Etiquetas

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O CABELEIREIRO DO HOLLANDE


Em França o assunto do momento já não é a humilhante derrota da seleção gaulesa frente aqueles nojentos dos “Bidonville”, mas o salário do cabeleireiro do presidente Hollande: dez mil euros. Sim, dez mil euros para pentear um careca, ou melhor, a calvície de um presidente que exibe algumas melenas na cabeça. Deve ser trabalhoso ter de lavá-las, penteá-las, pintá-las e portanto dez mil euros é um ordenado perfeitamente aceitável.
O fait-divers diverte a França que se mostra indignada com o seu presidente e levou François Hollande a responder: “Fiz diminuir o orçamento do Eliseu de 109 milhões de euros para 100 milhões, desde 2012 até agora. Reduzi 10% ao efetivo do Eliseu. (…) O meu salário foi reduzido em 30% e vêm ter comigo por causa de um assunto do qual não sou o primeiro responsável? Admito qualquer crítica, mas essa não!”

Hollande esteve bem na resposta, exceto no facto de… ter respondido, não respondendo. 
Hollande respondeu com aquilo que deve ser respondido: a despesa com o pessoal do Eliseu baixou; o ordenado do presidente baixou. O resto não interessa. Se não interessa, por que se deu ao trabalho de responder? E, optando por responder, por que não respondeu ao que lhe foi perguntado? Se ele não é o responsável pelo seu cabeleireiro pessoal, quem é?

A situação é ridícula e embaraçosa, mas a melhor maneira de a enfrentar ter sido não lhe responder ou dispensar os serviços de um cabeleireiro que a careca do presidente não justifica.
A resposta do presidente a este divertido fait-divers suscita-me no entanto uma outra reflexão: Hollande não se preocupou em explicar aos franceses o anémico crescimento económico da França, os problemas com os emigrantes, os sucessivos incumprimentos do défice público, a insatisfação dos trabalhadores, mas teve necessidade de justificar o salário bruto de um cabeleireiro, para dizer que era uma tontice. Daqui se pode concluir que Hollande só responde a tontices, porque para assuntos sérios não tem resposta.

Este fenómeno não é um exclusivo do presidente francês, mas de muitos políticos um pouco por todo o mundo. São notícia pelos faits-divers, estão sempre dispostos a alimentá-los quando não a provocá-los, mas fogem a perguntas sérias e objetivas sobre os principais problemas dos povos que governam.
Esta maneira oportunista e pequenina de atuação política e gestão da informação pública é estupidamente alimentada pelos media, especialmente a imprensa, que, em busca do último caso para entalar o seu odiozinho político de estimação, gasta o tempo e a paciência das pessoas com assuntos menores e esquece de apresentar e explicar o plano governamental (ou presidencial) para as diversas áreas económicas, sociais, culturais. Graças a esta gestão show off, vários diretores, ministros, primeiros-ministros escapam ao escrutínio das suas medíocres decisões, das suas omissões, dos seus enganos.

Quando passamos a vida a discutir o superficial, obviamente o essencial fica por avaliar. Depois é fácil escolher outro porque o resultado deste foi mau. O problema é que poucos sabem dizer por que correu mal, o que teria sido possível fazer de diferente nas circunstâncias em que determinadas decisões ocorreram.
Discutir o cabeleireiro de um careca é divertido, mas não deve ocupar mais tempo que o de uma boa anedota.
Gabriel Vilas Boas


quarta-feira, 13 de julho de 2016

O LADO SOMBRIO DAS ESTRELAS DE FUTEBOL

O “The Sun” publicava esta segunda-feira uma foto arrepiante da antiga estrela do futebol inglês Paul Gascoigne. “Gaza” saia de um táxi, em roupão, velhíssimo, escanzelado, cigarro na boca, aparentemente alcoolizado. Segundo o jornal inglês, Paul Gascoigne mal conseguia falar e quando tropeçou no roupão ficou nu. Paul tinha saída para comprar álcool, cigarros e analgésicos, mas a figura que vagueou pelas ruas impressionou tanto que a foto teve reações em todo o mundo. A degradação daquele futebolista atingiu um ponto tal que nenhuma pessoa que viu jogar Paul Gascoigne consegue deixar de ficar chocado.


Paul era um portento de força e técnica, o verdadeiro representante do futebol inglês que se destacou no início da década de 90 do século XX. Paul ainda não completou cinquenta anos, mas parece caminhar apressadamente para a morte tal os destemperos a que sujeita o corpo.
O mundo do futebol está cheio de exemplo destes. Estrelas cintilantes que sucumbiram aos vícios da vida, como o álcool ou a droga, e rapidamente se degradaram a um ponto inimaginável, enchendo de tristeza os milhões de fãs que lhes bateram palmas, que entoaram o seu nome nos estádios e lhes elogiaram as qualidades técnicas e táticas só ao alcance de poucos.


A história do futebol está cheia de casos iguais ao de Paul Gascoigne. Quem não se lembra do genial norte-irlandês George Best, melhor jogador do mundo em 1968, ano em que levou o Manchester United à vitória na Taça dos Campeões Europeus sobre o Benfica de Eusébio, para quem o futebol de alto nível acabou antes do tempo e o final da vida chegou antes dos 60 anos, fruto de uma vida cheio de álcool e mulheres. É dele a arrepiante frase: “Em 1969 deixei o álcool e as mulheres; foram os piores 20 minutos da minha vida.”


O Brasil também teve o seu génio caído em desgraça: Garrincha, o único brasileiro que nos anos 50 e 60 disputava o trono ao rei Pelé. Era um atacante fabuloso, capaz de fazer jogadas incríveis, dribles inesquecíveis, mas que nunca conseguiu derrotar o álcool, que o levou para a morte em 1983, impedindo-o de chegar aos 50 anos.
Em Portugal, a gente ligada ao futebol lembrar-se-á de Vítor Batista, um jogador acima da média, que jogou com a mítica equipa de Eusébio nos anos sessenta. Vitor Batista tinha tanto de génio como de louco. Era um excêntrico e um dia interrompeu um Sporting-Benfica para pôr toda a gente a procurar um brinco que lhe havia caído para o relvado. Também acabou aos cinquenta anos, derrotado pelo álcool e pelas drogas, em 1999.


Contemporâneo de Paul Gascoigne é Diego Armando Maradona, o mais fabuloso jogador que vi jogar. Campeão do Mundo em 1986, no México, pela sua Argentina, Maradona também sucumbiu às malhas do vício, em especial à cocaína. Fez tratamento e teve recaídas. Pelo menos duas vezes já esteve perto da morte, mas tem-se conseguido reequilibrar e parecem longe os tempos em que a degradação física, moral e social parecia ser a sua estrada.

Paul Gascoigne é só o último exemplo de uma longa lista de futebolistas que conheceram a fama, a glória, uma vida luxuosa, mas acabaram de um modo chocante e degradante.

Hoje o desporto faz e desfaz heróis quase à velocidade da luz. Poucos conseguem entrar no coração dos fãs como Maradona, Gaza ou Garrincha, mas seriam interessante que os heróis de hoje não nos dessem mais desgostos no futuro.
Gabriel Vilas Boas


terça-feira, 12 de julho de 2016

AQUELES QUE NÃO QUEREM CONTINUAR A ESTUDAR


Foram cerca de vinte mil, em 2015, ou seja cerca de 30% dos alunos que se apresentam a exame para concluir o ensino secundário. A maioria destes alunos pertence ao ensino profissional.
Por que não querem estes vinte mil alunos continuar a estudar? Por agora o Ministério da Educação apenas constata um dado estatístico, mas não mandou fazer qualquer estudo que explique este fenómeno de cerca de 30% dos alunos portugueses não quererem aceder ao ensino superior.
Na minha opinião há um misto de razões a considerar: falta de recursos económicos por parte de algumas famílias; a pouca atratividade/empregabilidade que muitos cursos superiores oferecem; a pouca relevância que estes alunos atribuem à sua formação académica; a escolha pela entrada imediata no mercado do trabalho, entre outras razões.
Estes alunos pertencem às primeiras “fornadas” que percorreram doze anos de ensino obrigatório. Quantos destes vinte mil não teria abandonado a escola antes de completar o ensino secundário se este não fosse obrigatório?

Grande parte desta “desistência” de estudar vem do ensino profissional. Isto não impõe uma profunda reflexão sobre o modo como é ministrado o ensino profissional em Portugal? Parece que este é tão frustrante que os alunos não veem necessidade de prosseguir a sua formação. Claro que alguns podem argumentar que ele é tão bom que os alunos já se sentem capazes de entrar em força no mercado de trabalho. No entanto, se isto fosse verdade, o tecido empresarial andaria a tecer loas ao ensino profissional e alguns dos melhores alunos do ensino básico optariam pelo ensino profissional, mas todos as pessoas que trabalham em educação sabem que não é isto que acontece.
A questão da falta de recursos materiais para prosseguir estudos também não deve ser negligenciada. Era importante apurar quantos milhares desistem da universidade porque os seus pais não têm meios financeiros para lhes pagar propinas, alojamento, alimentação e livros, durante quatro/seis anos. A ação social escolar, a nível universitário, é claramente insuficiente.
Subsiste ainda o outro problema, quanto a mim o maior: a atratividade/empregabilidade da maioria dos cursos. Tirando Medicina e Enfermagem (em que o maior empregador é o Estado – curioso…) a grande maioria dos cursos superiores não é uma garantia de emprego quanto mais de uma remuneração justa face à competência profissional demonstrada.

Neste caso, como noutros, há mais perguntas que respostas, mas um dado é certo: vinte mil jovens concluíram o ensino secundário (e a escolaridade obrigatório) e desistiu de estudar. Que rentabilidade terá o investimento feito na sua educação? Que dirão acerca da importância da escola nas suas vidas estes vinte mil jovens?
Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 11 de julho de 2016

ACRÓPOLE DE ATENAS


Num planalto com quase três hectares, o génio grego erigiu um dos mais notáveis conjuntos arquitetónicos da humanidade, hoje símbolo oficial da Unesco.
Quatro obras-primas da arte grega: o Parténon, o Propilen, o Erecteion e o templo de Atena Nike – afirmam, pelo gigantismo e pela magnificência, o esplendor da democracia ateniense no templo de Péricles.
O conjunto foi restaurado com o patrocínio de um programa comunitário e ilustra, com esplendor, a influência cultural da civilização grega, berço da identidade europeia.

Foi Zeus o primeiro a seduzir Europa e a dar-lhes filhos. Mais do que nunca, a Europa é uma ideia, um património de valores – talvez ainda um mito – antes de ser uma realidade geográfica. 

Foi pelo menos essa a ideia que presidiu às várias adesões à União Europeia que ocorreram nas últimas quatro décadas. 
Em 16 de abril de 2003, durante a presidência grega da União Europeia, aos pés da Acrópole, dez países assinaram o Tratado de Atenas, abrindo as portas da União ao leste da Europa e materializando, no papel, o sonho de uma Europa que abria as asas de condor para o mundo.

Infelizmente, tudo não parece ter passado de um sonho, uma utopia…

domingo, 10 de julho de 2016

sábado, 9 de julho de 2016

O INCRÍVEL ORGULHO DE SER PORTUGUÊS


Tão inesperado quanto comovedor!
As televisões portuguesas bombardeiam-nos a todo a hora, há um mês, com imagens sem interesse jornalístico sobre a presença da seleção portuguesa em França. Os jogos, nós vemos com gosto, apesar das exibições serem bem piores que o resultado; os comentários dos jogadores e do treinador também, mas aqueles diretos tontos, a toda a hora do dia, para ouvir a comunidade portuguesa em França falar de coisa nenhuma não fazem qualquer sentido a não ser gastar o tempo de antena, em que ninguém trabalhou para preencher de outra maneira.

No entanto, há uma flor que desabrocha desta imensa preguiça e mediocridade: o genuíno orgulho daquela gente em ser português. 
Aquele frenesim, aquela emoção sem razão, aquelas horas e horas à espera de um aceno do Ronaldo e companhia podem parecer bacocos ou simplesmente tontos, mas traduzem um incrível sentimento de orgulho em ser português. 
Um orgulho que nunca detetamos em Portugal (onde o normal é dizer mal de nós), um orgulho que a situação financeira, económica e social do país não explicam, um orgulho que o desporto (muito menos o futebol) autoriza, um orgulho que não se baseia nos muitos anos passados em Portugal e que as saudades fazem perceber, pois grande parte daqueles emigrantes pertence a uma segunda, terceira ou mesmo quarta geração de portugueses e, portanto, sem grande contacto com o território nacional.

Todavia… todavia aprenderam a amar a terra dos pais ou dos avós, têm gosto em se afirmar portugueses, embora tenham nascido em França, apesar de todas as humilhações que o país e os pais sofreram ao longo de décadas, num país, que tem tanto de acolhedor quanto de chauvinista.
Não deixa de ser uma lição de portugalidade para todos, emigrantes ou não, aquilo que pressentimos nos despropositados diretos de Marcoussis. 

Não é apenas emoção, não é apenas o futebol nem o Ronaldo, é um sentimento profundo que fez com que uma rapariga de vinte e poucos anos (Sónia Carneiro), nascida em França mas descendente de portugueses, jornalista do jornal “20 Minutes” (onde um colega escreveu “Este Portugal é nojento, mas está nos quartos-de-final”) saísse publicamente em defesa de Portugal, com uma veemência e contundência tal que o colega foi obrigado a engolir toda aquela nojeira que tinha vomitado.
Ainda que seja entre estranhos, é sempre bom sentir que os nossos têm orgulho em pertencer à família e que não há fronteiras nem língua ou tempo que destrua esse orgulho em ser português. Uma das melhores heranças do Portugal antigo.

Gavb

sexta-feira, 8 de julho de 2016

NÃO É NÃO!


A maioria de nós costuma identificar a organização como a qualidade alemã que faz sobressair aquele país no contexto europeu e mundial, mas esta é apenas a face mais visível de uma máquina bem oleada, onde outros princípios também são importantes. Um deles é não varrer os problemas para debaixo do tapete, esperando que o tempo os resolva.
Não é típico dos alemães dar uma resposta emocional a um problema social, todavia não o esquecem. No tempo certo encontram a resposta mais adequada. Sem espalhafatos e com eficácia.
Há seis meses, na noite da passagem de ano, em Colónia, várias raparigas alemãs foram molestada sexualmente. O caso causou grande polémica por dois motivos: grande parte dos acusados eram emigrantes (o que punha em perigo os esforços das autoridades alemãs para convencer os seus parceiros da União Europeia para acolher os refugiados) e o comentário de uma autarca de Colónia que sugeriu que as jovens “se puseram a jeito da violação”, devido às suas atitudes provocatórias.

Serenamente, as autoridades alemãs deglutiram os acontecimentos e agiram, alterando a lei, ou seja, redefinindo a definição de violação. Até agora só era considerado violação “todo e qualquer ato sexual obtido por violência ou por ameaça à vida ou integridade física, quando a vítima ficava privada de defesa”. Na prática, a lei que punia a violação na Alemanha, datada de 1998, apenas considerava violação quando o homem agredia ou ameaçava. Se uma mulher implorasse, a chorar, para que o homem parasse ou lhe dissesse explicitamente que não queria aquele ato sexual e mesmo assim ele fosse consumado, isso não era considerado violação.
Com a lei aprovada por unanimidade, ontem, pela câmara baixa do Parlamento alemão, passa a ser considerado violação “qualquer ato sexual cometido contra a vontade identificável da outra pessoa”, ou seja, quando alguém persiste contra um “não” está a cometer violação.
Este passo legal, que a Alemanha dá, é de enorme importância e um grande progresso na mentalidade de um povo, que ainda há 25 anos não considerava crime a violação obtida dentro do casamento.

Alguns críticos desta lei sugerem que ela é populista, que originará uma multiplicação de falsas acusações. Não creio, apesar de ser mais fácil acusar injustamente alguém. O bem que se protege é um bem maior. Esta lei alemã (que ainda precisa de ser ratificada pela câmara alta do Parlamento alemão - o Senado) é uma pedra necessária na construção do grande edifício da dignidade humana, em especial da dignidade das mulheres.
Uma pretensa sugestão de vontade jamais se pode confundir com um consentimento e nunca poderá justificar uma violação. Um não é um não, como um sim é um sim. O desejo sexual, como qualquer outro desejo, é perfeitamente controlável pela razão. Pode parecer absurdo (de tão óbvio que é) estar a plasmar na lei um raciocínio tão linear como este, mas várias decisões judiciais, em alguns países, tornaram necessária esta clareza legal.
Apesar da boa nova que constitui esta lei alemã (que gostaria de ver replicada noutros países), é bom lembrar que a lei só por si não chega. É necessário trabalhar a mentalidade de jovens e menos jovens, para que este tema tão delicado, íntimo e importante na vida de cada um não se torne um pesadelo com danos incalculáveis e irreversíveis.

Gabriel Vilas Boas