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sexta-feira, 7 de abril de 2017

PERDOAR NÃO É PARA FRACOS


Na maneira como hoje encaramos a vivência dos sentimentos, perdoar é um sinal de fraqueza, quando não de estupidez. Quem perdoa é um tonto que acredita que quem errou uma vez, não voltará a errar, mas a maioria acha isso impossível.
Essa ridicularização do perdão assenta, antes de mais, na não assunção da culpa por parte de quem erra e na facilidade com que voltará a errar. No entanto, o perdão depende muito mais da generosidade e grandeza do coração daquele que perdoa do que da contrição daquele que falhou.

Claro que o arrependimento ajuda e predispõe ao perdão, mas não é condição absolutamente necessária nem suficiente. Há quem perdoe sem exigir um pedido de desculpas como há quem não o consiga fazer por mais arrependimento que veja no outro.

O perdão é um sentimento de grande nobreza e exigência. Nunca nos diminui, mesmo que aquele a quem o concedemos não seja digno dele. Perdoar não significa esquecer, mas obriga-nos a não estar constantemente a lembrar o erro passado, pressupõe a concessão de nova oportunidade, a real vontade de deixar o outro escrever outra história, com os mesmos protagonistas.
Nem toda a gente consegue perdoar. Muitas vezes não é porque não quer, mas simplesmente porque não consegue. Há que entender e aceitar, sem disso concluirmos qualquer motivação vingativa.

Muitos referem que só quem ama muitíssimo é capaz de um ato tão corajoso e generoso como é o perdão. É provável que assim seja, mas eu prefiro acreditar que se trata «apenas» de alguém com uma alma enorme e que não deixou de acreditar na capacidade de regeneração do ser humano.
Um dos maiores pacifistas do século XX, Gandhi, certo dia disse: “O fraco não pode perdoar. O perdão é um atributo dos fortes.” Talvez, por isso, a suposta força de muitos seja apenas um sinal de fraqueza e incapacidade de ser verdadeiramente grande.

GAVB

domingo, 15 de junho de 2014

GANDHI



O sonho de Osir Richard Atenborough era transpor para filme a história do líder indiano Mahatma Gandhi. Quando esse sonho se tornou realidade, em 1982, houve logo quem apontasse inúmeros defeitos à película: excessiva simplificação de gentes e locais; inexactidão do retrato da personagem central, nomeadamente a imagem de santo que lhe é atribuída contrastando com os seus curiosos hábitos sexuais e outras marcas de carácter. No entanto, Gandhi foi eleito o melhor filme de 1982 pela  Academia de Hollywood e hoje é considerado pela maioria da crítica como uma das mais exaustivas biografias da história do cinema.
                A meio do filme, há uma cena que demonstra como Gandhi é um filme notável. No auge do seu poder e fama, Gandhi e a sua mulher de há muitos anos estão, junto a um lago, na companhia dum visitante ocidental, e repetem os seus votos de casamento, usando algo muito pessoal que retrata um aspeto da cultura indiana.
             “Tínhamos ambos 13 anos”, diz Gandhi com um sorriso tímido, revelando que o casamento tinha sido combinado pelos pais de ambos. Nunca se tinham amado nem tinham idade para se amar. Contudo, o amor cresceu com eles. Aí, o filme assume-se como um registo histórico e como um documento de uma vida.


                Este é um épico que, embora recorra a milhares de figurantes, tem uma perspetiva intimista do princípio ao fim, assumindo paralelo com filmes como Lawrence da Arábia (1962) e Doutor Jivago (1965), ambos realizados por David Lean, que em tempos projetara realizar um filme sobre Mahatma Gandhi.
                Bem Kingsley revelou-se uma escolha muito feliz para protagonista do filme, pois tomou desde início o ritmo que se pretendia para recriar a imagem do homem que libertou a Índia do jugo britânico sem recorrer à violência.
                A grandeza de Gandhi ficou bem patente nos nove Óscares que o filme arrebatou:  melhor filme, realizador, ator, fotografia, direção artística, guarda-roupa, montagem, maquilhagem e argumento original.
                Quando tiver tempo, veja ou reveja esta obra-prima do cinema do século XX porque vai valer bem a pena.
Gabriel Vilas Boas