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sábado, 11 de novembro de 2017

UM MINISTRO RADICALMENTE PARADO E RADICALMENTE INÚTIL


O melhor soundbite do Ministro da Educação, nos últimos meses foi que iria lutar radicalmente pelos direitos professores. Disse-o em passo de fugida a Mário Nogueira, há menos de duas semanas.
Aquele “radicalmente” foi um truque comunicacional perfeito, porque o homem lá foi à sua vida e não teve de ouvir o discurso inflamado que Mário Nogueira trazia preparado.

Como soundbite que era, cumpriu e seu dever de ocasião e esfumou-se. Hoje, o homem que ia lutar radicalmente pelos direitos dos professores foge deles, entra pela garagem do convento de São Francisco, em Coimbra, para não ter de enfrentar os protestos daqueles que diz proteger e solicita que a iniciativa sobre educação, onde acabou por participar, não tivesse jornalistas. Quem mais o poderia ter feito? Os organizadores? Claro, que não!
 Tiago Brandão Rodrigues é um ministro medroso, acossado, que foge daqueles que diz querer proteger, porque, na verdade, perdeu a luta dentro do Conselho de Ministros, há semanas, quando o executivo de Costa discutiu o Orçamento de Estado para 2018.

Foi aí que o nosso radical defensor perdeu em toda a linha e agora não tem coragem de enfrentar aqueles a quem deixou mal. Para que serve um Ministro da Educação que foge dos professores, como se fosse perseguido por qualquer má consciência? Para queremos um ministro que não foi capaz de impor a progressão real dos professores no Orçamento de Estado?

Hoje é claro que Tiago Brandão Rodrigues não tinha bagagem política, pessoal e técnica para ser Ministro da Educação. O pior é que, passados mais de vinte meses, não melhorou em nada. Está pronto a seguir o caminho da Constança e ser sepultado no negro vaso do esquecimento.
Daqui a dias, os professores organizarão uma importante jornada de luta pela efetiva reposição daquilo a que têm direito.
A razão dos professores é total e já dura há dez anos. A injustiça será ainda maior, porque veremos outras classes profissionais progredir na carreira, subir salários, melhorar de vida.

Mário Nogueira terá novamente as costas quentes com mais de cinquenta mil professores nas ruas e uma brutal máquina chamada Razão. Espero que saiba o que fazer com ela e com a força dos professores. Não me interessa nada que digam que estivemos mais de setenta mil nas ruas, que temos toda a razão, mas… Por mim podem ficar com todos os “mas”, que os cedo de bom grado.
A estratégia do Governo já começa a ser definida – “Mais de 46 mil professores vão progredir na carreira", dixit o inefável António Costa.
Espero que o líder da Fenprof tenha estudado bem a maneira de derrotar este tipo de argumentação, demonstrando a justiça da luta dos professores, pela correta valorização da suas carreiras.

GAVB 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PADRES QUE ASSUMEM A PATERNIDADE DEVEM CONTINUAR A SER PADRES?


A questão é melindrosa para a Igreja, que se esforça a cada dia que passa para passar uma imagem de abertura mental a todos as questões que anteriormente eram autênticos dogmas de fé, apesar de serem apenas condutas censuráveis.


Sempre que um padre assume a paternidade de um filho e manifesta o desejo de continuar sacerdote, o dilema coloca-se às cúpulas da Igreja Católica, sobretudo porque o Papa se chama Francisco e quando era bispo de Buenos Aires defendia que os padres deviam assumir a paternidade dos seus filhos, deixando implícita a ideia que deviam continuar a exercer o sacerdócio se assim o entendessem.
A verdade é que desde que chegou a Papa, o argentino não alterou a lei do celibato obrigatório para os padres, mas tem deixado que alguns continuem em funções. Cada caso é um caso, mas a discrição do Vaticano no que diz respeito a este assunto mostra bem como ele é melindroso para todos.

Penso que já não se trata apenas de defender o celibato enquanto conceito abstrato, mas de perceber se aquele sacerdote estará em condições psicológicas, morais e sociais de assumir o seu duplo papel de pai e padre, sem nenhum tipo de constrangimento. Por outro lado há que ter em conta a opinião dos paroquianos, sobre o caso concreto. Se  aceitam o sacerdote e querem que ele continue, apesar da falha cometida ou se preferiam que ele resignasse. Também há que pensar no efeito que a manutenção em funções de um padre-pai terá junto de outros sacerdotes. Que sinal passam o bispo e o Papa a quem fez uma escolha difícil de vida e abdicou, com custo elevado, de uma vida conjugal?

É verdade que cada caso é um caso, mas na Igreja todos os caso são simbólicos e balizam atitudes futuras.
Na minha opinião a Igreja precisa de renovar comportamentos-padrão, para não andar sempre de adenda em adenda, a jeito de comentários maldosos ou da benevolência da opinião dos fiéis.

Ter a coragem de mudar, quando isso for verdadeiramente o mais correto, pode ser um avanço decisivo para o rejuvenescimento da Igreja liderada pelo Papa Francisco.
GAVB

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

ASSEDIAR E DENUNCIAR: UMA QUESTÃO DE PODER

A América de Trump vive o frenesim das denúncias em catadupa de assédios sexuais, praticados há uns anos. Tal como Emma Thompson tinha previsto, Harvey Weinstein era só a ponto do iceberg, embora seja uma ponta bastante extensa, dado o número de casos de assédio e violação que lhe são imputados. Só entre os famosos, seguiu-se o realizador James Toback, o ator Kevin Spacey (agora descrito como um predador sexual), o renomado Dustin Hoffman (hoje mesmo acusado por Meryl Streep de lhe apalpar os seios em teste de elenco) e mais alguns se aparecerão nos próximos tempos.


Aberta a caixa de Pandora, muitas denúncias estarão na calha, a maioria delas ocorridas há largos anos, porque há muita raiva reprimida, muitas contas por ajustar e, sobretudo, porque o poder mudou de mãos.

O assédio sexual, mas também o moral ou o laboral, é uma forma ilegítima, imoral, repugnante até, de exercer o poder. 
Quem assediava sabia disso, quem era assediado também. 
Podemos sempre contra-argumentar que quem era assediado tinha o poder de denunciar. Tinha… e não tinha. Quem era assediado estava, quase sempre, numa posição de fragilidade (económica, social, física) e o mais normal era que a sociedade não desse crédito às suas denúncias. Bastava apenas que não fosse bonita, para que se duvidasse da veracidade da sua acusação. E se a isso se acrescentasse o facto de não ser famosa, então o caso era enterrado em dias, e ela exposta ao ridículo, pelos media.

O ano passado, por esta altura do ano, o juiz do Supremo Tribunal americano, Clarence Thomas, foi acusado pela advogada Moira Smith, de assédio sexual em 1999. Moira, então com 23 anos, só denunciou o caso em 2016. Na mesma altura, uma ex-funcionária do sexagenário juiz americano, Anita Hill, confirmou a versão de Smith, dizendo que também fora vítima do assédio de Clarence Thomas. Apesar das evidências, o juiz Thomas foi confirmado como uma dos juízes do Supremo Tribunal americano.

O que distingue o caso do juiz Clarence Thomas, dos de Harvey Weinstein, Toback, Spacey ou Dustin Hoffman? Anita Hill responde de maneira elucidativa: as denunciadoras de hoje são mulheres lindas e poderosas. Ninguém questiona que elas possam estar a mentir.

Tanto para assediar como para denunciar o assédio a questão é sempre a mesma: PODER. 

GAVB

sábado, 4 de novembro de 2017

DESCONGELAR NÃO É RECONSTRUIR NEM TREZE ANOS SÃO TRÊS


António Costa disse hoje que os professores portugueses vão ganhar dez anos de vida no início do próximo ano. Se ele tivesse realmente esse poder, acho que poucos de nós nos importaríamos, mas por enquanto o homem que governa Portugal ainda não tem o dom do rejuvenescimento coletivo, sobrando-lhe por isso o de malabarista das palavras e da política.

Diz António Costa que "descongelar não é reconstruir", clara alusão à reivindicação dos professores em serem colocados no índice remuneratório a que teriam direito, pelos anos de serviço prestado, em tabela aprovado por governos de Portugal e nunca revogada, apenas suspensa. 
Ora, reconstruir, caro António Costa, era pagar retroativamente o que ficou por pagar em 2005, 2006, 2007 e depois entre 2010 e 2017. Na verdade, ninguém lhe pede isso, mas que a partir de agora passe a pagar aos professores, tendo em conta o número de anos de serviço efetivamente prestado à função pública.

Quer pagar-nos como se estivéssemos em 2005 ou 2010? Nós também queríamos ter o IVA e o IRS a valores de 2005, mas não temos; o povo português adorava ter uma taxa de 6% de IVA na eletricidade, mas não tem. 


E não nos diga que todos ficaram congelados que não é verdade, porque alguns setores públicos passaram entre os pingos da chuva.
Não tem dinheiro suficiente para pagar o que deve? Então, não finja que tem ou apresente soluções alternativas, que as há. 
Já pensou em trocar a dívida por títulos de dívida pública, a pagar daqui a dez anos? Já pensou em antecipar em 5 anos a idade de reforma a quem nega 10 anos de carreira? Quando estamos na política, empenhados em ser justos e sérios com todos e não apenas com alguns, há sempre soluções, ainda que estas não consigam reparar todo o mal feito, porque hoje, todos nós já percebemos que não foram os funcionários públicos os pais e as mães da crise que o país atravessou.

GAVB 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A DESCENTRALIZAÇÃO EDUCATIVA É POLÍTICA E SERÁ MAL FEITA


Os Presidentes de Câmara querem a descentralização educativa para gerir as escolas como quem gere a autarquia; os Diretores das escolas querem a autonomia das escolas para reforçarem poderes antes que a autarquia entre pelo seu quintal dentro; os professores só queriam que lhes contassem o tempo de serviço que prestaram nos últimos dez anos; os alunos querem uma Escola que lhes abra perspetivas de futuro; os pais gostariam de lhes tomassem conta dos filhos até às seis da tarde.

Claro que ficará por fazer aquilo que é mais fácil, óbvio e justo executar: os professores continuarão a ver navios e descerão mais uns degraus na relevância que (já não) têm no sistema.

A ideia política do Partido Socialista sempre foi a municipalização. Entregar as escolas às autarquias, professores incluídos. Nunca o afirmou claramente porque sempre soube que os professores eram (e são) contra, porque não sabia muito bem como fazê-lo sem se perceber que a grande intenção era política, isto é, satisfazer o apetite político dos vários agentes educativos locais ligados ao partido.
O governo de Costa não avançará «radicalmente» para a Municipalização porque não é nada certo que o PCP e o Bloco acompanhem a ideia, mas tentará ir fazendo «a coisa» sorrateiramente, de tal modo que a medida seja dada como irreversível e inevitável, quando estiver madura. 

Entretanto, os Diretores lutam arduamente pela manutenção do seu poder, através da reivindicação da autonomia. E não me admiraria nada que muitos Diretores se lembrassem que no
século passado também foram professores e os convoquem para defender a autonomia, dizendo que a municipalização é um ataque político à escola pública e que tal diminuiria a importância dos professores na governação de cada escola. É verdade que isso aconteceria, mas as primeiras vítimas dessa secundarização seriam os Diretores de escola.

Enquanto os grandes se batem nos gabinetes pelo futuro controlo do poder nas escolas públicas portuguesas, o pessoal que mete a mão na massa todos os dias, há décadas, nem sabe se faz greve ou não faz greve, a que greve vai ou deixa de ir, que formas de luta deve adotar para além da greve, se a greve de Mário Nogueira e da Fenprof do próximo dia 15 de Novembro falhar o objetivo.
Por falar em lutas sindicais, não seria expectável que Mário Nogueira conseguisse bem mais com a geringonça de que com o governo de Passos e Portas? Seria, seria…

GAVB

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

AS MULHERES E A POLÍTICA: (AINDA) UM DESAFIO PARA A DEMOCRACIA PORTUGUESA

        
A sub-representação das mulheres na política é um fenómeno universal e Portugal não é exceção. Perante a consciência desta desigualdade injusta, vários países adotaram uma postura mais proativa nas últimas décadas, recorrendo a diversas medidas de ação positiva, com o intuito de solucionar este problema social de uma forma mais rápida e eficaz.
         No nosso país, pode afirmar-se que medidas como as “quotas voluntárias dos partidos” e a “Lei da Paridade”, constituíram um grande passo relativamente à promoção da igualdade de género na política portuguesa, tendo, sem dúvida, contribuído para aumentar o número de mulheres neste contexto; contudo, estes processos revelam-se ainda redutores no que se refere às projeções ao nível do poder local: a evolução para a igualdade tem sido mais lenta, havendo já quem se questione se não serão necessárias medidas alternativas às acima evidenciadas.


De facto, uma década após a sua adoção, a participação das mulheres na política autárquica continua abaixo do requerido pela mesma em todos os órgãos. Poderá isto prender-se com as representações sociais de certa forma cristalizadas na nossa sociedade, onde o homem está associado à autoridade, ao poder e ao protagonismo no que se refere à ambiência política, enquanto que o género feminino aparentemente se pauta por princípios como o equilíbrio, afetividade, passividade e, consequentemente a fragilidade? Terá de facto a consciência coletiva despertado para uma nova realidade?

        
Apesar de todos os partidos rejeitarem qualquer entrave formal à participação política feminina, o certo é que esse facto não envolve necessariamente um forte ímpeto intervencionista no sentido de alterar essa mesma situação. Com efeito, no âmbito do atual contexto social português, a probabilidade de um homem ser ou de se tornar num agente de intervenção política continua a ser amplamente superior à probabilidade de o mesmo suceder a uma mulher.
         Tal resultado é revelador das fortes resistências à mudança existente, mostrando que, apesar da implementação de uma lei que pretende promover a igualdade de género, o poder autárquico continua a ser dominado pelos homens.

         Assim, e embora a “feminização da política”, provocada pela “Lei da Paridade” já tenha gerado algumas mudanças, Portugal continua a ser um país fortemente genderizado. Será, portanto, altura de agir e refletir sobre o papel da mulher na política e o (ainda) visível défice da sua representação nos órgãos decisórios da comunidade.
Rafaela Leite 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O RITUAL DAS CAMPAS REGA A MEMÓRIA COM FLORES

Todos os anos é a mesma coisa: Amélia arrasta o marido estrada fora, em penosos quilómetros percorridos em silêncio, por estradas vazias de gente e de vida, até à terra dos pais. Já não a reclama como sua, porque, na verdade, já não se sente filha daqueles penedios tristes, onde passara a infância.

Ao chegar à terra, alguns velhos, que sobraram do tempo dos pais, acenam e sorriem-lhe, buscando na memória ténue o tempo em que Amélia brincava à cabra cega. Retribui o doce cumprimento e dirige-se à casa paterna.

Está fechada desde o Verão. Os móveis cobertos de pó, as fotografias envelhecidas trazem de volta a tristeza pela morte do pai e, sobretudo, da mãe, há cinco anos. Abre as persianas, mas não tem coragem de fazer o mesmo às janelas. O cortante frio transmontano deprime-a e só mesmo o abraço carinhoso do esposo a faz regressar a uma paz resignada. A casa está fria e precisa que a lareira comece a crepitar. Começam a falar das coisas que necessariamente terão de executar para passar ali a noite...

O primeiro calor da lareira abre um breve sorriso em Amélia e Luís aproveita para lhe oferecer um copo de vinho tinto. Ela agradece o gesto de ternura e bebe um gole para não defraudar o marido.
O sino da igreja   trá-la de volta ao motivo da sua estadia ali. Pega no molho de flores que trouxe do Porto e dirige-se para a porta.
    - Vens?
Luís responde com um aceno afirmativo e segue-a em silêncio. Ouvem-se os passos ritmados, nos paralelos irregulares da rua, que leva dezenas de homens e mulheres até ao cemitério. 
Casacos escuros transportam belos ramos de flores coloridas.
Amélia dirige-se ao seu pequeno santuário. Coloca delicadamente as suas flores brancas e lilases sobre o mármore cinzento escuro. Não reza. Esqueceu-se por completo como se faz, mas rapidamente ultrapassa esta pequena vergonha de consciência e deixa que a memória a transporte a um Tempo, onde não havia velhice, nem doença nem morte. 

Rapidamente começam a emergir os slides mais significativos da sua vida como uma apresentação em powerpoint. 
Não consegue decifrar o tom da música de fundo, mas percebe claramente que o «filme» vai já para lá de meio. Quer rever alguns flashes que já passaram, para capturar um olhar feliz da mãe, mas também aquela apresentação sumária da sua vida está pré-programada e não permite mais do que uma visualização.

O leve toque do marido no ombro acorda-a daquele transe insólito. Diz-lhe para ir andando. Ele espera mais uns segundos, mas obedece-lhe. É então que ela olha novamente as flores que trouxe e vê o como os vento espalha algumas pétalas.
Percebe, por fim, que tudo aquilo é sobre ela e para ela. Aquela obrigação cristã trouxe-a à aldeia primordial para se reencontrar consigo e não para homenagear os pais com flores. 
Para ela era evidente, agora, que não podia deixar morrer a memória do que fora, porque a sua História se escrevia com ela. Aquelas flores não eram outra coisa senão um pouco de água sobre a sua memória ressequida.
GAVB