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sábado, 20 de dezembro de 2014

PERLIM - A TERRA DOS SONHOS DE NATAL



Por estes dias, a cidade do Natal é Santa Maria da Feira. Durante trinta dias, Sua Realeza, o NATAL, atribui-lhe um nome cheio de fantasia e magia – PERLIM – A QUINTA DOS SONHOS.
Passei hoje de tarde por lá, com as minhas filhas, e assaltamos em conjunto o Castelo de Cartas, fizemos escalagem, patinámos no gelo (na verdade demos valentes trambolhões), conhecemos o Pai Natal na sua própria casa, ouvimos lindas histórias de encantar, enquanto sorvíamos o perfume das doces melodias de Natal.
Entretanto escureceu, as luzes iluminaram a beleza extraordinário dum cenário de sonho e fantasia na encosta do Castelo da Feira. Impossível resistir à magia que salta das dezenas das personagens que nos saem ao caminho pelos caminhos de Perlim.


Cruzem-me com uma sossegada rena acompanhada do seu Pai Natal. Dirigiam-se para a fábrica dos brinquedos… Deixamo-los ir, pois decidimos ficar a ouvir e a vir Banzé e Chinfrim – agentes secretos de Perlim que procuravam a desaparecida Isabela.
Enquanto elas prosseguiam as suas investigações, tomamos o comboio de Perlim e fomos até ao Farol. Sempre gostei de faróis, de lá vemos a Terra dos Sonhos toda. O Ez Voador preparava-se para levantar voo, mas as fotos das fãs nunca mais o deixavam partir. Por momentos ainda pensei que era o Principezinho, mas não… era só o EZ!



Daquele farol mágico que mais parecia um gigante boneco de neve avistámos a Lapónia e a Quinta dos Animais Brancos dum lado e os moinhos doutro. Descemos para ver mais de perto, mas tivemos de parar na Doce Casa, onde o chocolate faz perder a cabeça a qualquer mortal.
O tempo passava a voar e escureceu rapidamente. Só reparei verdadeiramente nisso quando a iluminação tornou Perlim num verdadeiro conto de Natal onde tudo é mágico e belo. De repente começou a nevar! Estava perto da casa do Pai Natal e entrei. Não resisti a uma foto com aquele simpático senhor das prendas, mas tive logo de partir. Ainda ficaram muitas aventuras por viver, sítios maravilhosos por conhecer: as aventuras dos cowboys, o ateliê de Perlim, as deliciosas bolas de Perlim…




Tive de regressar à realidade, para vos contar que até 4 de janeiro o mundo encantado do natal está em Santa Maria da Feira. Passem por lá, mas levem crianças para vos guiarem. Só eles conhecem os trilhos secretos que nos transportam à pureza e ao encanto do Natal que um dia também foi só nosso e de mais ninguém.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

PAÇOS DOS CONDES E TORRE DE BARCELOS



Barcelos é a cidade onde nasci. Há algumas semanas, revisitei-a e longamente me demorei em dois monumentos, que são igualmente duas "peças" arquitetónicas cheias de interesse e história: Paços do Conde de Barcelos e Torre de Barcelos.

Paço dos Condes de Barcelos
O Paço dos Condes de Barcelos, também conhecido como o Paço dos Condes de Bragança, é um edifício quatrocentista, em ruínas, situado em pleno centro histórico de Barcelos e rodeado por um terreiro convertido em museu arqueológico, recorta-se numa pequena elevação à saída da ponte gótica que atravessa o Cávado.
                É dotado de uma arquitetura civil particular: o paço é de construção gótico-militar, com um castelo apalaçado, que se insere bem nas soluções da Idade Média tardia, em que a arquitetura militar e a palaciana tenderam a miscigenar-se.
                A construção do paço acastelado constitui a conclusão da obra da cerca amuralhada de Barcelos, aproveitando o morro granítico frente à ponte. A forma dos desaparecidos telhados, altos e agudos com declive acentuado e cobertos por talhões grandes, inspirou-se em modelos do Norte da Europa.



                Mais tarde, no início do XV, o 8.º conde de Barcelos, D. Afonso, filho bastardo de D. João I, fez construir a cerca defensiva da vila. Em 1415, quando da expedição a Ceuta, o conde trouxe muitos despojos para servirem na obra do seu paço em Barcelos.
                Em finais do século, em 1419, tendo D. João II confiscado os bens e senhorios dos condes de Barcelos, doou o paço para a residência de Francisco de Mendanha, alcaide-mor e capitão-fronteiro de Barcelos.
                No começo do século XVII, no Tombo dos Bens da Casa de Bragança, descreveram-se os Paços de Barcelos já arruinados. Em 1874, o conjunto foi doado pelo Rei D. Carlos à Câmara de Barcelos, para ser restaurado e se lhe dar utilidade.   

Torre de Barcelos
            Deve-se ao 8º conde de Barcelos (e primeiro duque de Bragança), D. Afonso, a construção das muralhas da vila, de que restam alguns elementos, nomeadamente troços de muros e de alicerces e, sobretudo, a Torre de Cimo de Vila. Erguida nos começos do século XV, passou, pouco mais de 200 anos após, a ser conhecida por Torre da Porta Nova, porque o soberano da época, D. João IV, mandou alargar o Postigo de Cimo de Vila e aí abriu essa ampla porta, da qual seguiam os caminhos para Viana e Ponte de Lima.
                A torre, grossa, de quase dois metros e meio, foi inicialmente construída em U, ou seja, fechada apenas em três lados, concluindo com uma estrutura de madeira. Daí a espessura das paredes, mais tarde totalmente petrificadas. É rasgada por algumas janelas e coroada por ameias.
                Nos finais do século XVI converteu-se em cadeia da comarca, devido à exiguidade da municipal (do Tronco), e assim lhe surgiu mais um nome: Torre da Cadeia.
                A Torre é de quatro pisos, funcionando no térreo um centro de artesanato. Nos pisos superiores, encontram-se o espólio do histórico Castelo de Faria, reunido após aturados estudos e recolhas por um grupo de amigos (Grupo Alcaides de Faria), de que ressalta a coleção de numistática, e um pequeno conjunto de armas de fogo dos séculos XVIII e XIX.
                Além da torre, existiram mais duas poderosas estruturas do género: a Torre da Ponte, adossada aos Paços dos Duques, e a Porta da Vala (ou do Vale), na saída da cidade para noroeste. As pequenas aberturas eram cinco, a saber: Postigo do Pessegal, que dava para a barbacã; o Postigo dos Pelames, na rua do mesmo nome; o Postigo da Ferraria, virada para a Viela de Trás do Muro; o Postigo do Fundo da Vila e ainda o Postigo das Vigandeiras.

                Toda a muralha ainda existia em 1758, segundo a informação de um autor da época. Só depois os muros foram sendo apeados e convertidos em edifícios.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A LIBERDADE GUIANDO O POVO, de Eugène Delacroix




Tal como um ser vivo, o Museu do Louvre, em Paris, revelou, ao longo dos séculos um crescimento progressivo e gradual. As suas coleções continuam a expandir-se de modo constante. O que lá podemos encontrar é o resultado dos gostos, das escolhas e das circunstâncias ligadas às ações dos reis e governantes franceses bem como dos seus artistas.
Grande parte das obras primas que se encontram hoje no Louvre faziam parte das coleções particulares dos reis de França, mas só a partir de Luís XV, o Louvre começou a ser pensado como a “casa das Musas”, ou seja, o lugar onde sistematicamente eram guardadas as grandes obras-primas das coleções francesas com o objetivo de serem exibidas ao público. 
Atualmente o museu mais conhecido de França têm à sua guarda 30.000 objetos distribuídos por sete coleções, visitadas anualmente por cinco milhões de pessoas. O espólio está repartido pelas seguintes secções: artes decorativas, antiguidades egípcias, gregas, etruscas e romanas, pintura francesa, italiana, espanhola e desenhos italianos.
Se nos retivermos na pintura, é fácil entender que o quadro mais famoso do Louvre é a “Gioconda” (1503-1506) de Leonardo da Vinci, a que este blogue já fez referência.




Por isso, hoje proponho um olhar mais atento para “A Liberdade Guiando o Povo” (1830), de Eugène Delacroix. 
Quando, em 1831 foi apresentado no Salon, “A Liberdade Guiando o Povo” teve uma clamorosa receção: a crítica mostrou-se escandalizada pela audácia com que o pintor tratara o tema e pela violência dos sentimentos que exprimia. Porém, as contestações em nada afetaram Delacroix, que ao invés, ficou orgulhoso e satisfeito por ter realizado uma obra que enaltecia os valores da pátria. 
“A Liberdade Guiando o Povo” constitui um ponto de viragem para a pintura europeia, elevando-se a solene manifesto das exigências espirituais duma nova geração de pintores, que, imbuídos da cultura romântica, viveram apaixonadamente o seu tempo e souberam expressá-lo através da arte, pondo de lado os temas tradicionais da “pintura de história”, inspirados na Antiguidade ou, pelo menos, num passado remoto.




Olhando tecnicamente para o quadro, observamos que o lugar de destaque vai obviamente para a Liberdade, representada como uma deusa clássica, sinónimo de virtude e eternidade. No entanto, os seus traços robustos são comuns ao povo francês. Empunha uma arma moderna – um mosquete. Os cadáveres são membros da guarda de elite do rei. O realismo dos cadáveres é inspirado em obras de Antoine-Jean Gros, que Delacroix admirava.


Um fator que torna a obra complexa e ambígua é a presença dum cadáver desnudado, um homem desprovido da sua dignidade. As roupas foram roubadas, pois outras personagens do quadro apresentam-se com objetos roubados dos cadáveres. Daí se conclui que mesmo entre aqueles que lutam pela liberdade, há atitudes censuráveis. Delacroix não se esforça por dignificar aquilo que lhe parece indigno.

É forçoso repararmos nas bandeiras. No quadro temos duas bandeiras, uma empunhada pela liberdade e outra sobre a Catedral de Notre Dame. A bandeira tricolor foi utilizada na Revolução Francesa de 1789 e nas guerras de Napoleão. Após a derrota deste em Waterloo, a bandeira não foi mais utilizada. O regresso deste símbolo é carregado de emoção, como se o povo reconquistasse o seu orgulho.

Em resumo, temos uma composição clássica, piramidal, em que a liberdade ocupa o vértice da pirâmide. O mosquete com baioneta que a liberdade empunha cria uma linha paralela com a arma segurada pela criança. No restante do quadro, várias linhas diagonais trazem dinamismo à composição. Além dos elementos pintados, ganham especial relevo neste quadro as cores e o jogo de luzes.
As cores vivas da bandeira auxiliam o destaque dado à mulher que simboliza a liberdade. Nota-se que o vermelho da bandeira está sobre o céu azul, o que o salienta ainda mais. As cores repetem-se nas roupas do trabalhador aos pés da liberdade. As vestes da liberdade são pintadas num tom mais claro do que aqueles encontrados no restante da pintura, facilitando o sentido da leitura.
Quanto à luz, é de realçar o forte contraste de luz e sombra que confere maior dramaticidade à cena. Na paisagem, a luz do entardecer mistura-se com a fumaceira dos canhões, dissolvendo-se num brilho marcante.

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

SIMÓN BOLÍVAR




Se há homem marcante na História da América do Sul, esse homem é Simón Bolívar. O grande libertador dos povos venezuelano, colombiano, peruano, boliviano e equatoriano foi um homem de baixa estatura, determinado, audaz, democrata, romântico e totalmente apaixonado pela liberdade.

Morreria tuberculoso, pobre, longe da pátria, incompreendido pelos fiéis de muitas batalhas, mas completamente convicto que realizou o sonho de muitos milhares e especialmente o seu: libertar a sua gente do domínio espanhol. Conseguiu-o porque era um general bravíssimo, um estratega raro, mas sobretudo um homem determinado que amava a liberdade e o seu povo.




Ficou órfão ainda não tinha feito dez anos, mas isso talvez lhe tenho enrijado o carácter. Estudou em Espanha, admirou Napoleão, mas procurou imitar George Washington, quando chegou a hora de procurar uma ideia de governo para os países que libertou do jugo castelhano. 

Simón Bolívar existiu pouco tempo, mas viveu muito. Quando os reis portugueses fugiam para o Brasil com medo dos generais de Napoleão, Simón dava o primeiro sinal, aos espanhóis, dos seus intentos. Demorou alguns anos até escorraçar o carrasco castelhano, mas em 1919 a Venezuela pode respirar definitivamente o doce perfume da liberdade. Em cinco anos, “El Libertador” triunfou na Colômbia, no Perú, no Equador, enviando os espanhóis de regresso a casa em seus galeões. 




Por volta de 1825, o seu poder e reconhecimento estavam no máximo e Símón Bolívar sonhava aplicar à América do Sul o projeto de Estados Federados com que George Washington uniu os americanos do norte. Tinha como base a República da Grande Colômbia (Venezuela, Colômbia e Equador) e esperava que outros povos se unissem ao seu projeto. Demasiado idealista, Bolívar não percebeu que os sul-americanos têm mais apetência pela independência que pela união e por isso o seu projeto foi rejeitado. Lutou até ao fim pela não dissensão dentro da Grande Colômbia, mas apenas conseguiu adiar a inevitável separação. 


A sua vida caminhava inexoravelmente para o fim. As palmas sumiam-se e os detractores alcunhavam-no de ditador, mas Simón amava a liberdade e a democracia. 
Era, na verdade, um homem ambicioso, às vezes assumia posturas de ditador; porém esteve sempre mais preocupado em preservar a democracia e assegurar o bem-estar de seu povo do que com suas ambições pessoais. O trono foi-lhe oferecido, mas ele o recusou. Presume-se que ele considerava o título de "El Libertador" maior que qualquer título real.
Não há dúvidas de que Bolívar foi o principal líder na libertação das colónias espanholas na América do Sul. 

De certa forma, Simón Bolívar foi ainda mais notável que o pai da independência norte-americana, George Washington. Diferente de Washington, Bolívar libertou qualquer escravo que encontrava durante suas batalhas e tentou abolir a escravidão em todo território por ele libertado. 
Simón Bolívar era um romântico e um idealista, com grandes ambições políticas, mas desprezava o dinheiro: entrou na política como um homem rico e faleceu muito pobre. 
A História recordará Bolívar como um dos maiores heróis na história da América do Sul.
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

COSMIC NETWORK


Ver os meus ex-alunos entrarem no maravilhoso mundo das realizações é algo que me dá uma satisfação enorme. A pouco e pouco, vão-me chegando notícias do que alguns fazem nas diferentes áreas do conhecimento, dos projetos a que dão corpo ou que simplesmente têm em mente, dos feitos e reconhecimentos que alcançam.
        Há cerca de dois meses, o meu ex-aluno Miguel Ribeiro, atual aluno da Escola Secundária de Amarante, falou-me entusiasmado dum projeto sobre Planetologia que estava prestes a lançar juntamente com mais quatro colegas de turma. Fiquei contente por ele e procurei reforçar a sua confiança no sucesso da empresa.
            Dois meses depois, o Miguel, a Teresa, A Helena, a Mariana e o Nuno produziram uma página na Web muito interessante. Chama-se COSMIC NET WORK e é possível consultá-la neste endereço: http://cosmicnwork.weebly.com/

    
                       Teresa Oliveira                               Miguel Ribeiro                              Helena Teixeira
                Passo por lá de vez em quando para ver aquilo que vão produzindo, sob orientação do professor Alberto Moura, que ensina Biologia e Geologia. O site é despretensioso, mas suficientemente atrativo para todos aqueles que se interessam pelo cosmos. A vida dos diferentes planetas, curiosidades científicas e, sobretudo, notícias sobre a ciência em geral e a planetologia, em particular.
                 Acho muito interessante a secção dos vídeos, pois vivemos num mundo de imagem que comunica muito melhor que as palavras. A página ainda disponibiliza um número reduzido de vídeos, mas com o decorrer do projeto eles aparecerão com mais frequência.
             A secção das Notícias é muito mais generosa e ativa. Nela podemos encontrar informação muito atual sobre o que de mais significativo se publica no mundo da ciência.
               Acho que este projeto não pode nem deve ser visto apenas como um projeto escolar, pois os seus objetivos são bem mais amplos: interessar o maior número de pessoas possível pelo fantástico mundo dos planetas.

 
  Mariana Oliveira                     Nuno Correia
            Apesar de ser gente jovem e inexperiente a fazê-lo, nota-se trabalho e evolução qualitativa. As visitas que possamos fazer ao COSMIC NET WORK, as críticas, os comentários, as sugestões que por lá deixarmos são a “melhor gasolina” para um motor em desenvolvimento.
               Estes jovens querem-nos acordar para a ciência e para os mistérios do cosmos a partir duma sala de aula. Deixemos que o seu despertador toque e desperte a nossa curiosidade adormecida.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

AO SOM DE... MARIZA


É comum dizer-se que o Fado expressa a alma portuguesa. Esta ideia ganha verdade e luminosidade quando ouvimos Mariza.
A sua voz, potente e límpida, encanta os sentidos e, sobretudo, descontrola as emoções. Mariza tem, na voz, doçura da alma lusitana. Quando ouço aquele arranque potente, fulminante, comovedor de “Ó gente da minha Terra, só agora é que percebi…” é difícil suster as lágrimas que nos invadem por completo, vindas não sei de onde, e nos convocam ao mais profundo sentimento português.
Recordo esse fabuloso concerto junto à Torre de Belém, com o público num silêncio arrepiante de quem moía aquele sentimento que brotava das guitarras, da letra e, especialmente, da voz de Mariza.
Mariza tem o dom de tornar letras muito boas em poesia única e irrepetível porque a sua voz tem o comando dum general, a doçura duma Mãe e a beleza duma Mulher.


Muitas vezes somos apanhados desprevenidos por esta maravilhosa cantora. Foi o que me aconteceu hoje, enquanto lia despreocupadamente o jornal, a meio da tarde, junto à lareira dum salão de chá, quando o silêncio foi derrubado pela sua voz inconfundível:
“Que a vida tem pressa
Que tudo aconteça
Sem que a gente peça
EU SEI

Eu sei que o Tempo não pára
Que tempo é coisa rara”

E toda aquela letra parece feita à medida da história pessoal de cada um de nós.

“Não sei se andei depressa demais
Mas sei que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo
Que me dê mais tempo
Para olhar para Ti!
De agora em diante
Não serei distante
Eu vou estar aqui!”

Mariza costuma dedicar ao filho este lindo poema de Miguel Gameiro, mas cada um pode adaptá-lo com facilidade à sua realidade e à sua idade que a música não perde atualidade, verdade ou emoção.
Mariza torna certas letras e algumas canções algo para além da estética. Fá-las pedaços de nós: recordações suaves, frustrações nunca ditas, amores por viver, amizades interrompidas, saudades de objetos, lugares e pessoas.
Ouvir Mariza pode fazer mal ao coração, mas enche a alma de tantas recordações que saltam do baú da memória, num turbilhão de emoções que nunca conseguimos controlar.

Gabriel Vilas Boas


domingo, 14 de dezembro de 2014

MIL VIDAS TEM S. GONÇALO, de Antero de Alda


Há poucas semanas, Antero de Alda publicou MIL VIDAS TEM S. GONÇALO, um livro de fotografias e texto, dedicado ao santo padroeiro de Amarante.
Trata-se de mais um trabalho de extrema qualidade do fotógrafo e poeta visual Antero de Alda sobre S. Gonçalo, Amarante e as pessoas da cidade de Teixeira de Pascoaes e Amadeo.
Usando primordialmente a imagem, Antero de Alda permite ao leitor perceber a história do santo casamenteiro das velhas e a sua importância na sociedade amarantina. As fotos, de extrema qualidade e sensibilidade, “explicam” como S. Gonçalo preenche o quotidiano social, afetivo, cultural e até económico da vida dos amarantinos. O profano e o religioso misturam-se e complementam-se sob o olhar da objetiva do artista.“Mil vidas tem S. Gonçalo” é um livro de Imagem e de imagens, onde a ligação do santo às pessoas e às suas vidas é mostrada e demonstrada.



Antero de Alda gosta de fotografar os velhos e fá-lo como ninguém. Capta-lhes a expressão serena, triste, por vezes, vazia e cansada. Fotografa também as crianças na procissão de S. Gonçalo. Só que aqui o objetivo é outro. A ligação das pessoas de Amarante começa desde cedo, quase que dum modo inconsciente, participando na procissão e nas festas do Junho que têm o santo como referência.
Antero de Alda fotografa memórias prestes a apagarem-se, fotografa gente silenciosa, anota o último depoimento duma geração que cresceu e viveu em volta da Igreja. Não é por acaso de vemos gente com sessenta, setenta e oitenta anos exibirem com natural orgulho a imagem de S. Gonçalo que guardam em casa como uma relíquia pessoal.



Mas não são apenas imagens. Há palavras do próprio autor que resumem bem este sentimento de muitos amarantinos ao longo das últimas décadas:
“Eis um ritual de domingo: a missa com a filarmónica pela manhã e, ao meio da tarde, o cortejo de oferendas na Senhora do Vau em Gatão (o doce rufar dos bombos de Jazente entre urzes e lírios de Pascoaes), o regresso a S. Gonçalo, as montras da doçaria Mário, as fotografias do Eduardo e os livros do Patrício na padaria do Pardal, a passagem pela ponte velha até ao Arquinho, a Casa da Calçada, os tocadores de concertina e a cantadeira do Grupo Folclórico de Vila Chã do Marão no parque ribeirinho, os sequilhos da Tinoca e o nome da Lai-Lai ainda gravado a metal na calçada da 31 de janeiro (o Cuvelo!), o António Pedro do “flor do Tâmega”, o Júlio do Avião e as violas amarantinas na tasca do Adérito, a volta pela ponte nova, o museu do Amadeo e outra vez Pascoaes, na sua estátua de bronze sobre pedra de Guimarães, os doces fálicos do santo casamenteiro e os bolos da Teixeira da dona Isaura da Conceição, os peditórios do Alfredo marinheiro e do cigano que arranha no acordeão, os passeios de cinco euros nas gaivotas do rio, as pombas da praça, a varanda dos quatro reis, o toque dos sinos da torre do mosteiro… Depois, a visita noturna à esplanada do Café Bar. Enfim, o zelo semanal de mais um postal para me reconciliar com Deus.”  
Antero de Alda


Antero da Alda é isto e muito mais. Um artista discreto, mas multifacetado e dinâmico. Poesia visual, fotografia, pintura, scriptopoemas… Muito reconhecido e admirado internacionalmente, muitos amarantinos ainda precisam de o descobrir. Este livro é uma ótima oportunidade.

Gabriel Vilas Boas