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terça-feira, 3 de junho de 2014

MANUEL ANTÓNIO PINA, O DRAMATURGO


Manuel António Pina deixou-nos há cerca de ano e meio. Viveu uma vida plena, dedicada à literatura e ao jornalismo. Escreveu poesia, teatro, histórias infanto-juvenis, crónicas.
Durante cerca de quatro décadas escreveu para crianças e para adultos com uma qualidade e acutilância acima da média e por isso em 2011, muito justamente, foi-lhe atribuído o maior prémio da língua e da literatura portuguesas, o Prémio Camões, pela totalidade da sua obra.
Hoje, quero apenas falar-vos do Manuel António Pina dramaturgo. Os dois ladrões (1983) O Inventão (1987), A noite (2001), Perguntem aos Vossos gatos e aos vossos cães (2002), Aquilo que os olhos veem, o Adamastor (1998), História do sábio fechado na sua Biblioteca (2009), Os Macacos não se medem aos palmos  (2011, são os seus textos dramáticos.

História do Sábio Fechado na sua Biblioteca

A companhia de teatro portuense “Pé de Vento” tem feito um trabalho notável para trazer às crianças e jovens os textos de Manuel António Pina. Há dois anos trouxe à cena  a peça “História do Sábio Fechado na sua Biblioteca”.  Nela verificamos que a enorme sabedoria do sábio é a sua maldição. Cansado de viver, o sábio deseja a morte, mas percebe que não se pode entregar à Morte, porque ela só o apanhará quando ele não a reconhecer. Ora o seu dilema era reconhecer tudo… A libertação implica uma saída do labirinto de livros em que se enredou. Só quando se decide a enfrentar a realidade é que descobre a verdadeira fome, a verdadeira compaixão, o verdadeiro sofrimento, o verdadeiro amor, ou seja, descobre como era limitada a sua sabedoria.
                Trata-se por isso duma lição, em forma de parábola, sobre os limites do conhecimento, de Manuel António Pina, onde a ironia é um ingrediente indispensável.
                Durante a temporada de 2013/2014, a companhia Pé de Vento encenou “Os macacos não se medem aos palmos”. Vi-a no domingo passado, na companhia das minhas filhas, no Teatro da Vilarinha, no Porto. A peça conta a história do macaquinho Basílio que recolhia numa caneca os donativos destinados ao seu dono, Fagundes da Silveira, um tocador de realejo. Fagundes teria enriquecido se não tivesse gastado todo o dinheiro arrecadado no jogo e outras extravagâncias… Mais ajuizado, Basílio foi guardando nas pregas do seu casado de cetim (e sem que Fagundes se apercebesse) algumas das moedas que angariava até atingir considerável pecúlio. Certo dia, os papéis inverteram-se e Fagundes completamente falido vende o realejo ao macaco e passa a trabalhar para este.
Os macacos não se medem aos plamos
E eis que temos um mundo ao contrário, que António Pina cria com muita imaginação e humor para ensinar às crianças, aos jovens e aos menos jovens que um homem (ou um macaco) sagaz e astucioso vai longe na vida, na justa medida em que sabe aproveitar as fraquezas e debilidades do seu semelhante.  
Se não tiverem oportunidade de ir ao teatro, peguem numa peça de Manuel António Pina e representem-na em família. Vão ver que descobrem algumas coisas sobre vocês e sobre os outros.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 6 de março de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, "DO POETA DE ORPHEU, FUTURISTA E TUDO"


Autorretrato, 1926
Almada Negreiros
“Desde os meus primeiros anos foi sempre a pintura o melhor regozijo dos meus olhos e da minha vida e, hoje, que posso recordar esses dias da minha mocidade, observo com satisfação um pormenor bastante curioso a este respeito. É o seguinte: ao ver um quadro, uma estampa, eu pensava imediatamente, instintivamente, não tanto no que queriam representar como em quem o teria feito. Conforme a minha simpatia pelo quadro ou pela estampa assim era correspondente a minha imensa curiosidade de como seria a pessoa que tinha conseguido fazer aquilo. Eu não exigia do assunto do quadro nem do modo por que estava pintado senão que a minha simpatia o admitisse e, pelo contrário, punha no mais alto da minha admiração o autor.(…)
Hoje, porém, conhecedor e consciente, penso exatamente a este respeito como em criança: para mim, em pintura, primeiro o pintor e depois o quadro.”
Lisboa, Março de 1934
José de Almada Negreiros, in "Cuidado com a Pintura"
…para mim, em pintura, primeiro o pintor e depois o quadro.”
Mas o quadro não é o pintor? E o pintor não é o quadro? Entendi sempre que o pintor inunda de si as telas que pinta, em poesia de cor, e que, através delas, o espetador mais atento e sensível lhe decifra a alma. Através delas, vemos como ele entende e canta a Natureza, como ele lê e sussurra a mulher ou a criança que retrata Por elas, observamos o seu mundo interior, num canto de sensibilidades mais ou menos profundas.
No entanto, hoje concedo a Almada toda a razão. Caminhemos, então, de encontro ao pintor que tanto admiro pela obra que nos legou, mas sobretudo por uma que me encanta.
O mês de março é para mim um mês muito especial. Não apenas por ser o mês em que nasci, mas, sobretudo, por ser o mês que me viu ser Mãe, em primeiro lugar de um menino e, dois anos depois, de uma menina, com que Deus, generoso, me quis agraciar.
Assim, quando consegui parar um pouco, para pensar no meu primeiro post deste mês do meu coração, veio-me à memória a obra “Maternidade”, pintada em 1935, por Almada Negreiros e que eu pude apreciar no Museu do Chiado, aquando da belíssima exposição O modernismo feliz.  
Almada Negreiros, Maternidade, óleo sobre tela, 100X100, 1935, CAM, Lisboa


Nesta época, ia já longe e distante o jovem Almada, que Sarah Afonso, sua esposa, nos descreveu como “...exuberante e excessivo. Deitava foguetes à porta da Brasileira, dava uns pulos que passava um bocado por cima da cabeça das pessoas, ia aos saltos por cima das mesas até ao balcão do fundo, na Brasileira, mas primeiro dando um pontapé rasteiro na balança que havia à entrada.”
Esta exuberância que Sarah amava, poderia ter sido direta consequência dos dez anos que viveu “encerrado” no Colégio dos Jesuítas, em Campolide, para onde foi enviado após a morte precoce de sua Mãe. Em La Lettre ,endereçada à Mãe, em francês, emociona quando diz “Tu m’as quitté/sans le vouloir”.Esta ausência da Mãe marcou-o definitivamente, uma Mãe desaparecida ainda ele menino, a quem apelou numa experiência poética em prosa “A invenção do dia claro”.
Artista sem mestre, foi sem dúvida a expressão maior do Homem que se desejava no período do Renascimento, pois deambulou pelo desenho, pela literatura (escreveu textos de intervenção, poemas, novelas), pela pintura e pelo mural. Viajou até Paris em 1919 e viveu durante cinco anos em Madrid, para onde viajou em 1927, especializando-se na arte do Mural, onde se excede nos anos 40, nas Gares Marítimas de Lisboa.
Em Madrid,  foi muito bem recebido no café Pombo, como podemos confirmar aqui pela descrição da sua chegada, redigida por Gomez de la Serna:
Almada, nervioso, alto, sonriente, negreiro de ojos e cabelo, almado de inteligência y simpatia, nos tendió la mano y nos mostro sus dibujos. Esto fué todo. Y fué muchissimo”.
E tão muitíssimo foi que logo se agendou uma exposição, dedicada ”a la memoria de Juan Gris y a Picasso, Sunyer, Vasquez Diaz y Solana”, que foi um êxito.
Para António Espina, crítico espanhol, nem Paris nem Madrid influenciaram decisivamente Almada. Ele é, isso sim, um pintor genuinamente português. E escreve uma das melhores críticas sobre o nosso artista, que não resisto a citar:
Almada é um artista claro…e o que primeiro cativa na sua obra é a simplicidade infantil do olhar. A vida renasce frescamente através da grave pupila ingénua.(…)os nus possuem uma lenta e exasperada voluptuosidade…recôndita, muito cândida na aparência; no fundo muito cerebral.
Em março de 1934 (cá está março, de novo), casa-se com Sarah Afonso. Em 1935, pinta Maternidade (alusiva ao nascimento do seu filho), um óleo sobre tela de grandes dimensões, intimista e sentimental, de uma modernidade inquestionável, assumindo, aqui, Almada a sua maturidade pictórica.
Os panejamentos de um cinza azulado acentuam a robustez da Mãe, numa clara alusão à força da Natureza que é a mulher. Da tela, imagino  palavras soltas, já ditas e repetidas, na “Invenção do Dia Claro”, mas aqui pintadas em versos de cor: “Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado.” Ou então: “Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade.”
Há aqui quase uma incursão pelo neo-realismo, sugerida pelo tratamento dado aos pés nus da Mãe, que se rende ao filho.
Para que a Maternidade seja perfeita, o ideal e mais natural é a existência do Homem e da Mulher. E do Amor. Ainda Almada, acerca do Homem de da Mulher:
Acerca do Homem e da Mulher
Lembro-me de uma oleografia que havia em minha casa. A oleografia estava cheia de amarelo do Deserto. O amarelo do deserto era mais comprido do que a vida de um homem se não fosse o galope do cavalo onde o árabe rapta a menina loira. Na oleografia havia uma palmeira. A palmeira era tão pequena como a esmeralda do anel da menina loira. A palmeira era assim tão pequena porque estava muitíssimo longe. Era em direção à palmeira que ia a correr o cavalo. Havia outra oleografia quando já tinham chegado à sombra da palmeira. O cavalo estava como morto por terra. O árabe, esse, ainda nunca tinha estado cansado. Tinha a menina loira nos braços, como a esmeralda estava no anel. Eram três as oleografias. Na terceira oleografia, estava sozinha a menina loira a dar de mamar a um menino verdadeiro."
Acerca das três oleografias
Estas três oleografias explicam muito bem como se pode ser senhora e como se deve ser homem. As senhoras como a menina loira. Os homens como o árabe. Um homem sabe raptar; uma senhora merece ser raptada. Exemplo de um homem que soube raptar: o árabe. Exemplo de senhora que mereceu ser raptada: a menina loira da oleografia. Ser o árabe para desencantar a menina loira; ser a menina loira para que haja o árabe.(…)
Mãe! A oleografia está a entornar o amarelo do Deserto por cima da minha vida. O amarelo do Deserto é mais comprido do que um dia todo!
Mãe! Eu queria ser o árabe! Eu queria raptar a menina loira! Eu queria saber raptar.”
Almada Negreiros, "A Invenção do Dia Claro", 1921
E a Mãe acedeu! Ensinou Almada a raptar…e nasceu “Maternidade.
Que saibamos ser o árabe e a menina loira. E, já agora, um bom março para todos…afinal, vem aí a Primavera.



Rosa Maria Alves da Fonseca