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terça-feira, 7 de abril de 2015

BILLIE HOLIDAY

Faz hoje cem anos que Billie Holiday nasceu; aquela que é por muitos considerada a melhor cantora de jazz de todos os tempos.
Billie Holiday deu à vida o melhor jazz que uma mulher cantou e a vida retribui-lhe com a mais amarga má sorte que alguém pode ter. A vida de Eleanora Fagan Gouth é um tratado sobre o infortúnio.
Filha de pais adolescentes, violada aos dez, mendigando por comida aos doze, prostituindo-se aos catorze, Eleanora interrompe o calvário existencial, aos quinze, quando um pianista lhe pergunta se não teria jeito para cantar.
Quando o crítico musical John Hammond reparou no seu talento perdido em bares noturnos, o mundo começou a conhecer uma voz maravilhosa que elevou a categoria do jazz.
Quem a ouvia rendia-se àquela voz rouca, profunda e sensual, onde escorriam palavras cheias de musicalidade e emoção. Os apreciadores de jazz pediam-lhe para emparceirar com os deuses do jazz porque ela pertencia à realeza. 
Já na condição de diva, cantou entre brancos numa América racista, atraiu Louis Armstrong e sobretudo Lester Young, com quem gravou mais de cinquenta canções. Nessa altura Eleanora já era a divina Billie Holiday, que cantava “Love Me or Leave Me”, “Strange Fruit”, “Blue Moon” ou uma curiosa “All of me”, cuja letra cito parcialmente:


Why not take all of me?
Can't you see?
I'm no good without you
Take my lips
I want to lose them
Take my arms
I'll never use them




Todavia a vida continuou a ser indecente com Billie. Falhou casamentos e amores, encontrou a bebida e as drogas que a levaram à morte precoce que parecia ter escrito no código genético.
Como uma qualquer canção de jazz, a sua vida foi um improviso, onde o talento sucumbiu à desgraça.
No tempo de Billie não havia HD e o som não era captado nas melhores condições, mesmo assim sabe bem ouvir um jazz interpretado por Billie Holiday, porque, como diria James Bound, os diamantes são eternos.
Gabriel Vilas Boas


segunda-feira, 6 de abril de 2015

AO SOM DE... PERDIDAMENTE, Trovante


Florbela Espanca escreveu a mais bela definição de Poeta; Luís Represas e os Trovante transformaram o soneto da poetiza numa das mais belas canções de amor da língua portuguesa.
Como já havia acontecido com "Pedra Filosofal" de António Gedeão, a música é o tsunami que invade os corações humanos e não deixa pedra sobre pedra no reino das emoções.
Talvez por isso muitos milhares de pessoas saibam de cor a parte final da composição poética de Florbela Espanca: “E é amar-te assim perdidamente… /É seres alma, sangue, e vida em mim…/ E dizê-lo cantando a toda a gente!”

Represas, melhor do que ninguém, encontrou a chave do poema de Florbela: o Amor.
Ao ouvir Luís Represas ou os Trovante percebe-se que é sobre esse “Rei de Aquém e Além Dor” de que Florbela escreve sempre.
Claro que a poesia nos faz voar como um condor até ao infinito, numa sede perpétua, mas a poesia serve o Amor, como um escravo serve o seu Senhor.
Não foi por acaso que Represas alterou o nome à canção não alterando uma vírgula ao poema. Musicalmente, o texto de Florbela Espanca é perfeito. O ritmo, a sonoridades das sílabas, as palavras-chave distribuídas a preceito, um final apoteótico.
O tempo passou pelo soneto e pela música e revelou a extraordinária beleza que ambos tinham. Como dois diamante raros são usados em ocasiões especiais para dizer a coisa mais importante do mundo.
A música e a poesia são uma sociedade perfeita para criar magia entre as pessoas. “Perdidamente” é uma perdição para quem gosta de música, de poesia, da vida e do Amor.


"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!"


domingo, 5 de abril de 2015

(RE)DESCOBRIR A PÁSCOA



No dia 5 de abril de 1722, o explorador neerlandês Jacob Roggevven descobre a ilha da Páscoa, perto do Chile. Ficou com esse nome porque foi descoberta num dia de Páscoa como o de hoje.
Numa era em que o conhecimento está à distância dum click mas longe do coração, ocorre-me, enquanto cristão, que precisamos de (re)descobrir o sentido da Páscoa.
A Páscoa é o coração do Cristianismo. Afirmar a Páscoa é afirmar o cristianismo de cada um. Com o passar dos anos, a tradição vai resistindo à erosão dos tempos, mas a negligência dos cristãos tem secado a sua essência.
A Páscoa devia ser um grande momento de afirmação dos cristãos, de júbilo entre todos aqueles que acreditam que Jesus é Deus e fazem da religião cristã um elemento fundamental das suas vidas. Se cada cristão refletir, honestamente, sobre os momentos mais significativos do “seu” ano, verá que a Páscoa não ocupa nenhum desses lugares.

A religião tradicional e ritualista dos nossos pais trouxe-nos até aqui. Talvez nos tenham trazido com um venda nos olhos, negando-se a analisar as razões duma fé construída na tradição dos antepassados, mas guiaram-nos com o coração duma crença íntegra.
Nós tirámos a venda e descobrimos as imperfeições da Perfeição, mas não nos afastamos, porque Deus é a nossa casa, onde regressamos sempre que nos sentimos sós ou a vida no corre mal. Só que não cuidamos da casa e temos relutância em afirmar que a ela pertencemos.
Envergonhados pelo exemplo que não damos, deixamos de explicar aos nossos filhos o que significa a Páscoa. Alguns perguntarão aos avós quem são aqueles senhores que entraram lá em casa a proclamar que “Cristo Ressuscitou! Aleluia! Aleluia”, mas a explicação será apenas mais uma que o cérebro deglutirá e não haverá tempo para aprender nada com o coração.

Agora que o Papa Francisco conseguiu travar aquele sentimento de vergonha que muitos cristãos tinham em se afirmar como tal, há ainda muito trabalho por fazer. Fazer regressar muitos daqueles que partiram para não voltar e, sobretudo, viver segundo as coordenadas essenciais do cristianismo é uma missão difícil, mas possível!

Não podemos é esperar que seja um senhor de 78 anos a fazer tudo sozinho. Começar por explicar e viver a Páscoa, com simplicidade cristã é um bom começo e um bom exemplo.
Gabriel Vilas Boas

sábado, 4 de abril de 2015

MARTIN LUTHER KING


A par de Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King é uma das grandes figuras do século XX. Há 47 anos foi assassinado em Menphis, aonde se tinha dirigido para apoiar uma greve dos trabalhadores dos serviços sanitários.
Os seus discursos são autênticos tratados de oratória moderna, mas a força de Luther King vinha das suas ações. Ativista político, o pastor evangélico que nasceu em Atlanta, tornou-se no mais sublime defensor dos direitos das mulheres e dos negros, nos EUA.
Luther King dedicou a sua breve vida a combater o preconceito e o racismo, adotando uma atitude pacífica mas determinada e ativa. Ele achava que o amor, a fraternidade entre os homens era a chave para alcançar um bem inegociável: a igualdade de direitos sociais e económicos.  
Martin Luther King era inspirador no discurso e mobilizador na ação. A sua vida tinha coerência, por isso foi conseguindo resultados.
O homem que costumava começar os seus discursos pelo celebérrimo “I have a dream”, ensinou-se que os sonhos foram feitos para se concretizarem. No entanto, advertiu que estes não se fazem por obra do acaso. Nesse sentido, alertou as suas gentes para a necessidade de ter um ideal por que lutar: “Se um homem não descobrir algo por que morrer, não está preparado para viver.”
Ter um ideal de vida é a melhor maneira de fugir ao conformismo, que deixa que os outros decidam a nossa vida. Antes de apontar aos inimigos, Martin Luther King mobilizava os amigos: “o que mais me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos que não têm ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”.

  Apesar de visceralmente pacifista, o pastor norte-americano não virava a cara à luta nem se intimidava quando estava em minoria. Certo dia chegou mesmo a declarar que são as minorias que transformam as sociedades. No entanto, estas precisam duma estratégia e dum líder. E para Martin Luther King um líder não era aquele que buscava o consenso a todo o custo. Para ele, o líder deve moldar o consenso aos ideais que pretende atingir e não abdicar deles por causa dum falso consenso.
            O líder dos negros norte-americanos buscava a justiça e tinha uma linha de ação para as situações de conflito que procurava seguir criteriosamente: “Um ser humano deve desenvolver, para todos os conflitos, um método que rejeite a vingança, a agressão e a retaliação. A base para esse tipo de método é o Amor.”
            Um homem tão superior e sábio tinha de granjear ondas de paixão, mas também de ódio. Com determinação foi transformando a sociedade em que vivia sem nunca se deixar intimidar. A sua ação política e social ajudou ao derrube de muitas leis segregacionistas, que vigoravam nos EUA a meio do século XX.
Em 1964, recebeu o Prémio Nobel da Paz, pois a sua ação na defesa dos direitos cívicos dos negros era já reconhecida pela comunidade internacional. Morreu antes do tempo, mas viveu o suficiente para nos iluminar o caminho com o seu exemplo, a sua coragem, os seus valores.
Gabriel Vilas Boas   

sexta-feira, 3 de abril de 2015

OBRIGADO, MANOEL DE OLIVEIRA



A vingança é um sentimento mais forte que o amor. Infelizmente!”
 Manoel de Oliveira

Na última vez que Manoel de Oliveira celebrou o seu aniversário escrevi no “sete pecados imortais” que ele era o cineasta eterno. Trata-se obviamente duma hipérbole que pretendia chamar a atenção do leitor para a longevidade do mais antigo realizador de cinema do mundo.

E começou por aí a rendição do público português a Manoel de Oliveira. Como era possível que aquele velhinho ainda filmasse? Como era possível que continuasse a fazer aqueles filmes que poucos portugueses viam, aos noventa, aos cem anos de idade? Depois havia “aquela coisa” dos prémios em Veneza, dos entendidos em cinema, que, recorrentemente, achavam por bem premiar mestre Oliveira e a sua obra, que acompanhavam, ao contrário dos seus compatriotas.


E como sempre achamos que tudo o que era estrangeiro é que era bom, passamos a dizer que Oliveira era genial, um senhor, um homem da cultura e da arte, que Portugal estava muito honrado com a sua obra, blá, blá, blá… mas continuávamos sem ver os filmes que Manoel de Oliveira criava.
O cineasta portuense sabia perfeitamente que terreno pisava. Era um troféu que governantes, empresários, atrizes e atores gostavam de exibir em eventos sociais. Nesses momentos evitava falar profundamente sobre os seus filmes para não constranger ninguém. Como dizia uma atriz que trabalhou com ele desde nova, Oliveira era um gentleman, dotado duma educação fora do comum, um humanista.

Há dois meses, Manoel de Oliveira dizia a uma publicação francesa que no seu país (Portugal) era visto com indiferença, que tanto fazia aos portugueses que filmasse ou deixasse de filmar. Imagino a perplexidade da jornalista, mas Oliveira não se estendeu na mágoa, nem puxou dos galões, das homenagens de lata que muitos lhe puseram ao peito. Ele sempre nos percebeu tão bem!
Estamos no nosso direito de não gostar do cinema de Manoel de Oliveira, mas podíamos ter gasto algum do nosso ocioso tempo a tentar percebê-lo. Para isso é preciso ver a sua obra, sem a venda do preconceito estético. Gostemos ou não do estilo, há muito beleza nos filmes do autor de “Aniki-Bobó”. Obrigava-nos a reparar nas paisagens, nos rostos, nos silêncios que invadem pessoas, lugares, momentos. Achávamos que isso era um aborrecimento, porque, para nós, cinema era (é) movimento. Manoel de Oliveira contrapunha: “O movimento não existe. O que existe são as coisas a moverem-se no espaço. E isso ocupa tempo.” Talvez tivesse razão. Não acho que fizesse aquela gestão do tempo nos seus filmes porque vivia noutra era, mas porque era assim que entendia o cinema. 


 Outro dado relevante no cinema do realizador de “Velho do Restelo” (2014) é que ele gostava de filmar a História de Portugal da perspetiva da derrota. Numa entrevista ao Expresso chegou a dizer: “A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade e não é senhor do seu destino.”
Podemos não concordar com ele e ter outra perspetiva da vida, mas para o refutar tínhamos de ter visto o que realizou. E, na verdade, não estivemos para isso. Se o tivéssemos feito, talvez percebêssemos que era um desafiador: “O que eu proponho é a dúvida. A dúvida é uma maneira de ser.”
Ele sabia que o cinema lhe dera uma visão da vida, mas que esta continuava o que sempre fora: um enigma. Para Manoel de Oliveira o mundo continuava complexo, incompreensível. Talvez por isso tenha filmado até morrer, porque o cinema era a sua maneira de o tentar compreender.


Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 2 de abril de 2015

CRISTO NA CRUZ, DE BOSCH (Pintura Flamenga dos séculos XV e XVI)

Na semana anterior trouxe-vos uma panorâmica geral dos Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica, de que faz parte o Museu de Arte Antiga, onde podemos apreciar alguns dos mais belos exemplos da pintura renascentista flamenga dos séculos XV e XVI. Tendo em conta o momento pascal que atravessamos decidi escolher uma das obras que o Museu de Arte Antiga de Bruxelas acolhe com muito orgulho: o Cristo na Cruz, de Bosch
Hyeronimus van eken BOSCH (1450-1516) é um pintor e desenhador flamengo cuja obra foi catalogada como «estranha» e «mística». Pertencia a uma família de artistas e a sua pintura caracterizava-se pela extraordinária fantasia que se encontra tanto nas composições com uma atmosfera de pesadelo como em outras de fina ironia.

Cristo na Cruz, óleo sobre madeira (75X61X1,5), de 1490
Esta obra representa um momento da paixão de Jesus Cristo, quando este foi crucificado no monte Gólgota, segundo as Sagradas Escrituras. À sua esquerda está a Virgem Maria com São João Evangelista. À sua direita encontra-se o doador da obra, que está ajoelhado em atitude de oração, acompanhado por S. Pedro. Este último faz alusão ao nome de batismo do doador. No chão estão espalhados os ossos e a caveira de Adão, sobre os quais se ergue a cruz em sinal de Redenção pelo pecado original.
Um corvo, à esquerda, assinala a morte de Cristo. Ao fundo, a paisagem está descrita de forma pormenorizada e representa uma cidade flamenga, tal como era característico da pintura do momento, que representava através das paisagens religiosas a própria vida da Flandres.
A pintura pertence ao período médio de Hyeronymus Bosch, quando a sua obra ainda apresentava alguns convencionalismos. Contudo, a tábua afasta-se da simetria e do estatismo, estando repleta de tensão, o que antecipa o tipo de pintura que passará a fazer durante o século XVI.
Para terminar chamo a atenção para dois pormenores relevantes no quadro de Bosch

       A caveira de Adão era frequente surgir nas representações flamengas da Crucificação. Segundo a tradição popular, Jesus foi cravado em cima da caveira de Adão, redimindo assim o pecado original.



São Pedro aponta para o doador, apresentando-o ao Senhor. Nas pinturas flamengas, o santo patronímico acompanhava sempre o doador.   





Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 1 de abril de 2015

DIA DAS MENTIRAS


Quando uma brincadeira se institucionaliza deixa de ser brincadeira. E uma brincadeira tornada coisa séria não tem piada.
Devia ser proibido lembrar que o dia um de abril é o dia de pregar uma peta bem pregada aos incautos desta vida. Primeiro, porque é muito mais difícil fazê-lo, depois, porque com tantos avisos sentimo-nos muito tolos em cair em qualquer facécia.
No entanto, a grande tristeza do Dia das Mentiras é a concorrência que passou a ter de todos os outros dias do ano. Há muito tempo que mentir deixou de ser uma inocente brincadeira para se tornar numa infeliz e corriqueira normalidade. Regularmente usada para retirar qualquer tipo de vantagem, a mentira instalou-se definitivamente no quotidiano e tem tornado as pessoas infelizes.

Piedosas, “necessárias”, descaradas, maldosas, oportunistas, as mentiras causam quase sempre dano a quem atingem. Mentir tornou-se demasiado fácil e indolor. Deixou até de ser uma arte, pois a maioria das pessoas tende a descrer de muito do que ouvem ou lhe prometem.
A mentira tornou-nos seres mais reservados e infelizes, porque gostamos de acreditar e confiar nas pessoas, já que isso é um sinal de amizade.
Se olharmos com atenção, verificamos que a maioria das “mentirinhas” que pregamos no dia-a-dia é desnecessária e perigosa. Elas destroem muito e asseguram pouco, quando asseguram…
Não temos obviamente que contar tudo a toda a gente. Há assuntos que só a nós nos dizem respeito, mas o convívio entre as pessoas melhora bastante quando existe confiança sobre a veracidade daquilo que se conversa.
A mentira devia ser apenas uma brincadeira do dia 1 de abril. De tal maneira inocente que nos levasse a sorrir com a partida que nos pregaram.

Gabriel Vilas Boas