie de pilar ornado com estrias verticais. Este tímpano encontra-se perfurado por uma larga cruz com disco central, e no lintel há outra cruz gravada no granito. As duas arquivoltas não apresentam qualquer decoração!


Pórtico de Jazente

O CAPITEL
No românico de Amarante, assim como no românico em geral o capitel das colunas assume uma importância relevante na escultura. Abandonam-se as ordens clássicas (dórica, jónica e coríntia) e cria-se um capitel, bastante grande, obtido pelo arredondamento na sua zona inferior, dos ângulos de um paralelepípedo de pedra, dando-lhe um aspecto campaniforme ou troncocónico. Essa forma adapta-se muito bem como suporte de cenas esculpidas, em vez de motivos abstractos, como acontecia na antiguidade clássica.
Em geral, os capitéis são decorados com elementos botânicos e zoológicos mas outros há que representam a figura humana e outras mitológicas, usadas todas elas como elementos simbólicos da eterna luta entre o bem e o mal!
Estes capitéis não eram muitas vezes bem entendidos pelos fiéis medievais analfabetos, pelo que a maior parte das vezes mais do que ensinar os fiéis, impressionava-os, incutindo respeito e mesmo medo face aos perigos da perdição da alma!

Normalmente as quatro faces dos capitéis eram usadas como painéis onde se esculpem pequenas histórias tiradas do Evangelho, contadas através de elementos simbólicos.

                Segundo Xosé Lois Garcia in “ Simbologia do Românico em Amarante” Edições do Tâmega - 1997  “… Os elementos simbólicos do mosteiro de Travanca estão sob a influência do românico da catedral de Santiago de Compostela que foi o estilo vanguardista que imperou em toda esta área e que influenciou desmesuradamente os pormenores de qualquer projecto posterior. Compostela vê-se irradiada pelo românico clunicense. Sem este estaria eclipsada a sua preponderância. É por isso que Travanca está sob influência dos elementos arquitectónicos e simbólicos que configuram, plenamente esse universalismo…”

Referindo-se ao Pórtico de Travanca o mesmo autor afirma que o que mais impressiona é a sua unidade, não só em termos de proporção, mas também nos símbolos que os capitéis oferecem de ambos os lados da entrada. Segundo a sua opinião os símbolos daqueles oito capitéis podem ter três leituras possíveis:
Passagem de um plano material para outro espiritual”
“Transgressão da vida material para que se produza o impacto da vida espiritual. Apologia da renúncia possível”
“Triunfo da vida espiritual sobre a material e submissão desta à primeira”

Os capitéis do Pórtico, segundo Xosé Lois estão dirigidos à alma e não só para mostrar e exaltar os elementos botânicos e zoológicos. A arte dos capitéis é essencialmente simbólica, como necessidade espiritual do homem medieval.
Segundo o autor referido, o primeiro capitel apresenta dois leões de uma só cabeça, vitoriosa e com o rabo saindo para cima e simboliza o triunfo de Cristo,” Leão da tribo de Judá”. Na boca comum dos leões há uma folha que simboliza o fruto espiritual do mundo terreno, os crentes; estes são elevados pelo leão triunfal(Cristo).Também representam a visão de S. João no Apocalipse, 5:5, “Então, um dos anciãos disse-me: Não chores! Eis que o leão da tribo de Judá, a vergôntea de David, saiu vencedor. Por isso abrirá o Livro dos sete selos.”

No capitel seguinte apresenta-se um corpo com asas e rabo em forma de serpe. Um ser híbrido que segundo o autor é uma águia que simboliza a renovação espiritual pela troca de plumas na Primavera. Enfim, uma chamada a não se renunciar à vida espiritual, coisa que acontecia com os jovens e adolescentes da época.
 No terceiro capitel, apresenta-nos em toda a sua superfície um homem de dimensões robustas, musculoso e fisionomia de personagem medieval, um Herói. Representa a libertação individual à procura da imortalidade por meio do sacrifício pessoal e elevação espiritual. O HERÓI de Travanca tem o rosto erguido olhando para o céu e as mãos sobre a folha de palmeira, símbolo de justiça.
 O quarto e último capitel do pórtico representam duas aves vigorosas entrelaçadas por ambas as gargantas, símbolo de unidade amorosa. Pelo aspecto forte do bico, no qual está uma folha de cereal, as aves devem ser águias.
 A parte superior dos capitéis está decorada por um entrelaçado circular que no centro forma uma cruz.
No tocante a capitéis parece-me indispensável realçar a importância do arco triunfal da Igreja de Gatão que ostenta dois belíssimos capitéis, abaixo reproduzidos, sendo que o primeiro evoca o pão e o segundo representa uma rara e curiosa figuração da videira e cachos.


 Os modilhões são, em linguagem simples, os suportes da cornija de uma igreja. Também designados ”cachorros” e o seu conjunto como “cachorrada” quando relacionados com o românico!
Há-os de formato simples, sem qualquer ornamentação e aparecem também outros mais elaborados, quer com figuras de tipo geométrico quer com figuras humanas ou zoomórficas. As igrejas românicas de Amarante apresentam toda essa diversidade e são de realçar os da Igreja de Gatão (arcaturas lombardas) pela sua desproporção face ao edifício, bem como pela beleza do conjunto.

                                                                                                                                                   Arcaturas lombardas - cornija, Gatão


Na Igreja de Gondar, os modilhões são todos do tipo geométrico.

Segundo Xosé Lois, o modilhão com uma só bolinha representa o pão na primeira fase de crescimento, as três bolinhas representam o mesmo pão em grão pronto para a ceifa e as três bolinhas dispostas em forma triangular representam os grãos de cacho. O Vinho está representado no modilhão ao qual corresponde uma cuba.
OUTROS ELEMENTO ESCULPIDOS      
*  Fecho de um arco da Galilé da Igreja de Gatão   
  * Cruz do alto da frente – Igreja de Travanca


Esta cruz apresenta a particularidade de ser uma peça escultórica individualizada, enquanto a generalidade da escultura românica em Amarante, é escultura feita em relevo, que não se destaca da base em que foi esculpida!

António Aires

sexta-feira, 6 de junho de 2014

CASAS QUE MARCAM A ARQUITETURA DO SÉCULO XX

Pela sua originalidade e contemporaneidade, algumas casas projetadas na primeira metade do séc. XX, tornaram-se objecto de estudo e exemplo pela influência que exerceram e exercem na arquitetura até hoje.
A arquitetura do século XX é essencialmente marcada por critérios de racionalidade e de funcionalidade, respondendo de uma forma mais pragmática e técnica aos problemas do seu tempo. Sob influência da revolução industrial (das ideias, dos novos materiais e dos novos métodos construtivos) a arquitectura voltou-se para a criação de espaços mais amplos e funcionais (patentes nas plantas de organização livre), para uma simplificação formal, tendo por base a depuração desta, e para a desornamentação.
Para começar vou vos falar sobre a Casa Schröder, que faz 90 anos, uma das cinco casas que escolhi para este tema.
 Casa Schröder, de 1924, da autoria de Gerrit Thomas Rietveld, em Utrecht (Holanda)
O projeto da habitação Schröder idealizada pelo arquiteto holandês Rietveld (1888-1965), segundo as ideias do movimento “De Stijl”, ou Neoplasticismo, baseia-se na abstração das formas, linhas e planos ortogonais, e na utilização das cores primárias (vermelho, azul e amarelo), do branco e do preto, que evocam as composições das pinturas de Piet Mondrian.

Quadro do pintor Piet Mondrian, 
exemplificativo da paleta de cores e do traçado geométrico 
que influenciam o movimento “De Stijl”.
A Casa Schröder está localizada num subúrbio de estilo neoclássico, na cidade de Utrecht, no centro da Holanda. O projecto desenhado por Rietveld fica no remate de duas ruas e vem quebrar com a linguagem conservadora da época (de paredes sólidas e robustas com telhados de duas ou quatro águas), pelas suas proporções, formas e materiais, destacando-se dos edifícios envolventes através da leveza e transparência, dadas pelo vidro, betão e aço, e pela novidade da sua cobertura plana.

Vista exterior 

O edifício apresenta-se como um cubo desmaterializado, resultando não só do jogo “plástico”, quase escultórico que é dado ao volume através da diferenciação dos planos das fachadas (criando varandas e terraços), mas também pelos seus grandes planos envidraçados, colocados em locais chave, como esquinas, desconstruindo assim a ideia de “caixa”.
A planta da casa também constitui um desenho revolucionário pela sua flexibilidade, onde a organização do espaço foi pensado de uma forma mais livre e com múltiplas opções, dando origem à chamada planta livre, “open space”. Esta flexibilidade foi obtida com um sistema de painéis deslizantes que podiam girar e adaptar-se conforme as necessidades de área, luz e privacidade.

Vista interior da sala - quarto

Como complemento da linguagem neoplástica da casa, Rietveld prevê tudo, ao ponto de estabelecer até ao pormenor, desde o mobiliário fixo e móvel, até às cores com que distingue os espaços ou funções específicas, num diálogo intimo com a arquitectura que os contem.

O edifício Schröder destaca-se como o mais relevante exemplar da arquitectura Neoplasticista, sendo considerado Património Mundial da UNESCO desde 2000 devido a ser "um ícone da arquitetura do Movimento Moderno e uma expressão notável do génio criativo humano na sua pureza de ideias desenvolvidas pelo movimento “De Stijl" e "cuja radical abordagem na concepção e uso do espaço, ocupa uma posição central no desenvolvimento da arquitetura da era moderna ".

 

Imagem da esquerda: Vista axonométrica do r/chão; Imagem da direita: Vista axonométrica do 1.º andar, onde são visíveis as paredes de correr que proporcionam a variação do espaço.

Teresa Beyer

quinta-feira, 5 de junho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE ACÁCIO LINO (2.ª Parte)


“Acácio Lino deverá ser visto, ainda, como Pintor de História, na exigência das reconstituições, no fundo poético e simbólico de algumas das suas obras como O Grande Desvairo, tangente às formulações saudosistas do seu conterrâneo Teixeira de Pascoaes.”
António Cardoso, 1996

Acácio Lino, O Grande Desvairo, óleo s/tela, Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso 
(Fotografia de António Pinto)

Acácio Lino continua hoje a ocupar-me o espírito; artista multifacetado, pintor e escultor, deixou obra admirável que se pode apreciar bem aqui, na cidade de Amarante…basta para isso entrar no museu Amadeo de Souza-Cardoso e calmamente subir à galeria superior, atravessar a Sala António Carneiro e finalmente, entrar na Sala Acácio Lino. Curioso como os três artistas amarantinos, da mesma época, viram e pintaram o mundo de modo tão diferente e especial. Em cada uma das salas, respira-se diferente, revivem-se épocas distantes, sente-se o exalar de perfumes subtis de cada uma das telas que nos olham sem cessar. Esses perfumes envolvem-nos, ora florais, ora dramáticos e sentimentais, ora irreverentes e carregados de modernidade.
De Lino, disse-vos já que aprecio sobretudo a sua pintura naturalista. De cores pastel, suaves e  em retrato fiel de rostos e olhares ,  a que não é possível ficar  indiferente, perpassam por nós paisagens e cenas bucólicas, populares. Mas, como tão bem disse António Cardoso, “Acácio Lino deverá ser visto, ainda, como Pintor de História, na exigência das reconstituições, no fundo poético e simbólico de algumas das suas obras como O Grande Desvairo, tangente às formulações saudosistas do seu conterrâneo Teixeira de Pascoaes.”
A Pintura de História é muito forte em Acácio Lino. E a obra “Grande Desvario” é avassaladora. Imbuído de um certo neo-romantismo, a sua obra aborda também e preferencialmente a temática histórica, sobretudo os episódios da época medieval, tão à moda nacionalista, propondo novas e exaltadas leituras do acontecimento retratado, sempre valorizando o herói idealista e entregue a uma causa. Aqui, a paleta cromática é variada, com efeitos de claro-escuro que trazem dramatismo à cena, acentuando-lhe sentimento.
A tela ”O Grande Desvairo” leva-nos até Alcobaça, para onde D. Pedro translada Inês, aquela que “despois de ser morta foi Rainha”. Os seus túmulos, obras-primas da escultura gótica portuguesa merecem visita. Fernão Lopes deixou o seguinte registo sobre este momento singular da História de Portugal:
[...]  mandou  fazer  huum  muimento  dalva  pedra,  todo  mui  sotillmente  obrado, poemdo emlevada sobre a campãa de çima a imagem della com coroa na cabeça, como se fora Rainha; e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça, nom aa emtrada  hu jazem os Reis, mas demtro  na egreja ha maão dereita,  açerca da capella moor. E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Samta Clara de Coimbra, hu jazia, ho mais homrradamente  que se fazer pode, ca ella viinha em huumas andas, muito bem corregidas pera tal tempo, as quaaes tragiam gramdes cavalleiros, acompanhadas  de gramdes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e domzellas,  e muita creelezia. Pelo caminho estavom muitos homeens com çirios nas maãos, de tal guisa hordenados,  que sempre  o seu corpo foi per todo o caminho  per antre çirios  açesos;  e  assi  chegarom  ataa  dito  moesteiro,  que  eram  dalli  dezassete legoas, omde com muitas missas e gram solenidade foi posto em aquel muimento: e foi esta a mais homrrada  trelladaçom,  que ataa aquel tempo em Portugal  fora vista.

Aqui o herói é com toda a certeza, D. Pedro . Um círio ilumina a cena principal, destacando com grande luminosidade e dramatismo a deposição dos restos mortais de Inês. Uma névoa translúcida de incenso torna ainda mais místico o cenário. À volta do túmulo, o clero e bem próximos de Inês, os filhos. Flores brancas junto ao túmulo calcário, de uma beleza sem par.

Inês era muito bela – “os loiros cabelos a cair pelos ombros, os olhos verdes e brilhantes ,o porte sereno e suave como o de uma garça a andar pelos jardins do paço, a pele branca como a da mais branca pérola, os lábios graciosos, a beleza com qualquer coisa de divino”. Este amor português foi em tudo um grande desvairo. O desvairo final retratou-o aqui Acácio Lino. Até ao fim do mundo.

Este inferno de amar
“Este inferno de amar como eu amo!
Quem mo pôs aqui nalma... quem foi?
 Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida e que a vida destrói
 Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há- de ela apagar?
(…)”
 Almeida Garrett, Folhas Cdas

Rosa Maria Alves da Fonseca

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O MASSACRE DE TIANANMEN



Passam hoje 25 anos sobre o massacre de Tiananmen, nome por que ficou conhecida a Praça da Paz Celestial, bem no centro de Pequim, capital da China. 

Esse dia ficará para sempre marcado a negro na História da China, pois o massacre que o governo chinês decretou sobre os manifestantes, naquela madrugada de 4 de junho de 1989, jamais será apagado da memória coletiva de um povo que há décadas não sabe o significado das palavras liberdade ou democracia. 

O que se passou no dia 4 de junho de 1989 foi o culminar de 50 dias de protestos de mais de cem jovens chineses que denunciavam um governo muito repressivo e corrupto e achavam as reformas económicas em curso muito lentas. Os protestos consistiam em marchas (caminhadas) pacíficas nas ruas de Pequim. Ao fim de um mês de protestos, o governo chinês endureceu posições e decretou a lei marcial. Duas semanas mais tarde, enviou os tanques contra o seu povo, para dissolver o protesto. As estimativas das mortes civis variam: 400 a 800 segundo o The New York Times; 2 600 (segundo informações da Cruz Vermelha chinesa) e sete mil (segundo os manifestantes). O número de feridos é estimado em torno de sete mil e dez mil, de acordo com a Cruz Vermelha.


Ao bom estilo ditatorial, o governo empreendeu de seguida um grande número de prisões entre os líderes do movimento, expulsou a imprensa estrangeira e controlou completamente a cobertura dos acontecimentos na imprensa chinesa. A repressão do protesto pelo governo da República Popular da China foi condenada pela comunidade internacional.

No dia 4 os protestos estudantis intensificam-se muito. No dia 5 de junho, um jovem solitário e desarmado invade a Praça da Paz Celestial e anonimamente faz parar uma fileira de tanques de guerra. Nunca mais se soube nada acerca dele. Nem o nome…

E 25 anos depois, como vive a China com o seu trauma moderno?

Este massacre teve um forte impacto dentro da China, entre a enorme comunidade chinesa espalhada pelo mundo e nas relações da China com a comunidade internacional.

O protesto na Praça de Tiananmen, em 1989, é ainda hoje assunto tabu na China, e falar sobre ele é considerado muito perigoso. A única opinião dos meios de comunicação é aquela que o governo chinês passa e permite: o que aconteceu em 1989 foi uma ação legítima e justificada do governo para assegurar a estabilidade do país. Todos os anos há manifestações em Hong Kong contra a decisão do partido e a Praça de Tiananmen é patrulhada, frequentemente, a cada 4 de junho, para impedir qualquer tipo de comemoração.


Há oito anos, um contrato do governo chinês com a Google mostra que o assunto continua a ser muito melindroso para o governo chinês, pois a web chinesa do Google (Google.cn), aplica restrições locais às buscas de informação sobre a revolta da Praça de Tiananmen, Quando as pessoas buscam tópicos ou assuntos censurados, a Google fornece ao governo chinês a identidade daqueles que procuraram tal informação dentro do território chinês. Em 2007, no décimo oitavo aniversário do massacre, foi publicado um anúncio que dizia “prestar tributo às fortes mães das vítimas de 4 de junho". Três editores do jornal foram expulsos.

Em 4 de junho de 2007, no aniversário do massacre, um anúncio que dizia "prestar tributo às fortes mães das vítimas de 4 de junho", foi publicada no jornal Chengdu Evening News. A questão está atualmente a ser investigada pelo governo chinês e três editores do jornal foram expulsos. O responsável pela aprovação do anúncio disse que nunca tinha ouvido falar da repressão de 4 de junho. Um ano antes um programa televisivo americano difundiu um pequeno filme obtido na Universidade de Pequim, onde participavam muitos dos estudantes que participaram nos protestos de 1989. A quatro estudantes foram exibidos um retrato do homem-tanque, mas nenhum deles pôde identificar o que estava acontecendo na foto. Alguns responderam que era um desfile militar ou um trabalho artístico. Sintomático.

Talvez por isso, muitos chineses não consideram a liberalização política imediata como uma medida sábia.

Vale a pena refletir sobre isso quando grande parte dos cidadãos europeus que vivem em democracia e liberdade desdenham do mundo em que vivem.

 Gabriel Vilas Boas






terça-feira, 3 de junho de 2014

MANUEL ANTÓNIO PINA, O DRAMATURGO


Manuel António Pina deixou-nos há cerca de ano e meio. Viveu uma vida plena, dedicada à literatura e ao jornalismo. Escreveu poesia, teatro, histórias infanto-juvenis, crónicas.
Durante cerca de quatro décadas escreveu para crianças e para adultos com uma qualidade e acutilância acima da média e por isso em 2011, muito justamente, foi-lhe atribuído o maior prémio da língua e da literatura portuguesas, o Prémio Camões, pela totalidade da sua obra.
Hoje, quero apenas falar-vos do Manuel António Pina dramaturgo. Os dois ladrões (1983) O Inventão (1987), A noite (2001), Perguntem aos Vossos gatos e aos vossos cães (2002), Aquilo que os olhos veem, o Adamastor (1998), História do sábio fechado na sua Biblioteca (2009), Os Macacos não se medem aos palmos  (2011, são os seus textos dramáticos.

História do Sábio Fechado na sua Biblioteca

A companhia de teatro portuense “Pé de Vento” tem feito um trabalho notável para trazer às crianças e jovens os textos de Manuel António Pina. Há dois anos trouxe à cena  a peça “História do Sábio Fechado na sua Biblioteca”.  Nela verificamos que a enorme sabedoria do sábio é a sua maldição. Cansado de viver, o sábio deseja a morte, mas percebe que não se pode entregar à Morte, porque ela só o apanhará quando ele não a reconhecer. Ora o seu dilema era reconhecer tudo… A libertação implica uma saída do labirinto de livros em que se enredou. Só quando se decide a enfrentar a realidade é que descobre a verdadeira fome, a verdadeira compaixão, o verdadeiro sofrimento, o verdadeiro amor, ou seja, descobre como era limitada a sua sabedoria.
                Trata-se por isso duma lição, em forma de parábola, sobre os limites do conhecimento, de Manuel António Pina, onde a ironia é um ingrediente indispensável.
                Durante a temporada de 2013/2014, a companhia Pé de Vento encenou “Os macacos não se medem aos palmos”. Vi-a no domingo passado, na companhia das minhas filhas, no Teatro da Vilarinha, no Porto. A peça conta a história do macaquinho Basílio que recolhia numa caneca os donativos destinados ao seu dono, Fagundes da Silveira, um tocador de realejo. Fagundes teria enriquecido se não tivesse gastado todo o dinheiro arrecadado no jogo e outras extravagâncias… Mais ajuizado, Basílio foi guardando nas pregas do seu casado de cetim (e sem que Fagundes se apercebesse) algumas das moedas que angariava até atingir considerável pecúlio. Certo dia, os papéis inverteram-se e Fagundes completamente falido vende o realejo ao macaco e passa a trabalhar para este.
Os macacos não se medem aos plamos
E eis que temos um mundo ao contrário, que António Pina cria com muita imaginação e humor para ensinar às crianças, aos jovens e aos menos jovens que um homem (ou um macaco) sagaz e astucioso vai longe na vida, na justa medida em que sabe aproveitar as fraquezas e debilidades do seu semelhante.  
Se não tiverem oportunidade de ir ao teatro, peguem numa peça de Manuel António Pina e representem-na em família. Vão ver que descobrem algumas coisas sobre vocês e sobre os outros.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 2 de junho de 2014

AO SOM DE... ANDREAS STAIER


Podia ter ido ao Rock in Rio? Podia. Iria gostar? De certeza que sim. Mas não fui.
Fui à Casa da Música assistir ao concerto que Andreas Staier ali deu no dia 31, sábado, acompanhado pela Orquestra Barroca da Casa da Música. Fui pelo intérprete e pelo repertório que era muito do meu agrado. Só para ouvir o Concerto em fá menor de J. S. Bach já valia a pena ir, mas com a interpretação de Andreas Staier no cravo, seria imperdível. Muitos foram aqueles que pensaram como eu, pois a sala estava cheia de entusiasmados melómanos que ouviram e aplaudiram o excelente intérprete que ali se apresentou. Coube-lhe também dirigir a Orquestra Barroca da Casa da Música, o que fez com mestria e sensibilidade, de modo a que também a orquestra pudesse brilhar como brilhou. Ouviram-se peças de J.S.Bach, Georg Anton Benda e Georg Philipp Telemann.
Andreas Staier mostrou e provou porque é que o consideram um dos mais notáveis intérpretes de cravo da atualidade. Devido às suas notáveis qualidades interpretativas tem sido convidado a participar em inúmeros festivais, em concertos e gravações. Este músico alemão que fez os seus estudos na Holanda já ganhou vários prémios, sendo o mais recente o de Artista do Ano 2014, do International Classical Music Award. Proximamente editará mais um CD com obras de Schumann. Tem-se apresentado ao público como solista, em duo, em trio ou ainda em concertos com orquestra.

Aqui fica a sugestão auditiva desta semana. Andreas Staier no Festival Cully Classical 2011, interpretando Georg Muffat. 
Margarida Assis

domingo, 1 de junho de 2014

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA


Hoje é o dia Mundial da Criança. Centenas de iniciativas pelo país fora assinalaram a data. Hoje as muitas crianças foram a prioridade dos adultos e o dia foi mais colorido e cheio de felicidade.  
Seria um lugar-comum sem graça e uma hipocrisia barata acrescentar que “era bom que todos os dias fossem dia da criança”. Na minha opinião, as crianças precisam que as deixem ser crianças enquanto são crianças. Parece simples, mas todos sabemos que as coisas simples são as mais difíceis de concretizar.
O que noto é que muitas crianças não têm a oportunidade de viver a sua infância. Ou porque lhes falta tudo ou por que têm tudo. Todas as idades são importantes e… diferentes. Não devemos antecipar crescimentos ou fazer da infância uma cópia antecipada da juventude ou da idade adulta.
A infância tem características próprias que devemos preservar se gostamos das crianças com que nos deparamos, sejam elas nossas filhas ou não. A infância é sinónimo de descoberta, inocência, bondade, partilha, credulidade, alegria, brincadeira, sociabilidade, contacto com a natureza. É tempo de ter tempo, do relógio não ter pressa, da exigência e da pressão serem aspetos a construir e não a cobrar.  
Jorge Amado lamentava no prelúdio do seu “Gato Malhado e Andorinha Sinhá” que hoje as crianças “já nascem sabendo tudo”, mas que isso não as torna crianças felizes ou adultos contentes, antes pelo contrário. Saint-Exupéry dedicava o seu “Principezinho” à criança que essa pessoa (certo amigo) crescida já foi. Estes dois grandes escritores do século XX entendem o mesmo: é necessário deixarmos a criança viver a sua infância. É um período da sua vida muito bonito e muito relevante. Num certo sentido, nele se formam os alicerces da sua personalidade. A criança precisa de experienciar a liberdade da sua inocência; descobrir os outros, o mundo e a si própria; construir o seu sistema de valores, a sua noção do certo e do errado, sem que isso seja manipulado pelo interesse, pelo socialmente correto ou pela vontade dos adultos.


Claro que precisarão de alguém que os acompanhe, que lhes sirva de guia ou lhes corrija a rota. No entanto, é preciso ter a noção que isso se faz com atenção, tempo e dedicação, não com smartphones, Ipods, tablets ou viagens guiadas aos centros comerciais. A verdadeira alegria das crianças é a genuína atenção dos adultos. Não apenas dos pais ou dos familiares mais chegados, mas de todos os adultos. Nas escolas, nas leis que aprovamos, nos programas de televisão que construímos, nos modelos de vida que lhes metemos pelos olhos adentro ou omitimos. Elas não precisam dum trabalho apressado, mas dum trabalho bem feito. Não são elas que têm pressa de ser importantes embora tenham fome de futuro.   
O superior interesse das crianças com que enchemos a boca com frequência é algo diferente do nosso pequenino egoísmo. É um trabalho paciente e consciente que fazemos com elas e para elas. Não é trabalho para termos lucro, é trabalho para termos orgulho.

Gabriel Vilas Boas