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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

INÊS DE CASTRO, A IMPRESSÃO DIGITAL DO AMOR NA HISTÓRIA


Apesar da sua irrelevância histórica, Inês de Castro é, provavelmente, a figura feminina da História de Portugal que os portugueses mais conhecem. Esse pedestal de notoriedade deve-o a Camões, que lhe dedicou, n’Os Lusíadas, um dos mais belos episódios da literatura portuguesa, fazendo, da jovem e belíssima amante do rei D. Pedro, o grande ícone do Amor e da Paixão na literatura e na história portuguesas.  
É inegável que a aia de D. Constança marcou os reinados de D. Afonso IV e de seu filho, D. Pedro, mas  foi Camões que a imortalizou, em longos versos decassilábicos, onde o êxtase poético é completamente atingido.
Não há episódio que melhor os alunos aprendem, quando estudam Os Lusíadas, não há figura histórica que melhor assinale os meados do século XIV.
Camões transformou a vilã sedutora, que enfeitiçou o príncipe herdeiro, em vítima inocente, que pagou, com a própria vida, a força cruel dum amor-paixão, que a submeteu sem piedade.


Na verdade, Inês de Castro pertence muito mais ao universo da literatura do que ao mundo da história, mas é lá que a quero colocar hoje. Passam precisamente seiscentos e sessenta anos sobre esse dia fatídico em que os carrascos reais cumpriram a ordem de D. Afonso IV e assassinaram D. Inês de Castro.
Os tempos que se seguiram provariam que aquela não era "mais uma amante" do príncipe que, por infortúnio, tinha engravidado. Inês era o amor da vida de D. Pedro. Por ela, o futuro rei se revoltaria, furioso, contra o pai; por ela, D. Pedro nunca mais casou; por ela, quis fazer, duma morta, rainha e, insano, obrigou a nobreza do reino ao beija-mão mais macabro da História de Portugal.
Se a década em que o justiceiro governou Portugal ficou psicologicamente impregnada pela sombra da morta de Inês, o final do reinado de D. Afonso IV não fugiu também a esse anátema.


Inês foi sempre a verdadeira rainha ausente de D. Pedro e duzentos anos após a sua morte, Camões tornou-a no ícone literário do amor e da paixão que inspirou poetas, dramaturgos e romancistas até aos dias de hoje.
Inês é o rodapé mais valioso da História de Portugal. É ela que nos faz olhar com outra atenção para os aqueles monótonos reinados de Afonso IV e D. Pedro, onde a primeira dinastia dava os suspiros, mas não sabia!
Inês de Castro é a quente impressão digital do Amor na aridez da História.
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ISADORA DUNCAN


A dança é a celebração da vida desde sua origem, é a manifestação dos sentidos através do corpo. Através dela desenhamos no espaço os sentimentos que nos enchem a alma e o coração.
Adoro ver uma bailarina dançar, coreografar a sua poesia feita de sensualidade, leveza e força que enche os nossos olhos duma beleza única.
A história da dança faz-se de grandes bailarinas e bailarinos que trouxeram a esta arte cénica inovação, técnica, beleza e sensualidade. Isadora Duncan é um desses casos.
Leve e etérea dançou como nenhuma outra e rompeu preconceitos na arte em que era exímia.
Vestia-se com uma túnica transparente, braços, pés e pernas nus e com um longo cabelo solto. O público admirava-a, embora nem todos tenham percebido por que é que esta bela e talentosa mulher dançava temas baseados em figuras de Boticelli.


Da sua dança libertavam-se emoções internas. Como ela costumava dizer não era o corpo que dançava mas a sua essência, a alma.
Isadora Duncan foi pioneira da dança moderna e revolucionou a dança no século XX, ao ignorar todas as técnicas do ballet clássico. Ela ousou dançar com os pés descalços usando túnicas vaporosas e utilizando cenários simples.
 Isadora inspirava-se nas figuras das dançarinas dos vasos gregos expostos no Louvre. Ela criou uma dança inspirada nos movimentos da natureza como o vento, plantas e animais. Corria pelo palco como uma bacante da mitologia grega, evocando o espírito dionisíaco. Outro ponto forte na sua dança é que Isadora utilizava músicas até então apreciadas apenas pela audição, dançando ao som de Chopin, Beethoven e Wagner.


A sua vida teve tanto de inovação artística como a sua morte de absurdo. Desapareceu num acidente em 1927, aos 50 anos, quando uma écharpe, que usava, se enrolou no volante do carro em que seguia. A dança perdeu uma das suas divas mais fascinantes que, com uma mestria estética singular, difundiu como ninguém, até então, o culto do corpo e da beleza do seu movimento.
Gabriel Vilas Boas


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

AO SOM DE... JOSÉ COELHO DOS SANTOS

2015 é o ano do centenário da morte do compositor amarantino José Coelho dos Santos. Para celebrar esta data, ir-se-ão levar a cabo uma série de iniciativas que visam dar a conhecer esta figura completamente desconhecida da maioria da população e divulgar a obra deste músico amarantino, que na sua época compôs e publicou as suas composições.
José Coelho dos Santos nasceu no dia 11 de março de 1861, em Amarante e morreu na mesma cidade a 16 de novembro de 1915. Pouco sabemos da vida do compositor, apenas que viveu e trabalhou como professor de piano na cidade do Porto, casou e teve dois filhos, que aquando da morte do compositor estavam estabelecidos no Rio de Janeiro. 

A obra que chegou até aos nossos dias pela mão de um seu sobrinho-neto, e que em breve será divulgada, no decorrer das comemorações, contempla essencialmente peças para piano, o que se justifica pelo facto de ser esse o instrumento cuja técnica José Coelho dos Santos dominava perfeitamente, a julgar pelas obras que escreveu.

Pela análise das obras que foram publicadas pelo compositor, podemos dizer que Coelho dos Santos era um músico do seu tempo, que se insere no romantismo que dominou o século XIX europeu. Algumas das suas composições foram escritas para piano e canto, musicando belíssimos poemas de Júlio Sinde e Oliveira Passos. O seu inegável romantismo manifesta-se nos contrastes, no uso de diferentes tonalidades ao longo da música, expressando as emoções do compositor e revelando os seus sentimentos mais profundos.

Vivendo José Coelho dos Santos no Porto podemos presumir que estaria a par da vida cultural e artística da cidade, que nesta época era intensa. Foi precisamente nesta altura, finais do século XIX e primeira metade do século XX que se verificou um grande desenvolvimento do comércio musical no Porto. Surgiram estabelecimentos comerciais onde se vendiam partituras e instrumentos musicais, o que terá sido um fator decisivo para o incremento da produção e interpretação musical na cidade. No Porto apresentavam-se músicos de renome mundial tais como Ravel, Bartók, Pablo Casals e Alfred Cortot. José Coelho dos Santos, apesar de aparentemente ter sido afastado ou marginalizado pela sociedade da época, por razões que julgamos associadas às suas convicções políticas e religiosas, não terá sido alheio ao que se passava ao seu redor, na cidade onde vivia e exercia a atividade de professor de música e de piano.


Ainda não há gravações das belíssimas obras de Coelho dos Santos, mas estamos à espera do início das comemorações para darmos a conhecer neste espaço a obra deste compositor amarantino. 

Margarida Assis

domingo, 4 de janeiro de 2015

BRAILLE, OS ÓCULOS DE UM CEGO


Quase todos nós nascemos com cinco maravilhosos instrumentos que nos permitem fazer da vida uma sinfonia perfeita. Visão, tato, audição, olfato, paladar. Destes, ainda que injustificadamente, sempre achei a visão o mais importante.
Saber o que era a cor, perceber claramente as formas das pessoas e da natureza, alcançar a grandeza das realizações é um bem inestimável, incalculável de que os invisuais não conseguem desfrutar. Alguns nunca conseguiram ver, outros perderam a visão durante a vida.
Além perder a capacidade de provar e comprovar aquilo que o rodeia, o cego ficava muito limitado no seu desenvolvimento cognitivo porque perdia a oportunidade de ler. Isso alterou-se há quase duzentos anos quando um adolescente invisual inventou um sistema de células com seis pontos que permitia aos cegos lerem. Esse menino chamava-se Louis Braille e a humanidade deve-lhe gratidão eterna.



A sua necessidade, a sua persistência e engenho puseram uns óculos luminosos nos dedos de milhões de pessoas em todo o mundo. Através daquele código a treva que fechou os olhos e o coração de muitos desafortunados tornou-se menos agreste e eles mais independentes.
O código de braille talvez seja o mais poderoso meio de inclusão que conheço, pois devolveu alguma da independência e autoestima roubadas, permitindo que um cego aceda à maioria da informação disponível.
Louis Braille é daqueles anjos que abraçou a humanidade durante algum tempo, mas cuja ação em prol do seu semelhante ficará gravada para sempre. Regressou ao olimpo muito cedo, dois dias após ter completado 43 anos, mas a sua ação permitiu alterar radicalmente a vida dos invisuais e daqueles que interagem com eles.



Braille foi o menino que trouxe luz ao mundo da escuridão. Ele não se deixou afogar na sua dor nem no infortúnio e resolveu agir. A sua atitude é uma lição e uma fonte de inspiração para todos aqueles para quem a vida foi injusta. Como diria T. S. Eliot, “o homem que age não sofre”. Eu não seria tão perentório, mas talvez Braille tenha antecipado Albert Camus que nos deixou há precisamente cinquenta e cinco anos: “E no meio do inverno eu, finalmente, aprendi que havia, dentro de mim, um verão invencível!”

Gabriel Vilas Boas       

sábado, 3 de janeiro de 2015

BOYHOOD - MOMENTOS DE UMA VIDA


BOYHOOD é um dos melhores filmes de 2014. A completar o seu ciclo de vida nas nossas salas de cinema, sairá de cena em breve, sem que muitos de nós o tenham visto, o que é uma pena.
Fui vê-lo ontem e não defraudou em nada as minhas expectativas. São 166 minutos de que não são longos, “apenas” tocantes. O filme não nos diverte nem nos distrai, antes nos interroga sobre o que somos, como fomos construindo a nossa personalidade, neste tempo de relações interrompidas, de vidas construídas ao sabor das circunstâncias.
 
O filme trata do período da vida a que afetivamente estamos mais ligados – dos seis aos dezoito anos –, quer como protagonistas quer como co-pilotos, aos pais.


O realizador e argumentista, Richard Linklater, filmou durante doze anos (!!!) o crescimento de Mason (Ellar Contrane), um rapaz sensível e calado, que acorda para a crueldade do mundo e das relações humanos aos seis anos e acaba o filme na Universidade, depois da câmara de Linklater ter acompanhado todas as suas transformações físicas, psicológicas, afetivas e familiares.
 
A década mais marcante da vida de cada um de nós, aquela de que nos lembramos até ao mais ínfimo pormenor e onde todas as ações e intenções contam, está retratada neste filme de forma tão despretensiosa quanto brilhante.
Através dum argumento sem artifícios, que mostra a vida como ela é, Richard Linklater enaltece os pequenos momentos da vida que valem a pena, aqueles que marcam a diferença na história de cada um.
 
 
O crescimento de Mason é acompanhado em “tempo real” e durante quase três horas de película vivemos as controvérsias familiares, os casamentos instáveis dos pais, as novas escolas que lhe impunham, os tempos extraordinários e os assustadores, as espectativas e os desgostos, os dramas dos pais separados que tentaram sempre amá-lo e ampará-lo no meio de todas as suas incoerências e derrotas.
É impossível não ver ali um pouco da história afetiva e emocional da nossa geração. Reconhecemo-nos e àqueles que nos são próximos em muitos dos filme que nos magoam a alma com uma mão e nos acariciam o coração com a outra.
Se a voz dos espectadores e da crítica forem suficientemente audíveis, a noite dos óscares terá de incluir a palavra BOYHOOD.  

Gabriel Vilas Boas


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O BEBÉ DO ANO


Desde que me conheço verifico que não é só o Natal que tem as suas tradições, pois o primeiro dia de Janeiro, esse ícone do otimismo instantâneo, sorrisos e determinações resolutas, também ganhou direito às suas tradições: banho de mar em Carcavelos, aumento de preços ligeiramente acima da inflação, corrida ao bebé do ano.
Ano após ano, aquele jornal que quase todos lêem envergonhadamente reserva um lugar de destaque na primeira página para o primeiro rebento do ano. Este ano foi ligeiramente diferente… O bebé do ano é uma criança abandonada numa vala, muito perto dum colégio de freiras, em Setúbal, dentro duma cesta. A criança não teve muito tempo ao relento porque um homem a encontrou e logo chamou a polícia que tratou de a colocar no Centro Hospitalar mais próximo.
A notícia chocou-me e revoltou-me! Como é possível alguém colocar um bebé de horas no cadafalso, à espera da misericórdia da sorte? Será que aquela “pessoa” (mãe, familiar ou simplesmente amiga dos pais) não vislumbrou o sofrimento cruel que infligiria àquela criança? Entregou-a à morte e desafiou Deus a salvá-la!



Não me parece muito justo pensar que o fez em desespero absoluto, pois teve várias hipóteses para solucionar o “seu problema” doutro modo. Podia não ter assumido a gravidez que a lei e o hospital a acolheriam discretamente; podia ter tratado de encontrar alguém que temporariamente tratasse do seu bebé até que as difíceis circunstâncias da sua vida se alterassem; podia ter tocado à campainha do colégio de freiras, que acolhe crianças abandonadas há 65 anos, pedindo que lhe ficassem com a criança… Podia não ter tido aquela atitude abominável, mas teve!
Não acho que haja causas sociais que justifiquem tal acto. Se não queria ser mãe daquela criança, não era! Ser mãe é algo de maravilhoso e grandioso, que torna a mulher mais feliz e mais completa. Aceito que nem todas pensem desse modo, que muitas tenham medo, que haja quem não goste de crianças, mas não tolero que haja alguém que faça isto a um ser humano.



Será um crime que passará impune, pois a adoção acontecerá em semanas; a mãe não reclamará a criança, de que é absolutamente indigna, e o Correio da Manhã irá farejar notícias para outro lado.
Este bebé encontrará em breve uma mãe, um pai e talvez até irmãos. Ele é o meu bebé do ano. Sorrio ao imaginar o seu olhar doce e inocente e agradeço a Deus e ao destino este presente de Natal que teve de chegar atrasado.

Gabriel Vilas Boas   

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

DIA MUNDIAL DA PAZ


Nasci num país e num continente onde a paz, tal como a liberdade, é um valor pouco considerado, porque sempre o tivemos como adquirido e nunca o perdemos.
Todavia, é inquestionável que a paz é um valor essencial de qualquer sociedade. A partir dele, cada povo pode construir as suas opções de desenvolvimento e cada indivíduo define a sua evolução pessoal.
O facto de não “discutirmos” a Paz é bom e é mau. Bom porque se tornou num dogma de muitas sociedades modernas; mau porque não se discute a sua qualidade e deixou de se lutar pela sua conquista nas zonas o mundo onde ainda é uma miragem.
Eu não gosto deste conceito de paz mínima!



A paz é um valor tão extraordinário que não podemos encolher os ombros quando milhões de pessoas não a abraçam há décadas e há gerações inteiras que jamais sentiram o seu perfume.
A verdadeira paz é muito mais que a ausência de guerra. Os poetas dizem que ela mora num reino chamado “consciência” e acho que é aí que a podemos encontrar no seu estado mais puro.
Se “a nossa paz” habita um condomínio com o mesmo nome, há de ter momentos de verdadeira angústia, porque é impossível haver paz onde existe desigualdade, injustiça, discriminação, falta de oportunidades, usurpação de recursos. Não concebo uma paz dos pequeninos e dos medíocres.
Quero uma paz onde não exista estratificação por género, cor, credo, convicção, mas antes respeito pela diferença. Sei perfeitamente que é uma paz difícil de alcançar, mas não é uma ideia utópica. Algumas sociedades aproximaram-se muito deste conceito de pacifismo.



Alcançar este estádio é uma luta constante que exige muito de cada um e ainda mais dos povos. É preciso reaprender a viver, melhorar o nível de educação, saber ouvir, descer a taxa de arrogância e trabalhar muitíssimo para que muitos outros alcancem aquilo que nós nunca deixámos de ter. Talvez melhorando a qualidade da paz em que nadamos possamos criar o oásis onde outros possam ir matar a sua sede.

Gabriel Vilas Boas