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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A REVOLUÇÃO ACONTECEU E NÓS ESTÁVAMOS ALAPADOS A VER A NETFLIX



«Embora o meu país tenha tomado a decisão louca, infantil e provavelmente suicida de abandonar a Europa, eu continuo a sentir orgulho de ser europeu e da grande experiência social que a União Europeia representa. Na minha cabeça, ainda estou na Europa e é lá que vou ficar. Para a Inglaterra está tudo acabado e as gerações vindouras avaliarão os resultados.
Mas estou a escrever-vos porque quero dizer-vos o que aconteceu a Inglaterra. 
Todos os ingredientes sistémicos de que provavelmente têm conhecimento: uma imprensa corrupta e enganadora, pertença de umas poucas pessoas muito ricas; uma ilusão absurda e bem alimentada sobre o passado imperial de Inglaterra; uma imprensa que vive de atenção e de cliques e por isso amplia as hipóteses políticas de entertainers como Trump e Johnson; um ecossistema de redes sociais que conduz à polarização, em vez de [promover o] compromisso, e uma série de líderes indistintos que aparentemente nada sabiam sobre estes problemas sistémicos.

Mas houve outra coisa e o objetivo desta carta [é apontá-lo]: aqueles dentre nós que se consideram liberais ou socialistas ou democratas não estiveram atentos. A maioria não reparou que, para a classe trabalhadora, as condições se agravavam de ano para ano. E não nos apercebemos que a imprensa do esgoto atribuía a culpa dessas condições às vítimas - os imigrantes, os pobres, os assistentes sociais, os professores, os estrangeiros... e, acima de tudo, a União Europeia. 

Não reparámos porque a nossa vida não era assim tão má - todos tínhamos os nossos iPhones e as nossas aplicações e as nossas contas na Amazon e os nossos voos baratos para zonas costeiras e outras formas de gastar o tempo. Entretanto, uma revolução estava a acontecer. Não a reconhecemos porque sempre pensámos que os revolucionários devíamos ser nós. A revolução aconteceu e nós estávamos alapados a ver Netflix. 

Estou certo que os vossos países também enfrentarão, em breve, campanhas para sair da União Europeia, se é que já não enfrentam. A União Europeia é um alvo fácil para qualquer político ambicioso. 
Querem tornar-se um grande nome na política? 
Identifiquem um problema, digam que a culpa é da União Europeia e depois cavalguem a onda nacionalista com a ajuda que os media inevitavelmente vos darão. 

Por favor, amigos na Europa - não façam os mesmos erros estúpidos que nós. Não se limitem a rir de pessoas como Trump e Johnson e todos os outros, porque em breve eles irão devorar-vos. 
Se queremos uma Europa unificada, precisamos de defendê-la agora. Falar sobre ela. Pensar sobre ela. Melhorar e resolver as coisas.

Brian Eno, músico e produtor inglês.



sábado, 1 de fevereiro de 2020

NENHUM HOMEM É UMA ILHA


Ninguém deve menosprezar a vossa decisão de seguir sozinhos.

Talvez o melhor que podemos desejar é que o Reino Unido, finalmente liberto do pesadelo europeu, rume para novas margens, parcerias e oportunidades — e aquilo que for bom para o Reino Unido não será mau para os seus ex-parceiros europeus.

Obviamente que ninguém deve menosprezar a decisão dos britânicos de seguir sozinhos. Isso foi longamente debatido. As nações têm o seu ego, como disse James Joyce. Se outros países europeus lidassem com crises como ilhas, talvez também eles ansiassem por recuperar a grandeza do passado. Portugal teve a sua próprio experiência nos anos 50 do século XX, quando o ditador "tin-pot" [expressão inglesa atribuída a ditadores de países pequenos que acham que são mais importantes do que são de facto] António Salazar proclamou que iríamos ficar orgulhosamente sós.

É suposto que o Reino Unido, de novo como uma ilha, siga à deriva no Atlântico em direção aos Estados Unidos. A América estará à espera, de braços abertos, com as suas boas maneiras e jogo limpo, personificados pelo atual presidente. Ele irá explicar a Boris Johnson que as alterações climáticas não existem, que é bom continuar a explorar minas de carvão e que a lei internacional foi ultrapassada pelo Twitter.

Mas as escolas na Europa vão continuar a ensinar a linha poética de John Donne que diz que "Nenhum homem é uma ilha"
Lídia Jorge, in The Gaurdian

terça-feira, 2 de abril de 2019

O PREÇO DA DEMOCRACIA


A bica, curta ou cheia, não é famosa em Londres. É pior ainda no resto do Reino Unido. Mas, por mais palatáveis razões de queixa que tenhamos do café inglês, não o podemos acusar de falta de literacia. 

O Reino Unido tem um povo educado, sabe ler bem, tem bons jornais, a progressiva BBC. Todavia votaram o que votaram no Brexit, por falta de informação. 
Pior: paparam desinformação como se fosse  fish & chips. Votaram contra os seus interesses. Não sabiam o preço a pagar. 
O Brexist bem pode ser o espelho da nossa democracia: o único voto consciente é o voto de quem sabe o que vai comprar e,sobretudo, de quem sabe o preço a pagar.

Manuel S. Fonseca 

terça-feira, 28 de junho de 2016

O IMPREVISÍVEL ESTÁ À ESPERA DE UMA OPORTUNIDADE



No dia 28 de Junho de 1914, o arquiduque da Áustria, Francisco Fernando, era assassinado nas ruas Sarajevo. Esse assassínio desencadeou uma série de acontecimentos que fizeram eclodir a guerra na Europa seis semanas mais tarde. O arquiduque e a mulher tinham vindo a Sarajevo para assistir a manobras militares na capital da Bósnia-Herzegovina, que fora anexada pela Áustria em 1908 e não podiam ter escolhido pior data, pois em 28 de Junho de 1389, o reino da Sérvia tinha sido conquistado pelos turcos na batalha de Amselfelde. A presença de Francisco Fernando soava-lhes a um insulto e a uma provocação. Os membros do grupo terrorista Mão Negra aproveitaram a oportunidade para o matar. A partir desse dia a Europa nunca mais voltou a ser a mesma e poderosos impérios acabaram por ruir, transfigurando por completo o mapa da Europa.
Claro que a Primeira Grande Guerra Mundial não aconteceu por acaso. A insatisfação de vários povos era evidente e por toda a parte cresciam os movimentos extremistas que ampliavam essa insatisfação.

“Cada povo é ele e a sua circunstância”, dizia Ortega Y Gasset, por isso é preciso conhecer bem a maneira de ser de cada povo, quando lhe criamos uma circunstância que os apouca e os constrange. No rescaldo da votação dos ingleses favorável ao brexit, Paulo Portas disse sem rodeios: “Receio que isto seja o princípio do fim da União Europeia, porque ninguém consegue convencer os ingleses que não conseguem caminhar sozinhos.”
Ainda que quisessem (e não estou certo que mesmo depois de caírem na realidade o queiram), os ingleses não voltarão com a palavra atrás. Está em causa a sua honra, a sua credibilidade institucional. É certo que eles não mediram bem o alcance do seu passo como é certo que os restantes países da União Europeia nunca pensaram nessa possibilidade. A burocrata União Europeia, tal como está, não encanta nem seduz nenhum povo. Mais parece uma confederação dos grandes fundos financeiros, cujo rosto ninguém conhece. Os povos sofrem com ela, desentendem-se por causa dela, sentem-se escravos dos seus injustos mecanismos financeiros e não lhe vêem grande utilidade. No entanto, esta entidade sem rosto e odiada por muitos europeus conseguiu uma coisa fantástica: todos têm medo de estar fora dela. Conseguiu amarrar de tal modo os Estados a uma economia de empréstimos e dívida que há um receio fundado de que quem quiser sair vai penar e muito.
O Brexit estoirou o frágil e cínico compromisso entre os países da União Europeia. Eis-nos chegados ao mundo do imprevisível. A oportunidade é esta e é ideal. A partir de agora pouco há a fazer, porque tal como aconteceu em 1914 ninguém imagina o que pode acontecer. Vagas de violência? Xenofobia? O regresso a uma Europa de fronteiras, onde cada um trata da sua vida?Ninguém sabe, mas o processo está em marcha.
Quem não aprende com a História arrisca-se a vê-la repetir-se, na sua pior versão. Os líderes políticos da Europa do século XXI parecem aquelas crianças que, depois de uma asneira grosseira, lamentavam não terp prestado a devida atenção à fábula que a mãe lhes contara uns anos antes.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 24 de junho de 2016

AFINAL ELES SEMPRE SAÍRAM


Afinal, os britânicos sempre tiveram coragem para dizer bye-bye à União Europeia. A vitória do «Não» no referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia abalará não só as relações da Inglaterra com os outros países da União como porá a nu as fragilidades do projeto europeu.

Este «Não» marcadamente emocional trará consequências imprevisíveis também para os ingleses, mas pressentia-se que era algo que eles queriam fazer. Está feito. Agora resta aos verdadeiros detentores do poder dentro da União Europeia (Alemanha, França, Holanda, Dinamarca) definir que Europa vão patrocinar. Ou aprofundam a união, contribuindo para políticas de desenvolvimento sustentado dos países mais pobres, favorecendo a criação de emprego, defendo a proteção social dos cidadãos europeus, ou aprofundam a desintegração, dividindo a União Europeia entre os ricos do norte e os pobres do sul.

Há ainda a possibilidade de fazer de conta que nada se passou e seguir em frente. Essa solução só nos levará mais rapidamente para o precipício da desintegração. Se ela ocorrer, será um processo doloroso e desordenado, em que os conflitos e as tenções sociais se podem descontrolar.
A saída do Reino Unido obriga a Alemanha de Merkel a decidir-se. A França de Hollande está mais próxima de Portugal, Espanha, Itália, Grécia. Com a saída do Reino Unido, a economia holandesa leva um rombo considerável…
Talvez a Alemanha não tenha arcaboiço nem vontade de arrastar tanta divida acumulada pelos seus parceiros europeus, talvez até pense que mais vale ser ela a abandonar o euro, retomando marco. Não creio, pois nesse caso não seriam apenas os países pobres perder muito.
            Mais cedo que suporíamos a Alemanha vai ter que decidir se perdemos todos um bocado ou se perdemos todos um bocadão. Quanto mais esperarmos pela decisão mais a conta vai aumentar.
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O ERRO INGLÊS


E por um dia a Inglaterra emudeceu, perante a bárbara morte da deputada Jo Cox, às mãos de um monstro que tirou a mãe a duas crianças menores.
É claro que o momento político é delicado (estamos a uma semana de os ingleses decidirem, em referendo, se querem ou não continuar a pertencer à União Europeia), mas várias informações não desmentidas apontam para o facto do assassino de Jo Cox ter gritado “Britain First”, momentos antes de matar a jovem mãe. A polícia não confirma esta informação, mas também não a desmente.

Os britânicos sabem que este assassínio tem relação com o referendo. Estão surpreendidos, revoltados, chocados. No entanto, deviam aproveitar o tempo de luto que se estenderá até à data do referendo (Estou certo que não haverá grande clima psicológico para o debate entre o Sim e o Não à U.E.) para pensar por que chegaram a este ponto.
Na minha opinião, esta loucura, embora isolada, é fruto do clima do debate. A provável vitória do Brexit assentou num argumento emocional e xenófobo: pertencer à União Europeia retirou aos britânicos o poder de rejeitar o grande fluxo de migrantes que chegou à Europa no último ano. Os sírios, líbios, eritreus meteram tanto asco aos ingleses que eles ponderam seriamente abandonar a U.E. por causa disso. Querem voltar a ter o controlo, querem o país de volta, pois sim… Fossem os sírios magnatas americanos, oligarcas russos ou xeques árabes e este problema jamais se colocaria.

É verdade que a U.E. desencanta cada vez mais os europeus, tão cheia de burocracia, egoísmo, corrupção, tratamento desigual entre países, mas os britânicos sempre foram tratados com deferência pelos seus pares europeus, por vezes, até com deferência a mais.
É óbvio que os britânicos são livres de decidir o seu futuro e a sua decisão, desde que democrática, não deve ser atacada ou criticada, pois é perfeitamente legítima. O que ataco e me indigna são os argumentos dos defensores do Brexit. Eles não honram a história da Inglaterra e mostram uma arrogância cultural tola que repudio.
Se querem sair com base neste tipo de argumentação, pois que saiam. Talvez esteja na hora de os britânicos aprenderam uma lição de humildade e de a União Europeia ganhar alguma vergonha e medo para se obrigar a reformar-se, com base nos esquecidos valores que a fundaram.
Mais do que a saída da União Europeia, o grande erro dos britânicos é a arrogância e a xenofobia seletiva.

Gabriel Vilas Boas