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terça-feira, 17 de março de 2020

O ESTADO DE EMERGÊNCIA TERÁ MAIS UM EFEITO PSICOLÓGICO DO QUE PRÁTICO

O Estado de Emergência serve para os governos atuarem, em casos de exceção, acima da lei, que, nesses momentos, fica suspensa. 
Ora, o governo português parece não querer o Estado de Emergência para nada, pois não sente necessidade de atuar para lá da lei.
Genericamente, as pessoas estão a obedecer às recomendações da Direção Geral de Saúde, ficando em casa as que podem, fazendo teletrabalho as que têm oportunidade para isso, comparecendo nos seus postos de trabalho aquelas que são imprescindíveis para a sobrevivência dos outros.
O Estado de Emergência não vai fechar supermercados, farmácias, hospitais, recolha do lixo, transporte de mercadorias, bombas de gasolina, nem ninguém quer isso. Infelizmente, também não trará mais ventiladores, nem médicos ou enfermeiros, nem recuperará mais depressa os infetados com COVID 19.
É verdade que poderá meter na ordem alguns "inconscientes" que teimam em frequentar espaços públicos sem que isso seja uma necessidade, mas genericamente o povo está a cumprir com o recolher recomendado, de modo voluntário. 
O Estado de Emergência não vai atribuir mais dinheiro estatal às pequenas e médias empresas do que aquele pouco que o governo tem aforrado. Diria até que essa ajuda depende mais de uma decisão da União Europeia do que do próprio governo. 
O problema é que o Estado de Emergência pode e vai gerar expectativas sobre o fulcro do problema: reforço do sistema nacional de saúde e dinheiro para o futuro das empresas. E obviamente essas expectativas sairão defraudadas, porque o Estado de Emergência não pode resolver nenhuma dessas emergências.  
A grande emergência que temos é mantermo-nos quietos, em casa, disponibilizando meios e recursos privados  para os profissionais da saúde e para aqueles que tratam do reabastecimento à população e... readaptarmos a nossa vida, para esta dupla quarentena três meses.

GAVB 


sexta-feira, 6 de março de 2020

USO BONÉ E TENHO A BARBA POR FAZER


Jurgen Klopp, o treinador da melhor equipa de futebol da atualidade, o Liverpool, é um treinador completamente «fora da caixa», que dá gosto ouvir quando fala de futebol e também quando fala da vida e dos comportamentos sociais.

Há poucos dias, após perder com o Chelsea, em Stamford Bridge, para a taça de Inglaterra, um jornalista quis saber também a sua opinião sobre o coronavírus. A resposta foi muito mais do que desconcertante, uma lição de carácter, de humilde e, sobretudo, de sentido daquilo que é mais importante.

«O que não gosto na vida é que a opinião de um treinador de futebol seja importante. Não entendo isso, sinceramente! 
Se eu lhe perguntar a si, estará exatamente na mesma posição do que eu. 
Não importa o que as pessoas famosas dizem. Tem de se falar é com as pessoas que sabem do assunto. Política? Coronavírus? Uso boné de basebol e tenho a barba por fazer...»

quarta-feira, 4 de março de 2020

A TURQUIA RESOLVEU EXPOR A HIPOCRISIA DA UNIÃO EUROPEIA


Erdogan, o cínico líder turco, abriu as portas da Europa aos refugiados sírios e encaminhou-os para a Grécia, já superlotada de gente fugida da guerra que não cabe na velha Europa, tão cheia de hipocrisia e egoísmo.
Merkel está de partida e com ela cai o último bastião de humanidade que existia entre os líderes de uma União Europeia submetida à tecnocracia, esquecida dos seus valores, perdia nos escândalos financeiros.
A Turquia de Erdogan é como a Rússia de Putin: sempre pronta para mostrar as contradições do discurso falsamente humanitária da União Europeia.

Quão longe estão os ideias que fizeram o alargamento a leste da UE! 
Estão longe, porque ninguém cuidou de comprometer quem chegava com os valores da solidariedade, da paz em sentido lato, da verdadeira democracia. Não basta uma moeda única, sobretudo quando uns a têm em muito maior quantidade que outros. Não basta um espaço social único quando a integração social dos mais pobres não é feita com dignidade.

Os gregos não podem suportar crises e refugiados sem ajudam; os alemães têm medo dos seus fantasmas nazis; os romenos não conseguem acolher e os outros encolhem os ombros como se a conversa não fosse com eles. 
Apesar das ameaças de Erdogan virem de longe, ninguém quis saber, porque realmente ninguém quer saber do ser humano, a não ser que ele tenha uma conta bancária. 
É mais fácil salvar bancos que pessoas. Ainda ninguém disse aos refugiados que a humanidade naufragou no mediterrâneo há uns anos. A Europa está mais perto do inferno do que do paraíso. 

Talvez tivesse sido boa ideia tratar de Bashar al-Assad em tempo oportuno e em casa, porque estes tecnocratazecos nunca salvaram nada além da conta bancária.

GAVB

domingo, 16 de fevereiro de 2020

VIVER É UM DIREITO OU É UMA OBRIGAÇÃO?


Pode a escolha de uma morte digna sobrepor-se ao direito à vida? Deverá esta ser prolongada mesmo que isso implique mais sofrimento? A Assembleia da República volta a debater a eutanásia com os projetos de lei do PS, BE, PAN, PEV e Iniciativa Liberal (IL), apesar das críticas da Igreja Católica e da Ordem dos Médicos.
Há dois anos faltaram cinco votos para que a lei sobre a eutanásia fosse aprovada, agora existe uma maioria que quer despenalizar a morte medicamente assistida, contra a qual o PCP e o CDS-PP e Chega se manifestam.
Apesar da opinião dos partidos me interessar pouco, a verdade é que são eles que vão decidir alterar a lei, mesmo sem querer saber a opinião dos portugueses. Dizem que os “direitos fundamentais não se referendam” para se justificarem, mas não há justificação para que dezenas de deputados se arrogarem no direito de decidir sobre algo tão fundamental sem nos ouvir. Como sabem se é isto que queremos, logo eles que foram eleitos por pouco mais de metade dos eleitores? Sabem-no por intuição? Porque estava os seus programas eleitorais? Nos programas eleitorais dos partidos está o combate à corrupção há dezenas de anos e no entanto ela têm aumentado, sendo muitos deputados e ex-deputados infelizes protagonistas.


Viver é um direito e não uma obrigação. Nunca foi uma obrigação! O que não havia nem há, por enquanto, é a morte medicamente assistida, a que pomposamente querem chamar “morrer com dignidade”.
Talvez seja fácil alocar recursos a quem quer “morrer com dignidade”, quando não se permitiu a essas mesmas pessoas viver com dignidade.

É sempre mais fácil deitar ao lixo do que consertar, que é como quem diz “cuidados continuados”. É consensual que vivemos num triste tempo em que as pessoas vivem relações frágeis e muito relativas, em que se sentem tão descartáveis quanto um saco de plástico. E é precisamente nesta altura que se discute a eutanásia. Que péssimo sinal damos! No entanto, ele não é surpreendente, mas tão somente coerente.

Queremos dar poesia à morte, quando a vida tem sido um horrível conto de segunda categoria.

Entendo e respeito o ponto de vista daqueles que defendem a eutanásia como uma solução para terminar com os sofrimentos horríveis e sem reversão, mas a realidade será muito menos poética. A realidade é aquela que já se discute no país das liberalizações – A Holanda – onde o debate já está no “comprimido gratuito para maiores de 70 anos cansados de viver”.
E porque não um brinde? Daqui a uma década estaremos a discutir um incentivo às famílias para os encorajar a aliviar os encargos da Segurança Social ou dos Hospitais, permitindo que os doutores da morte aliviem as dores daqueles que se recusam a morrer naturalmente e em tempo útil.

E é tão fácil fazermos um velhinho desejar morrer! Basta enchermos-lhes o coração de mágoa e tristeza, deixá-lo abandonado a um canto do lar de terceira categoria para que sejam eles a pedir o comprimido gratuito que lhes permita morrer com dignidade, porque nós lhes damos uma vida indigna.
Talvez daqui a uma década aquela anedota* sobre a morte de um velhinho deixa de nos fazer sorrir, porque optamos agora por priorizar a morte em vez da vida.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O MUNDO É UM LABIRINTO SEM CENTRO


A civilização confunde relógios com tempo, o crescimento com desenvolvimento e o grandalhão com a grandeza.
Também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem fim, se limita a quebrar o céu.

Eduardo Galeano

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A REVOLUÇÃO ACONTECEU E NÓS ESTÁVAMOS ALAPADOS A VER A NETFLIX



«Embora o meu país tenha tomado a decisão louca, infantil e provavelmente suicida de abandonar a Europa, eu continuo a sentir orgulho de ser europeu e da grande experiência social que a União Europeia representa. Na minha cabeça, ainda estou na Europa e é lá que vou ficar. Para a Inglaterra está tudo acabado e as gerações vindouras avaliarão os resultados.
Mas estou a escrever-vos porque quero dizer-vos o que aconteceu a Inglaterra. 
Todos os ingredientes sistémicos de que provavelmente têm conhecimento: uma imprensa corrupta e enganadora, pertença de umas poucas pessoas muito ricas; uma ilusão absurda e bem alimentada sobre o passado imperial de Inglaterra; uma imprensa que vive de atenção e de cliques e por isso amplia as hipóteses políticas de entertainers como Trump e Johnson; um ecossistema de redes sociais que conduz à polarização, em vez de [promover o] compromisso, e uma série de líderes indistintos que aparentemente nada sabiam sobre estes problemas sistémicos.

Mas houve outra coisa e o objetivo desta carta [é apontá-lo]: aqueles dentre nós que se consideram liberais ou socialistas ou democratas não estiveram atentos. A maioria não reparou que, para a classe trabalhadora, as condições se agravavam de ano para ano. E não nos apercebemos que a imprensa do esgoto atribuía a culpa dessas condições às vítimas - os imigrantes, os pobres, os assistentes sociais, os professores, os estrangeiros... e, acima de tudo, a União Europeia. 

Não reparámos porque a nossa vida não era assim tão má - todos tínhamos os nossos iPhones e as nossas aplicações e as nossas contas na Amazon e os nossos voos baratos para zonas costeiras e outras formas de gastar o tempo. Entretanto, uma revolução estava a acontecer. Não a reconhecemos porque sempre pensámos que os revolucionários devíamos ser nós. A revolução aconteceu e nós estávamos alapados a ver Netflix. 

Estou certo que os vossos países também enfrentarão, em breve, campanhas para sair da União Europeia, se é que já não enfrentam. A União Europeia é um alvo fácil para qualquer político ambicioso. 
Querem tornar-se um grande nome na política? 
Identifiquem um problema, digam que a culpa é da União Europeia e depois cavalguem a onda nacionalista com a ajuda que os media inevitavelmente vos darão. 

Por favor, amigos na Europa - não façam os mesmos erros estúpidos que nós. Não se limitem a rir de pessoas como Trump e Johnson e todos os outros, porque em breve eles irão devorar-vos. 
Se queremos uma Europa unificada, precisamos de defendê-la agora. Falar sobre ela. Pensar sobre ela. Melhorar e resolver as coisas.

Brian Eno, músico e produtor inglês.



sábado, 1 de fevereiro de 2020

NENHUM HOMEM É UMA ILHA


Ninguém deve menosprezar a vossa decisão de seguir sozinhos.

Talvez o melhor que podemos desejar é que o Reino Unido, finalmente liberto do pesadelo europeu, rume para novas margens, parcerias e oportunidades — e aquilo que for bom para o Reino Unido não será mau para os seus ex-parceiros europeus.

Obviamente que ninguém deve menosprezar a decisão dos britânicos de seguir sozinhos. Isso foi longamente debatido. As nações têm o seu ego, como disse James Joyce. Se outros países europeus lidassem com crises como ilhas, talvez também eles ansiassem por recuperar a grandeza do passado. Portugal teve a sua próprio experiência nos anos 50 do século XX, quando o ditador "tin-pot" [expressão inglesa atribuída a ditadores de países pequenos que acham que são mais importantes do que são de facto] António Salazar proclamou que iríamos ficar orgulhosamente sós.

É suposto que o Reino Unido, de novo como uma ilha, siga à deriva no Atlântico em direção aos Estados Unidos. A América estará à espera, de braços abertos, com as suas boas maneiras e jogo limpo, personificados pelo atual presidente. Ele irá explicar a Boris Johnson que as alterações climáticas não existem, que é bom continuar a explorar minas de carvão e que a lei internacional foi ultrapassada pelo Twitter.

Mas as escolas na Europa vão continuar a ensinar a linha poética de John Donne que diz que "Nenhum homem é uma ilha"
Lídia Jorge, in The Gaurdian