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quinta-feira, 5 de junho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE ACÁCIO LINO (2.ª Parte)


“Acácio Lino deverá ser visto, ainda, como Pintor de História, na exigência das reconstituições, no fundo poético e simbólico de algumas das suas obras como O Grande Desvairo, tangente às formulações saudosistas do seu conterrâneo Teixeira de Pascoaes.”
António Cardoso, 1996

Acácio Lino, O Grande Desvairo, óleo s/tela, Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso 
(Fotografia de António Pinto)

Acácio Lino continua hoje a ocupar-me o espírito; artista multifacetado, pintor e escultor, deixou obra admirável que se pode apreciar bem aqui, na cidade de Amarante…basta para isso entrar no museu Amadeo de Souza-Cardoso e calmamente subir à galeria superior, atravessar a Sala António Carneiro e finalmente, entrar na Sala Acácio Lino. Curioso como os três artistas amarantinos, da mesma época, viram e pintaram o mundo de modo tão diferente e especial. Em cada uma das salas, respira-se diferente, revivem-se épocas distantes, sente-se o exalar de perfumes subtis de cada uma das telas que nos olham sem cessar. Esses perfumes envolvem-nos, ora florais, ora dramáticos e sentimentais, ora irreverentes e carregados de modernidade.
De Lino, disse-vos já que aprecio sobretudo a sua pintura naturalista. De cores pastel, suaves e  em retrato fiel de rostos e olhares ,  a que não é possível ficar  indiferente, perpassam por nós paisagens e cenas bucólicas, populares. Mas, como tão bem disse António Cardoso, “Acácio Lino deverá ser visto, ainda, como Pintor de História, na exigência das reconstituições, no fundo poético e simbólico de algumas das suas obras como O Grande Desvairo, tangente às formulações saudosistas do seu conterrâneo Teixeira de Pascoaes.”
A Pintura de História é muito forte em Acácio Lino. E a obra “Grande Desvario” é avassaladora. Imbuído de um certo neo-romantismo, a sua obra aborda também e preferencialmente a temática histórica, sobretudo os episódios da época medieval, tão à moda nacionalista, propondo novas e exaltadas leituras do acontecimento retratado, sempre valorizando o herói idealista e entregue a uma causa. Aqui, a paleta cromática é variada, com efeitos de claro-escuro que trazem dramatismo à cena, acentuando-lhe sentimento.
A tela ”O Grande Desvairo” leva-nos até Alcobaça, para onde D. Pedro translada Inês, aquela que “despois de ser morta foi Rainha”. Os seus túmulos, obras-primas da escultura gótica portuguesa merecem visita. Fernão Lopes deixou o seguinte registo sobre este momento singular da História de Portugal:
[...]  mandou  fazer  huum  muimento  dalva  pedra,  todo  mui  sotillmente  obrado, poemdo emlevada sobre a campãa de çima a imagem della com coroa na cabeça, como se fora Rainha; e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça, nom aa emtrada  hu jazem os Reis, mas demtro  na egreja ha maão dereita,  açerca da capella moor. E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Samta Clara de Coimbra, hu jazia, ho mais homrradamente  que se fazer pode, ca ella viinha em huumas andas, muito bem corregidas pera tal tempo, as quaaes tragiam gramdes cavalleiros, acompanhadas  de gramdes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e domzellas,  e muita creelezia. Pelo caminho estavom muitos homeens com çirios nas maãos, de tal guisa hordenados,  que sempre  o seu corpo foi per todo o caminho  per antre çirios  açesos;  e  assi  chegarom  ataa  dito  moesteiro,  que  eram  dalli  dezassete legoas, omde com muitas missas e gram solenidade foi posto em aquel muimento: e foi esta a mais homrrada  trelladaçom,  que ataa aquel tempo em Portugal  fora vista.

Aqui o herói é com toda a certeza, D. Pedro . Um círio ilumina a cena principal, destacando com grande luminosidade e dramatismo a deposição dos restos mortais de Inês. Uma névoa translúcida de incenso torna ainda mais místico o cenário. À volta do túmulo, o clero e bem próximos de Inês, os filhos. Flores brancas junto ao túmulo calcário, de uma beleza sem par.

Inês era muito bela – “os loiros cabelos a cair pelos ombros, os olhos verdes e brilhantes ,o porte sereno e suave como o de uma garça a andar pelos jardins do paço, a pele branca como a da mais branca pérola, os lábios graciosos, a beleza com qualquer coisa de divino”. Este amor português foi em tudo um grande desvairo. O desvairo final retratou-o aqui Acácio Lino. Até ao fim do mundo.

Este inferno de amar
“Este inferno de amar como eu amo!
Quem mo pôs aqui nalma... quem foi?
 Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida e que a vida destrói
 Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há- de ela apagar?
(…)”
 Almeida Garrett, Folhas Cdas

Rosa Maria Alves da Fonseca

quinta-feira, 29 de maio de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE ACÁCIO LINO

Acácio Lino, 1878-1956

Ainda este ano, o meu amigo Manuel de Sousa, autor da página do Facebook Porto Desaparecido, que eu recomendo vivamente, organizou para os meus alunos um percurso pedestre pela cidade do Porto, Património Mundial da Humanidade. O dia estava belíssimo e o passeio, temperado pelas intervenções brilhantes do meu colega dos bancos da faculdade, agradou. A zona histórica da cidade é deslumbrante e recheada de segredos inesperados; foi assim que depois da visita à estação de S. Bento, rica pelos seus painéis de azulejo, entrámos na pastelaria Serrana. Esta visita não estava prevista no guião mas o Manuel de Sousa insistiu, dizendo que iríamos gostar, uma vez que o grande grupo era amarantino"tal como o autor da tela que decora este estabelecimento."- Disse.
 De facto, o belo espaço interior contrastava com a fachada do que parecia ser uma simples confeitaria da rua do Loureiro. E o seu teto absolutamente único destacava-se porque decorado por uma tela de Acácio Lino, encomendada em 1912 para a Ourivesaria Cunha, famosíssima nos inícios do séc. XX.

Tela centenária de Acácio Lino, Pastelaria Serrana, Porto

Este nosso conterrâneo, formado na Escola de Belas–Artes do Porto, natural de Travanca, Amarante, onde nasceu em 1878,deixou a sua marca um pouco por todo o lado. Aluno de Marques de Oliveira e colega naquela escola de Aurélia de Sousa e de António Carneiro, terminou a sua formação com distinção. Viajou até Paris uma vez que havia ganho uma bolsa com a pintura “Camões junto ao túmulo de Natércia”.

Destacado naturalista mas também exímio na pintura histórica, podemos encontrar as suas telas no Museu Grão Vasco, no Museu Nacional Soares dos Reis ou no Museu José Malhoa. O Palácio de S. Bento abriga também a Sala Acácio Lino que serve de gabinete de trabalho a um dos grupos parlamentares que acede sempre de forma solícita a que os meus alunos a visitem, de cada vez que nos deslocamos a Lisboa.

Pintura mural, Batalha de S. Mamede, Sala Acácio Lino, Palácio de S. Bento


O Museu Amadeo de Souza-Cardoso dedica-lhe uma sala e a mais recente Casa Museu Acácio Lino, em Travanca, é também um espaço de excelência onde o nosso encontro com aquele artista pode ser bastante produtivo.
Dele aprecio sobretudo a sua faceta naturalista. Não vou hoje dissertar sobre esta corrente ou escola. Apetece-me apenas deixar-vos com algumas das obras deste amarantino e colori-las com alguma poesia. Não que elas tenham amarelecido com o tempo, num desmaio inoportuno. Apenas porque entendo que poesia combina com pintura. E porque, para mim, estes versos de Henrique Monteiro vem a calhar: coroam as paisagens sonhadas por Lino e transportadas em pinceladas seguras de mestre para telas inesquecíveis, que não devemos ignorar.

Acácio Lino, Paisagem com rio,1922,óleo s/tela


 1.

Que é
da ternura fluvial
do verão,
do entardecer das aves
de lume carregadas?

Que é
do silêncio verde
de teus olhos,
dos areais de esperança
a sul do esquecimento?

Que é
Do fulgor das naves?
Que é
do secreto vento?
Henrique Monteiro, Poemas do Rio Sem Viagem, in Cadernos do Tâmega



Acácio Lino, Entardecer, 1916, óleo sobre madeira


2.
Que é
desse vento,
amor,
de que falavas?

Em que
colina
acesa
em que
giesta
ardente
adormeceu?

Que é
desse vento,

amor?
Henrique Monteiro, Poemas do Rio Sem Viagem, in Cadernos do Tâmega
(continua)

Rosa Maria Alves da Fonseca