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sábado, 9 de setembro de 2017

UM OCIDENTAL EM MECA

         
A 10 de Setembro de 1853, o explorador e orientalista britânico Richard Burton visitou Meca disfarçado. A expedição patrocinada pela Royal Geographical Society encerra um enorme perigo, pois segundo as convenções da cidade de Meca a presença de um não-muçulmano teria sido suficiente para provocar a morte deste, caso o disfarce fosse descoberto. 
         No entanto, Burton manteve-se sempre oculto e pôde ver o que os peregrinos da Hajj (peregrinação que os muçulmanos fazem a Meca) teriam conseguido observar: o santuário em forma de Cubo da Caaba (casa sagrada de Deus, situada no meio da mesquita sagrada na cidade de Meca), que se encontrava ao centro da Masjid al-Harem, o grande complexo da mesquita.


        Dois anos mais tarde, Richard Burton descreveu a sua experiência oriental em Meca: “Poucos muçulmanos contemplam pela primeira vez a Caaba sem medo e respeito. Há um chiste [gracejo, piada] popular sobre os principiantes, que em geral perguntam qual a direção das preces. Sendo esta a Kiblah, ou fachada, todos rezam à volta dela; uma circunstância que não pode registar-se em lado nenhum do Islão exceto em Harim.” 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MIGUEL ÂNGELO ENTREGA O «SEU» DAVID A FLORENÇA


No início do século XVI, um grupo de poderosos mecenas de Florença desafiou o genial Miguel Ângelo a construir uma escultura imponente da figura bíblica de David, para figurar na catedral de Florença, no entanto o seu destino acabou por ser a famosa Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio pois os artistas florentinos queriam fazer dela o símbolo da defesa das liberdades civis, consagradas na República de Florença, uma cidade-estado que lutavam contra o poder dos Medici e a hegemonia galopante de Roma.

Foram precisos quarenta homens, quatro dias e muitos andaimes, cordas e cilindros para levar a estátua de 5,17 metros até ao coração de Florença. Estávamos a 8 de Setembro de 1504 e Florença encontrava, numa das peças artísticas mais conhecidas de Miguel Ângelo, um motivo de orgulho.


Ao contrário de outras representações de David, Golias é completamente omitido. Miguel Ângelo preferiu destacar a pose confiante de David, própria de quem já tomou a decisão de combater. 
A obra do artista renascentista italiano é também um fabuloso estudo da anatomia humana, pois é possível observa a tensão dos músculos e tendões, a testa franzida, as veias que saltam da sua mão direita. 

A humanidade, a força, a serena decisão de David transpiram da escultura de Miguel Ângelo e levaram a Florença milhões de pessoas, ao longo deste cinco séculos, para a poder apreciar.
No final de 1873, a estátua foi removida da Piazza della Signoria e transportada para a Galleria dell’Accademia de Florença, onde pode ser admirada.

GAVB

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

CHAMAM PRENDA ÀQUILO QUE DEVIA SER NOSSO POR DIREITO


No arranque do ano letivo, o ministro Tiago Brandão Rodrigues, ao lado do primeiro-ministro António Costa, anunciou 1500 novos auxiliares de ação educativa (500 dos quais para o pré-escolar). Referiu-se também aos manuais escolares gratuitos que o ME distribuirá a mais alunos bem como às obras em curso, em algumas escolas.


Tudo isto foi apresentado quase como uma prenda do Executivo ao setor da Educação, procurando provar que o governo do Partido Socialista faz uma aposta forte na Educação. Nada mais falso. O que o governo fez foi apenas colmatar falhas urgentes, claramente identificáveis, e normais, em qualquer arranque de ano letivo. Os 1500 novos auxiliares de ação educativa mostram bem quão necessitadas estavam as escolas e não qualquer aposta do governo na Educação.
As obras agora em curso são apenas aquelas que ficaram paradas na altura da grave crise económica de 2011 ou as que não tinham, incompreensivelmente, entrado no programa de festas da Parque Escolar. Não é favor nenhum reabilitar uma escola, onde já chovia nas salas de aula ou sem qualquer intervenção desde o século passado.

O alargamento do número de alunos com livros escolares gratuitos é uma boa medida, embora não represente grande esforço financeiro, mas antes um melhor aproveitamento dos recursos existentes com a reutilização dos manuais escolares que o Estado foi comprando às editoras nos anos anteriores.
Em conclusão, aquilo que o Estado se prepara para efetivar, em termos de gastos com a Educação, não é mais do que lhe compete e do que é devido à população. Qualquer aproveitamento político é um abuso e deve ser denunciado.


P.S. Lamentável a atitude do ministro da Educação ao fazer sair a primeira lista de colocação de professores contratados poucas horas depois de receber os professores QZP que reivindicavam a suspensão de todo o processo de colocação de professores. Com a saída das listas, todas as esperanças destes professores caíram por terra. Atendeu-os para quê? Para lhes passar a mão pelas costas e dizer “tenham lá paciência, é a vida”? Ou será que teve a coragem de lhes dizer na cara que não tinham razão nenhuma, a decisão de não atender as suas reivindicações estava tomada e que aquela reunião era mera cortesia em honra das regras de boa educação?
GAVB


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

WHERE IS THE MONEY?



Foi preciso o presidente Marcelo Rebelo de Sousa falar, para quem tinha o dinheiro dos donativos de Pedrógão sair da toca e prestar algumas contas. Enquanto as vítimas reclamaram e os Presidentes de Câmara se indignaram ninguém achou necessário esclarecer, mas Marcelo é o presidente e antes que o caso se tornasse mais mediático, Governo, Misericórdias, Cáritas… começaram a prestar esclarecimentos.
Das contas do governo, prestei atenção à enorme diferença entre intenções de doações e doações efetivas. Onde vai o descaramento de grande empresas e países, ao anunciar solidariedade que não efetivam, quase que diria apenas como um golpe publicitário. Mereciam bem que alguém os massacrasse... publicitariamente falando.

O que o governo não explicou é por que razão continua a reter o dinheiro, se ele foi reunido para atender a casos de emergência social. Também não explicou com que moral cobrou impostos de muitas das doações, nomeadamente nas chamadas de valor acrescentado, quando são conhecidas tantas e tantas isenções incompreensíveis. Só a título de exemplo, os bilhetes para os concertos na Festa do Avante não pagam IVA e os lucros lá gerados também não. O Partido precisa, mas a pessoas de Pedrógão já pagaram impostos das esmolas doadas e ainda não as receberam. Lindo, educativo e profundamente moral.
Por outro lado, as Misericórdias também anunciaram o que angariaram para Pedrógão: 1, 6 milhões de euros, já com impostos pagos, que a Igreja gosta de estar em dia com o Fisco, como toda a gente sabe. O que é escandaloso é que apenas fez chegar aos destinatários das doações menos de 1% do que ficou à sua guarda. Porquê? Mistério. Não explicou. Afinal sempre libertou 12 mil euros, mas os restantes um milhão e seiscentos mil euros continuam no banco a render.

A Cáritas também prestou contas. Um milhão e oitocentos mil euros angariados, dos quais cativou um milhão e trezentos mil euros para um projeto da Cáritas de Coimbra, relacionada com a destruição provocada pelos fogos. Para Pedrógão saíram apenas, até ao momento, 100 mil euros.

Não sei se foi isto que os portugueses, que enviaram o seu dinheiro para contas solidárias, imaginavam que aconteceria, mas estou certo que ninguém pensava que três meses depois da enorme tragédia de Pedrógão Grande ainda ninguém soubesse ao certo quem foram os culpados e que 90% do dinheiro doado, por solidariedade com as populações atingidas, continua nos bancos.

GAVB

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O BIG BROTHER DAS EMPRESAS VAI CHEGAR AOS EMAILS PRIVADOS


O Tribunal Europeu Dos Direitos do Homem acaba de decidir que as empresas podem ler correspondência privada e conversas dos seus trabalhadores, em horário de expediente, desde que avisem o trabalhador previamente. Nem é preciso que ele concorde.

A decisão surge na sequência do processo de despedimento de um trabalhador romeno, cuja empresa foi condenada por violação do direito à privacidade do trabalhador, apenas por não o ter avisado que estava a monitorizar as suas mensagens eletrónicos com a família, numa aplicação tipo whatsApp e só nessa medida o despedimento foi ilegal, porque o Tribunal que vela pelos direitos dos cidadãos a nível europeu considera legítima e legal que uma empresa aceda a toda a correspondência trocada pelos seus funcionários, em horário de trabalho.

Parece mais ou menos pacífico que a empresa tenha direito ao seu trabalhador em todos os minutos que lhe paga e que este não desperdice tempo do seu horário de trabalho com assuntos particulares, mas parece-me errado, perigoso e perverso permitir que sejam as empresas a controlar e aceder ao conteúdo dessa comunicação privada.
É certo que só podem usar o conteúdo do que ficam a saber se a correspondência e/ou conversas se deram em horário de trabalho, mas uma coisa é não usar outra é não saber.

Se acede durante o horário de expediente, quem garante que não acede fora do horário de trabalho? E na posse de informação sigilosa e pessoal não podem chantagear o seu trabalhador? Podem e fá-lo-ão muitas delas. 
Como nos sentiríamos se os nossos patrões (com rosto ou sem ele) soubessem o conteúdo das conversas que trocamos, fora da hora de expediente, com as nossas companheiras, filhos ou pais? Se soubessem os nossos hábitos de lazer, as nossas combinações ou os nossos desabafos? A partir de hoje nem precisam de nos pedir autorização, só têm de nos avisar que o farão.


Argumentarão os defensores desta posição do TEDH que cada trabalhador deve criar um email pessoal e outro laboral. É certo, mas se as empresas os quiserem espiar e controlar além do aceitável, basta-lhes tentar estabelecer comunicação institucional através do email pessoal ou não incentivar à criação de um email laboral. Rapidamente muitos trabalhadores serão apanhados na ratoeira. 

As empresas apenas precisam saber se o seu trabalhador prevaricou ou não e não o conteúdo dessa prevaricação. E há meios tecnológicos de o saber ou impedir, não é necessário montar um grande big brother que até os pensamentos nos lê.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O GOVERNO QUER UM RECENSEAMENTO ÉTNICO-RACIAL PARA QUÊ?

Ao que parece o governo português quer fazer uma espécie de recenseamento étnico-racial da população a residir no nosso país. 
Com todo o cuidado ao nível do discurso e de forma encapotada, através do próximo Censos 2021, a ideia do governo é, no mínimo, infeliz.  
Por mim, fico satisfeito que haja mais estrangeiros a querer viver em Portugal, sejam eles o Eric Cantona, a Monica Bellucci, a Madonna ou um anónimo qualquer; desde que “venha por bem” é bem-vindo.

Não acho relevante saber quantos ciganos habitam o nosso país, nem negros, nem sequer muçulmanos, pois acho que essa intenção, no contexto atual, tem um alcance xenófobo. A mim, basta-me saber que existem mais de vinte mil chineses em Portugal, que há mais de trinta mil romenos e o número dos cabo-verdianos ultrapassa os trinta e seis mil, entre outras particulares dos quase meio milhão de estrangeiros a residir no território nacional. Para mim, eles serão sempre romenos e não “os ciganos”, cabo-verdianos, guineenses, angolanos e não os “pretos”.
É verdade que há o problema da insegurança, mas nem todos os portugueses são santos nem os estrangeiros de países pobres são todos uns demónios. É verdade que há alguns problemas que surgem recorrentemente com alguns grupos, mas esse é mais um problema de autoridade e aplicação da justiça que uma característica étnica ou racial.
Ao contrário do que sugere o governo português, este não é uma questão semelhante à da religião, visto que o país não tem religião oficial e as várias confissões convivem pacificamente. No entanto, a questão da xenofobia é real, ainda que numa pequena escala, e tornou-se num problema europeu nos últimos anos. Um governo que quer saber oficialmente quantos negros, ciganos ou muçulmanos existem no seu território é porque entende que esses são grupos «à parte» na sociedade portuguesa. Não são. Eles são apenas estrangeiros a residir em Portugal e alguns deles até já se tornaram portugueses.
A xenofobia germina nestes pequenos tiques de rotulagem artificial e desnecessária das pessoas.

GAVB

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

OS RECORDES DE RONALDO




O português mais conhecido no mundo continua a bater recordes. Ontem, Cristiano Ronaldo ultrapassou o melhor jogador de todos os tempos – Pelé – em número de golos pela seleção do seu país, ao apontar o seu 78.º golo por Portugal, apesar de estar há cerca de três semanas sem competir oficialmente pelo seu clube, fruto do justo castigo de que foi alvo, após a expulsão em Camp Nou, Barcelona.


Pensava que após a vitória de Portugal no Euro 2016, Ronaldo se sentiria saciado, pois o seu Olimpo tinha sido finalmente alcançado, com a vitória numa grande competição internacional, por seleções. Enganei-me. Ronaldo nunca descansa sobre os louros. Ele não trabalha para chegar rapidamente à reforma nem para atingir um estádio em que já não precisa de fazer mais nada, pois o seu futuro económico, social ou lendário estaria garantido. Nisso o madeirense tem muito pouco de português, porque ele quer sempre superar-se. Mais um golo, mais uma vitória, mais um campeonato, uma taça, uma competição europeia.
A sua fome de triunfos vê-se no desejo que tem de jogar sempre, mesmo naqueles jogos pouco prestigiantes. Recordo um jogo particular que fez em África, pela seleção, há uns anos, em que a maioria dos colegas manifestava pouco empenho. Nos dias que correm soma golos, prémios, campeonatos, Champions Leagues, com uma regularidade absurda e até já merece o reconhecimento elogioso do seu grande rival, Messi.
No momento em que a maioria dos colegas, com a sua idade, entram na curva descendente da carreira, o capitão da seleção portuguesa faz a saborosa colheita de anos de constante superação dos seus limites. 
Hoje não temos mais um Ronaldo ansioso por mais reconhecimento, por mais títulos ou prémios, mas o desejo de os alcançar permanece intacto e intenso, porque ele leva muito a sério aquilo que faz, porque procura aperfeiçoar-se, porque sabe explorar o seu talento até ao limite.

Os recordes de Ronaldo estão muito para além do talento ou da máquina promocional que o cerca. O mundo já assistiu às maravilhas de Ronaldinho, Ronaldo (o brasileiro), Zico, Maradona, Joan Cruijff, Zidane,  Beckenbauer, Puskas ou Di Stefano, mas nenhum deles o conseguiu de uma maneira tão solitária e durante tanto tempo como o português.
Ronaldo foi para Inglaterra há catorze anos. É muito provável que se mantenha no top, pelo menos, mais um ano. Quinze anos é muito tempo para não reconhecermos nele um exemplo de vida, de esforço, de dedicação, de talento e sucesso. 
Será fácil a cada um de nós encontrar os próprios recordes para bater. Os de Ronaldo estão sempre a mudar, porque ele estabelece objetivos muito otimistas, mas pensa sempre em atingi-los. Não perde muito tempo a invejar os dos outros nem a lamentar-se da chuva ou da pouca sorte.

GAVB