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domingo, 7 de dezembro de 2014

WORLD PRESS PHOTO 2014


Estudantes albinos cegos, num dormitório da Escola da Missão Vivekananda, um colégio interno para cegos, em Bengala Ocidental, Índia. 

Pelo 14.º ano consecutivo o Fórum da Maia acolhe a mais famosa exposição de fotojornalismo: A World Press Photo 2014. Nunca deixei de ver uma única exposição pois esta exposição junta a minha paixão mais antiga (o jornalismo) com a mais recente (a fotografia).
A fotografia é uma arte altamente sedutora, que para mim ganha um valor considerável quando noticia, documenta, “fala”. Normalmente descreve um mundo cruel, cheio de guerras, mortes, violências, desastres naturais. Por vezes, mostra um olhar profundo, belo, elucidativo dum anónimo qualquer, num momento em que se escrevia a História. Há ainda as extraordinárias fotos do desporto e da vida animal, que fogem um pouco ao conceito que procuro neste tipo de exposição.
Nos últimos anos, a qualidade da exposição tem descido um pouco porque o BES deixou de patrocinar o concurso de fotojornalismo exclusivamente português que, por via disso, deixou de existir.


A foto vencedora da exposição foi uma escolha muito feliz. Se bem se lembram, retratavam migrantes africanos na costa da cidade de Djibouti, à noite, erguendo os telemóveis, tentando captar uma rede barata na vizinha Somália, numa tentativa ténue de ligação com os familiares no estrangeiro. O Djibouti é um ponto de paragem habitual para os migrantes em trânsito vindos de países como a Somália, Etiópia, Eritreia e que procuram uma vida melhor na Europa e no Médio Oriente.  O norte-americano John Stanmeyer captou numa só imagem os grandes temas da atualidade: tecnologia, globalização, migração, pobreza, alienação.
Este evento é internacionalmente reconhecido pela sua qualidade e por ser o único do género, resultando de um concurso anual de fotojornalismo onde a atualidade é apresentada a nível mundial. A exposição de fotojornalismo está organizada em várias categorias (Arte e Entretenimento, Assuntos Contemporâneos, Vida Quotidiana, Notícias Gerais, Natureza, Pessoas nas Notícias, Retratos, Notícias Locais e Desporto) e mostra acontecimentos marcantes que tiveram lugar em 2013.
Na edição deste ano, World Press Photo contou com a participação de 5.754 fotógrafos e de 132 países, que levaram 98.671 fotografias a concurso. A exposição é apresentada, este ano, por mais de 100 cidades em mais de 45 países.



Entre as fotos premiadas destaco duas: a vencedora da Categoria “Notícias em Geral, Reportagem”, da autoria de Cris McGrath, que fotografou a destruição de Vasayas, na região central das Filipinas, em consequência do tufão Haiyan, a 8 de novembro de 2013. Foi o tufão filipino mais devastador de que há memória, pois ceifou a vida a mais de 6200 pessoas e deslocou quatro milhões de pessoas. A foto documenta bem o elevado grau de destruição que tornou lento o trabalho de recuperação.


O outro destaque vai para uma foto lindíssima do fotógrafo alemão Markus Schreiber que captou a reação de uma mulher ao saber – no terceiro e último dia de velório – que já não ia a tempo de poder ver o corpo de Nelson Mandela. – Categoria “Retratos”. Reparo na deceção de quem falhou a última homenagem ao grande herói da luta contra o racismo no século XX - Nelson Mandela.



O fotojornalismo é oportunidade, beleza, arrepio, notícia, expressão. A World Press Photo estará no Fórum da Maia até 18 de dezembro e é uma excelente oportunidade de recordar alguns dos acontecimentos mais marcantes de 2013, em formato gigante, espetacular, impressionante.


Gabriel Vilas Boas

sábado, 6 de dezembro de 2014

12 ANOS ESCRAVO



Passam hoje 149 anos sobre a data em foi ratificada a mais importante emenda à Constituição dos Estados Unidos da América: a décima terceira. Com essa emenda os EUA tornaram-se, finalmente, um país civilizado e digno, pois aboliram, definitivamente, a escravidão no seu território. Há maldades tão profundas e desumanas que é verdadeiramente surpreendente verificar quem as defenda, quem lute por elas… No entanto, esta maldade existiu e continua a existir duma maneira dramática.

O cinema remonta histórias verdadeiramente extraordinárias, que nos fazem viver emoções profundas de júbilo e repulsa diante de algo tão indigno como o racismo. Num dia tão relevante para a luta contra o Racismo, recordo o melhor filme do ano de 2013 para a Academia de Hollywood – "12 anos Escravo".
Visionei o filme pouco depois de estrear em Portugal e guardo muitas memórias e emoções desse dia. De facto uma grande produção, onde a força do argumento (adaptado) e a qualidade do filme se impõem ao desempenho dos atores. Até nisso o filme cumpriu os seus objetivos.


A história remonta a 1841, quando um negro livre, que vivia um existência feliz,  em Nova Iorque, com a mulher e duas filhas, aperfeiçoando os dotes violinista e carpinteiro, aceita um convite de dois homens para fazer parte duma digressão musical. Rapidamente os lucros e a glória prometidos tornam-se num horrível pesadelo que durou doze anos. Solomon Northup é raptado e transformam-no no escravo Platt. É comprado pelo dono duma plantação do Louisiana, onde será submetido a todo o tipo de indignidades e trabalhos forçados, durante mais duma década.
O filme de Steve McQueen procurou aprofundar a história da escravatura nos EUA e tratá-la duma perspetiva mais realista, pois usou factos verídicos.
Para mim, foi importante enquanto documento e como lição da História que procuro aprender. Gosto do cinema que vai além do entretenimento, que lembra as falhas do passado para que as sementes do mal não voltem a germinar.

Grande desempenho da mexicana Lupita Nyong'o que arrebatou o Óscar de Melhor Atriz Secundária  

As peripécias daqueles doze anos de escravidão, que o filme relata com um estupendo poder de análise, são importantes para interiorizarmos a humilhação, a dor, o sofrimento que as ideias racistas infligiram e, nalguns pontos do nosso planeta, continuam a infligir a milhões de pessoas.
“12 anos Escravo” está a terminar o seu reinado hollywoodesco e talvez seja boa ideia ocuparmos duas horas deste nosso fim-de-semana gelado de dezembro a rever esta interessante película. Se sobrar tempo e sensibilidade, recomendo uma olhadela a "Lincoln", que triunfou no ano anterior ao de “12 anos Escravo”, na categoria de melhor ator, entre outras. É um filme complementar deste e dá-nos uma dimensão mais completa e coerente da luta dos americanos contra o Racismo, nem que para isso se tenham de pôr uns contra os outros.  Talvez seja por isso que são um povo evoluído – são muito decididos a enfrentar os seus problemas e colocam-se em questão até encontrar a forma certa de viverem em sociedade.
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

IGREJA DE SÃO GONÇALO


Integrada no complexo monástico dominicano do século XVI/XVII, a Igreja de S. Gonçalo, fica no centro de Amarante, junto à ponte sobre o rio Tâmega, e tem arquitetura maneirista.
 A igreja observa uma planta em cruz latina, de transepto inscrito, com cruzeiro coberto por abóboda e naves, com capelas colaterais precedidas por galilé, tendo um claustro quadrado de dois pisos na ala norte.
O pórtico apresenta uma decoração rica, tipo retábulo, e é aberto na fachada lateral virada a sul. Quanto ao retábulo-mor, tem características barrocas, de estilo joanino.



A torre, de três andares, é rematada por arcos balaustrados e por pirâmides de recorte oriental. A Varanda dos Reis, aberta, ao nível do último andar do pórtico, é de cinco volta perfeita, assentes em pilastras toscanas, junto das quais se inserem as estátuas dos quatro monarcas que patrocinaram a construção do edifício (D. João III, D. Sebastião, D. Henrique e Filipe I).
Na cornija, por cima da galeria, sobressaem seis pirâmides, assentes em pedestais, e no paramento à esquerda do pórtico abre-se o janelão setecentista que ilumina o transepto.
No interior, encontramos as seis capelas com os seus arcos de volta perfeita, assentes em pilastras de grosseiros capitéis jónicos. O teto da nave é de abóboda rebocada, e de caixotões nas capelas. Destas, merece particular destaque a de S. Rita Cássia, com retábulo de talha dourada.

No transepto, destacam-se os altares de S. Luzia, do coração de Maria e do Santíssimo. Um assinalável arco triunfal ergue-se junto às estátuas de S. Pedro e S. Paulo, com ligação à capela-mor. O claustro, formado por dois pisos, é constituído por alas com cinco arcos plenos.
A construção do mosteiro dominicano foi lançado em 1543, tendo a obra ficado a cabo de Frei Julião Romero. Quando Portugal perdeu a independência (1580), as obras, então sob a tutela de Frei António dos Santos, decorriam em bom ritmo. No ano seguinte, teve início a construção da nova igreja. Mas a chegada dos Filipes ao trono português alterou a situação.



Em 1585, os dominicanos solicitaram a Filipe I de Portugal que lhes desse autorização para fazerem uma coleta em prol das obras. Cinco anos mais tarde, o monarca, escreve ao arcebispo de Braga a inteirar-se do andamento da construção e da verba gasta.
No início do século XVII, João Lopes Amorim celebra contrato (1606) para construir uma escada no claustro e um chafariz. Concluiu-se depois a edificação do segundo claustro.
Em 1641, Domingos de Freitas é contratado para a construção das abóbodas do transepto. No final do século XVII, concluiu-se a Torre Sineira. Já em 1733, têm início obras na capela-mor, a cabo de mestre António Gomes, para se incluísse uma nova tribuna no altar.




No século XIX, parte do convento monumental passa a servir de cenário às sessões camarárias (1838). Outras parcelas do mosteiro são utilizadas como mercado, prisão, quartel, escola e liceu. Em 1852, o edifício é cedido à Câmara Municipal de Amarante, que ali se instala definitivamente quinze anos depois.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

FRANCISCO SÁ CARNEIRO



Francisco Sá Carneiro é o maior mito político da democracia portuguesa.
Ele era o herói prometido que catapultaria Portugal para tempos de prosperidade, onde democracia, crescimento social e económico e solidariedade faziam sentido em conjunto.
As suas ideias políticas, a sua conduta política, cívica e até pessoal deixavam antever que ele era o homem certo no lugar certo. Infelizmente, as circunstâncias não permitiram confirmar ou desmentir tão avassaladora previsão.
Tinha quase sete anos quando o acidente (ou atentado) que o vitimou ocorreu, deixando o país em estado de choque. Recordo a tristeza que invadiu a casa do meu avó materno, pois conhecia o pai de Sá Carneiro, já que ambos eram naturais de Barcelos. Desde logo fiquei com a sensação que se tinha perdido um homem bom, excecional, um raio de luz no panorama político português.


Ninguém de boa fé pode afirmar que Sá Carneiro cumpriria as enormes expectativas que recaiam sobre ele, mas nunca ouvi ninguém afirmar que não seria capaz.
Coragem política e pessoal não lhe faltava. O homem que nasceu numa família cristã e tradicional do norte do país, afirmava claramente que os partidos não deviam ser confessionais, defendia a social-democracia de inspiração alemã, que rejeitava o coletivismo e estatismo marxistas, porque achava que as pessoas tinham direitos e deveres inalienáveis, mas ao mesmo tempo apoiava a Reforma Agrária Alentejana e tinha orgulho que o partido que ajudou a fundar (PPD/PSD) fosse o partido dos operários, dos trabalhadores, da classe média-baixa e da classe média. Durante o seu curto governo de onze meses, a despesa social aumentou, o que mostra bem que estas ideias não eram apenas maneira de conquistar votos.


Adorado por largos setores da sociedade portuguesa, Francisco Sá Carneiro era homem muito respeitado pelos seus rivais políticos que tiveram de se penitenciaram quando trouxeram a vida privada do líder do PPD para a disputa política. Num país cheio de preconceitos e hipocrisia, Sá Carneiro não teve pejo nenhum em assumir a relação amorosa com Snu Abecassis e pôr fim ao seu casamento de anos.



Francisco Sá Carneiro chegou ao poder em finais de 1979, liderando uma coligação com o CDS de Freitas do Amaral e o PPM de Ribeiro Teles. O pouco tempo que durou o seu governo não permite uma avaliação justa, por isso não é possível perceber se aquela promessa de herói, da jovem democracia, portuguesa trilhava a estrada do vitória ou do engano.
O trágico acidente(?) que o vitimou, nunca cabalmente esclarecido, apenas contribuiu para aumentar a sua áurea sebastianista. Talvez seja mais romântico acreditarmos que ele foi assassinado, talvez seja inconveniente admitir que mesmo tendo havido sabotagem da aeronave, ele não seria o alvo, mas sim Adelino Amaro da Costa, talvez...
Hoje, trinta e quatro anos depois do desaparecimento de Sá Carneiro, lembro os versos de Fernando Pessoa, “O mito é o nada que é tudo”, e lamentou profundamente que apenas tenhamos tido direito ao mito e não ao herói!

Gabriel Vilas Boas 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DA OFÉLIA, de John Millais



OFÉLIA é, provavelmente, o quadro mais famoso de John Millais. Trata-se dum óleo sobre tela, datada de meados do século XIX.
Esta pintura, admiravelmente personalizada, ilustra uma cena de Hamlet, a famosa peça de Shakespeare. Na peça do dramaturgo britânico, Ofélia enlouquece de desgosto após a morte do pai e afoga-se ao apanhar flores.
Enamorado que estava pela cena shakespeariana, Millais queria tornar o seu quadro mais realista possível. Por isso, passou meses a pintar junto à margem dum rio, fustigado pelo mau tempo e pelas picadas dos mosquitos. No entanto, foi no seu ateliê que pintou Ofélia. Para tal contratou a modelo Lizzie Siddal, enfiou-a num vestido velho e antigo e obrigou-a a passar horas a fio metida numa banheira, o que lhe causou uma valente constipação.


O quadro de Millais revela uma perfeição quase fotográfica e uma obsessão  fora do comum com o pormenor .
Ofélia encontra-se rodeada por várias plantas, todas elas muito simbólicas. Assim, o salgueiro representa a tristeza; a urtiga faz lembrar a dor e as roseiras simbolizam o amor e a beleza. Os amores-perfeitos estão no quadro para traduzir os pensamentos, enquanto a miosótis recorda a memória e as margaridas a inocência. Destaco ainda as papoilas e violetas que simbolizam a morte.
Outro pormenor digno de nota neste quadro é o pisco-de-peito-ruivo que Millais pintou no canto superior esquerdo do quadro. A peça de Shakespeare fazia referência a ele.

O jogo de luz/sombra é outro aspeto a relevar na análise desta obra-prima da pintura mundial. O fundo é composto de diversos tipos de folhas e sobre elas o pintor derrama luz de intensidade variável o que lhes confere diferentes tons de verde.  
Para pintar este quadro inspirado numa figura de Hamlet, Millais usou camadas finas de tinta sobre uma primeira camada de branco. Essa técnica produziu cores vivas e definidas. Os rais X de análise do quadro revelam que o artista inglês quase nunca fazia correções ao que pintava.
Apesar de todo o cuidado que Millais pôs na realização da sua Ofélia, a crítica não recebeu muito bem esta obra de pintor britânico e as primeiras apreciações foram até jocosas, mesmo entre aqueles que mais admiravam a obra do britânico. Só no século XX Millais foi compreendido e a sua “Ofélia” valorizada, por grandes nomes como Salvador Dali. Um escritor japonês de nome Natsume Soseki considerou-a “Uma obra de considerável beleza” e hoje o seu valor de mercado cifra-se nos trinta milhões de libras.
Mas talvez a maior coroa de glória que óleo de Millais seja o facto de se ter tornado numa imagem iconográfica, usada por músicos, fotógrafos, cineastas, cantores e romancistas.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

AUTO DA ÍNDIA, de Gil Vicente


O texto dramático que os portugueses mais conhecem é, indubitavelmente, o “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, porque os curricula escolares “impuseram” esse conhecimento e esse estudo, em detrimento doutros textos vicentinos. No entanto, alguns docentes optam por trabalhar, com os seus alunos, o “Auto da Índia”.
A peça apresentada à corte manuelina em 1509 cumpre uma tripla função: caracteriza o tempo em que foi escrita, afirma-se como obra intemporal e serve-nos de reflexão sobre os dias que vivemos.
O Auto da Índia” expõe o adultério de Constança (nome altamente irónico), uma mulher insatisfeita com o seu casamento que suspira pela partida do marido para a Índia, em buscas das riquezas que os Descobrimentos prometiam.

Mais que a riqueza que o marido, porventura, poderia trazer do oriente, a Ama deste auto vicentino anseia pela liberdade proporcionada pela ausência do marido, para o trair com um castelhano pretensioso e um português ridículo que a cortejavam.
A facilidade com que Constança se deixa conquistar, a ausência de qualquer sentimento amoroso como justificação para a traição e até o facto de serem simultaneamente dois, os seus amantes, não deixa qualquer dúvida quanto à imoralidade do comportamento da protagonista do “Auto da Índia”.
O adultério é o tema central do Auto e representa categoricamente a dissolução dos costumes em pleno período áureo da História de Portugal.
A crise de valores morais é confirmada pelo destino que Gil Vicente traçou para o marido enganado. O foco não fica na traição de que é alvo, mas na ambição desmedida e tonta que o levou a procurar fortuna nas viagens para a terra da pimenta. Duplamente enganado é alvo de troça do leitor/espectador.
A moralidade e humor da peça estão na frustração completa das expectativas do casal: nem ele regressa rico da Índia nem ela se vê livre do emplastro do marido.
A solução é continuarem a viver uma relação de engano e hipocrisia, muito bem caracterizada pela fina ironia da criada que se refere à patroa da seguinte maneira “Mui virtuosa é minha Ama / um na rua, outro na cama”.


A intemporalidade desta peça vicentina é evidente, pois os temas da ganância e da traição marcaram o ser humano ao longo dos tempos. Não deixa inquietante pensar como os comportamentos humanos são repetitivos, ainda que as circunstâncias se vão alterando. Por mais racional que procure ser o Homem continua a ser muito instintivo.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

ADELE - Set Fire To The Rain




ADELE é daquelas mulheres que parece um vendaval. Um verdadeiro furacão musical que apareceu há seis anos e abalou a música anglo-saxónica. E ao ouvir as suas músicas rapidamente percebemos  a razão.
Adele tem uma voz única, maravilhosa, fantástica. Todavia, ela é muito mais do que uma voz extraordinária. Há uma força apaixonada e determinada que brota das suas composições. Nas suas canções tudo é intensidade, paixão, amor em absoluto.
Cantora, compositora, multi-instrumentista, Adele conjuga letras intensas, apaixonadas e arrebatadoras com uma voz “divina”. Ninguém fica indiferente ao ouvir “Someone like you”, “Rolling in the deep” ou “Set fire to the rain”. A música que esta londrina de vinte e seis anos produz conquistou e continuará a conquistar muitos corações e os críticos mais exigentes porque tem imensa qualidade, porque tem paixão.


Ainda que Adele seja discreta quanto à sua vida privada, percebe-se claramente que o álbum “21” se inspirou nas suas vivências amorosas.
Hoje não me vou concentrar nos inúmeros prémios que a cantora britânica conquistou, os milhões de discos que vendeu, batendo míticos recordes de verdadeiros deuses da música pop. Deixarei para outra ocasião, “someone like you” ou “rolling in the deep” – as duas mais célebres e aclamadas canções da artista – para me concentrar em “Set Fire to the Rain”.
A canção, lançada na curiosa data de 4 de julho de 2011 (o melhor ano da vida da cantora), descreve os elementos contraditórios dum relacionamento amoroso e explica porque falham muitas histórias de amor, por mais fantásticas que sejam.

You and me together, nothing is better
'Cause there's a side to you that I never knew, never knew

All the things you'd say, they were never true, never true






No entanto, a grande força literária desta canção está logo no seu título “Set Fire to The Rain”. Este verso expele toda a poesia, paixão, intensidade que brotam do coração de Adele e no qual se reveem milhões de fãs, no mundo inteiro.
Os versos finais são duma grande intensidade dramática e revelam toda a beleza poética da letra. Adele acrescenta-lhe a sua voz de contralto – potente, arrebatadora, apaixonada – e ambas criam um final apoteótico, quase mágico, mas também misterioso – “Let in burn”

I set fire to the rain
And I threw us into the flames

Well, I felt something died
Cause I knew that that was the last time, the last time, 
oh,Oh, no
Let it burn, oh
Let it burn
Let it burn


Mas o melhor é voltar a ouvir Adele e este SET FIRE TO THE RAIN

Gabriel Vilas Boas