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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O PODER DA RÁDIO


O poder da rádio é dar asas à nossa imaginação.
Através da voz, desenhamos a objetiva realidade à medida da nossa subjetividade. É a voz que imprime dramatismo às histórias ou as torna divertidas; é a voz que prende ou nos distrai; é a voz que nos guia através dos sonhos ou nos faz mais atentos aos factos.
Hoje é o dia mundial da rádio, essa companheira de muitas horas de insónias, de várias viagens, algumas decisões.

Hoje a rádio vive exilada no carro, onde nos relaxa, aconselha, distraí. Apesar da televisão, da internet ou do smartphone, a rádio não perdeu importância nem encanto. Renovou-se e especializou-se, tornando-se mais intimista.
A rádio aposta tudo na relação de confiança com os seus ouvintes. Essa confiança faz-se tanto da credibilidade das notícias como do bom gosto da música ou da inovação editorial.
        

Nenhum meio de comunicação se reinventa tanto como a rádio. É esse o truque da sua longevidade e sedução. Da informação ao entretenimento, as ideias de comunicação mais fascinantes começam na rádio.


Há coisas que a rádio faz melhor que a televisão, a internet ou os jornais: a rapidez da informação em direto, o poder magnético da música, a companhia de longa duração.   
A rádio é uma espécie de amigo de que nunca nos cansamos e jamais se cansa de nós. Amanhã, quando chegarmos ao carro e colocarmos o cinto, tocaremos ao de leve no seu ombro e diremos o que dizemos sempre,
Então, pronto para mais uma viagem?


Gabriel Vilas Boas

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A ÚNICA COISA ESTÁVEL NA VIDA É A MUDANÇA


Num dos seus mais célebres sonetos, Camões escreveu que “todo o mundo é composto de mudança”, que é como quem diz que a mudança está inscrita no código genético das pessoas e das coisas. No entanto, tememo-la, combatemo-la, difamamo-la até que ela, inevitavelmente, nos vence.
Por que tememos a mudança? Porque é maior o medo de perder o pouco que temos do que a ambição de abrir novos horizontes à nossa vida. A mudança põe-nos em causa, desafia-nos, retira-nos todo o estatuto entretanto adquirido, obriga-nos a recomeçar… A incerteza aterra-nos, desesperadamente.


No entanto, e apesar de todas as resistências e boicotes, a mudança acontece. Na nossa vida, na vida daqueles com quem nos relacionamos, na organização social, nas mentalidades e na natureza. Depois de concluída e verificando-se que ainda não “foi desta que o mundo se acabou”, acharíamos tonta a nossa solene oposição. Riríamos das nossas certezas conservadoras, acharíamos infantis os medos evocados, mas não fazemos esse exercício de humildade, para não perdermos a pose nem a convicção quando nova mudança chegar.


A mudança faz parte da vida, faz parte de nós. É uma inevitabilidade. Verdadeiramente desesperadamente e assustador seria ela ficar suspensa por uns tempos. Não poder mudar de sítio, de emprego, de maneira de ver o mundo; não poder mudar a decoração da casa nem o look das pessoas, não poder mudar de hábitos nem de vícios, não poder mudar de companhia nem de ideologia.
Obviamente que a mudança traz incertezas, pois não é certo que mudaremos para melhor. O bom e o mau dependem da forma como sabemos interagir com as circunstâncias.
Ainda que tenhamos muitos planos para a vida, os planos que a vida tem para nós são quase sempre mais excitantes.
Gabriel Vilas Boas
  

sábado, 11 de fevereiro de 2017

CURRÍCULOS FLEXÍVEIS – ABRIU A CAÇA AO CHUMBO


Quem manda na Educação em Portugal (sejam eles Ministério da Educação ou Diretores Escolares) anda há anos a tentar dizer isto de maneira polida e suave: senhores professores, acabem lá com as retenções dos alunos que frequentam a escolaridade obrigatória, porque isso atrapalha as estatísticas, a nossa imagem, a logística escolar e só cria problemas que não sabemos resolver.

Ora, os senhores professores não gostam de receber ordens, não gostam de fingir que ensinam, não acreditam num Escola onde todos passam de ano independentemente do que trabalham e demonstram saber. A sua noção de escola sempre assentou no resultado, no teste, na avaliação. Jamais perceberão uma escola onde os obriguem a passar alunos, porque atingiram o limite de idade para aquele ciclo, mas é isso que acabará por acontecer.

A partir do próximo ano letivo entrará em vigor a flexibilização curricular para os alunos do 1.º, 5.º, 7. E 10º anos, ou seja, os anos iniciais de ciclo. Daqui a três anos esta flexibilização atingirá todos os alunos. Não será em todo o currículo, pois a medida apenas abrangerá 25% do currículo.
Arrisco dizer que a medida não abrangerá da mesma maneira todos os alunos. Tenho a convicção que a medida visa retirar, do currículo das turmas com acentuados problemas de aprendizagem, certas disciplinas, que exigem mais estudo e substituí-las por outras mais práticas e das quais seja possível esperar maior sucesso escolar.
Claro que haverá turmas em cuja flexibilidade curricular não se fará sentir – são aquelas cujos alunos competem por uma vaga nos cursos mais concorridos do ensino superior, mas estas serão poucas no ensino público.

Esta medida será «vendida» aos professores como uma maneira de manter os alunos na escola, o que lhes será benéfico; para a sociedade em geral, o ME dirá que tenta ajustar-se à realidade e diminuir drasticamente a taxa de retenções no 3.º ciclo e ensino secundário assim como o precoce abandono escolar.
Para os Diretores Escolares, esta medida será música celestial: vão poder mexer no corpo docente a seu belo prazer, ganhando ainda mais poder. O professor X anda a reprovar muitos alunos? Mostra-se inflexível quanto aos conselhos que o Diretor lhe dá? Não há problema – faz-se uma flexibilização curricular das turmas que ele leciona, para o próximo ano letivo.
A flexibilização curricular, no papel, é uma excelente ideia, mas temo que vá ser muito mal executada. Ela assenta numa noção de escola que tem como premissa um conhecimento diversificado e prático. Quem a vai executar só conhece e só admite um modelo de Escola totalmente baseada no resultado.
P.S. Mais uma vez os professores, os sindicatos, os pais riscaram zero nesta medida que vai mudar a configuração da Escola, a partir do próximo ano letivo.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

PORTUGAL TEM ORGULHO NO PORTO? E O PORTO ADMIRA O SEU PAÍS?


Pela terceira vez, a cidade do Porto foi eleita o melhor destino turístico europeu de 2017, numa votação à escala mundial, organizada pela European Best Destinations, uma organização que promove a cultura e o turismo na Europa.
A cidade portuguesa ficou à frente de Milão, reconquistando o galardão alcançado em 2012 e 2014. O Porto foi a cidade mais votada em França, Reino Unido, África do Sul, Coreia do Sul, Suécia, Canadá.
Obviamente os portuenses têm de estar felicíssimos com esta distinção, que os enche de orgulho assim como ao país. Ou pelo menos devia. 
Como é que o país olha para este prémio conquistado pela segunda cidade mais importante do país? Com alegria ou com indiferença? Com inveja ou com satisfação?

O primeiro-ministro deu publicamente os parabéns à cidade e fez questão de mencionar o prémio, mas o mais certo é que ele passe um pouco ao lado da rua principal das notícias do dia.
Muitas vezes os portuenses sentem, e com razão, que os seus feitos não são valorizados, que as suas gentes, costumes e monumentos não são promovidos e acarinhados devidamente. É possível que tenham alguma razão, mas também é verdade que a cidade sempre procurou afirmar-se pelo confronto, pelo primeiro «nós» e só depois o país, pela reivindicação constante.
Ora o Porto ficou mais bonito e atrativo quando se abriu ao mundo, deixando de lado o confronto com a capital, procurando vender-se sem apoucar os outros. Hoje o turista chega ao Porto e ninguém lhe esconde o Minho ou o Douro. O Porto vende-se (turiscamente falando) e sabe promover o resto do país. É claro que a bondade portuense ainda só se estende à região norte, mas creio que em poucos anos, quem chegar ao aeroporto Sá Carneiro receberá bastante informação de Coimbra, Viseu, até de Lisboa.

Para quem chega de outro país não percebe que uma cidade desvalorize outra cidade do seu país. Esta é a das maiores fraquezas que se podem apontar ao turismo português. Um turista alojado em Lisboa tem que ser seduzido a conhecer o Porto e vice-versa.
A rivalidade entre as duas principais cidades portuguesas só é salutar e benéfica para o país quando dotada de racionalidade. 
Além da conquista de turistas estrangeiros, o grande desafio que se coloca ao Porto é conquistar os turistas portugueses. Eles virão mais vezes quando deixarem de ouvir que o «Porto é o maior» ou a «melhor parte» do país e passarem a ouvir que o Porto é uma das partes mais belas e charmosas do país.

Melhor que suscitar inveja, é provocar admiração.
GAVB

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A VERDADE CRUEL OU A MENTIRA PIEDOSA?


Se as opções não tivessem adjetivos, nem havia dúvida, mas o mundo, felizmente, não é a preto e branco e, por isso, a vida é um desafio permanente.
Certamente esta questão já nos assaltou muitas vezes e, ainda que possamos ter uma inclinação por uma das soluções, é provável que a maioria de nós já tenha optado pelas duas.
A dúvida existe quando colocamos na balança da nossa decisão fatores tão importantes como a nossa consciência, a importância que atribuímos ao conceito de verdade (em sentido restrito), o efeito que as nossas palavras terão no outro, as repercussões colaterais da nossa «revelação», o melindre da situação, os problemas que a situação revelada nos pode acarretar...
No meio de tantas dúvidas e incertezas, lá acabamos por decidir, até porque, na maioria dos casos, nada fazer é tomar uma decisão.

A questão que me coloco é: Qual é o fator decisivo na nossa tomada de decisão-padrão? Foi o bem do outro ou a nossa cobardia? Foi o nosso desejo mauzinho de ver a vida do outro em estilhaços ou a gravidade da situação? Foi o nosso conceito de Verdade ou o nosso sentido de lealdade/amizade? Foi perverso pensamento de futuros ganhos pessoais ou um jeito inato para fazer de elefante em loja de porcelanas?

Olho novamente o dilema – Verdade cruel ou mentira piedosa – e concentro a minha atenção apenas nos adjetivos: piedosa e cruel. Às vezes é só isso que decidimos ser, ainda que inconscientemente.

Perceber quando os outros precisam de crueldade ou piedade é uma tarefa difícil, especialmente porque nos habituamos a pensar muito em nós e pouco neles. «Se fosse eu, gostava que…», pois.. mas não somos nós! E mesmo quando somos nós, nem sempre gostamos que usem de crueldade nem sempre gostamos de usem de piedade.
Mentira piedosa ou verdade cruel? O dilema há de perdurar no tempo, mas se tivermos mais noção daquilo que motiva a nossa decisão talvez ela custe menos, talvez ele comece a ser diferente.

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

CUIDADO COM A LUXÚRIA


A Luxúria é o tema central deste quadro de Jan Steen, datada da segunda metade do século XVII (c.1663).
Muitos quadros de pintores holandeses abordam esta temática e Jan Steen não foge a ela, alertando para os perigos de um dos sete pecados capitais.
A pintura de Steen está cheia de referência a provérbios, e esta faz alusão ao especial cuidado que devemos ter com a Luxúria. 
Nesta pintura, mostra-se uma dona de casa adormecida e rodeada de vários exemplos de intemperança e descuido. Dois amantes (a posição da perna do homem sobre o joelho da mulher não deixa muitas dúvidas…) bebem vinho. É este mesmo homem que ri de uma mulher que protesta com a imoralidade óbvia, mas não repara noutro homem (com um pato empoleirado no ombro) que se coloca mesmo na sua frente.

Autorretrato - Jan Steen
A simbolizar a punição, a que certamente faz referência esta severa mulher, estão a espada e as muletas, que o pintor colocou mesmo por cima da cabeça dos amantes.
O vinho a cair de um jarro abandonado no chão e de um barril sem rolha; um cão a comer, em cima da mesa, os restos de uma refeição; uma criança que deixa cair a tijela ao chão, sem que ninguém parece importar-se, são outros elementos que indiciam veementemdnte o desleixo, o descuido moral a que o quadro de Steen quer aludir.


Mas há mais: ao fundo da cena, uma menina rouba objetos de um armário, um macaco pára o relógio e um rolo cai da lareira, ao mesmo tempo que um porco fareja as rosas abandonadas no chão pela amante.

Normalmente as pinturas que abordam a temática da luxúria apresentam figuras ricamente vestidas, sentadas à volta de uma mesa, em poses sensuais e/ou desleixadas, rodeadas de objetos sumptuosos. O objetivo era alertar para a futilidade das coisas terrenas e advertir contra o desperdício.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

QUEM É O PAI DA CRIANÇA?


A pergunta volta a fazer sentido, porque o número de filhos de pai incógnito aumentou muitíssimo em 2016. Só no ano passado foram mais de 800, quando em 2015 não tinham atingido os 500.
Desde de 1977 que a legislação portuguesa não permite que uma criança fique sem pai, por isso, quando a mãe não indica o pai ou o pai não assume a paternidade do filho procede-se a um obrigatório processo de investigação de paternidade.
Até há uns anos os casos eram poucos, no entanto nos últimos cinco anos o número tem vindo a subir paulatinamente até «disparar» em 2016.
         Às razões de sempre acrescenta-se o caso de casais de mulheres que recorreram à procriação médica assistida no estrangeiro, o que exigirá uma pequena afinação legal.

Sempre achei a questão da identidade como um direito fundamental e inalienável, que não pode depender dos humores e ressentimentos da mãe nem da cobardia do progenitor ou do relaxamento das instituições que têm de fazer andar o processo de averiguação de paternidade.

A lei devia estabelecer sanções severas para quem atrasa um processo que tem tudo para ser simples e objetivo. A mãe tem a obrigação de indicar quem é o pai ou quem suspeita que possa ser, por muita vergonha social que isso acarrete. Essa exigência não deve ser menor à do pai em assumir a paternidade.
O pai é rico e poderoso e aquela criança foi um «acidente muito inconveniente»? Aquela gravidez foi um engodo premeditado, por parte da mãe, para retirar dividendos económicos? Paciência, a criança nada tem a ver com isso, o Estado nada tem a ver com isso e a criança tem de ser registada com o nome do pai e da mãe.
O Estado tem ao seu dispor meios altamente dissuasores para que não nasçam, em Portugal, duas crianças por dia que ficam sem o nome do pai no registo. E depois de determinada a paternidade, seu registo deve ser automático.

Gabriel Vilas Boas