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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

OS AMIGOS DEIXARAM DE JANTAR LÁ EM CASA


Não deixámos de conviver com os amigos, deixámos de os convidar para jantar lá em casa.
Os jantares sem hora para acabar, onde histórias antigas se cruzavam com as novidades que cada um se dispunha a contar da sua própria vida, passaram a realizar-se (quando acontecem) no restaurante da moda ou da memória.
Agora os momentos de intimidade entre amigos de longa data acontecem ao telefone ou no chat do facebook. A casa passou a ser demasiado íntima, até para os nossos principais amigos. Não, não é o trabalho que dá preparar um jantar, nem a chatice da loiça no final para lavar ou a sala que ficou pequena desde a última vez, em que os convidámos.

Preferimos este terreno neutro do restaurante, porque há um mínimo de compostura que se mantém num sítio público e porque há assuntos que convencionamos não abordar num sítio indicado para celebrar. Preferimos o telefone ou a internet, porque tememos que nos escrutinem o olhar e descodifiquem os sinais que a face transmite.
A amizade tem memória de elefante e curiosidade de mulher. Conhece o significado do quadro pendurado na parede; repara nas cadeiras que já faltam à volta da mesa de jantar e quer saber por que raio deixámos de fazer sobremesa, ao sábado à noite.
Consciente ou inconscientemente, fomos mudando os hábitos à amizade. Tornámo-la mais sofisticada, aparentemente mais íntima, na verdade, gerida com telecomando.
Mais ou menos equipada, mais ou menos arrumada, a casa passou a ser o local da nossa intimidade não revelável. O sítio onde as emoções, os segredos, os sonhos e as preocupações passeiam à solta sem que ninguém os incomode, sem que ninguém os questione.
E isso não nos atira às garras da solidão? Claro que sim! Quando não atendem o telefone ou o cardápio do chat não é suficientemente atrativo para as necessidades do momento, refugiámo-nos numa ficção qualquer, frente ao ecrã, mas não nos passa sequer pela cabeça convidar um amigo para a próxima noite de folga.

Gabriel Vilas Boas 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ESTAGIÁRIO A FAZER DE OTÁRIO


Há um mês escrevi um post irónico intitulado “Os Patrões Exigem”, onde pretendi destacar a atitude algo arrogante do patronato português no diálogo que mantinha com o governo da República, tratando-o como se este fosse um seu subordinado. Esta semana, o Conselho Nacional da Juventude denunciou uma prática ilegal e, sobretudo, imoral de alguns patrõezinhos portugueses sobre os jovens estagiários.
Para incentivar a contratação de jovens licenciados, o governo patrocina o seu salário em cerca de 700 euros, cabendo ao empresário apoiado acrescentar cerca de 50% deste valor à folha salarial do estagiário de maneira a que este jovem, altamente qualificado, tenha um salário minimamente compatível com as suas competências e habilitações.
E o que fazem os espertalhões dos patrões? Obrigam os seus jovens empregados estagiários a deslocarem-se ao multibanco e levantarem cerca de 35% do valor atribuído pelo Estado e a entregá-lo em numerário (para que não haja provas da marosca) à empresa onde trabalham. Os jovens estagiários têm ainda de pagar do seu bolso a totalidade do desconto para a Segurança Social quando o que diz a lei a esse respeito é que o pagamento tem de ser solidário entre empregado e empregador.

Com este esquema, o estagiário trabalha por 65% do valor que supostamente é o seu salário e estes patrões pagam pouco mais de 150 mensais por um trabalhador altamente qualificado. Se fizermos as contas ficam a um euro por hora.
Esta trafulhice, esta completa subversão das regras de apoio à contratação de jovens licenciados passa impune porque os jovens atingidos estão numa posição de enorme fragilidade, caso denunciem o esquema ilícito, e têm dificuldade em prová-lo porque o dinheiro entre em numerário na empresa.
Lamento que o governo e  as autoridades fiscais não atuem rápida e eficazmente sobre estes espertalhões, que os sindicatos não amplifiquem a denúncia do CNJ e, especialmente, que o meu país tenha este tipo de “empreendedores” que são um exemplo de sucesso neoliberal à maneira chinesa.
Esta gente nunca empregará um único estagiário como nunca fará crescer a economia. Acredito que estes patrões de vão de escada enriqueçam, mas à custa do esforço e competência dos outros e da inoperância do Estado, que se deixa comer por lorpa. 
Esta é a gente que adora falar em colaboradores em vez de trabalhadores, que abomina contratos de trabalho, mas está sempre a reivindicar apoios estatais às suas prósperas contas bancárias.

Gabriel Vilas Boas 

sábado, 11 de junho de 2016

AS PESSOAS SENSÍVEIS


11 de junho de 1999 – Sophia de Mello Breyner ganha o PRÉMIO CAMÕES,  o maior galardão da literatura portuguesa.
Dez anos após Miguel Torga receber o primeiro galardão, Sophia via reconhecida toda um vida literária de exceção, onde a figura da mãe criou uma contista de livros juvenis “exemplares” e a mulher transbordava sensibilidade e coragem, na denúncia de um país reprimido.
A poesia de Sophia é ímpar. Ao lado da temática do amor, há a audaz crítica social, onde a ironia era uma arma própria de gente sábia. Recupero hoje um dos poemas que mais aprecio.

 PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a podre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Por não tinham outra
O dinheiro cheira a podre e cheira
 A roupa 
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra



«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo,
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas
Ó cheio de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
                                                                                               Sophia de Mello Breyner, in Livro Sexto, 1962


Todo o poema é uma crítica mordaz e sonora à hipocrisia daquelas pessoas que fingem uma santidade e retidão inquestionáveis e vivem despudoradamente à custa dos outros.
A ironia marca o tom do poema desde a primeira estrofe, que assumirá contornos mais duros nos versos seguintes, quando a poetiza cataloga como podridão moral a atitude daqueles que vivem à custa do suor (trabalho) dos outros.

A tripla apóstrofe anafórica da penúltima estrofe é um grito de revolta e indignação da poetiza perante todos aqueles que conscientemente (“por eles sabem o que fazem”) se ufanam de grandes virtudes quando aplicam os piores sofrimentos a gente indefesa e humilde.
Sophia termina como começou: irónica, porque não acho que deseje o perdão de Deus para estas “pessoas sensíveis”. Afinal elas sabem bem o que fazem e nós também sabemos.
Há mais de cinquenta anos que o sabemos como Sophia sabia e por isso, incomodada, o denunciou. Valeu de muito pouco, porque continuamos estupidamente sensíveis a pessoas hipocritamente sensíveis.

GAVB

sexta-feira, 25 de março de 2016

PRECÁRIO, O CLANDESTINO LABORAL E SOCIAL


A precariedade no emprego é um dos grandes flagelos das sociedades atuais. Ano após ano, atinge cada vez mais pessoas, porque as teorias neoliberais fizeram, sem o dizer, da precariedade um elemento fundamental das relações laborais.
Em Portugal, por exemplo, cerca de 80% dos novos contratos são precários. É um número assustador! O grande problema da precariedade moderna é que foi feita para se tornar permanente, sem que tal fosse absolutamente necessário, mantendo o trabalhador num estado de pressão psicológica e à mercê de propostas imorais e indecentes.

Ao contrário do que se diz, a precariedade não assenta só e sobretudo numa lógica económica. As melhores empresas mundiais não mantêm com os seus trabalhadores esse tipo de vínculo laboral nem as economias de referência assentam o seu desenvolvimento nesse paradigma laboral.
Qualquer patrão sabe que o precário é um sobrevivente e que aceita aquelas indignas condições laborais por necessidade. Poucos patrões investem na formação profissional de um precário, os salários são os mais baixos do mercado, os direitos mínimos (e ainda assim aldrabados). É claro que estes empregadores apenas pretendem usar aquela mão-de-obra barata, por algum tempo e deitá-la fora à primeira contrariedade ou oportunidade de negócio. O precário é um número, não uma pessoa. Dá imenso jeito para enriquecer em tempos de prosperidade e é extramente fácil de alijar em tempos de vacas magras.

Na minha opinião, os precários são mais vítimas do novo ordenamento social que se pretende criar do que consequência absoluta da globalização. A democratização dos regimes políticos, a educação das sociedades e a constante circulação das pessoas entre países fizeram crescer no ser humano um sentimento de liberdade e igualdade que se tornou intolerável e perigosa para muita gente habituada a privilégios injustificados. Ora, antes que esses privilégios fossem discutidos corpo a corpo no competitivo mercado laboral havia que criar uma cintura de segurança que impedisse esses jovens lobos de ascender aonde o mérito os levasse. Não é por acaso que a precariedade atinge essencialmente os jovens.

As gerações que se empregaram no tempo do trabalho para toda a vida “lamentam imenso” a situação aviltante dos precários, mas não fazem nada para a alterar, pois sabem que isso significa abdicar um pouco das suas regalias, dos seus direitos adquiridos, dos seus ordenados incomparavelmente superiores. Tratam de silenciar a voz daqueles que reclamam, reduzindo ao máximo a discussão mediática do tema ou lavando as mãos do problema como Pilatos, acusando a iníqua globalização de todos os males. Não é totalmente verdade! Há claramente uma luta surda de gerações pelo rendimento do trabalho, mas com armas desiguais e objetivos diferentes – uns lutam pela manutenção de privilégios, outros aspiram a um trabalho com salário e direitos condignos.

Provavelmente vamos continuar a aprofundar este modelo de sociedade injusto, em que uns são lobos e outros cordeiros; onde uma ou duas gerações será sacrificada. Tornamo-nos demasiado egoístas e perdemos a visão periférica, onde a inteligência combinava sempre com solidariedade e humanidade.
O precário é uma espécie de clandestino laboral e social que empurramos para longe. Há-de crescer, provavelmente, na mágoa de quem o impediu de seguir os seus sonhos. A mágoa pode enrijecer caracteres e criar riqueza, mas também endurece corações que tornarão solitária e precária a nossa velhice.

Gabriel Vilas Boas