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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

RECEITA DE ANO NOVO


Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra bebida

não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade

domingo, 30 de dezembro de 2018

FRANCO AOS CAÍDOS

Desde que o governo espanhol decidiu que os restos mortais do ditador Franco seriam transladados do Vale dos Caídos para outro local, à escolha dos seus descendentes não tem parado a luta de argumentos entre os partidários e os opositores do ex. ditador espanhol, acerca do acerto da medida.

 A decisão tem causado grande polémica em toda a sociedade espanhola, que desde há muito reclamava sobre o direito do ditador estar sepultado num local onde não devia de estar. 
Argumentavam os opositores de Francisco Franco que ele não era vítima da Guerra Civil espanhola, mas o seu principal fautor. A sua presença era, pois, uma afronta para os milhares de espanhóis que tombaram numa guerra fraticida e que deixou marcas ainda visíveis na sociedade espanhola. Contrapunham os defensores de Francisco Franco que o Vale dos Caídos fora mandado erigir por Franco e lá eram  recordados todos os nacionalistas que tombaram na guerra civil espanhola, sendo Franco o seu incontestável líder.

Há meses, o governo decidiu tirar o que resta do ex. ditador do Vale dos Caídos, mas não lhe deu destino certo. A família queria-o colocar na catedral de Almudena, bem no coração de Madrid, mas o governo do socialista Pedro Sánchez negou-lhe os intentos argumentando com razões de ordem pública, risco de ameaça terrorista, colapso da zona circundante, limitação da liberdade religiosa. o facto é que o governo espanhol teme confrontos entre os partidários e os opositores de Franco, dentro da própria catedral de Almudena.



Um ditador não se venera, mas também não se atira para uma vala comum, pois ele representou, infelizmente, o poder e a vontade de muitos durante longo tempo. 
Quer os espanhóis queiram quer não, ele foi o rosto de Espanha durante quase quarenta anos. Não se suicidou e quis deixar memória de si, do que fez e do seu tempo. 

Houve muitos espanhóis que o apoiaram e que comungavam das suas ideias. Hoje são uma minoria, mas já foram (ainda que através de um silêncio cúmplice) maioria. 

Na minha opinião, cada país deve saber aceitar a sua história, o seu passado, por muito que isso a embarace. Encontrar um lugar digno para Franco é um dever dos espanhóis que amam a liberdade, a paz e a pluralidade de opiniões. A Espanha precisa de enterrar definitivamente Franco, aceitando que o que ele foi como uma parte da sua História.

ALEMÃ COLOCA MARIDO À VENDA NO EBAY

Para além do insólito e do excêntrico, há sempre algo mais a dizer quando uma mulher (ou um homem) resolve colocar o seu cônjuge à venda no Ebay. 
A quantia é um pormenor que nos faz sorrir ou nos obriga a um comentário mais ou menos sarcástico.
Nas últimos dias, uma alemã resolveu colocar o seu marido à venda, no eBay por 18 euros. 
A senhora "Dorte L." descobriu, este natal, que o melhor seria pôr fim à sua relação de sete anos de casamento com o esposo, mas achou que o melhor seria comunicá-lo primeiro aos internautas do que ao marido. Assim como assim, dezoito euros ainda podiam dar para uma pequena compra nos saldos. 
Bem humorada,  a alemã dizia-se disposta a negociar o valor e a fazer a entrega em casa da nova dona, mas não admitia devoluções. 
Há o lado lúdico da história, provavelmente o mais relevante, mas também o simbolismo das relações que se desgastam até se tornarem solúveis. 
Afinal, quanto valemos para a pessoa com quem partilhamos a vida? E quanto vale ela para nós?  

sábado, 29 de dezembro de 2018

A HISTÓRIA REZA POR AMOS OZ


O final do ano traz sempre destas notícias tristes: morreu Amos Oz, escritor israelita insigne e um baluarte na luta pela paz.  
Amos Oz foi um verdadeiro príncipe da palavra e da paz, num contexto marcado pela guerra, pelo ódio, pela incompreensão, como é o cenário do Médio Oriente, desde meio do século XX até aos dias de hoje. 

Apesar de ser um tenaz lutador pela paz, é  guerra que marca a vida deste israelita, nascido em Jerusalém. Desde logo, o ano em que nasceu, 1939, recorda-nos o início  do conflito mais marcante da história da humanidade: a II Guerra Mundial, depois, porque Amos participou como soldado na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Yom-Kippur (1973). 

Essa terrível experiência marcou a sua vida tanto quanto a literatura ou a filosofia, de tal forma que dedicou grande parte da sua existência à defesa da convivência pacífica entre israelitas e palestinianos. 

Espírito superior e com um talento ímpar para a escrita, Amos Oz deixou-nos trinta e cinco obras, das quais destaco, obviamente, Uma História De Amor E Trevas (2002). Várias vezes à porta do Nobel da Literatura, sem nunca o ter conquistado, Oz havia de se empenhar na construção da paz, ajudando a formar o movimento PAZ AGORA, em 1977. Essa defesa intransigente do valor da paz criou-lhe muitos anticorpos dentro do estado hebraico, mas Oz não se importou. Numa entrevista recente disse mesmo que considerava um elogio quando lhe chamavam traidor.

 «Acho que traidor pode ser um título honorífico. Muitos grandes homens e mulheres do seu tempo foram chamado traidores simplesmente porque estavam à frente do seu tempo.»

Infelizmente Amos Oz estava à frente de um tempo onde a guerra ainda é vista como solução. Ao morrer, amargurado e derrotado pelo cancro, a poucas horas de finalizar 2018, Amos Oz deixa-nos os seus belos livros (romances, ensaios, contos, histórias para crianças) e sobretudo o seu exemplo de cidadania, civismo, humanidade e coragem. Verdadeiramente foi esse o lema que adotou para a vida e o apelido para o nome, quando aos quinze anos mudou o apelido de Klausner para OZ, que em hebraico significa "Coragem", "Força". 

Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O MEU CONSELHO É QUE DESISTAS



Na contramão de todos os conselhos de final de ano, o meu hoje é para te dizer que está na hora de desistir. 

Desiste das relações que nunca evoluíram.

Das paixões que nunca passaram de contactos. 

Desiste de deixar a carência sempre dirigir e coordenar a falta de novas experiências.

Desiste do medo de sair do lugar seguro. 

Desiste. 





Desiste dos antigos padrões. Das mensagens sempre iguais. De andar como todo mundo, num efeito manada, vibrando e enraivecendo a belo prazer do colectivo. 

Desiste d
o senso comum, de ser raso, de esperar no lugar de agir.

Desiste das roupas que não te cabem mais. 

Doa. 
Compra novas. Aceita esse corpo agora, porque somos todos transitórios, ainda que amanhã a carcaça pareça melhor. 

Desiste de não olhar profundo, e ir só um pouquinho para não te magoares. 

Sê passo, mas desista de ser só isso. 
Sê também mergulho, salto e voo.

Desiste de tudo o que te deixa longe da sensação de "se eu morresse agora, era assim que eu gostaria de estar vivendo".

Cacau Mila

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A GRANDE ESCULTURA FRANCESA EM EXPOSIÇÃO NA GULBENKIAN


A escultura é uma arte que sempre exerceu um fascínio muito grande sobre mim. 

A forma, quase mágica, como o escultor dá forma humana, animal, espiritual à rocha, ao mármore, ao gesso, ao bronze e a outras materiais fazia-me curvar perante aquele exercício impossível do artista. Sobretudo quando ele trabalhava a pose, imortalizando para sempre um gesto que só alguns fotógrafos ou pintores extraordinários conseguem captar. Por isso, tinha enorme expectativa em ver a exposição que a Gulbenkian exibe este inverno, em Lisboa, de algumas peças dos melhores escultores franceses. Auguste Rodin, Jean-Baptiste Carpeaux, Edgar Degas, Jean-Antoine Houdon sempre foram aqueles monstros sagrados cuja obra nunca tinha tido a possibilidade de ver de perto, de tocar, apreciando cada curva, cada forma, cada expressão demoradamente, de todos os ângulos possíveis. Agora foi possível. Cerca de três dezenas de peças, algumas em tamanho real, destes preciosos artistas, estiveram um par de horas diante dos meus olhos e pude contentá-los. 


O curador desta exposição "Pose e Variações. Escultura Em Paris No Tempo de Rodin" dividiu em quatro núcleo temáticos: a ausência de pose; a figura acocorada; a Maternidade (inevitável), figuras entrelaçadas. 


À entrada a famosa Danáide de Rodin, convidava-nos a observar como o artista trabalha a pose quando ela está ausente.



AUSÊNCIA DE POSE Não é fácil determinar, apenas com base na aparência, se ou na não presença de uma figura que posa. No entanto, os motivos em que a ausência da pose se manifesta são conhecidos desde a Antiguidade. No século XIX, o ensino artístico, baseado no desenho a partir de esculturas ou modelos vivos, não contemplava a inclusão de crianças, pelo que os artistas abordavam o povo com um olhar quase «puro». Na verdade, o modelo infantil encontra na arte de pousar uma dificuldade real. Na maioria dos casos, os artistas recorrem aos filhos. As crianças pousam assim para retratar cenas da vida quotidiana. Elas constituíram uma fonte de inspiração natural, fornecendo significativo reportório de formas e movimentos. Quando podemos ter a certeza que o modelo não pousou? Na infância, no sono, na morte…



FIGURA ACOCORADA Como figura individual, a Flora de Carpeaux representou, no início da década de 1870, a síntese de dois modelos distintos da Vénus Acocorada da Antiguidade: a Vénus no toilete e a Vénus emergindo das ondas, a enxugar o cabelo. A obra de Carpeaux, que aqui se apresenta (uma figura que simultaneamentemente se mostra e esconde num jogo de evidente conotação sexual), inspirou-se num modelo vivo para a representação realista do rosto. A escultura encoraja o espectador a contorná-la e parece surgir como um último suspiro do tipo clássico da figura acocorada.
A escultura Rapaz Acocorado de Miguel Ângelo veio estabelecer um precedente essencial para uma interioridade percetível em figuras, mais tarde, realizadas por Rodin e Camile Claudel.
Esta interioridade, a par da rejeição da figura idealizada, contribuiu decisivamente para que os escultores do século XIX dessem de novo foco a um tema, para o qual a beleza é elemento vital.
A Mulher Acocorada de Rodin veio incorporar a imagem perfeita de uma figura absorta, em estado de transe, executada com a intenção de estabelecer uma relação audaciosa com tradições anteriores da pose de figuras acocoradas.



MATERNIDADE O conjunto de esculturas escolhidas para este núcleo lembra até que ponto a Maternidade está presente na arte francesa na segunda metade do século XIX. Estas cenas foram sugeridas aos escultores em círculos familiares, no seio dos quais encontraram os modelos preferenciais. 


Após a guerra franco-prussiana, a representação da mãe de família tornou-se figura central. Dalou criou várias cenas maternais de que Paysanne française é o protótipo. 

Os temas relacionados à maternidade devem ser relacionados com os modelos canónicos da tradição artística já que Carpeaux, Dalou e Debois revelam formação académica. 
Virtude da teologia católica, a Caridade assume a forma de uma mulher sentada, acompanhada por duas crianças, ao estilo renascentista. A representação reporta-se, obviamente, à Virgem Maria. 
Marcadas pelo contexto social, político e religioso e inspiradas pelas experiências pessoais dos escultores, atravessadas pelas memórias dos mestres do passado, estas representações da maternidade testemunham a capacidade dos artistas em propor uma nova visão de uma iconografia antiga.




FIGURAS ENTRELAÇADAS Qualquer escultura formada por mais de uma figura constitui um grupo. Essa associação coloca de imediato a complexa questão das relações que o artista procurou estabelecer, através do tema da união de dois ou mais corpos. 

Algumas figuras entrelaçadas constituem uma fonte inesgotável na história da arte, como é o caso do grupo Laoconte e Seus Filhos, arquétipo da escultura helénica. A sua influência sobre a escultura maneirista e barroca revelou-se determinante e a obra permanece ainda hoje o exemplo que melhor ilustra o tema do entrelaçado. 

O grupo neoclássico Psique Reanimada pelo Beijo do Amor de António Casanova também contribuiu para a compreensão do tema, que que Rodin o retomou um século à frente em A Eterna Juventude que remete para a célebre escultura O Beijo.
A proximidade na representação dos amantes recorre à pose para efeitos dinâmicos na combinação de duas figuras entrelaçadas e agrupadas num corpo compacto. As figuras de Rodin contribuíram para a explosão da sensualidade na escultura e evoluíram para formas ousadas e originais. 

OS JAPONESES VOLTAM À CAÇA DAS BALEIAS QUANDO DEVIAM CAÇAR A TRADIÇÃO


É raro, mas os japoneses também têm atitudes incompreensíveis e condenáveis. Hoje, acordei com a notícia gelada do seu regresso à caça comercial da baleia, daqui a seis meses, já que agora se preparam para sair de fininho da Comissão Baleeira Internacional (CBI). 
É uma péssima notícia, até porque os japoneses não são só únicos predadores deste imponente e amigável animal marinho, pois tanto noruegueses como islandeses também praticam esse selvagem desporto... com intenção comercial.


Na verdade, este anúncio japonês é apenas o fim de um hipócrita fingimento, dado que os nipónicos nunca pararam realmente de perseguir estes grandiosos cetáceos, mas alegavam que o fazia por razões científicas. No entanto, essa era uma máscara muito transparente, visto que, só nos últimos meses, caçadores japoneses capturaram trezentas baleias jovens, das quais cem eram fêmeas grávidas. Não há investigação que suporte atitude tão cruel e irresponsável!



Mais verdadeiros, agora, os japoneses falam da importância de defender uma tradição centenária, mas essa continua a ser uma desculpa esfarrapada, dado o caminho responsável e sábio que os súbditos do imperador do sol nascente percorreram nas últimas décadas, abandonando práticas enraizadas, quando tal se verificou nefasto.

Os japoneses são suficientemente inteligentes para perceberem que este NÃO é o "Caminho A Seguir". Não necessitarão, certamente, de nenhuma guerra, abalo sísmico ou embargo comercial para o entender, mas "apenas" de um tremor de consciência, que embargue uma tradição que precisa de ser caçada.
GAVB