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sábado, 7 de janeiro de 2017

SOARES FOI FIXE

Crónica de uma morte anunciada

Depois de passadas as festas natalícias, Mário Soares lá teve autorização para morrer sem atrapalhar a alegria de ninguém. Escorropichou a vida até à última gota.
Quer gostemos ou não, ele é a cara da democracia portuguesa. Conquistou-a, liderou-a, consolidou-a.
Fez erros? Muitos! Há pessoas que o detestam, mas até essas sabem quanto ele foi importante, para a afirmação do processo democrático no nosso país.
Acertando ou errando, Soares nunca se traiu.

Assumiu a democracia e defendeu-a dos comunistas; enfrentou a crise e a primeira bancarrota, aliando-se à Direita, no Bloco Central; lançou-se na corrida à presidência da República com apenas 7% das intenções de votos, contra amigos e inimigos, vencendo no photo-finish, a mais emocionante eleição presidencial de que há memória, em 1986, contra Freitas do Amaral, apoiado por Cavaco Silva no auge do seu poder.
Soares era um líder nato. Soube governar, presidir… reinar. Havia política em tudo o que fazia; havia controvérsia, e também humanidade e cultura.

Com o passar do tempo, habitados a direitos que ele ajudou a conquistar e a manter, fomos notando os seus defeitos e desvalorizando as suas conquistas, mas nem isso o acabrunhou ou tornou azedo.
Continuou a intervir, a ser polémico, a aventurar-se. Algumas vezes já sem a noção do ridículo, como foi o caso da frustrada candidatura presidencial contra Cavaco Silva. Até nisso Soares foi diferente – não tinha medo do ridículo.
Partiu, porque todos temos de partir. Entretanto protagonizou uma vida grandiosa. Não nos deixou mais pobres, porque ainda hoje usufruímos da riqueza que ele deixou para todos - a Democracia.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

VER BATER E NADA FAZER


Como muitos portugueses, acordei hoje com a reprodução de um vídeo chocante sobre a violenta agressão que um jovem foi vítima às mãos de outro colega, em Almada. 
Ao início, ainda pensei que a imagem estava a correr a uma velocidade duas ou três vezes superior à real, face à rapidez com que os murros e os pontapés eram desferidos sobre o pobre capaz dobrado sobre si no chão, mas rapidamente percebi que tudo aquilo era tão brutal como real.
Ainda que a brutalidade da agressão nos aperte o coração até à angústia, a razão faz-nos reparar noutra crueldade incompreensível: a conivência criminosa de quem assiste a tudo aquilo com ar divertido, sem nunca manifestar qualquer intenção de ajudar o agredido, antes permitindo-se filmar o “evento” como se de uma luta de galos se tratasse.

Rever aquelas imagens deixa qualquer um literalmente mal disposto, ofendido na sua dignidade e humanidade. Como se pode rir, filmar, deixar acontecer? Quem bate pode perder momentaneamente o controlo, deixar-se apoderar pelo raiva e pelo ódio, mas quem assiste a uma agressão criminosa daquelas e se põe a tirar fotos, a filmar, que tipo de pessoa é?
Será que os pais, os amigos, os professores destes miúdos que ficaram a ver, a aplaudir, a filmar não se devem interrogar sobre o tipo de filho, amigo, alunos que têm à sua frente?
Não é apenas indiferença ou falta de humanidade que vemos ali, mas um certo prazer em ver um ser humano a ser agredido, massacrado, torturado.
A personalidade de muitos adolescentes não é só o resultado de más influências, também fruto de várias ausências.
Gabriel Vilas Boas 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

JOGOS INFANTIS, Pieter Brueghel


Regresso, hoje, à pintura e a um dos meus pintores favoritos, o flamengo Pieter Brueghel, o Velho, para apresentar o quadro JOGOS INFANTIS.
Este quadro revela uma das facetas mais vincadas em Brueghel – o gosto por pintar cenas do quotidiano, em que as personagens centrais são pessoas do povo, sem grande estatuto social.

Neste quadro (um óleo sobre tela de 1560), Brueghel pinta duas centenas de crianças, praticando uma multiplicidade de jogos, alguns deles ainda nos são hoje familiares: cabra-cega, esconde-esconde, o jogo do castelo, o jogo de pião, a boneca, andar de cadeirinha.

As crianças, pintadas por Brueghel nesta tela de proporções generosas (118x161cm), parecem adultos em miniatura, usando o mesmo tipo de roupa que os seus pais levavam para o seu trabalho nos campos. 
Brueghel parece mais interessado em pintar os jogos infantis do que pormenorizar as crianças. Interessa-lhe sobretudo a cena do quotidiano e não tanto a expressão das figuras representadas.


As crianças preenchem toda a tela e marcam presença nos vários espaços representados: rio, ruas, casas, jardins. As suas roupas são coloridas, predominando vermelho e o azul, que contrasta claramente com o fundo amarelado da composição. As diferenças fisionómicas entre as crianças são pequenas, mas é possível perceber que as que se encontram em primeiro plano são maiores do que aquelas que se distanciam do observador.

Brueghel quebra a possível monotonia que a composição podia ter através da postura corporal das crianças, onde o movimento está sempre presente, o que faz com que não haja duas crianças iguais em duzentos exemplares.  

Olhando mais pormenorizadamente o quadro, destaco o edifício representado ao centro do quadro, ao fundo do cenário. Parece ser um edifício importante dentro da comunidade, mas não há sinal de nenhum adulto ou algum funcionário. Os petizes brincam descontraídos, em sítios que deviam ser ocupados por adultos. O que quis sugerir Brueghel com isto? Talvez a descontração com que a vida quotidiana era vivida na sua época, realçada através da liberdade de movimentos das crianças.

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

MARCELO PRESIDE, GOVERNA E ACONSELHA O PAÍS



Se há presidente que exerce com mestria a chamada magistratura de influência é Marcelo Rebelo de Sousa. Agora no poder, Marcelo ampliou a influência que já exercia na sociedade portuguesa enquanto comentador político.
António Costa não faz nada que o irrite, os ministros procuram saber o que pensa acerca dos assuntos delicados que têm entre mãos, os dirigentes do PSD engolem em seco as tiradas que Marcelo dirige à forma de governar de Pedro Passos Coelho.

Hoje, o jornal «I» titulava “Costa prefere comprar guerra com BE do que com Marcelo”, aludindo ao facto do governo não estar a pensar em pôr fim às parcerias público-privadas como tanto quer a esquerda política em Portugal, de molde a evitar ruturas com o Presidente.
Na semana passada, não foi o ministro da saúde que falou aos portugueses sobre o tradicional caos das urgências hospitalares durante os meses de dezembro e janeiro, mas sim Marcelo que deu o conselho “Não Corram para as Urgências”.
Hoje Marcelo volta a cobrir a política do governo, ao caucionar a intenção do governo de trazer os delicados temas da violência, sexo e drogas para o debate escolar. 
Há um mês o JN titulava, indignado, que estavam a pôr as criancinhas de 10 anos a discutir o aborto.
Como o PSD e o PP não clamaram contra a ousadia socialista, com veemência, o tema não preencheu o espaço mediático como se esperava e, depois da poeira assentar, Marcelo lá veio dar a sua bênção à ideia dos Ministérios da Educação e da Saúde, ao dizer: “É um absurdo achar que as pessoas podem contactar com essas realidades no dia-a-dia, na televisão, na internet, e não falar nisso na escola”.

Apesar de claro, Marcelo sabe amaciar o seu eleitorado mais conversador: “Eu aí, confesso, sou um pouco conservador…” Reparem como ele evita falar em sexo, drogas, violência, preferindo antes “essas realidades”, “falar nisso”. Com um presidente assim, um governo sente-se muito mais confiante. Até porque em matéria económica (onde o governo tinha muito a provar, especialmente dentro da União Europeia), Marcelo tem sido uma guarda-chuva à prova de intempérie. Quando ele cauciona a política do governo, ao dizer que “vamos conseguir”, é para Bruxelas e Berlim que ele está a falar, em especial para os seus camaradas do Partido Popular Europeu e em particular para o senhor Wolfgang Schäuble.

Marcelo está a ir muito para além do que é pedido a um presidente. Com o beneplácito do povo,  que tem completamente na mão, é ele que preside, que governa e orienta o país, até em matérias de educação e costumes. Com jeitinho (que tem imenso) marca a agenda, organiza a tática e prepara-se para chutar à baliza. Não foi ele que disse que crescer mais não chega, temos de crescer muito mais?

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

VINCULAÇÃO DOS PROFESSORES CONTRATADOS: A MONTANHA VAI PARIR UM RATO


Aquilo que parecia ser uma razoável notícia para muitos dos professores contratados pode acabar por se tornar numa grande frustração: a vinculação extraordinária de professores contratados terá tantos “ses” que poucos professores serão abrangidos.
A mais recente proposta do ME aponta para doze anos de serviço, mas tem duas fortes condicionantes: tempo de serviço exercido com qualificação profissional + colocação no mesmo grupo disciplinar em cinco dos últimos seis anos.
Esta última condição é fatal para milhares de professores contratados, pois eles foram exercendo a sua profissão onde os seus serviços eram requisitados e onde as suas habilitações o permitiam. Se há coisa que um professor contratado não se pode dar ao luxo é escolher a disciplina que vai lecionar. Ele quer é trabalhar, desde que tenha as qualificações necessárias para tal.

O que interessa é que exerceu a sua profissão durante X anos. Se lecionou três anos de Português e outros tantos de Francês, o que é que isso o torna inferior a quem lecionou seis anos de Português? Nada. 
A sua profissão é ser professor. 

A vinculação é ao Ministério da Educação, que precisou dele durante anos.
Esta possível condição apresentada pela tutela aos sindicatos é a chamada “condição da treta” para excluir milhares de docentes da vinculação extraordinária de professores, que os tribunais europeus há muito mandaram o governo português executar. A confirmar-se, é uma proposta rasteirinha que envergonha qualquer negociante governamental de boa-fé.

Mário Nogueira e o PCP devem assumir-se agora, levantar a voz, mostrar a sua indignação e revolta. Eles que sempre acusaram os governos de direita em ser fortes com os fracos e fracos com os fortes, têm a oportunidade e o dever de ser fortes com os amigos como o são com os “inimigos”. 
Mário Nogueira tem que provar que defende realmente os direitos dos professores e se não é capaz de recolher de um governo de esquerda uma proposta decente de vinculação dos professores contratados, então deve assumir o fracasso e retirar as devidas consequências. 
Algo semelhante se aplica ao PCP: se não conseguir convencer um governo do PS a apresentar uma proposta digna aos injustiçados professores contratados portugueses, então o melhor é retirar do seu léxico slogans como “defesa dos trabalhadores”. Num certo sentido, eles também são poder e esta questão é também emblemática para eles.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

METROPOL PARASOL, Sevilha


Se há coisa que faz falta em Sevilha é algo que abrigue o turista do sol. Talvez pensando nisto, o arquiteto germânico Jurgen Mayer propôs para a capital da Andaluzia um gigantesco para-sol, utilizando como material base a madeira, que cobre por completo a plaza de la Encarnación.
O projeto do alemão foi o vencedor de um concurso internacional em 2004 e demorou quase sete anos a ser concretizado. Noventa milhões de euros depois, Sevilha teve direito à seu primeiro grande ícone modernista dentro do casco histórico.

Batizada por Mayer como Metropol Parasol (“guarda-sol de metropolitano”), é conhecido pelos sevilhanos como Os Cogumelos, devido à forma que apresenta. A estrutura desenhada pelo alemão é construída em madeira com treliças ortogonais de 1,5 x 1,5m, com 150 metros de comprimento por 75 metros de largura e 28 metros de altura.
Os seus cogumelos gigantes, que formam a cobertura, sobressaem sobre os edifícios circundantes e parecem dançar sobre a plaza de la Encarnación, inundando-a de sombra e frescura na primavera e verão,  o que qualquer turista agradece sempre que visita Sevilha entre Maio e Setembro.

Visitei este ícone da modernidade arquitetónica sevilhana há uma semana, por insistência da minha filha. Chegamos já noite feita, mas ainda assim tivemos de ir para a fila para comprar bilhete a fim de subir aos andares superiores do Metropol Parasol. Lá fica um bar-restaurante bastante apelativo e um miradouro fabuloso, onde é possível ter uma imagem belíssima sobre o Centro Histórico de Sevilha, só comparável com aquela que Torre Giralda, da Catedral de Sevilha, proporciona. Este miradouro não é um local único, mas uma série de pontes que serpenteiam toda a estrutura superior dos cogumelos, permitindo percecionar Sevilha de vários ângulos.

O tom creme da estrutura permite conjugar a linguagem ultramoderna da proposta arquitetónica de Mayer com o ambiente medieval e tradicional do casco histórico sevilhano.

Os sevilhanos fazem um uso muito diversificado desta estrutura. Além de proteger do sol e do calor e permitir uma visão assombrosa de Sevilha, nos pisos subterrâneos existe o museu arqueológico de Sevilha. Ainda ao nível do solo existem lojas de comércio e restaurantes. 
Na plaza mayor, abundam recantos encantadores, bares, restaurantes e uma variedade de atividade cultural e lúdica.
A criação de Mayer pode ter sido polémica, demorado o dobro do tempo previsto a ser construída e ter custado quase cem milhões de euros, mas… é muito bonita, atrai turistas, melhorou a qualidade de vida dos sevilhanos, requalificou uma zona feia da cidade e constitui já um polo económico relevante.
GAVB

domingo, 1 de janeiro de 2017

PAZ CERCADA


Nada mais perversamente simbólico do que assinalar o dia mundial da paz com um atentado, vitimando dezenas de pessoas e ferindo quase uma centena. Aconteceu na Turquia, onde no ano de 2016 morreram 180 pessoas, em consequência de atentados terroristas.
Não acho que o mundo esteja perto de viver um terceira guerra mundial, pois isso não convém até aqueles que vivem da guerra e do ódio, mas está perto de entrar na era israelita, que é como quem diz, em alerta permanente, aprendendo a viver com o terror de um ataque irracional e cobarde.

A paz é um bem primordial, pois a partir dela outros se constroem ou consolidam. Não é apenas a ambição desmedida de determinados líderes políticos que ameaça a paz, mas sobretudo um sistema económico internacional que faz crescer as desigualdades a um nível tão elevado que povos inteiros têm de partir para sobreviver.
Como diria Jorge Palma, este é um sistema que “consome e aleija”. Ainda que não mate, degrada e torna-nos bichos intolerantes, incapazes de compreender e defender bens tão consensuais como a paz.
A paz constrói-se nas atitudes do dia-a-dia, mas também nas práticas negociais ou na rejeição de uma política de retaliação.

Importa perceber que a paz não é um consenso generalizado, mas o respeito pela diferença, pelo triunfo do outro, pelo seu diferente modo de viver.
Como fazer a paz com quem a rejeita ou adora “provocar” uma briga? Tal como há a arte da guerra também existe a arte da… paz! Paciência, inteligência, resiliência, coragem, determinação.
Estes princípios podem aplicar-se igualmente à vida pessoal de cada um. A maioria de nós nada decidirá sobre as relações entre os povos, mas tem a possibilidade de interferir no modo como se relaciona com o colega de trabalho, o vizinho ou o irmão. Eles são o “seu mundo”. A paz é um estado de espírito! Cabe a cada um ir cortando a rede de arame farpado que nos cerca perigosamente.

Gabriel Vilas Boas