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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A MERCANTILIZAÇÃO DOS MÉDICOS ESTÁ EM MARCHA



São bastante amargas as últimas declarações do Bastonário da Ordem dos Médicos, em fim de mandato: “Saúde 24? – Aquilo é uma Caixa Registadora”; “Aquelas 190 mil urgências que dizem que evitam são ranholas e fabrículas. (…) Essas deviam poder ser resolvidas com um telefonema para o médio ou enfermeiro de família”; “”Cada chamada efetuada por um doente para a linha Saúde 24 custa 12 euros aos Estado. É um valor superior à hora de um médico. E se o problema for resolvido custa 16 euros. Não brinquemos com coisas sérias.” “Há diretores clínico mal preparados!”.

Vai de mal a pior a vida dos médicos em Portugal. A outrora mais desejada profissão, em Portugal, vive dias difíceis, especialmente porque o quadro social, político, económico lhes faz um cerco do qual muito dificilmente sairão vencedores. Arrisco a dizer que os médicos serão o último bastião da Saúde a cair, mas cairão como caíram os enfermeiros e as farmácias.

As palavras do Bastonário da Ordem dos Médicos – José Manuel Silva – traduzem o profundo mal-estar da classe com as opções low cost e de duvidosa qualidade do Ministério da Saúde. Na minha opinião, os médicos não souberam ler corretamente os novos ventos que sopravam na área da Saúde quando milhares de enfermeiros emigraram para o Reino Unido, pois em Portugal não ganhariam nem metade do que lhes era oferecido. 
Como os salários continuavam mais ou menos iguais, os médicos não perceberam que o seu dia também chegaria. Antes, as administrações hospitalares estouraram com eles, aumentando-lhes o serviço até que ficassem exaustos. Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde foi descendo  o preço/hora a pagar aos médicos no início de carreira, de tal modo que o Bastonário já luta com as operadoras de telecomunicações por migalhas. 

As farmácias (aliadas de sempre) estão encostadas à parede com créditos que o Estado não paga e uma redução abrupta de ganhos com e generalização dos genéricos e a descida de preço dos medicamentos. O aumento de estudantes de medicina trará muitos médicos ao mercado de trabalho nos próximos anos, o que forçará uma descida do valor médio que cobram por ato médico.
Os médicos continuarão a trabalhar muito, sem a cobertura dos enfermeiros necessários, com os medicamentos no mínimo dos mínimos, com fortes restrições e pressões dos diretores clínicos e administradores hospitalares e sem qualquer compreensão social, pois, para a maioria da população, eles são os bem instalados do sistema.
Obviamente que continuará a haver muitos médicos a ganhar muitíssimo bem, mas daqui a cinco anos, a grande maioria da classe terá forte concorrência, trabalhará bem mais por menos dinheiro e verá o seu estatuto social menos brilhante.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 29 de novembro de 2016

OS MÉDICOS ESTÃO A REBENTAR DE CANSAÇO



Quem anda pelos hospitais já reparou, por certo, que muitos médicos estão no limite da exaustão. São horas e horas de consultas, urgências, operações, num ritmo frenético e desumano, onde o perigo de erro médico espreita a cada esquina.
Um estudo recente refere que dois em cada três médicos sente que atingiu o limite de saturação física e psicológica. O inquérito foi feito a cerca de 10 mil médicos e revela, igualmente, que são os médicos entre os 30 e os 45 anos que mais acusam o stress de uma profissão, onde falhar é literalmente a morte do artista.

Por que chegamos a este ponto? Fecharam-se hospitais? Não! O número de doentes que procuram os cuidados médicos aumentou exponencialmente? Não. O número de médicos diminui assustadoramente? Diminui, mas não tanto assim que justifique este estado de pré caos.

Na minha opinião, é a conjugação de pequenos fatores que ficaram do tempo da troika assim como uma fratura entre “médicos com estatuto” e “médicos sem estatuto” no hospital, que está a ditar esta perigosa situação nos hospitais portugueses.

Começo pelos pequenos "probleminhas" que ficaram do tempo da troika: os enfermeiros tiveram de se fazer à vida e foram ganhar dinheiro para o Reino Unido, deixando os hospitais descalços de pessoal essencial à manutenção dos cuidados básicos de saúde; muitos dos melhores médicos que trabalhavam no serviço nacional de saúde foram naturalmente aliciados pelos hospitais privados a mudarem-se de armas e bagagens para um serviço onde a pressão é menor, o salário é bem maior e o horário é humano. Por outro lado, a capacidade técnica, humana e tecnológica destes hospitais privados já é muito aceitável e os médicos percebem que têm boas condições de trabalho no setor privado.

Paralelamente, nos hospitais acentuou-se a diferença de estatuto entre os médicos. Os mais novos trabalham mais, em piores condições e ganham menos. Os seus direitos laborais são, por vezes, inferiores aos colegas mais velhos, por via das alterações que se fizeram nos contratos, dentro da função pública, na última década.
Fica-me a ideia que nos hospitais portugueses há claramente médicos de 1.ª e médicos de 2.ª: uns trabalham o necessário no hospital e têm estatuto suficiente para escolher um horário que lhes permita ainda exercer medicina privada; outros acumulam horas e mais horas, atendendo um público cada vez mais exigente, violento e com todo o tipo de mazelas, ganhando um salário mediano. São estes que se sujeitam a todo o tipo de ditames das direções hospitalares e já não conseguem disfarçar aquele semblante de zombie, que nem repara que à sua frente está uma pessoa física, psicológica e emocionalmente debilitada.
Não reparam, porque eles não estão muito melhor!

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 11 de maio de 2016

DIAGNÓSTICO CHAPA 5


A ordem não tem rosto, mas é clara: os médicos dos Centros de Saúde têm cinco minutos, em média, para atender cada doente. Uma consulta completa em cinco minutos! Há que perceber o historial clínico do paciente, ouvir as suas queixas, fazer-lhe perguntas, fazer um diagnóstico rigoroso, preencher um formulário informático, prescrever-lhe uma receita, explicar-lhe como, porquê e para quê são determinados remédios, assegurar-se que o doente percebeu o que se pretende assim como da importância de cumprir todas as orientações médicas.


Obviamente é impossível fazer isto em 300 segundos com a qualidade necessária que um ato médico requer. O diagnóstico médico é um ato da maior importância para a saúde, para a vida das pessoas e não pode ser feito a correr como quem despacha uma encomenda. O objetivo não é fazer muitas consultas, mas fazê-las bem-feitas.
Reparemos que isto é o tempo médio que cada utente dos Serviços de Saúde tem para ser atendido pelo seu médico de família ou alguém que faça a sua vez. Se uma pessoa consultar o seu médico de família três vezes ao ano (há muita gente que não necessita de tanto), tem direito a um quarto de hora de médico por ano. Há pausas para um café que demoram mais.

No entanto, o mais grave nem é a desumanização, a falta de consideração e respeito com que os utentes são tratados com uma medida como esta, que os põe ao nível de um embrulho nos correios; o mais grave é a desqualificação do ato médico que perde perigosamente qualidade. Como poderá um médico de família se responsabilizar por um diagnóstico assertivo quando tem de o fazer debaixo desta coação administrativa? As probabilidades de erro aumentam bastante, além de todo o stress que esta medida causa aos clínicos, enfermeiros e assistentes administrativos.

Bem sabemos que faltam médicos de família, bem sabemos que há médicos com mais de dois mil pacientes, mas o problema não se resolve desta maneira. Por muito que os problemas das pessoas que se dirigem aos Centros de Saúde possam parecer corriqueiros e repetitivos, há sempre casos complexos, que exigem ponderação, tempo, mais perguntas, até uma conferência de clínicos. Para usar mais tempo com estes casos e cumprir o diagnóstico em cinco minutos, os médicos têm, forçosamente, de retirar tempo às outras consultas que assim descem para 3/4 minutos por doente.
Nem todos os diagnósticos são “Chapa 5" nem os doentes vão à consulta sempre com as mesmas queixas. Com a saúde não podemos brincar à estatística nem devemos levar os médicos à exaustão psicológica, pois o perigo de diagnósticos errados é altíssimo.
Esta é uma ordem perigosa, que achincalha utentes e profissionais de saúde, como se estes fossem uns pastelões que arrastam consultas e aqueles uns inconscientes que recorrem aos serviços de um médico de família por tudo e por nada. Os médicos merecem mais respeito, a população merece mais consideração e quem ordenou tal orientação devia ter um pouco mais de bom senso.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 14 de junho de 2014

A ÉTICA GOVERNAMENTAL VAI MAL DE SAÚDE



Os médicos ameaçam novamente fazer greve daqui a quatro semanas. A maioria de nós deu pouca relevância ao facto e muitos, desatentos, acharão que se trata, no fundo e mais uma vez, de questões salariais ou remuneratórias. Mas não! O problema é o código de ética que o Governo do Ministro Paulo Macedo quer impor ao médicos e outros agentes que trabalham na área da saúde.  
Sem ler ou ouvir as razões dos médicos, poderíamos pensar se tal código só poderia ter por causa os muitos presentes que os médicos recebem dos seus pacientes e que o Ministério da Saúde estava disposto a terminar com essa prática. Ainda que o assunto seja aflorado, não é o que motiva o novo código de ética que os nossos governantes querem impor à classe médica.
O ministério quer que os médicos, enfermeiros e outros agentes sejam obrigados a “guardar absoluto sigilo e reserva sobre qualquer informação que possa afetar ou colocar em causa o interesse da organização”. E acrescenta que todos os colaboradores dos organismos sob a tutela do Ministério da Saúde “devem abster-se de emitir declarações públicas, por sua iniciativa ou mediante solicitação de terceiros, nomeadamente quando possam pôr em causa a imagem do nome do serviço ou organismo, em especial fazendo uso dos meios de comunicação social”.


Dito duma forma simples: não podem falar nada que ponha em causa o bom nome do serviço onde trabalham, ainda que isso seja a mais pura das verdades. Não podem dizer que o governo os obriga a práticas médicas pouco recomendáveis porque menos onerosas, não podem esclarecer ninguém sobre condutas médicas e administrativas que achem lesivas do cidadão, não podem denunciar ordens da tutela que não respeitem os interesses nem a saúde dos utentes, etc. A lista seria extensa e cada um de nós pode imaginar a lista de proibições que os profissionais da saúde passam a estar sujeitos.

E por que faz isto o Ministério da Saúde? Se observarmos com atenção, os médicos portugueses não têm por hábito denunciar a falta de condições nos hospitais, não costumam envergonhar os serviços onde trabalham com afirmações depreciativas ou bombásticas, não “passam” aos media informações inconvenientes ou falsas, não fazem dos serviços públicos de saúde um centro de negócios. Aliás, os contactos com a comunicação social são sempre pautados pela reserva e discrição e não costuma haver duas versões do Hospital e Centro de Saúde para o mesmo facto.
O problema do Ministério da Saúde não é a falta de ética dos médicos portugueses, mas a sua ética excessiva, na ótica do governo. Para o Ministro Paulo Macedo e seus pares, era bom que os médicos assistissem sem reação nem denúncia à implementação dum conjunto de práticas médicas que baixassem o nível dos cuidados de saúde ou pusessem em causa esses mesmos cuidados. E, vinculados por esse “tão ético” código de ética, dessem a cara por medidas com as quais discordam profundamente. Mais do que amordaçados, os médicos passariam a assumir, na prática e no terreno, a desqualificação do Serviço Nacional de Saúde.
O Ministério da Saúde, ao bom estilo de qualquer regime ditatorial, diria o que o médico pode dizer e não pode dizer. É a perversão total da liberdade de expressão e da democracia. O médico português não é um desbocado, um maldizente ou um traidor. O médico português é um cidadão de pleno direito, com liberdade de opinião e com uma responsabilidade acrescida do ponto de vista social, cívico e ético, cuja prática das últimas décadas não autoriza outra tomada de posição que não seja estar do seu lado nesta luta.
É uma luta fundamental ainda que pouco publicitada pelos órgãos de comunicação social (que também são atingidos pelo código da vergonha), porque em última instância defende o direito dos utentes, a saber, que muitas vezes os médicos e enfermeiros que os atendem não fazem melhor ou diferente porque nem os deixam denunciar o que está mal.
O problema é antigo e resolve-se quase sempre da pior da maneira: quando não se gosta da mensagem o melhor é “matar” o mensageiro. É o que diz o artigo 3.º do Código de Maquiavel.
Gabriel Vilas Boas