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domingo, 7 de fevereiro de 2016

UMA COMPETIÇÃO ESTÚPIDA, INÚTIL E PERIGOSA





- Não disseste nada sobre o bilhete que te deixei em cima da mesa, de manhã… Pensei que fosses ficar chateado…
- Chateado, eu? E por que haveria de me chatear com um bilhete teu?
- Aquilo não era propriamente uma declaração de amor…
- Sim, eu sei! Era uma lista de recados para eu fazer durante o dia, não fosse eu esquecer-me de alguma coisa.
- Não fiques ofendido. Não era minha intenção humilhar-te.
- Não ofendes nada. Se não fosses tu, hoje ainda não sabia que se usava óleo para estrelar um ovo.

- Vá lá, não fiques chateado. Eu sei que tu confundes óleo com água, mas também os dois são líquidos…
- Não te armes em engraçadinha.
- Vá lá, não amues... O objetivo do papelinho nem era que tu fizesses aquilo tudo, que eu não tenho ideias tolas.
- Então qual era o objetivo, minha senhora?
- O objetivo era perceberes que eu faço muito mais coisas cá em casa que tu!
- Ai fazes? O quê?
- Bem, não gosto de me repetir, mas tu sabes que sou eu que preparo as refeições, que vou às compras, que estudo com as miúdas…

- Eu também me farto de fazer coisas! Estás a ser injusta!
-Ah sim? E quem prepara a roupa da Ana e da Catarina, no dia anterior, para elas terem logo o que vestir mal acordem, também és tu?
- Não, és tu. Mas sou eu que preparo as mochilas.
- Sim! Um casaco faça sol ou faça chuva; uma banana, uma garrafa de água… Isto é a mochila que tu preparas. O que lhes vale é que no dia anterior eu ponho-lhes os livros e os cadernos que elas vão precisar, senão era só faltas de material.
- A tua maneira de as educar é que está errada. Tu fazes tudo, elas não fazem nada. Não ganham responsabilidade nenhuma.
- Queres que uma miúda de sete e outra de oito tenham o teu sentido de responsabilidade? Bem, também não é muito diferente…
- Não tenho sentido de responsabilidade, é? Então quem as leva à música, às segundas, quartas e sextas? E ao ballet às terças e quintas? Também és tu?

-Sim, és tu. Mas sou eu que as vou buscar!
- E que faço eu enquanto tu as vais buscar?
- Sei lá! Deves estar a fazer coisas.
- Estou a fazer “coisas”??? Chamas “coisas” ao jantar que comes todos os dias? Quando é que foi a última vez que fizeste o jantar?
- Ontem!
- Não foi nada! Ontem trouxeste uma pizza congelada do Continente e toda a gente ficou subitamente sem grande vontade de comer.
- Que engraçadinho! Não falemos mais! Vejo que não reconheces quanto me mato por esta família. Não reconheces nada!
- O que quere tu que eu reconheça?
- Que cá em casa quem trabalha verdadeiramente sou eu! Tu só “ajudas” e de vez em quando, quando tens alguma fisgada…

- O que queres dizer com isso?
- Nada, nada… Olha deixa lá! Vai pôr a mesa. A minha colega é que tinha razão!
-Em que é que a tua colega tinha razão?
- Que eu podia deixar os papéis que quisesse que o resultado ia ser o mesmo!
-Ai tu conversas com elas sobre nós?
- Converso. Qual é o mal? Sempre dá para nos rirmos um pouco!
- Tu divertiste-te a contar umas mentirinhas a meu respeito às tuas amiguinhas? Folgo em saber!
- Não folgues, vai pôr a mesa! Faz alguma coisa!
- Isso irrita-me, eu já faço muita coisa, cá em casa!
- Tu não fazes muita coisa cá em casa! Tu quanto muito ajudas aquela que faz muita coisa.
Vá lá, não amues. Chama a Ana que ela ajuda-te a pôr a mesa!

Gabriel Vilas Boas

sábado, 6 de fevereiro de 2016

PORTO EXIT GAMES, fazendo furor na movida portuense


Saí da frente do computado e vem jogar na vida real. Tens 60 minutos para mostrares o que vales e escapares de uma sala fechada, onde misteriosos enigmas desafiam a tua mente a encontrar a porta de saída.
Exit Games é o entretenimento da moda na cidade do Porto e está a fazer furor quer entre os turistas estrangeiros que visitam a invicta quer entre os portuenses que procuram explorar todo o glamour que o Porto oferece, além da movida, dos restaurantes gourmet, do maravilhoso vinho do Porto, e dos passeios de barcos por um rio dourado.


O engenheiro António Silva e a flautista húngara Krisztina Dobner desafiaram outro casal amigo (Thaís Nomi e Joaquim Valente) a fundar o Porto Exit Games, um novo conceito de divertimento na cidade do Porto totalmente baseado na ideia de jogos de fuga, já muito populares noutras cidades europeias.


Atualmente Porto Exit Games propõe três jogos: The Sacrifice, Lost Memories, Port Wine Sabotage. Para jogá-los não é preciso saber línguas nem temos sequer de escrever, mas apenas usar o raciocínio, pois tudo funciona à base de códigos.


 
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A temática dos jogos é a cidade do Porto e as suas diversas facetas. Por exemplo, em Port Wine Sabotage somos encerrados no escritório de Jack Carrapato, um investidor que terá destruído parte das vinhas do Douro com uma praga de insetos. A nossa missão é salvar o vinho, escapando da sala antes que ele chegue. Temos 60 minutos e algumas ajudas que nos chegam sob a forma de bilhetes deixados ao acaso pelo escritório de Jack. Conseguiremos? Há pipas, garrafas de vinho, caixas, chaves e imensa adrenalina para viver. De preferência em grupo, de cinco a oito elementos, porque este jogo foi criado para um encontro de amigos ou para uma família viverem uma aventura inesperada e diferente no meio de uma cidade cosmopolita como o Porto.
Sai de casa! Desafia a tua família e os teus amigos a uma experiência nova e excitante e depois leva-os a jantar, na Ribeira ou em Gaia, mas sempre com o Douro como cenário.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

IMPOSTO DE PRIMEIRA NECESSIDADE


Não foi preciso esperar muito tempo para perceber que o atual ministro das finanças português é um homem impreparado para o cargo. O projeto de Orçamento de Estado, que Mário Centeno apresentou em Bruxelas, é um documento mal-amanhado, sem consistência nem grande lógica interna.
Nas últimas semanas, o primeiro-ministro António Costa tem usado toda a sua técnica de trapezista sem rede para passar o projeto de Conta Geral do Estado em Bruxelas, verdadeira Assembleia da República, mas onde os portugueses não têm direito a voto. O que sairá de lá nas próximas horas é, na melhor das hipóteses, um documento com muitos pensos rápidos de primeiros-socorros e carregado de nuvens de desconfiança. E com razão. A proposta de Centeno é má na forma e no conteúdo.

Foco a minha atenção num dos elementos essenciais da captação de receitas: o imposto sobre os produtos petrolíferos. Ao contrário do que alguns analistas de direita dizem, são uma receita certa. Os consumidores nem sentirão muito mais um agravamento desse imposto, porque o petróleo nunca atingiu um preço tão baixo e os portugueses já adaptaram o bolso e o espírito aos preços acima de um euro.
Há dias, vários jornais diários publicaram uma interessante infografia sobre a estrutura do preço do litro da gasolina e do gasóleo em Portugal. Uma leitura fácil permitia concluir que o preço do gasóleo, sem impostos nem custos e lucros das petrolíferas, andaria pelos 22 cêntimos, enquanto a gasolina ficaria pelos 30 cêntimos. Ficámos todos a saber que o transporte, armazenamento e comercialização apenas acrescenta 15% do preço final por litro de cada um dos combustíveis. O estado português arrecada, portanto, entre 50% a 70% do valor final de cada litro de gasóleo ou gasolina.

O atual nível do imposto sobre os produtos petrolíferos é descaradamente obsceno. Está ao nível do imposto sobre o tabaco (cuja justificação é, como todos nós sabemos, o facto de ser um vício altamente nocivo à saúde) e num patamar muito superior ao aplicado às bebidas alcoólicas ou produtos de luxo. O imposto sobre o gasóleo ou a gasolina quase triplica o IVA máximo aplicado, que já está nuns impossíveis 23%. Estou em crer que, se um dia, a canábis fosse legalizada seria taxada com um imposto menor.
E por que acontece tal destempero? O imposto sobre os combustíveis é um valor seguro na receita de qualquer orçamento. Somos obrigados a usar os transportes na nossa atividade diária e económica. Os combustíveis são um consumo obrigatório e dinheiro em caixa para o fisco.

Arrecadar impostos sobre os combustíveis qualquer criança consegue, mas não é assim que se estimula a economia. Quando a evolução tecnológica começa a pôr os carros movidos a energias alternativas a rolar nas estradas do país, encostando a oligarquia da OPEP à parede, Mário Centeno aproveitou a onda para capitalizar… impostos. Que burrice!
A altura era propícia para oxigenar as pequenas e médias empresas, fazendo-as baixar os custos dos transportes dos seus bens e serviços, de maneira a que o dinheiro disponibilizado por essa baixa encorajasse alguns empresários a investir no emprego, requalificação ou reequipamento das empresas.
António Costa disse que o crescimento da economia nacional se faria através do aumento do consumo, num conceito muito criticado, mas defensável. Mário Centeno resolveu contrariar, na prática, o seu chefe, ao projetar uma caricatura de orçamento, onde se propõe “pagar” as justas medidas de reposição parcial dos rendimentos através do aumento dos impostos sobre os derivados do petróleo. Em Centeno não há centelha de génio, mas apenas uma requentada, estafada e improdutiva receita que nos faz perder mais uma pequena oportunidade.
O imposto sobre os combustíveis é um imposto de enorme obscenidade a que se agarram os políticos impreparados para resolver as suas primeiras necessidades de sobrevivência.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE



«Não vos peço piedade, só peço compreensão – nem sequer isso. Apenas reconhecimento de mim em ti, e do inimigo, o Tempo, em todos nós.»

O Doce Pássaro da Juventude é uma peça de teatro de Tennessee Williams que a companhia de Jorge Silva Melo, Artistas Unidos, leva novamente à cena, em Lisboa, a partir de hoje até ao próximo dia 14. Via-a no passado domingo num Teatro Nacional de São João quase repleto.
À frente de um extenso elenco, brilham os atores Maria João Luís e Ruben Gomes. A peça do dramaturgo norte-americano aborda a questão do tempo e da sexualidade que vão destruindo as relações e a pureza da juventude. Como noutras peças de Tennessee Williams, também em O Doce Pássaro da Juventude está patente aquela que é uma das grandes preocupações do dramaturgo: o tempo inexorável que passa por cima de todos nós.

“O Doce Pássaro da Juventude” envolve triângulos que se intersetam: Chance/Heavenly/Boss Finley (pai de Heavenly) e Chance/Heavenly/Alexandra del Lago (o trio mais relevante). As duas mulheres (Heavenly e Alexandra) nunca se cruzam mas oferecem a Chance as duas possibilidades emocionais e sexuais que ele conhece na peça.
Heavenly é uma miragem, a concha da rapariga que amou, mas Chance acredita que irá recuperá-la e através dela recuperar a sua juventude e inocência. Alexandra del Lago é uma personagem muito real, completa, com as suas gloriosas neuroses e os meios para temporariamente as fazer esquecer.

Chance conheceu um glorioso instante de beleza e amor na cama com Heavenly, num comboio a grande velocidade, e vive para recriar esse momento. Há pureza nesse sonho. No entanto, para os homens no poder na sua terra, St. Cloud, ele é o criminoso degenerado que merece ser castrado, depois de ter inconscientemente infetado Heavenly com a “doença das putas”, adquirida numa das muitas mulheres da vida com que Chance teve, na sua tentativa de arranjar dinheiro e estatuto para estar ao nível daquilo que Boss Finley pretendia para o marido da filha. Na verdade, apenas arranjou um bilhete sem regresso para o inferno.

A certa altura da peça, Alexandra del Lago ou simplesmente “A Princesa” implora pelo corpo de Chance:
“- Chance, preciso desta distração. É o momento de descobrir se és capaz de ma dar. Não podes ficar preso a essa ideia parva de que podes valorizar-te voltando as costas e indo para a janelas quando alguém te quer… eu quero-te… agora mesmo.”  
É esta mercantilização do sexo que deixa Chance emasculado (castrado). Ele é a versão masculina da puta de ouro, um romântico amoroso que se redime a dar voz a juízos patriarcais sobre a renúncia ao poder masculino. A corrupção da personagem é causada pela sua capturada dentro do sistema materialista.

Ao contrário de Alexandra del Lago, Heavenly é uma impossibilidade para Chance. O pai nunca permitirá que Chance a leva e ela torna-se tão somente um “sonho de juventude”, uma jovem despedaçada, tornada estéril pela doença venérea que Chance lhe transmitiu e agora é forçada a casar com o médico que lhe extraiu o útero.
Alexandra oferece a Chance uma forma de escapar à castração e fugir de St. Cloud: continuar ao seu serviço. Mas ele recusa. Quando o seu sonho de juventude acaba, só lhe resta o orgulho e por isso ele prefere a castração a ser um brinquedo de Alexandra. Quando Chance diz a Alexandra que forçá-lo a cumprir sexualmente é uma forma de castração, ela contrapõe: “A idade faz o mesmo com as mulheres” e nós ficamos a pensar quanto certeira é aquela observação.

O Doce Pássaro da Juventude decorre num domingo de Páscoa, sugerindo uma redenção que a peça não admite. A Páscoa funciona aqui ironicamente, pois não há como escapar ao tempo ou à mortalidade.
A peça celebra a tenacidade de Alexandra del Lago, capaz de ser honesta consigo e com os outros, e capaz de momentos luminosos de compaixão e até de amor. No entanto ela sabe que, fundamentalmente, estamos sós numa terra de ogres.
No final, Chance só abdica das suas vãs ilusões quando Alexandra o confronta com a dura verdade sobre ele próprio e Heavenly. O que ganhará ele com a castração? Não será mais heroico suportar a inevitabilidade do tempo, esse inimigo, do que claudicar diante dele?
Alexandra é o verdadeiro centro da peça e não Chance. As últimas palavras que dirige a Chance propõem uma filosofia de persistência e adaptabilidade: “Então, anda, temos de continuar.”


Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O ÉDITO DE MILÃO DEIXOU EM PAZ O CRISTÃO


O dia 3 de fevereiro de 313 é um dia relevante na história do cristianismo. Os imperadores do Império Romano do Ocidente e do Oriente, respetivamente Constantino I e Licínio, assinaram o famoso Édito de Milão que libertou os cristãos de todas as perseguições de que eram alvo desde o nascimento da religião fundada por Jesus Cristo.
Os cristãos deixavam as catacumbas e não tinham mais de se reunir secretamente. Os lugares de culto eram-lhes devolvidos. Na prática, o Império Romano deixava de ter uma religião oficial e o cristianismo adquiria um estatuto de igualdade em relação ao paganismo.
Fosse por razões políticas ou estratégicas, a verdade é que o Império dos impérios permitia que o cristianismo ganhasse um estatuto de religião. A partir desse momento, o cristianismo foi ganhando uma relevância tal que em pouco tempo passou a ser a religião dominante do Império Romano do Ocidente.

Quando o Império Romano do Ocidente caiu, o cristianismo quis ser a continuação do Império dominando a Idade Média através do medo e da opressão.
No entanto, quando o Renascimento e o Humanismo quiseram recuperar a liberdade do Homem face a Deus, a Igreja que viu a luz do dia em 313, em Milão, abespinhou-se e lançou mão da Inquisição, do Índex, da Companhia de Jesus.
Hoje, 1700 anos depois, talvez a Igreja Católica volta a lembrar a intolerância de que é alvo em muitos pontos do globo. Provavelmente, tem razão, mas quase de certeza que não tem moral para falar nem reclamar.
Em 313, dois imperadores criaram e ratificaram mais de que um édito de libertação, eles fizeram nascer uma Lei de Tolerância. A tolerância é uma atitude que se pede muito e pratica pouco. Tinha-se evitado muito sangue e muito ódio se as religiões entendessem que a melhor maneira de fomentar a tolerância é o exemplo.
Apesar de tudo, ainda vamos muito a tempo. Tal como Deus, o Tempo também e éterno.
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

DOIS ANOS DE SETE PECADOS (I)MORTAIS: PARABÉNS PARA NÓS!


Dois anos de vida! Mais de setecentos e trinta dias e outros tantos artigos depois, o Sete Pecados (I)mortais apaga, com os seu leitores, duas velas em cima do bolo.
Por cá continuamos a trilhar o nosso caminho de comunhão entre os leitores, as artes imortais e os “pecadores” que assinam os textos, que diariamente, à hora do jantar, voam pela net.
É um trabalho árduo, por vezes difícil, mas sempre feito com prazer. Um prazer que começa num quadro, numa peça de teatro ou num acontecimento histórico e que rapidamente se alarga à contemplação da extraordinária melodia de uma música ou à modernidade de uma proposta arquitetónica digna de realce.
Pelo meio, intrometem-se os temas do quotidiano, sobre os quais nos apetece partilhar pensamentos, sentimentos ou apenas emoções. Neste segundo ano de vida, eles tiveram um espaço maior, acentuando o carácter subjetivo de alguns textos, como é normal acontecer em qualquer blogue.
Ponto de honra continua a ser a pluralidade de opiniões. Todos os comentários recebidos foram publicados e retorquidos, com elevação, sempre que tal era suscitado.
Os leitores são um património valioso deste blogue. Cada mês que passa, o número de visitantes aumenta, de uma maneira sustentada, o que muito me satisfaz. No primeiro ano, o blogue era visitado por pouco mais de cem pessoas, por dia; no segundo ano, esse número cresceu para cento e quarenta pessoas. Só neste últimos doze meses, o “Sete Pecados (I)mortais” teve mais de cinquenta mil visitas, o que muito me surpreende e satisfaz. A todos e a cada leitor agradeço o tempo que despendem diariamente na leitura dos nossos artigos. 
E como estão espalhados pelo mundo os nossos leitores! A maioria ainda é portuguesa, mas o número de brasileiros, norte-americanos, chineses, russos, franceses, alemães, irlandeses, suíços e holandeses tem crescido muitíssimo, fazendo deste blogue, totalmente escrito em português, um sítio onde se encontram muitas culturas.
O futuro é um desafio maravilhoso. Cativar novos leitores, propor outros encontros com a arte, melhorar a qualidade dos textos, recuperar alguns dos “imortais” cujos afazeres os têm mantido afastados do blogue, encontrar novos colaboradores que façam deste sítio um espaço de crescente partilha, amizade e conhecimento.

Gabriel Vilas Boas  

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CEM ANOS DE AVENIDA DOS ALIADOS


Salão de visitas da cidade do Porto, a Avenida dos Aliados celebra, hoje, 100 anos de vida.
A 1 de fevereiro de 1916, o então Presidente da República, Bernardino Machado, lançou simbolicamente a obra desmoronando a primeira pedra do palacete barroco da Praça da Liberdade, onde até então estava instalada a Câmara Municipal.
Paulatinamente foram desaparecendo os vários prédios e arruamentos do bairro do Laranjal para dar lugar a uma avenida longa e ampla, onde se instalou o poder político, social e económico de uma cidade orgulhosa, leal, liberal e… invicta.
O nome – Aliados – pretendeu ser uma homenagem aos países aliados na 1.ª Guerra Mundial, onde Portugal teve uma breve e infeliz participação.

Após várias restruturações, foram-se instalado na nova avenida portuense os serviços do Estado (Paços do Concelho, Caixa Geral dos Depósitos, Banco de Portugal), as sedes dos principais jornais da cidade (daí a presença da estátua do ardina), consultórios médicos e estabelecimentos de prestígio, cafés emblemáticos como o Guarany ou o Imperial, com os seus vitrais coloridos de Art Déco.

Além da extraordinária largueza que permite uma fenomenal entrada de luz, a Avenida dos Aliados caracteriza-se por todos os seus edifícios serem de granito, muitos deles coroados por cúpulas, lanternins e coruchéus que transmitem a quem chega à cidade toda a personalidade do portuense.Quando, há dez anos, os prestigiados arquitetos Álvaro Siza Vieira e Souto Moura retiraram as flores da placa central da Avenida dos Aliados, a polémica instalou-se, mas a verdade é que os dois arquitetos leram muito bem a essência dos Aliados e da cidade calcetando os Aliados de paralelepípedos de granito. Ainda que as flores transmitissem cor e “aquecessem” a avenida transmitiam-lhe também uma ideia algo provinciana, que em nada condiz com um Porto cosmopolita, onde a neblina matinal envolve os estrangeiros num mistério que parece exalados dos edifícios altos, austeros, imponentes.


Ao fundo, o Palácio das Cardosas faz uma vénia à estátua equestre de D. Pedro IV e estende o olhar, avenida a cima, até à Praça General Humberto Delgado, onde Almeida Garrett o espera de pena da pena, para lhe contar que nos Aliados se respira liberdade e orgulho de pertencer a uma cidade… invicta.

Gabriel Vilas Boas