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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A SETE DEGRAUS DA RUÍNA



Quando uma relação (amizade, amor, familiar…) termina, muitas vezes, não percebemos como tal foi possível, mas há quase sempre razões para o infortúnio. É bem mais fácil culpar o outro do que perceber o que fizemos de errado.
Há uns meses, ouvi uma psicóloga fazer uma curiosa analogia com uma comédia romântica do início do século (“Como perder um homem em dez dias”, onde brilhou Kate Hudson), para indicar alguns comportamentos que arruínam uma relação… silenciosamente.


O primeiro passo em falso é ter expectativas irrealistas sobre o outro. O outro é como é (tal como nós). Pode mudar, mas não é expectável que mude substancialmente. Afinal de contas, apaixonámo-nos por ele (a) tal como era, portanto achará sempre muito estranho que o(a) queiramos moldar aos nossos desejos e ambições.

Outro erro crasso que conduz à ruína emocional é “criticar muito, elogiar pouco”. Por muita capacidade de encaixe que tenha, há um momento em que o copo não aguenta mais críticas e azedumes e transborda.

Se substituirmos a crítica pelo silêncio, a relação também se degrada. Cultivar silêncios acusatórios e ressentidos é um veneno letal para qualquer relacionamento. Muitos casais preferem o silencio à dor das palavras, que uma conversa pode trazer, mas não suavizam dor nenhuma, antes instalam o vazio que acabará por consumir a relação.

Ainda que seja um clássico, não saiu de moda: o ciúme descontrolado. Uns apontamentos de ciúme aqui e ali até podem ter alguma graça e fazer bem ao ego, mas rapidamente se tornam desgastantes, inconvenientes e tontos. O ciúme é mais um “downgrade” para a relação.


Outro empecilho é a chegada da sogra, que é como quem diz “a família do outro”. Permitir que dêem palpites, que tomem partido, que influenciem decisões é mais um degrau que se desce a caminho do fim.

Difícil é também abordar os problemas na intimidade, mas esta parte é uma questão incontornável de qualquer relação. Não é possível passar à frente e fugir da conversa. Ser capaz de falar sobre os problemas da sua intimidade é uma prova de maturidade que o casal dá.

O fim da escada fica a um passo quando 1+1 deixa de ser igual a dois. Começa a conversa do “ele(a) já não me acrescenta nada”, esquecendo que também nós deixamos de investir.  
As relações não acabam “porque sim” ou porque chegou algo de mais interessante para fazer na vida. Até no reino do subjetivo e das emoções, há dados/razões objetivas que ajudam a perceber o fim.

Gabriel Vilas Boas 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

UMA COMPETIÇÃO ESTÚPIDA, INÚTIL E PERIGOSA





- Não disseste nada sobre o bilhete que te deixei em cima da mesa, de manhã… Pensei que fosses ficar chateado…
- Chateado, eu? E por que haveria de me chatear com um bilhete teu?
- Aquilo não era propriamente uma declaração de amor…
- Sim, eu sei! Era uma lista de recados para eu fazer durante o dia, não fosse eu esquecer-me de alguma coisa.
- Não fiques ofendido. Não era minha intenção humilhar-te.
- Não ofendes nada. Se não fosses tu, hoje ainda não sabia que se usava óleo para estrelar um ovo.

- Vá lá, não fiques chateado. Eu sei que tu confundes óleo com água, mas também os dois são líquidos…
- Não te armes em engraçadinha.
- Vá lá, não amues... O objetivo do papelinho nem era que tu fizesses aquilo tudo, que eu não tenho ideias tolas.
- Então qual era o objetivo, minha senhora?
- O objetivo era perceberes que eu faço muito mais coisas cá em casa que tu!
- Ai fazes? O quê?
- Bem, não gosto de me repetir, mas tu sabes que sou eu que preparo as refeições, que vou às compras, que estudo com as miúdas…

- Eu também me farto de fazer coisas! Estás a ser injusta!
-Ah sim? E quem prepara a roupa da Ana e da Catarina, no dia anterior, para elas terem logo o que vestir mal acordem, também és tu?
- Não, és tu. Mas sou eu que preparo as mochilas.
- Sim! Um casaco faça sol ou faça chuva; uma banana, uma garrafa de água… Isto é a mochila que tu preparas. O que lhes vale é que no dia anterior eu ponho-lhes os livros e os cadernos que elas vão precisar, senão era só faltas de material.
- A tua maneira de as educar é que está errada. Tu fazes tudo, elas não fazem nada. Não ganham responsabilidade nenhuma.
- Queres que uma miúda de sete e outra de oito tenham o teu sentido de responsabilidade? Bem, também não é muito diferente…
- Não tenho sentido de responsabilidade, é? Então quem as leva à música, às segundas, quartas e sextas? E ao ballet às terças e quintas? Também és tu?

-Sim, és tu. Mas sou eu que as vou buscar!
- E que faço eu enquanto tu as vais buscar?
- Sei lá! Deves estar a fazer coisas.
- Estou a fazer “coisas”??? Chamas “coisas” ao jantar que comes todos os dias? Quando é que foi a última vez que fizeste o jantar?
- Ontem!
- Não foi nada! Ontem trouxeste uma pizza congelada do Continente e toda a gente ficou subitamente sem grande vontade de comer.
- Que engraçadinho! Não falemos mais! Vejo que não reconheces quanto me mato por esta família. Não reconheces nada!
- O que quere tu que eu reconheça?
- Que cá em casa quem trabalha verdadeiramente sou eu! Tu só “ajudas” e de vez em quando, quando tens alguma fisgada…

- O que queres dizer com isso?
- Nada, nada… Olha deixa lá! Vai pôr a mesa. A minha colega é que tinha razão!
-Em que é que a tua colega tinha razão?
- Que eu podia deixar os papéis que quisesse que o resultado ia ser o mesmo!
-Ai tu conversas com elas sobre nós?
- Converso. Qual é o mal? Sempre dá para nos rirmos um pouco!
- Tu divertiste-te a contar umas mentirinhas a meu respeito às tuas amiguinhas? Folgo em saber!
- Não folgues, vai pôr a mesa! Faz alguma coisa!
- Isso irrita-me, eu já faço muita coisa, cá em casa!
- Tu não fazes muita coisa cá em casa! Tu quanto muito ajudas aquela que faz muita coisa.
Vá lá, não amues. Chama a Ana que ela ajuda-te a pôr a mesa!

Gabriel Vilas Boas