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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

DESAPEGAR-SE DO APEGO


Desapegar-se! De objetos, de coisas, de ideias, de pessoas, de sentimentos negativos ou mesquinhos – como é difícil! Normalmente, só aprendemos a desapegarmo-nos de algo ou de alguém quando o perdemos definitivamente.
Este sentimento de posse, que muitos confundem com amor, radica no medo. Medo de perder amigos, medo de perder segurança material, medo de perder importância social, medo de perder afetos, medo de… medo, medo e mais medo!



Há muitas pessoas que nunca se conseguiram separar dos brinquedos da infância, que podiam ter feito muitas outras crianças felizes, por medo de perder as memórias ternas desse tempo de luz, mas as bonecas na prateleira apenas lhes arrancam um sorriso baço e triste de todas as vezes que as miram.
Muitos escritórios estão cheios de livros velhos, carregados de pó que nunca foram abertos uma única vez, servindo apenas para pretextar um falso conhecimento ou decorar o espaço. Quem ama o conhecimento não o aprisiona e quer que ele chegue ao maior número de pessoas possível. Não tem medo que alguém faça melhor uso dele, não tem medo de ser ultrapassado.

Quantas pessoas não conhecemos que nunca saíram da sua cidade, do seu «ninho», tentando ser felizes noutro lugar, unicamente por medo? Conheço muita gente vive uma vida de dificuldades apenas porque nunca foi capaz de sair da sua zona de conforto ou que ela pensa ser a sua zona de conforto.

Falta ainda falar do pior dos apegos: o apego a sentimentos menores, sejam eles a posse, a vingança, o ódio, a descrença em si. O problema continua a ser o medo. O medo de falhar, o medo de ficar sozinho, o medo de dar uma imagem de fraqueza, o medo de perder.
O desapego melhora imenso a vida de cada um.
 O desapego não é desistir de algo ou de alguém, mas amá-lo tanto que lhe permitimos a liberdade de voar e nos permitimos a liberdade de arriscar Ser além de objetos, de sítios e de pessoas.
Desapegar-se é difícil e envolve riscos e coragem, mas costuma criar seres bem mais felizes.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O QUE É QUE O BAIANO TEM?


Caetano Veloso tem, sobretudo, uma voz lindíssima e sensual que me faz lembrar a serenidade do Oceano Pacífico. Muitas das suas músicas fazem parte da nossa memória pessoal e coletiva e possuem o condão de nos transportar ao mundo dos sonhos. Lá, onde tudo é pacífico e doce, a sua voz ganha o encanto das sereias.
Hoje e amanhã, Caetano dá dois concertos em Lisboa, para uma plateia selecionada, que rapidamente esgotou os caros bilhetes destes concertos. Apesar de ser possível ter a voz do baiano à distância de um click, é óbvio que o prazer de o ver e ouvir ao vivo é único.

O irmão mais velho de Maria Bethânia promete passar em revista os grandes êxitos de uma carreira extensa e muitas vezes polémica, porque Caetano não é politicamente correto. Como acontece com muitos artistas brasileiros, ele tem opinião cultural, social e política. Por exemplo, Caetano foi um dos grandes defensores de Dilma e é frontalmente contra o novo presidente Brasileiro, Temer, mas foi com Lula que a polémica estalou. O baiano chegou a chamar “cafona”, “analfabeto” e “grosseiro” ao antigo Presidente da República do Brasil.
Se na política Caetano está longe de ser consensual, na música todos se rendem ao seu violão e à sua voz. E não é para menos. A candura doce de “Leãozinho” comove qualquer um, do mesmo modo que “Menino do Rio” é o melhor bilhete-postal sonoro da cidade maravilhosa e “Sozinho” faz-nos lembrar quanto maravilhoso é amar alguém, apesar da ausência. No entanto, é em “Você é Linda” que Caetano melhor homenageia a beleza feminina. Com uma letra belíssima, onde o ritmo descontraído e a voz serena do cantor parecem pintar uma linda aguarela da Baía ao entardecer.
A imensa maioria de portugueses que não pode ver hoje nem amanhã este grande cantor brasileiro pode deixar que a música do baiano invada, por breves minutos, as suas quentes noites de fim de verão.
Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

ENCERRADO À SEGUNDA-FEIRA




Se um turista aterra em Portugal num domingo à tarde e começa a consultar a oferta cultural de Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Guimarães, Évora ou Funchal rapidamente depara com um problema: praticamente todos os museus, casas de arte, palácios, castelos, estão encerrados. Da cidade mais pequena à mais importante é raro encontrarmos um espaço cultural aberto.


Não importa que estejamos em Agosto, Julho ou Junho, na pausa letiva do Natal, da Páscoa ou Carnaval – a segunda-feira é sagrada. Os anos passam, os turistas deixam o seu reparo, as agências de viagens fazem notar o seu desagrado, mas a prática continua.
Ora esta situação é lamentável, incompreensível e nefasta para o turismo, que tem um impacto cada vez maior na economia nacional. Um país que pretende aumentar todos os anos o número de turistas não pode estar culturalmente fechado à segunda-feira. A oferta cultural de uma cidade é peça fundamental do “negócio turismo” e este não pode estar à mercê de uma tradição que não faz sentido nos tempos que correm. Os museus, os palácios, os castelos têm de estar abertos 12 horas por dia, todos os dias por ano, pelos menos nos monumentos que assim o justificam e são já dezenas.


Como podemos ter os Jerónimos encerrados à segunda-feira com milhares de pessoas em Belém para o ver? E se a isto juntarmos que a Torre de Belém também está fechada, que o Palácio da Ajuda idem aspas, que todos os museus da capital fecham à segunda e o mesmo acontece com os de Cascais, temos um quadro desesperante para quem procura o nosso país, por poucos dias, e tem o azar de passar uma segunda-feira a bater com nariz na porta. Quando chegarem aos seus países é esta informação negativa que passarão e na hora de outros escolherem, este fator funcionará contra Portugal.
Dir-me-ão que noutras capitais europeias acontece o mesmo. É verdade, mas um país que quer passar da 2.ª para a 1.ª divisão do turismo europeu tem de se esforçar mais do que outros, tem de oferecer mais e melhor e não se pode dar a estes luxos.
É preciso estar aberto todos os dias da semana, especialmente nos períodos turísticos do ano, o que coincidem com as férias escolares. 
Isto, obviamente, não implica perda de direitos laborais por parte dos trabalhadores dos museus, palácios ou castelos. As verbas que estes captam nestes períodos altos de visitantes são suficientes para pagar o aumento de pessoal.

Gabriel Vilas Boas 

domingo, 4 de setembro de 2016

HÁBITOS INFELIZES


O pior da infelicidade é quando ela se torna um hábito e a aceitamos como uma inevitabilidade.
O estado de desistência é tal que já nem sabemos exatamente aquilo que nos faz infelizes. No entanto, a infelicidade (que outrora foi apenas insatisfação) tem razões objetivas. Muitas vezes, deixamos enraizar em nós hábitos altamente nocivos que nos tornam infelizes compulsivos.

Um hábito típico das pessoas infelizes é acharem-se constantemente vítimas da vida. A vida é dura às vezes, mas não sempre. Há momentos de sorte para todos, mas os “agarrados à infelicidade” tendem a desvalorizar esses momentos ou nem a contabilizá-los. Aa diferença é que uns focam-se na resolução dos problemas, outros comprazem-se numa atitude de comiseração.


Outra atitude típica do infeliz é pensar que a maioria das pessoas não é confiável. A confiança constrói relações felizes, a desconfiança fecha a porta à descoberta de novos amigos. Os estranhos são novas oportunidades de amigos e não potenciais adversários, mas nem todos veem a coisa segunda esta perspectiva...

Quem se acostuma com a infelicidade tem ainda outro desagradável pensamento: tudo no mundo está errado e mal feito, ou seja, tem sempre um discurso muito negativo face à realidade. 
Desgraçadamente, este hábito atrai outro: considerar sempre o futuro com preocupação e medo. Na voz do infeliz militante o mundo está sempre para acabar e caminhamos inexoravelmente para o precipício moral, económico, social. Apesar de o mundo acabar amanhã, eles optam por ser infelizes hoje...


Talvez esta permanente perspetiva negativa nasça de um hábito que algumas pessoas cultivam e que as torna, na maioria das vezes, infelizes: a necessidade de controlarem tudo. Ninguém controla tudo, isso é impossível. Desenvolver essa crença só pode ter como resultado o fracasso e a infelicidade. 
Sem se darem conta, as pessoas infelizes estão constantemente a comparem-se. É o vizinho que teve mais sorte, é a amiga que tem isto e aquilo que ela não tem, etc. Ora isto leva à inveja e ao ressentimento. A amargura vem logo a seguir...
gavb

      


sábado, 3 de setembro de 2016

A VIDA SEGUNDO AS EXPECTATIVAS DOS OUTROS


É das coisas mais lamentáveis e infelizes da vida! E ainda que a as expectativas sejam dos outros, a culpa é nossa.
Viver segundo as expectativas dos outros não é coisa do passado, sobretudo a nível profissional. Ainda que não o digam, explicitamente, muitos pais pressionam sub-repticiamente os filhos a fazer determinadas escolhas académicas, que eles, por si mesmos, não fariam.
É condicionamento indireto, mas perfeitamente percetível e surge quando os filhos começam a frequentar o ensino secundário. A pressão das boas notas não tem, em muitos casos, como objetivo principal proporcionar aos filhos a realização dos seus sonhos profissionais ou pessoais, mas apenas o acesso a um curso superior que garanta a combinação perfeita entre elevado estatuto social e riqueza.

Tal como no passado também hoje é muito difícil contrariar e defraudar a vontade dos pais, porque, afinal, são eles que pagam a conta e são eles as pessoas que mais gostamos. A isto acresce outro problema: fruto da superproteção dos pais, a maioria dos jovens chega à altura das primeiras decisões da sua vida sem nunca ter decidido nada de relevante quanto mais ter afrontado as expectativas de alguém tão influente como o pai e/ou mãe.

É mais fácil fazer de conta e aceitar uma decisão que “até é para nosso bem”, que “nos fará ricos, importantes e bem-sucedidos”, no entanto, acaba quase sempre por constituir a nossa primeira (e por vezes decisiva) derrota.

Se os nossos sonhos passarem bem ao lado da estrada escolhida pelos outros, haveremos de contabilizar, no futuro, as perdas: tempo, realização, felicidade.
Viver sob as expectativas dos outros não depende dos outros, mas depende da coragem de cada um, da noção clara do que se quer para a vida, de encontrar formas e meios para concretizarmos objetivos com o mínimo de ajudas.
Convém ainda lembrar que para não se viver segundo as expectativas dos outros é preciso… ter expectativas próprias!

Afinal, qual é o tamanho e a força do teu sonho?


gavb

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

NÃO TEMOS DE ESTAR SEMPRE CERTOS


Certo dia, depois de um jogo bem conseguido do argentino Pablo Aimar, um jornalista perguntou-lhe se aquele era o verdadeiro Pablo Aimar, ao que o futebolista respondeu: “O verdadeiro Pablo Aimar é aquele que joga bem e aquele que joga mal!”
Mais do que uma arrogância, é uma tontaria acharmos que estamos sempre certos. Não é verdade, é desgastante e retira-nos credibilidade.
Estar errado não tem de ser uma ideia insuportável, uma desqualificação pessoal imperdoável, uma manifestação de fraqueza. Estar certo e estar errado faz parte da vida. 

Claro que custa imenso ao ego admitir que se está errado, mas é bem pior deixar de ter a noção clara do que é correto e incorreto apenas por orgulho; é péssimo os outros olharem-nos como alguém inflexível, orgulhoso(a); é muito mau deixar de viver momentos saborosos apenas porque não podemos “perder a face”. A face está mais do que perdida!
Muitas vezes destroem-se amizades, relacionamentos amorosos, porque achamos que temos de ter sempre razão. Essa obsessão não nos torna objeto de admiração mas apenas seres irritantes. As relações interpessoais não são um jogo, em que temos de estar sempre por cima, sempre a ganhar. As relações interpessoais constroem-se na diversidade de que somos feitos, na assunção dos bons e maus momentos, na justa avaliação da tomada de posição dos outros.
Aquele que tem sempre a necessidade de estar certo é uma pessoa muito insegura. A confiança nas nossas capacidades e razões conquista-se principalmente em momentos menos fulgurantes. Devemos sentir os golos que os outros nos marcam como algo que faz parte da vida e nos ajudará a crescer.
Reconhecer a razão alheia, a excelência de uma ideia do outro, o sentido de oportunidade de uma observação do parceiro é uma prova de inteligência e de maturidade e um passo decisivo para a nossa felicidade.

gavb

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O INSULTO



Aumentar as pensões de um idoso em menos de 50 cêntimos não é um aumento, não é um ato de caridade, é um gozo, um insulto a todos aqueles que recebem reformas tão baixas que os medicamentos receitados pelo médico ficam na farmácia e as refeições tomam-nas pela metade.
Segundo notícias de hoje, o governo prepara-se para aumentar os pensionistas portugueses entre 0,41 cêntimos e 2,45 euros, o que corresponde a um aumento de 0,4% nas reformas até 628 euros, porque as outras não terão aumento nenhum.

Há alguns meses o PCP e o BE diziam, com razão, que os mais desfavorecidos não precisavam da caridadezinha do governo de direita, que perdoava milhões aos banqueiros e oferecia esmolas aos mais pobres. Ora 40 cêntimos não é uma esmola, mas é suficientemente pérfido para ferir a dignidade de quem recebe tal aumento. 
Que dirá Jerónimo de Sousa a uma idosa que o confronte com tal afronta? Que dirá Catarina Martins quando lhe pedirem para comparar o aumento das pensões com a injeção de capital da CGD?
“Ser forte com os fracos e fraco com os fortes” era a costumeira acusação do BE e PCP aos governos de centro-direita e todos lhe reconheciam razão, mas este silêncio cúmplice, esta aceitação tácita de um insulto evitável é pior.

Um governo não pode enviar um cheque de 40 cêntimos numa carta que custa 60 cêntimos, porque estamos a falar de pessoas e não de robots. Lidamos com emoções, com sentimentos, com valores éticos e não com um número qualquer.