Etiquetas

segunda-feira, 16 de junho de 2014

AO SOM DE... SHAKIRA



Começou o Mundial de Futebol e para animar a festa, aí estão as músicas que mais se vão ouvir ao longo deste mês.
A canção “We are the one (Ole Ola)”, interpretada por Pitbull, Cláudia Leite e Jennifer Lopez é a música oficial da FIFA para o campeonato que se está a realizar em várias cidades brasileiras, mas há muitas mais.
A colombiana Shakira, que em 2010 cantou “Waka waka”, o tema oficial do Campeonato do Mundo de Futebol que se realizou na África do Sul, desta vez apresenta-nos uma música muito ao seu estilo, intitulada “Dare (Lalala)” que parece estar a ter mais sucesso que a canção oficial. Na versão original, o teledisco de apresentação do tema Lalala foi gravado em várias ruas de Lisboa, mas a pensar no Mundial de Futebol, Shakira gravou uma nova versão que conta com a participação do brasileiro Carlinhos Brown. Parte dos lucros arrecadados com a música serão revertidos em alimentos a distribuir por crianças, que pelo mundo fora, são privadas de comida. Shakira dedica parte do seu tempo a ações sociais, quer na Fundação “Pies Descalzos” que ela própria criou para ajudar as crianças desprotegidas da Colômbia a terem melhor educação, melhor saúde e cuidados de higiene, quer como embaixadora da UNICEF.
Aqui fica “Lalala” cantada em inglês, contando com a participação do cantor Carlinhos Brown na voz e jogadores do Barcelona como Piqué (marido de Shakira), Neymar, Messi e Fábregas no vídeo.
Leggo!


Margarida Assis 

domingo, 15 de junho de 2014

GANDHI



O sonho de Osir Richard Atenborough era transpor para filme a história do líder indiano Mahatma Gandhi. Quando esse sonho se tornou realidade, em 1982, houve logo quem apontasse inúmeros defeitos à película: excessiva simplificação de gentes e locais; inexactidão do retrato da personagem central, nomeadamente a imagem de santo que lhe é atribuída contrastando com os seus curiosos hábitos sexuais e outras marcas de carácter. No entanto, Gandhi foi eleito o melhor filme de 1982 pela  Academia de Hollywood e hoje é considerado pela maioria da crítica como uma das mais exaustivas biografias da história do cinema.
                A meio do filme, há uma cena que demonstra como Gandhi é um filme notável. No auge do seu poder e fama, Gandhi e a sua mulher de há muitos anos estão, junto a um lago, na companhia dum visitante ocidental, e repetem os seus votos de casamento, usando algo muito pessoal que retrata um aspeto da cultura indiana.
             “Tínhamos ambos 13 anos”, diz Gandhi com um sorriso tímido, revelando que o casamento tinha sido combinado pelos pais de ambos. Nunca se tinham amado nem tinham idade para se amar. Contudo, o amor cresceu com eles. Aí, o filme assume-se como um registo histórico e como um documento de uma vida.


                Este é um épico que, embora recorra a milhares de figurantes, tem uma perspetiva intimista do princípio ao fim, assumindo paralelo com filmes como Lawrence da Arábia (1962) e Doutor Jivago (1965), ambos realizados por David Lean, que em tempos projetara realizar um filme sobre Mahatma Gandhi.
                Bem Kingsley revelou-se uma escolha muito feliz para protagonista do filme, pois tomou desde início o ritmo que se pretendia para recriar a imagem do homem que libertou a Índia do jugo britânico sem recorrer à violência.
                A grandeza de Gandhi ficou bem patente nos nove Óscares que o filme arrebatou:  melhor filme, realizador, ator, fotografia, direção artística, guarda-roupa, montagem, maquilhagem e argumento original.
                Quando tiver tempo, veja ou reveja esta obra-prima do cinema do século XX porque vai valer bem a pena.
Gabriel Vilas Boas


sábado, 14 de junho de 2014

CASAS QUE MARCAM A ARQUITETURA DO SÉCULO XX (II)



Continuando o tema da semana anterior, hoje falo-vos da casa Tugendhat, que na minha opinião marca igualmente a arquitectura habitacional do século XX.
 Villa Tugendhat, de 1927-30, da autoria de Mies van der Rohe, em Brno (República Checa)
Brno, a segunda maior cidade da República Checa, abriga uma das mais admiráveis obras da arquitetura moderna, a Villa Tugendhat. Projeto de habitação do arquiteto alemão Mies van der Rohe (1886-1969), a casa foi realizada na perspectiva do racionalismo funcionalista do Movimento Moderno. Baseando-se em soluções técnicas avançadas e em materiais modernos o Movimento Moderno, o arquiteto investiu em novas conceções espaciais, favorecendo a continuidade dos espaços através do uso da planta livre e, em depurados padrões estéticos, que engrandecem assim a autenticidade da forma e da estrutura, quer no exterior quer no interior.

 

O edifício situa-se no bairro de Černá Pole, num terreno em declive de onde se avista toda a parte velha da cidade. Encomendada pelo casal Tugendhat’s, proveniente de famílias judias abastadas só é residência familiar durante oito anos, altura em que estes abandonam o país, fugindo à perseguição nazi. Entre 2010 e 2012, a casa passou por enormes obras de reconstrução e restauro, tanto a nível da estrutura com do jardim adjacente. Estes foram recuperados com a aparência original, após a conclusão da casa em 1930,onde os interiores estão equipados com réplicas exactas dos móveis originais.
A habitação, composta por três níveis, adapta-se à morfologia do terreno. No rés-do-chão (nível da rua), além do hall de entrada ficam os quartos com ligação ao terraço, aqui também se encontram a garagem e os aposentos do motorista. No alçado virado para a rua, a entrada é marcada por um grande painel de vidro, enquanto a fachada oposta é marcada pela subtração de parte do volume criando assim um terraço e abrindo a casa para o jardim.
No piso -1, estão as áreas sociais, como as salas de estar, de refeições, a biblioteca, o jardim de inverno, o terraço, a cozinha e uma área mais reservada aos empregados. Neste piso, a fachada virada a sul é rasgada na sua plenitude (todo o pé direito e a todo o comprimento), utilizando para tal o vidro e o aço.
Descendo ao nível da cave, está instalada toda a área técnica (equipamento de ar, caldeira, sala de máquinas para as janelas retrácteis, e toldos). Actualmente este piso faz parte da visita, e integra uma exposição onde estão patentes quer a vida e obra do arquiteto Mies van der Rohe, quer o estilo de vida familiar dos Tugendhat’s, até 1938. Os visitantes também podem agora desfrutar de uma livraria e de um Centro de Estudos e Documentação na Villa Tugendhat.



A casa Tugendhat é um símbolo do Movimento Moderno pelas suas formas claras, pela utilização expressiva do vidro, do aço e do betão, pela extraordinária modernidade dos seus janelões (área social), que vão do chão ao teto, pela planta livre que proporciona uma continuidade com o exterior. O edifício destaca-se também pela estrutura metálica, que proporcionou ao arquitecto a aplicação da planta livre, de paredes mais finas e das grandes aberturas. Os materiais empregues no interior da casa são sumptuosos, combinando com a estrutura de aço e vidro. Os mais evidentes são as madeiras raras tropicais e a extraordinária parede de ónix. Mies desenhou todo o mobiliário para a casa, estando algumas destas peças ainda em voga.

Teresa Beyer

A ÉTICA GOVERNAMENTAL VAI MAL DE SAÚDE



Os médicos ameaçam novamente fazer greve daqui a quatro semanas. A maioria de nós deu pouca relevância ao facto e muitos, desatentos, acharão que se trata, no fundo e mais uma vez, de questões salariais ou remuneratórias. Mas não! O problema é o código de ética que o Governo do Ministro Paulo Macedo quer impor ao médicos e outros agentes que trabalham na área da saúde.  
Sem ler ou ouvir as razões dos médicos, poderíamos pensar se tal código só poderia ter por causa os muitos presentes que os médicos recebem dos seus pacientes e que o Ministério da Saúde estava disposto a terminar com essa prática. Ainda que o assunto seja aflorado, não é o que motiva o novo código de ética que os nossos governantes querem impor à classe médica.
O ministério quer que os médicos, enfermeiros e outros agentes sejam obrigados a “guardar absoluto sigilo e reserva sobre qualquer informação que possa afetar ou colocar em causa o interesse da organização”. E acrescenta que todos os colaboradores dos organismos sob a tutela do Ministério da Saúde “devem abster-se de emitir declarações públicas, por sua iniciativa ou mediante solicitação de terceiros, nomeadamente quando possam pôr em causa a imagem do nome do serviço ou organismo, em especial fazendo uso dos meios de comunicação social”.


Dito duma forma simples: não podem falar nada que ponha em causa o bom nome do serviço onde trabalham, ainda que isso seja a mais pura das verdades. Não podem dizer que o governo os obriga a práticas médicas pouco recomendáveis porque menos onerosas, não podem esclarecer ninguém sobre condutas médicas e administrativas que achem lesivas do cidadão, não podem denunciar ordens da tutela que não respeitem os interesses nem a saúde dos utentes, etc. A lista seria extensa e cada um de nós pode imaginar a lista de proibições que os profissionais da saúde passam a estar sujeitos.

E por que faz isto o Ministério da Saúde? Se observarmos com atenção, os médicos portugueses não têm por hábito denunciar a falta de condições nos hospitais, não costumam envergonhar os serviços onde trabalham com afirmações depreciativas ou bombásticas, não “passam” aos media informações inconvenientes ou falsas, não fazem dos serviços públicos de saúde um centro de negócios. Aliás, os contactos com a comunicação social são sempre pautados pela reserva e discrição e não costuma haver duas versões do Hospital e Centro de Saúde para o mesmo facto.
O problema do Ministério da Saúde não é a falta de ética dos médicos portugueses, mas a sua ética excessiva, na ótica do governo. Para o Ministro Paulo Macedo e seus pares, era bom que os médicos assistissem sem reação nem denúncia à implementação dum conjunto de práticas médicas que baixassem o nível dos cuidados de saúde ou pusessem em causa esses mesmos cuidados. E, vinculados por esse “tão ético” código de ética, dessem a cara por medidas com as quais discordam profundamente. Mais do que amordaçados, os médicos passariam a assumir, na prática e no terreno, a desqualificação do Serviço Nacional de Saúde.
O Ministério da Saúde, ao bom estilo de qualquer regime ditatorial, diria o que o médico pode dizer e não pode dizer. É a perversão total da liberdade de expressão e da democracia. O médico português não é um desbocado, um maldizente ou um traidor. O médico português é um cidadão de pleno direito, com liberdade de opinião e com uma responsabilidade acrescida do ponto de vista social, cívico e ético, cuja prática das últimas décadas não autoriza outra tomada de posição que não seja estar do seu lado nesta luta.
É uma luta fundamental ainda que pouco publicitada pelos órgãos de comunicação social (que também são atingidos pelo código da vergonha), porque em última instância defende o direito dos utentes, a saber, que muitas vezes os médicos e enfermeiros que os atendem não fazem melhor ou diferente porque nem os deixam denunciar o que está mal.
O problema é antigo e resolve-se quase sempre da pior da maneira: quando não se gosta da mensagem o melhor é “matar” o mensageiro. É o que diz o artigo 3.º do Código de Maquiavel.
Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 12 de junho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE ANTÓNIO CARNEIRO (I)


Auto-Retrato, 1919 -
Óleo sobre tela, 55 x 45 cm, Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante



Venho da rua. Um inebriamento
De formas e de côres abalou
Um momento o meu ser, onde pousou
Numa interrogação um desalento.

No silêncio do lar as mãos ansiosas
Levanto, e cerro os olhos cismador.
Todas as sombras logo em derredor
De mim vêm alinhar-se carinhosas…

Que tens, pobre amoroso? Duvidaste?
Viste só com os olhos, e cegaste…
Vê com a alma, amigo. Põe constante

O coração nas cousas. Ama, crê!
A verdade é em ti, amigo, sê
Tu mesmo, e acha –la -às a todo o instante…
António Carneiro

A expressão modernista em Portugal conviveu sempre de muito perto com o Naturalismo português e manifestou-se em primeiro lugar com “…o sentir simbolista e expressionista… “de António Carneiro, pintor e poeta de Amarante, onde nasceu a 16 de setembro de 1872.
Dele, Eugénio de Castro afirmou que “atravessou a existência numa espécie de sonambulismo”, devido ao seu carácter reservado, em alheamento constante do mundo urbano e das multidões.
Desenvolveu um trabalho intenso numa solidão imensa de dedicação à pintura e à escrita. Os seus sonetos haveriam de ser publicados depois da sua morte com um título bem expressivo: ”Solilóquios”.
A música deleitava-o pelo que a sua presença, discreta e assídua em concertos, como aqueles organizados pelo Orfeão Portuense no Palácio de Cristal, era obrigatória. As exposições de pintura também o ocupavam, entre as quais uma, de Amadeo de Souza-Cardoso, no Salão Passos Manuel.
Mas a sua preferência pelo isolamento levariam Teixeira de Pascoaes, entre outros, a apelidá-lo de “sacro pintor” e ao seu local de trabalho “santuário”, talvez porque o seu traje preferido para pintar fosse o gabão monástico com que se auto -retratou tantas vezes.
Um grupo restrito de amigos e admiradores faziam questão de o receber e eram igualmente recebidos com honras próprias da amizade. Assim foi em casa de Júlio Brandão, no Douro, ou na casa do Belinho, da família Correia de Oliveira… mas a casa de Teixeira de Pascoaes, em Amarante, era a casa incontornável, de muitos serões, que Pascoaes descreveu de forma pormenorizada e onde se estreitou a amizade entre os dois:
“Adorava, como eu, as cartas de Cícero e as Epístolas de S. Paulo. Éramos do mesmo povo, da mesma terra e da mesma melancolia panteísta. Por isso, admirávamos ambos o pintor francês Millet. Aquela sua tela em que se ouvem as badaladas do crepúsculo! Não há retratos que falam? Falou a estátua de Moisés. Que importa que não a ouvisse Miguel Ângelo? ... Às vezes, depois do jantar, ainda à mesa, conversando, desenhava, ora a minha cara, ora, a ele mesmo,-obras-primas feitas a brincar com o lápis. Um desses desenhos é o meu melhor retrato. Que maravilha de expressão. Que delicadeza infinita no traçar das linhas. Eu não tirava os olhos das suas mãos nervosas, iluminadas! Imaterializavam-se, tornavam-se fantásticas!”

E a mais profunda das ligações:
 “E embalou-nos, no mesmo berço, esse vale do Tâmega, a sombra do Marão, a nossa ama. Como ela surge nas suas telas! E transparece nos meus poemas.”
Teixeira de Pascoaes, in “António Carneiro”

A ida do pai para o Brasil e a morte da mãe levam-no para o internato do Asilo do Barão de Nova Sintra. Em 1884, o Asilo faculta-lhe a frequência da Academia de Belas-Artes, onde termina o curso de desenho em 1890.Recebe lições de João Correia e de Marques de Oliveira e quase no final do curso, apresenta-se já em exposições. Em 1897,parte para Paris, graças a uma bolsa do Marquês de Praia e Monforte, onde trabalha no atelier do Boulevard Arago, nº 10 e frequenta a Academia Julien, onde foi discípulo de Jean Paul Laurens e de Benjamin Constant.
Conta-se que Constant, ao observar o trabalho de António Carneiro, exclamaria com alguma surpresa:
“Ce nést pas mal; c’est même três bien; on voit que vous êtes en marche. Vous n´êtes pas encore arrivé mais vous arriverez surement.”
E depois deste pequeno apontamento sobre o meu querido pintor de almas, naturalista especialíssimo, influenciado por Munch, pelos Nabis e até por Puvis de Chavannes, fecundo na temática religiosa e mística, no retrato, nas sanguíneas, belíssimo pintor de marinhas e paisagens, deixo-vos com uma paisagem de Carneiro, a aguçar curiosidades para a próxima semana. Densa, carregada de névoa, de mistério e de angústia expressiva… tal como ele.

António Carneiro, Nocturno, 1910, óleo sobre tela


 (continua)
Rosa Maria Alves da Fonseca

quarta-feira, 11 de junho de 2014

D. JOÃO III

           

Passam hoje 562 anos que D. João III faleceu, em Lisboa, vítima de acidente vascular cerebral ou apoplexia. Para trás ficavam 55 anos de vida e 36 de reinado do 15.º rei português. 


D. João III governou um dos maiores impérios do século XVI, num dos momentos mais importantes da História de Portugal. Portugal tinha territórios em quatro continentes e um império muito disperso. A D. João III era pedido que não ficasse aquém de reis tão marcantes como D. João II ou D. Manuel I. Fruto da sua personalidade assim como das circunstâncias políticas e económicas europeias e mundiais, o filho de D. Manuel I não conseguiu estar plenamente à altura do desafio. 


João III era um rei muito religioso, o que o tornou subserviente ao poder da igreja que tratou de o fazer aceitar a introdução da Inquisição em 1536, quando toda a Europa estava já dominada pelo movimento liderado por Martim Lutero. Esta ligação à ala mais conservadora e radical da Igreja Católica teve consequências sociais e económicas nefastas para o país: muitos mercadores judeus foram obrigados a abandonar Portugal e com eles levaram o dinheiro que financiava um império com muitos gastos para se dar ao luxo de dispensar a bolsa judaica. Essa fuga dos judeus obrigou a coroa a recorrer a empréstimos estrangeiros que sobrecarregaram as finanças nacionais. 

Os defensores de D. João III costumam dizer que era um homem extremamente piedoso e bondoso, mas a o contexto político e económico do século XVI na Europa, onde o Império Otomano cercava Viena e tomava Buda e a Espanha de Carlos V ganhava um poderio económico e político cada vez mais ameaçador, exigiam outro tipo de monarca, que D. João III não soube interpretar. Talvez por isso Alexandre Herculano o tenha classificado como inábil, medíocre e fanático. Talvez seja uma visão demasiado agressiva e até injusta, mas, na verdade, o avô de D. Sebastião era lento na tomada de decisões, gostava de usar a dissimulação quer no relacionamento diplomático quer com os seus súbditos, era muito cioso da sua autoridade e muito prudente.



Estas características pessoais revelaram-se na maneira absolutista e centralizadora como governou, pois em duas décadas apenas convocou as cortes três vezes (1525, 1535 e 1544). Como não era nenhum génio político, militar ou económico, nem a excessiva dependência duma Igreja repressiva lhe trazia a admiração popular e o seu reinado caracterizou-se pela estagnação. 

No entanto, há que reconhecer que as circunstâncias temporais, políticas, económicas e até pessoais foram muito difíceis. Teve de lidar com muitas crises: a financeira (no seu reinado as despesas ordinárias da Coroa incluíam tenças, moradias, benesses pias, ordenados, obras públicas, universidade, obras em Belém e em Tomar, dotes a pagar, a compra do arquipélago do Maluco, socorros às praças do Norte da África, as armadas na Índia, a defesa das costas do Brasil e África, a aquisição de trigo nos anos maus….); a ameaça protestante; o perigo turco; a concorrência francesa e inglesa no império; as crises no Estado da Índia; o peso da vizinhança demasiado forte de Carlos V; a proliferação da peste; os maus anos agrícolas, etc. A isto acresce uma história pessoal horrível: viu morrer os dez filhos de que foi pai e seis dos oito irmãos com quem conviveu. Tão mau que parece mentira.

Ainda que tenha contribuído muito para isso, o reinado de D. João III haveria de ficar marcado pela excelência cultural que produziu. O Renascimento português afirma-se de forma categórica, levando a uma renovação cultural notória. É no seu reinado que vive o grande Luís de Camões e outros grandes vultos da literatura portuguesa como Garcia de Resende, Sá de Miranda, João de Barros. Na náutica surge Pedro Nunes enquanto Garcia da Orta “nascia” para a botânica. Na arquitetura destacava-se Francisco da Holanda. 
D. João III fomentou a criação de muitas bolsas de estudo de portugueses no estrangeiro; fundou o Real Colégio das Artes e Humanidades, em Coimbra, e trouxe a Ordem dos Jesuítas para Portugal, numa decisão em que fica mais uma vez evidente a sua ligação e até submissão à Igreja Católica.
Ficou sepultado no Mosteiro dos Jerónimos.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 10 de junho de 2014

DIA DE PORTUGAL


   Camões foi o português que cantou e glorificou Portugal da maneira mais extraordinária e sublime. Através da obra literária que melhor explica ao mundo o que fomos, no passado, ele revelou todo o amor que sentia pelo seu país e pela sua pátria: PORTUGAL. Os Lusíadas são esse texto maravilhoso que narra o momento mais valioso da História de Portugal (Os Descobrimentos), sem esquecer as conquistas dos primórdios nem a confiança num futuro bem melhor do que o presente em que o grande poeta se despediu do mundo.
   Num momento de grande lucidez, o país associou o seu dia nacional ao da morte do grande poeta. Por isso hoje é DIA DE PORTUGAL e de CAMÕES. E não há honra maior que algum português possa ter. Acho que Camões a soube merecer.
   Somos hoje um povo bem diferente daquele que Camões cantou. Os nossos defeitos foram ganhando brilho enquanto as virtudes se tornaram baças. Perdemos importância no contexto mundial e europeu e isso fez uma mossa enorme no ego nacional que se recusou a ver orgulho doutro ângulo que não seja o bendito século XVI. Entretanto passaram quinhentos anos e o planeta que ajudamos a perceber que era redondo girou imenso sobre si, mudando a uma velocidade cada vez mais vertiginosa.



   Apesar de tudo a lição e o objetivo da escrita d’Os Lusíadas continuam válidos: somos grandes com coragem, determinação e trabalho. Somos relevantes quando não nos desculpamos com o tamanho ou com o número dos nossos e enfrentamos o adversário sem medo ou soberba. Somos importantes não porque queremos ser os maiores, mas apenas porque queremos ser melhores. E tal como Camões explicou na obra-prima da literatura portuguesa, herói escreve-se na primeira pessoa… do plural.
   No futebol, na política ou na economia continuamos perdidos no nevoeiro em busca do D. Sebastião da nossa perdição. A realização dum povo faz-se do esforço coletivo, da persistência e da ousadia de muitos. Camões não glorificou reis mas referiu-os; não elevou navegadores ou guerreiros, todavia destacou-os; não fez de Vasco da Gama herói, porque queria dizer aos seus contemporâneos e aos vindouros que o verdadeiro herói dum país é o seu povo.
   Talvez o nosso problema coletivo esteja nessa mentalidade pequenina de ego enorme: recusar fazer o imprescindível trabalho do herói anónimo.


Gabriel Vilas Boas